O santo Rosário

O saltério de Jesus e de Maria!

A história, a devoção e os milagres obtidos com a mais poderosa devoção:

“... No ano do Senhor de 1475, ou seja, no tempo em que Carlo Duque de Borgonha assediava Nuissiano, digno castelo do Reno, vendo os cidadãos da santa cidade de Colônia que estavam caindo em grande perigo,... se precaveu... invocando os seus patronos, ou seja, os Reis (Magos),... um venerável padre devotíssimo da gloriosa Virgem Maria... padre responsável pelo convento dos freis pregadores (P. Giacomo Sprenger)... prometeu criar à gloriosa Virgem a confraria e devoção antiga do seu rosário... com a condição que a gloriosa Virgem defendesse e preservasse a cidade daqueles perigos e dos outros que ainda estavam por vir. Coisa maravilhosa... porque onde se temia um grande derrame de sangue, com a ajuda da gloriosa Virgem Maria e dos Santos, chegou uma grande esperança na futura paz”. (Do “Quodlibet” de Frei Michel de Lille, Colônia 1476; texto em vulgar de pisano do título dos primeiros dos 1500, cap. V).

À venerada memória do Papa João Paulo II, incansável mensageiro do Santo Rosário, e ao Santo Padre, Papa Benedito XVI, que celebrou a JMJ em Colônia no 530° aniversário da instituição da sua Confraria, no mesmo dia no qual, na noite de 7 de setembro de 1475, concluía a sua vida terrena em Zwolle o Apóstolo do Santo Rosário, Beato Alano da Rocha. Ele é o autor desta grande obra literária em Louvor de Maria. Esta é a primeira tradução italiana da obra para que, em situação mundial não menos angustiante, continue a mostrar para a Igreja a imensa ajuda do Santíssimo Rosário. Também para que através de si e com a ajuda da Confraria, a Nossa Senhora do Rosário interceda junto ao seu Filho Jesus, para que logo chegue a cada coração a luz de Cristo e a sua paz!

Roma, 8 de maio de 2006.

Os tradutores da obra Alberta, Annalisa, Gaspare e Rosa, Roberto

 

INTRODUÇÃO

1. Prefácio.

Em amor a Jesus Cristo, Nosso Senhor e à Virgem Maria, Rainha do Santíssimo Rosário, nós nos aventuramos na frágil barca das nossas forças para atravessar um oceano de dimensões incalculáveis, pela imensidão e profundidade. Não temos temor diante do grande público de dizer que somos simples latinistas de uma paróquia de Roma. Nós somos movidos pela comum devoção e paixão pelo Santíssimo Rosário. Depois de termos experimentado por inúmeras vezes em pessoa, quanta potência celestial e eficácia é contida na Coroa da Gloriosa Virgem Maria e o quanto seja válido pertencer à sua Confraria, humildemente pedimos perdão aos espertos e aos teólogos, se nos demonstramos inadequados em passagens mais profundas que a nossa possibilidade de tradução, sobretudo pelo embaraço de apresentar uma não muito fluente tradução italiana. De um lado se tentou respeitar o sabor original da obra, procurando manter o máximo possível a fidelidade ao texto em latim. Por outro lado foram simplificadas algumas construções de natureza muito arcaica, procurando, porém respeitar a absoluta fidelidade ao espírito do texto. O nosso trabalho se apresenta ainda como um esboço, ou melhor, como um diamante bruto. Reserva-se, com a ajuda de Deus, para uma sucessiva edição, a revisão do texto e a correção de tantas imprecisões, no tornar italiana e posteriormente portuguesa uma redação latina de máximo grau poético. Mesmo com a consciência dos nossos limites, exercitados no melhor das nossas potencialidades, hoje estamos radiantes pela alegria de dar à Igreja as obras completas do Beato Alano da Rocha na primeira versão italiana1. A edição conta com o texto em fronte fotografado na última edição latina, de Ímola do ano de 1847, as quais altos cumes dos seus conteúdos ascéticos e espirituais têm marcado profundamente a vida e a devoção de várias gerações cristãs, pelo imenso dom que Deus, mediante Maria SS., nos tem feito: a oração do Santo Rosário, o Saltério de Jesus e de Maria, dom de graça de Maria SS. a São Domingos, e, a distância de dois séculos, o Beato Alano da Rocha, com fácil acesso ao Céu, e como instrumento de impetração de todas as graças.

1 Existe só uma versão italiana do “Compendium Psalterii beatissimae Trinitatis ad laudem Domini nostri Iesu Christi et beatissimae Virginis Mariae” (Compêndio do Saltério da Beatíssima Trindade ou louvor de Nosso Senhor Jesus Cristo e da beatíssima Virgem Maria), de Frei Alano da Rocha, publicado em vulgar de Pisa no ano de 1500. Mas o Compêndio é só uma síntese das obras do Beato Alano, que mais de um século depois, no ano de 1619, que P. Andrea Coppeinstein O.P., reuniu no Alanus redivivus. Deste texto nós nos utilizamos.

Que a Nossa Senhora esteja satisfeita com nossos doces e grandes cansaços, no reapresentar a Áurea Obra do Saltério de Jesus e de Maria, ou seja, do Santíssimo Rosário. Por este motivo queremos, absoluta e perpetuamente, que não exista nenhum lucro na venda desse nosso trabalho, o qual então terá só o preço de custo da obra. Esta escolha, não é baseada em motivos filantrópicos, mas naquilo que é expressamente desejado pela Santa Virgem em relação à Sua Confraria do Rosário. Esta na estrutura é semelhante a um banco, porém, em realidade é uma caixa de economias só de orações: o membro da Confraria que reza o Rosário, o deposita no banco espiritual de Maria SS., e esse se acumulará no patrimônio comum dos Rosários de todos os Irmãos, em beneficio de todos os inscritos, vivos ou mortos. Mas para que este “instituto de crédito” se mantenha puramente “mariano”, deve ser completamente separado do dinheiro, porque as moedas aqui usadas são os Pai Nossos e as Aves da Coroa do Rosário, oferecidos a Jesus e Maria.

O Papa João Paulo II, de venerada memória, ardente apóstolo do Santíssimo Rosário, em 2003 com a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, adicionou ao Santo Rosário, sem modificar-lhe a estrutura, outros cinco mistérios2. Estes são derivantes dos cento e cinquenta “artigos” ou mistérios, que o Beato Alano tinha preparado para que a cada Ave Maria, ou Saudação Angélica, correspondesse efetivamente um mistério da vida de Cristo Jesus e de Maria. Os mistérios, porém, são como uma cláusula a ser acrescentada no final de cada Ave Maria, quando esta ainda não continha a segunda parte da oração (“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém”), mas terminava em “Filho teu Jesus”, ao qual se adicionava “Cristo”, e logo depois se ligava à cláusula do mistério3. Tais cento e cinquenta “artigos” ou mistérios, podemos hoje apreciar no final da IV seção da obra do Beato Alano. Foi precisamente no ano de 1568, que São Pio V introduziu a Saudação Angélica ou Ave Maria como temos hoje no Breviarium Romanum junto ao Pai Nosso ou Oração do Senhor, a ser rezada antes de cada hora da atividade sagrada: desde então, a segunda parte da Ave Maria tornou-se a cláusula fixa da Saudação Angélica4.

2 Trazemos quase integralmente o texto da Rosarium Virginis Mariae, no parágrafo 19, no texto português e latim: “Dos tantos mistérios da vida de Cristo, o Rosário, assim como se é consolidado na prática mais comum valorizada pela autoridade eclesiástica, indica só alguns. Tal seleção foi imposta pelo projeto original desta oração, que se foi organizando sobre o número cento e cinquenta, correspondente àquele dos Salmos. Entendo, porém que, para potenciar a espessura cristologia do Rosário, seja oportuna uma integração que, mesmo deixando à livre valorização de cada um e das comunidades, consente em abraçar também os mistérios da vida pública de Cristo, entre o Batismo e a Paixão... (Mistérios da luz). Esta integração de novos mistérios, sem prejudicar nenhum aspecto essencial da organização tradicional desta oração, é destinada a fazê-la viver com renovado interesse na espiritualidade cristã, como verdadeira introdução à profundidade do Coração de Cristo, abismo de alegria e de luz, de dor e de glória”. “Tot vitae Christi mysteriorum quaedam dumtaxat indicat Rosarium, quemadmodum compositum est in latissimo pietatis usu auctoritate ecclesiali comprobato. Electio haec imposita est pristina huius precationis forma, quae secundum numerum centesimum quinquagesimum constituta est Psalmorum videlicet numero respondentem.

Nihilominus ut christologica Rosarii substantia augeatur, consentaneam esse arbitramur aliquam perfectionem quae, libero singulorum atque communitatum iudicio relictam, eam sinat etiam mysteria publicae vitae Christi Baptismum inter et Passionem complecti... (quae sunt lucis mysteria). Haec mysteriorum novorum expletio, non detrahens ullam necessariam rem traditae huius precationis formulae, illuc potius spectat ut ea renovato studio in spiritualitate christiana vivatur tamquam vera initiatio in cordis Christi altitudinem quod est gaudii et lucis, doloris et gloriae abyssus”.

3 Assiste-se hoje, como uma moda difundida, a um Rosário intercalado de cláusulas, entre a primeira e a segunda parte da Ave Maria. Esta prática ao invés de aliviar, torna o Rosário pesado e difícil de rezar. Entendemos que a adição de uma cláusula, à cláusula, seja supérflua e danosa ao espírito da oração, que é não só meditativa, mas também contemplativa, de intercessão e de exaltação. O Rosário tem uma beleza tão divina e mariana que não é necessário nenhum melhoramento humano.

4 Aconselhamos ao estudo de ROSATI, G. L’ave Maria e i francescani, p. 117-125.

Segundo G. Rosati, a Ave Maria, assim como São Pio V a codificou nos 1568, já se encontrava igual no “libreciolecto”, ou seja, o livrinho de devoção que acompanhou o Beato Antônio de Stroncone desde a sua juventude até o momento da morte, entre o ano de 1371 e aquele de 1450. Este reencontro é uma das tantas confirmações históricas de que a Ave Maria, na versão atual, é muito precedente a São Pio V.

Comenta G. Rosati (ibidem, p. 125): “Um fato em particular suscita certa curiosidade: a Ave Maria em latim,... recebida por Pio V no Breviarium Romanum do ano de 1568, depois de tantas formulações, consta de 31 palavras (da Ave ao Amen): 15+1+15. É difícil pensar que a palavra central seja o nome Jesus. Quem codificou definitivamente esta oração quis expressar através desta também a centralidade de Jesus na devoção mariana do Povo de Deus”.

 

2. Origem e desenvolvimento do Santo Rosário, das Revelações de Nossa Senhora a São Domingos (1212), até a Bulla Consueverunt do Papa São Pio V (17/9/1569).

O Rosário, ou Saltério de Jesus e de Maria, aparece de improviso na história no ano de 1212 (se bem nunca tenham faltado, a partir dos Apóstolos, orações de intercessão à Maria SS.), quando em Toulouse, no Alto-Garona da França, Nossa Senhora apareceu diversas vezes a São Domingos de Guzmàn (1170-1221). Conta-nos o Beato Alano5, que São Domingos estava prostrado no chão, pedindo incessantemente e fazendo penitência para que ela o socorresse diante da heresia dos Albigenses. Nossa Senhora apareceu enquanto ele orava cuidadosamente à Virgem Santíssima, e, colocando-lhe sobre a cabeça uma Coroa de quinze mistérios, o ensinou sobre a potência do seu Rosário ou Saltério. Nossa Senhora disse a São Domingos: “Coragem então, pegues este Saltério e o pregues constantemente junto a mim”.6 Esta é a primeira de uma longa série de Revelações sobre o Rosário, trazidas ao longo de todo o livro do Beato Alano, por esse motivo aconselhamos a leitura da obra.

5 Cfr. parte II, cap. III, p.50 da nossa obra.

6 Cfr. parte II, cap. III, p.52 da nossa obra.

Desde então esta devoção tem marcado o curso do segundo milênio da Igreja, como veremos em alguns importantes documentos históricos literários ou de arte, entre os anos de 1300 e 1600. Nós utilizaremos para esta difícil tarefa, dois importantes textos, a magistral obra historiográfica de Padre Estefano Orlandi O.P.7, e os estudos de padre Raimondo Spiazzi8.

1) P. Raimondo Spiazzi O.P., grande historiador dominicano, falecido a pouco tempo, entre os seus muitíssimos escritos, nos deixou uma maravilhosa página sobre São Domingos, que trazemos integralmente: “Que o Padre S. Domingos foi o primeiro a criar a devoção do Rosário é opinião pacífica, que vem confirmada nas Bulas de Leão X, Pio V, Gregório XIII, Sisto V e outros Pontífices, os quais escreveram: "Rosarium almae Dei Genitricis istitutum per B. Dominicum Ord. Fratrum Praedicatorum, auctorem, Spiritu Sancto, ut creditur, afflatum excogitatum”9. Por isso não se pode duvidar. E também se confirmou a antiquíssima tradição desta forma de orar – o uso do Pai Nosso e boa parte da Ave Maria teve início no tempo dos Apóstolos. É verdade também que o modo específico de rezar a oração dominical e a Ave Maria (quinze Pai Nossos e cento e cinquenta Ave Marias) foi introduzida somente por São Domingos com a clara intenção de fazer meditar sobre os mistérios alegres, dolorosos e gloriosos. Esta forma de oração mental e verbal é muito mais nobre e digna, visto que, abraça todos os principais eventos da vida, da morte e da glória de Jesus Cristo assim como os principais mistérios da nossa fé. Não é fácil, porém, definir em que ano o Santo Patriarca tenha começado a difundir o Rosário e a realizar a sua Campanha.

7 ORLANDI S., libro del Rosario della Gloriosa Vergine Maria, Centro internazionale domenicano rosariano, Roma 1965, XVI-240.

8 SPIAZZI P. RAIMONDO, O.P., Cronache e fioretti del monastero di San Sisto all'Appia: Raccolta di studi storici, tradizioni e testi d'archivio, Roma, ESD, 1994, p. 356- 357.

9 “O Rosário da benigna Madre de Deus foi instituído através do Beato Domingos da Ordem dos Frades Pregadores; se retém que ele seja um autor inspirado pelo sopro do Espírito Santo”.

Alguns historiadores afirmam que o Patriarca pregava o Rosário e promovia a instituição, enquanto na França combatia os hereges albigenses. No ano de 1209, segundo Castiglio; no ano de 1210, segundo outros. Esta é a opinião pacífica, igual àquela presente no livro do Santíssimo Rosário de Frei André Coppenstein na Alemanha, onde foi citado pelo Beato Alano da Rocha, renovador do Rosário, o seu “De dignitate psalterii B.V.M.”. Religiosos de vida santa e digna de toda fé, e foi a mesma Virgem que lhes apareceu e que os estimulou a restabelecer a prática do Rosário. Alano da Rocha narra10 que no ano de 1200, São Domingos foi capturado, com o seu companheiro Bernardo, nas Costas da Espanha próximo a Santiago de Compostela.

10 Cfr. parte II, cap. XVII, p. 84-88 da nossa obra.

Ele ainda não tinha fundado a Ordem e ficou à mercê dos seus sequestradores por três meses, durante os quais foi colocado no remo de um barco. Nossa Senhora, mostrando descontentamento ao ultraje feito com seu dileto Domingos, desencadeou uma terrível tempestade que abalou o barco onde seu Servo era maltratado. Quando o barco estava próximo do naufrágio, São Domingos pediu aos seus carcereiros que fizessem penitência e que invocassem o nome de Jesus e Maria para obter socorro. Mas eles não se importaram e ao invés de repararem seus pecados, ainda se permitiram blasfemar, agredindo fisicamente o servo de Deus, a quem julgavam louco. Pela obstinação deles e o desprezo em relação aos conselhos do Santo, a tempestade se fez ainda mais ameaçadora. Contudo, mesmo com a desumana conduta dos piratas, as orações de São Domingos foram tão eficazes que conseguiram a piedade da Virgem Santíssima. Os piratas seriam salvos do naufrágio e poderiam até recuperar o carregamento lançado ao mar, se prometessem rezar todos os dias, cento e cinquenta Ave Marias e quinze Pai Nossos. Junto à oração eles meditariam sobre os quinze principais mistérios da vida e morte do nosso Redentor, e instituiriam uma nova Companhia de Cristo e de Maria. Arrependidos das suas atrocidades prometeram e cumpriram todas as promessas. Estes fatos foram narrados pelo beato Alano, a quem a Virgem revelou o dramático episódio da tempestade e a salvação dos piratas. Desse modo nasceu o Rosário, sendo que além de beato Alano, frei André Coppenstein no seu tratado sobre o Rosário e frei Giovanni Michele Pio na “Progênie da Ordem” enquanto outros historiadores argumentam que foi o próprio São Domingos a divulgar a devoção do Rosário na França quando afrontava os hereges albigenses. Mas as advertências de São Domingos para que os piratas e os navegantes rezassem o Rosário, constituem sempre um episódio limitado em relação à pregação que fez na França. Nesta o novo modo de pregar torna-se tão popular que logo foram vistos os frutos espirituais e prodigiosos. Foi a partir daquele tempo que os historiadores começaram a falar e a difundir a prática em todo o mundo cristão e até mesmo entre os hereges. Se deve acrescentar que pela devoção do Santo Rosário muitos retornaram ao seio da Igreja, reconhecendo erros e culpas do passado. É inexplicável o sucesso que São Domingos obtém em todos os lugares, se não se tem em consideração a promessa feita a ele pela própria Virgem, quando disse "Eam precandi formula omnes doce” 11. As vitórias tidas contra os albigenses se devem, em parte, a esta devoção.

Deve-se recordar que contra eles, por ordem do Pontífice, foi prometida uma cruzada com dez mil homens armados sob o comando do Conde Simão de Monteforte. Como se devesse combater outro Josué, marcharam contra o inimigo com armas temporais, enquanto São Domingos, como um Moisés, combatia espiritualmente orando e pregando.

11 Ensinam todos a orar desta forma.

Foi tão grande a ajuda da Virgem àqueles dez mil soldados, armados com o Rosário, que venceram o exército dos hereges, que era em milhares de homens, bem mais numerosos do que o cristão. O fato impressionou todo o mundo e se reconheceu que a vitória era devida à força do Santíssimo Rosário. Recorda-se também que São Domingos através do Rosário converteu mais de cem mil hereges, públicos pecadores e célebres meretrizes, como se lê nas obras, que tratam da sua missão. Penetrou tanto no coração e na alma dos fiéis à prática do Santo Rosário, que não somente os religiosos daquele tempo retinham lei inviolável de rezar todo dia a santa oração nas igrejas, nas celas monásticas, nas bibliotecas, nas viagens; mas até leigos, príncipes, eclesiásticos, papas, cardeais, imperadores, reis e outros nobres queriam, entre as preocupações e as angústias dos governos, entre delícias e prazeres, encontrar tempo e modo de dedicar-se à reza do Rosário. Não existia tarefa que impedisse o artesão, ao acordar pela manhã, de rezar o seu Rosário antes de sair para trabalhar. Assim que virtude, arte e santidade cresciam juntos“12 Padre Estéfano Orlandi O.P. no Libro del Rosario della Gloriosa Vergine Maria, traz muitos testemunhos sobre o Rosário, alguns dos quais relatamos porque cobrem a distância de mais de dois séculos entre São Domingos e o Beato Alano.

12 SPIAZZI P. RAIMONDO, O.P., Cronache e fioretti del monastero di San Sisto all'Appia: Raccolta di studi storici, tradizioni e testi d'archivio, Roma, ESD, 1994, p. 356- 357.

2) Em 1237, morreu aos 21 anos, Margherita d’Ypres. Ela era filha espiritual do Frei Sigeri do convento dominicano de Lille (convento fundado em 1224). A sua vida foi escrita por Frei Tomas di Cantimprè O.P., entre o outono de 1240 e o fim de 1244. Atesta-se muito claramente a devoção dela pelo Saltério mariano, do qual ela costumava rezar uma terceira parte (“quinquagenam de psalterio”), distinta das outras orações e do Saltério de Davi que todo dia lia na atividade sagrada: “Todos os dias rezava quarenta Orações do Senhor e outras quarenta Ave Maria, até mesmo ajoelhada, e após o Saltério, outras cinquenta...”13

3) Em 1243, Frei João de Mailly O.P. na sua obra “Abbreviatio in gestis et miraculis sanctorum” escreve: “Este modo de saudar a Santíssima Virgem, como comprovam os números, era praticado por muitíssimos. De fato muitas mães de família e virgens o realizam por cento e cinquenta vezes, e às saudações acrescentavam um Glória ao Pai e dizem que essas rezavam assim o Saltério da Virgem Maria, conforme o mesmo número dos Salmos”.14

4) Em 1251, Frei Tomas de Cantimpré O.P. na sua célebre obra “Bonum universale de apibus”15, narra que conheceu um jovem da região de Brabante (Flandres) que costumava rezar cotidianamente o Saltério de Maria, composto de três grupos de cinquenta Saudações Angélicas: “O que temos sobre o tríplice grupo de cinquenta orações da Saudação do Canto Angélico da Ave Maria, aconteceu no ano de 1251 da encarnação do Senhor. Naquele ano vi e conheci um bom jovem na região de Brabante (Flandres), que mesmo sendo totalmente mundano, era devoto da Santíssima Virgem Maria, e cada dia se empenhava em rezar os três grupos de cinquenta Saudações”.16

5) Nos Estatutos de 1265 da Confraria da Santíssima Virgem Maria da Abadia de Saint-Trond, se lê: “O religioso quando torna-se sacerdote, rezará ao longo dos anos um Saltério de Davi para os irmãos, as irmãs e os benfeitores desta confraria, vivos e mortos. Os leigos, irmãos e irmãs, rezarão durante o ano um Saltério da Santíssima Virgem para os vivos e um outro para os irmãos, irmãs e benfeitores mortos” 17.

6) Remonta ao ano de 1233 a fundação da Congregação de Gand, a mais antiga de Flandres, quando mulheres devotas reuniram-se junto ao Hospital da Abadia de Byloke sob a orientação dos padres dominicanos, ali presentes desde 1228. Em 1242 foi instituída a primeira Congregação independente da Abadia, no qual, segundo a regra primitiva era pedido às devotas de rezarem o Saltério de Maria. Em julho de 1277 João Sersanders pediu às devotas que recitassem nos aniversários da sua morte um “psalterium beatae Virginis Mariae”, ou seja, “um Saltério da Santíssima Virgem Maria” 18.

7) Fora do ambiente dominicano, temos o testemunho de dois escritores monges: Gautier de Coinci (morto em Soisson no ano de 1238) que narra, em poesia, a devoção das cento e cinquenta Ave da devota Eulália, e Cesário de Heisterbach (monge de 1199, morto em torno de 1240), que no “Dialogus miracolorum” 19 conhece o Saltério da Virgem dividido em três séries de cinquenta Ave Marias. Temos, além dos exemplos citados, as confrarias marianas, de Saint-Trond, de Notre-Dame, da Treille de Lille e daquela de Namur20.

13 “Cotidie quadrigentas oraciones dominicas et tociens Ave Maria dicebat et hoc cum flexionibus totidem, sed et de psalterio quinquagenam...”, cit. in MEERSSERMAN O.P., “Les Frères Precheurs et le Mouvement Dévot en Flandre au XIII siècle”. In : “Archiv. FF. Praed.”, v. XVIII (1948) p.69-130, in ORLANDI S., libro del Rosario della Gloriosa Vergine Maria, Centro internazionale domenicano rosariano, Roma 1965, XVI- 240, p. 3.

14 “Iste modus et numerus salutandi beatam Virginem teneri a plurimis consuevit.

Multae enim matronae et virgines centies et quinquagies hoc faciunt, et per singulas salutationes Gloria Patri subiungunt, et sic Psalterium beatae Mariae cantare se dicunt propter eundem numerum psalmorum”, cit. in MEERSSERMAN O.P.: “Les Congrégations de la Vierge, in “Archiv. FF. Praed.”, v. XXII, (1952) p. 44, nota 44, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 4.

15 Lib. II cap. XXIX, § 6 e 8.

16 “Quid igitur de triplici quinquagena in salutatione versus angelici Ave Maria, anno ab Incarnatione Domini M.CC. LI contigerit, referamus. Vidi et cognovi juvenem in Brabantiae partibus generosum, qui quamvis esset totaliter saeculo deditus, beatae tamen Virginis Mariae devotus, quotidie tres dictas quinquagenas in salutationibus exsolvebat”, ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 4.

17 “Clericus vero qui sacerdos fuerit, dicet singulis annis unum Psalterium Davidicum pro fratribus, sororibus et benefactoribus huius fraternitas, vivis pariter ac defunctis. Laici vero fratres et sorores dicent quolibet anno unum psalterium de beata Virgine pro vivis et unum similiter pro defunctis fratribus, sororibus et benefactoribus”, cit. in MEERSSERMAN O.P.: “Les Congrégations de la Vierge, in “Archiv. FF. Praed.”, v.

XXII, (1952) p. 42, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 5.

18 Cit.: MEERSSERMAN O.P.,“Les Frères Precheurs et le Mouvement Dévot en Flandre au XIII siècle”, in “Archiv. FF. Praed.”, v. XVIII (1948) p. 85-87, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 5-7.

19 Lib. III, cap. 24 e 37.

20 ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 95.

8) Em um quadro da escola de Guido da Siena, hoje na Pinacoteca de Siena, do fim do século XIII, é representado o Beato Andréa Gallerani, morto em 1251 e sepultado na igreja de São Domingos. O Beato é representado ajoelhado diante do Crucifixo e tem na mão direita um Paternostro com cerca de cinquenta grãos. Representado com a coroa na mão, ele se encontra também em um quadro do Vecchietta, conservado na Academia de Siena21.

9) Na cena de São Francisco em que aparece o Papa Inocêncio III, pintado por Giotto na Basílica de São Francisco em Assis, é representado um cavaleiro com capa cruzada que está rezando a sua longa coroa22.

10) O Beato Francisco Venimbeni de Fabriano morreu em 22 de abril de 1322 e o seu corpo permaneceu exposto por três dias. Dentre a multidão que vinha venerá-lo havia uma devota mulher que trazia pendurado na cintura, o seu “Rosário” ou Coroa, ou Paternostro para rezar o Saltério da Santíssima Virgem. A devota mulher colocou a extremidade do seu Rosário na mão do Beato morto, o qual, prodigiosamente, o apertou entre os dedos, impedindo-a de distanciar-se. Existem duas narrações diferentes deste fato:

a) “Enquanto jazia durante aqueles três dias no caixão, entrou uma devota para venerar o santo corpo. Como era comum, ela levantou a parte final do Rosário que tinha unido ao cordão, e o colocou sobre a mão do santo homem. Aquele o pegou e apertou com a mão, enquanto a mulher, prestando atenção ao vulto dele, orava. Quando quis ir embora, ela sentiu que algo a impedia, notou o Rosário era segurado pelo santo homem, e imediatamente gritou...” 23.

b) Da vida do Beato, escrita pelo seu sobrinho Frei Domingos: “Se apresenta uma mulher devota a Deus e ao Santo Frei Francisco; e pegando os grãos do Paternostro, ou seja, da Coroa da Santíssima Virgem, os colocou na mão do santo. A fez pela grande devoção que tinha em relação ao santo; entendendo, como é normal, que a sua Coroa, ou melhor, que os grãos da Oração do Senhor e da Coroa da Virgem em contato com o santo se teriam santificado. Pois aquela mulher, tendo cumprido o seu desejo enquanto estava para retornar as suas próprias atividades, não pode porque a corda de uma parte da Coroa era fixada à saia...”24.

21 ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 96.

22 ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 96-97.

23 “Dum jaceret illo triduo in feretro, accessit pia femina, sanctum corpus veneratura, et rosario, ut solet tactura, haerentis cingulo rosarii partem extremam elevavit, et super sancti viri manum collocavit. Cepit ille et manus strinxit, dum mulier, in vultum eius intendens, orabat; ut recedere voluit, sensit se detineri, rosario a sancto viro apprehenso, et repente clamavit”, BOLLANDISTAE, Acta SS., aprilis t.III, p. 92.

24 BOLLANDISTAE, Acta SS., aprilis t.III, p. 988: “Adest mulier Deo devota et sancti Fr. Francisci; et accipiens signa Pater noster, id est coronam beatae Virginis, posuit eam in manu sancti ex devotione quam habebat et maxime ad sanctum; putans, ut moris et mulierum, suam coronam sive signa dominicae orationis et coronae Virginis ex tactu sancti facere sancta. Praedicta vero mulier, completa devotione sua volens redire ad propria, non poterat quia cordula coronae ex una parte erat ligata in gonna...”, ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 7– 8.

11) São Vicente Ferreri (1350-1419), foi lembrado pelo Beato Alano da Rocha, como um venerador do Rosário da Virgem, sendo que em Nantes, junto às Mulheres Hospitaleiras da Grande Providência, ainda é conservado o seu Rosário. Esse é composto de cinquenta grãos de madeira, distribuído em cinco dezenas de cinco grãos mais grossos, e terminando com uma cruz. A São Vicente Ferreri vem atribuído um Elogio em vulgar catalão, intitulado “Goigs del Roser” ou seja “Exultação ao Rosário”, para a qual leitura aconselhamos o “Libro del Rosario...” de Padre Estéfano Orlandi e no qual são cantadas as sete Exultações da Santíssima Virgem: a Anunciação, a Natividade, a Adoração dos Magos, a Ressurreição, a Ascensão, o Descer do Espírito Santo, a Assunção, e no fim se convida à entrar na Confraria da Virgem Maria, na Igreja dos Frades Pregadores25.

25 “Manà Vostra Senyorìa/ als Frares Predicadors,/ que de vostra Confrarìa,/ fossen istituidors,/ i aixis ells la han fundada/ obeint vostre voler,/ dignament intitulada/ Verge i Mare del Roser./Puix mostreu vostre poder/ fent miracles cada dia:/ Preseveren, Verge Maria,/ als confratres del Roser”, cit in LEVI EZIO, “Inni e laudi d’un frate piemomtese del secolo XIV”, in “Archivio Stor. Ital.”, ser.VII, v.X, 1, 1928 (a. 86), p. 91-100, in: Orlandi S., op.cit., p. 15-17.

12) Ainda hoje se conservam alguns Rosários muito antigos como aquele junto ao Convento de Cascia entre as relíquias de Santa Rita de Cascia (1377-1447), assim como um outro exemplar no antigo Santuário de Paula, em Calábria, entre as relíquias de São Francisco de Paula (1416-1507) contemporâneo do Beato Alano. Ele foi um grande milagroso e realizou infinita graças através da sua profunda devoção ao Rosário da Virgem. São Francisco de Paula também recebeu das mãos de Maria SS. o Santo Rosário, como é representado em uma obra impressa do início do século XVI26, e como se deduz da sua vida, pelo seu contínuo rezar dos Rosários e os fabricar para dá-los ao povo. Quando em Roma encontrou o Papa Sisto IV, que queria consagrá-lo sacerdote, o Santo de Paula respondeu que queria somente poder benzer os Santos Rosários e as velas para dar aos doentes27.

13) Recordando as pedras sepulcrais mais importantes, em Florença no Pórtico da Igreja de S. Egídio junto ao Hospital de Santa Maria Nuova, está a pedra sepulcral de senhora Tessa (morta em 1317), ali representada por inteiro. A falecida tem entre as mãos cruzadas o livro da Regra do qual desce uma grande coroa do Rosário e é possível distinguir claramente as Ave Marias dos Pai Nossos28. Ainda em Florença além do Mosteiro, sobre a pedra sepulcral de senhora Lapa dos Acciaiuoli em Buondelmonti (morta em 1370), também está representada uma coroa do Rosário que a mulher tem entre as mãos levemente unidas. A Coroa se compõe de mais de cinquenta grãos, irregularmente intercalados por quatro cruzinhas29.

Provavelmente era a Coroa ou Paternostro que Santa Catarina de Sena tinha em mãos, quando arrancou desta uma pequena cruz de prata para dá-la em esmola a um pobre: “Enquanto ela pensava veio à mente uma cruz de prata de pequena medida, que segundo o costume, devia ser intercalada àqueles nós que comumente são chamados Rosário. Este Rosário então que a sacra virgem tinha entre as mãos...” 30.

Mamaqui, escrevendo antes da revolução francesa, isto é, antes que tantos testemunhos de arte fossem perdidos, pode descrever dois sepulcros que estavam na igreja dominicana de São Jácomo em Paris31.

Muito do descrito por Mamaqui tem, importância pela história do Saltério de Maria. O primeiro sepulcro é aquele de Alain de Villepierre, senhor de Tabur, onde eram representadas três figuras das quais aquela do meio tinha pendurado nas mãos uma coroa de 150 grãos, divididos em dezenas de grãos maiores. O segundo sepulcro é aquele de Umberto, que renunciando ao Delfinado em favor do Rei da França, no ano 1349 entr24 BOLLANDISTAE, Acta SS., aprilis t.III, p. 988: “Adest mulier Deo devota et sancti Fr. Francisci; et accipiens signa Pater noster, id est coronam beatae Virginis, posuit eam in manu sancti ex devotione quam habebat et maxime ad sanctum; putans, ut moris et mulierum, suam coronam sive signa dominicae orationis et coronae Virginis ex tactu sancti facere sancta. Praedicta vero mulier, completa devotione sua volens redire ad propria, non poterat quia cordula coronae ex una parte erat ligata in gonna...”, ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 7– 8.ou na Ordem de Reims em 1354. O seu sepulcro em bronze tinha no centro a sua figura, com a mitra na cabeça e o pastoral entre as mãos unidas. Aos lados estavam várias figuras de freis dominicanos, dois deles, tinham uma coroa. O Getino, na sua obra “Origen del Rosario” ilustra dois sepulcros do século XIV, um em Portugal e outro na Espanha32.

O primeiro é o sepulcro de dona Beatriz, segunda mulher do Rei João I, morta no ano 1307 e sepultada na igreja do Monastério de Toro. Do pescoço da imagem de dona Beatriz pende um grande rosário. Nos lados do sepulcro estão imagens de santos e santas da Ordem dominicana. Em Valladolid, na Espanha, no Mosteiro cistercense de Santa Maria em Real, se conserva o sepulcro de dona Maria de Molina, chamada a “Grande”, rainha de Castela e de Leon, que ali morreu em 1321, deixando escrito que queria ser sepultada com o hábito dominicano. Acima do sarcófago se vê reproduzido em alabastro a figura da rainha, sendo que do pescoço desce uma bela Coroa do Rosário33.

26 A impressão, obra de um anônimo retrata o Beatus Franciscus de Paula, e é datada entre os anos de 1513 a 1517.

27 FIORINI MOROSINI P.GIUSEPPE, Il carisma penitenziale di San Francesco di Paola e dell’Ordine dei Minimi, Storia e Spiritualità, Roma, Curia Generalizia dell’Ordine dei Minimi, 2000, p. 592-596.

28 ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 97.

29 ORLANDI S., Libro del Rosario, ibidem.

30 “Cogitanti occurrit crux quaedam argentea parvae quantitatis quae, iuxta consuetudinem, solet inseri filo inter nodulos illos qui Paternoster vulgariter appellantur, eo quod ad ipsorum numerum oratio dominicalis replicatur. Hoc igitur paternoster sacra virgo habens in manibus...”, BOLLANDISTAE, Acta Sanctae Sedis, t. II, apr. al g. 30, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 98.

31 Cf. MAMACHI THOMAS MARIA, FRANCISCUS M. POLLIDORIUS O.P., Annalium Ordinis Praedicatorum, Romae, ex typ. Palladis, 1756, t. I, p. 326-29, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 98- 99.

32 Cf. GETINO LUIS G. ALONSO O.P., Origen del Rosario y Leyendas Castellanas del siglo XIII sopre S.to Domingos de Guzman, Vergara, Tip. de « El santisimo Rosario », 1925, p. 39-40, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 99.

33 ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 99-100.

14) Gorce cuidou do estudo de um manuscrito dominicano do início do século XIV, proveniente de um Monastério de Poissy34. Fontes principais de tais manuscritos são as “Vitae Fratum” de Frei Gerardo de Frachet e o “Bonum comune de apibus” de Frei Tomás de Cantimpré, ambos dominicanos e pertencentes à primeira geração de frades posteriores à morte de Domingos.

Destes manuscritos faltam o prólogo e trinta capítulos do primeiro volume. A obra original era composta de três volumes, cada um deles dividido em 50 capítulos: esta divisão é intencional, porque segue o Rosário da Virgem, que se divide em três coroas de cinquenta Ave Maria.

O manuscrito como possuiu, hoje, começa no capítulo XXXI, com a exortação para rezar a Salve Rainha. Depois de ter realizado a oração em louvor à Maria, como remédio aos problemas do mundo, o autor afirma que na sua obra de salvação, a Virgem é ajudada pela Ordem dominicana: “a Ordem” 35.

34 Cf. GORCE MAXIME, Le Rosaire et ses antécédentes historiques d’après le manuscript 12483, fond francais de la Bibliotèque Nationale, Paris 1931, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 18-32.

35 Cf. GORCE M., ibidem, fol.11v.

Em seguida se faz uma longa explicação sobre o símbolo da Rosa, o florir virtuoso, ou seja, perfumado, do qual cada um faz bem em colocar sobre a cabeça, porque estas rosas combatem a dor, ou seja, o mal.36 Depois desta descrição, o autor trata das cinco Exultações de Maria, que assim como a rosa, tem cinco pétalas37. As cinco alegrias de Maria, porém, conforme a tradição é: a Anunciação; o Nascimento de Jesus; a Ressurreição; a Ascensão; a Assunção e a coroação de Maria38. Não só as Exultações são descritas, mas também as dores de Maria, que são as cinco dores de Jesus Cristo.39 O manuscrito narra um jovem devoto (por volta do ano 1250) que costumava rezar cento e cinquenta Ave Maria40. Na margem o autor anota Rosarius e no texto do manuscrito especifica que a devoção das cento e cinquenta Ave, se chama Saltério de Nossa Senhora. Depois continua a falar da devoção de rosas e lírios à Virgem Maria, dizendo que o cristão deve nutrir-se de Maria “mangies Maria”, “se alimentar Maria”, como também se nutre da Eucaristia, visto que Maria é a flor de Cristo41.

No segundo tomo se insiste sobre a importância da Ave, sendo Maria a estrela que guia no difícil caminho os seus devotos, peregrinos sobre a terra, protegendo-os de todos os males. Sucessivamente o Saltério de Maria é chamado de “la Paternostre-Damedieu”,42 ou seja, o Pai nosso da Senhora de Deus, e em seguida recomenda que se faça um Saltério cada dia, porque a Ave Maria é vida, e quem não a reza, está morto43.

Chega-se assim ao ponto culminante da obra, onde se afirma que o grande apóstolo de Maria foi São Domingos44. O santo, antes de morrer, teve a celeste visão dos seus filhos dominicanos, recolhidos sob o manto protetor da Virgem Maria. Após esta sublime visão São Domingos convocou os seus filhos, narrou a visão e os exortou vivamente a honrar a Celeste Senhora45.

Gorce conclui no seu estudo: “Se sabe o que quer dizer para o autor dominicano honrar Maria nossa Senhora... Este parágrafo nos informa que São Domingos teve a missão de salvar o mundo com a pregação do Rosário da Virgem, difundindo esta sua devoção florida” 46.

36 “...Pour se la vertuese rose/ Ciascun met en son chief et pose./ Met chapiau de rose en ton chief/ La douleur oste et le meschief... », cit. in GORCE M., ibidem, fol. 32r.

37 “Des V joies enlumina/ La rose à ses V barbiaux”cit. in GORCE M., ibidem, fol. 39v.

38 Cf. GORCE M., ibidem, fol. 45.

39 “Les douleurs cinq qu’eust Jhesuschrist”, cit. in GORCE M., ibidem, fol. 42.

40 “D’un jone homme que Notre Dame resuscita qui la saluoit par cent et cinquante Ave Maria”, cit. in GORCE M., ibidem, fol. 48v.

41 Cf. GORCE M., ibidem, fol. 64v.

42 Cf. GORCE M., ibidem, fol. 156.

43 “Il est mort” cit. in GORCE M., ibidem, fol. 163.

44 “Saint Dominicque fut prud’hom/.../ Te préchant: Ave Maria... », cit. in GORCE M., ibidem, fol. 238v.

45 “Les freres apele an chapitre/...Et leur conte la vision/...Mult leur admoneste et prie/ Qu’ils honneurent Dame Mariae...” in GORCE M., op. cit., fol. 238v.

46 GORCE, op. cit. p. 75, in ORLANDI S. Libro del Rosario, p. 18-32.

15) P. Raimundo Spiazzi O.P., ofereceu uma excelente descrição do Beato Alano e dos eventos sucessivos a Alano. Ele assim escreve: “Mas pela nossa fragilidade humana, com o passar do tempo a devoção esfriou a tal ponto de cair quase no esquecimento. Mas a Virgem vigiava e procurou novamente reacendê-la nos corações dos povos. E como foi o Patriarca S. Domingos o instituidor, assim quis que um dominicano voltasse a pregar à bendita fórmula de oração. Este dominicano foi o Beato Alano, mestre da Ordem. Por volta do ano 1460 o P.N. Alano se encontrava em Bretanha celebrando a Santa Missa em uma manhã, quando no momento da consagração, viu Jesus Cristo crucificado na Hóstia dizendo: ‘Alano, tornas a crucificar-me’. Confuso, o religioso respondeu: ‘Senhor, como eu poderia cometer tal maldade?’ Respondeu-lhe o senhor: ‘Tu me crucificas com os teus pecados de omissão. Tu tens sabedoria, a função sagrada e a licença de pregar o Santo Rosário e não o fazes’. O mundo é cheio de lobos e tu te fizestes um cão dócil, incapaz até de latir. Juro que se não te corrigires tornarás alimento dos pobres mortais’. Após ter dito essas palavras o fez ver as penas infernais e os tormentos, ao qual eram expostas as almas no inferno. Disse o Senhor: ‘Vistes aquelas penas?’

Aquele será o teu lugar, se demorares em pregar o meu Rosário. Vai e eu estarei contigo, assim como toda a corte do Paraíso contra aqueles que tentarem ser obstáculo’. O Beato Alano ficou muito intimidado.

Posteriormente o Beato teve uma segunda visão, que o tornou a encorajar e trouxe-lhe nova esperança. No dia da Assunção ele estava pregando, quando o Senhor o fez conhecer aquilo que queria dele. Viu a Santíssima Virgem entrar no Paraíso com o seu Filhinho e todos os espíritos angélicos inclinaram-se diante dela saudando-a com as palavras “Ave Maria”. Viu os angélicos tocarem instrumentos quase em forma de Rosário e cantarem “Ave Maria” e outro coro responder ‘Benedicta tu in mulieribus’47. Os espíritos celestes ofereciam o Rosário à Virgem em grupos de cento e cinquenta. Um deles disse ao Beato Alano: ‘Esse número é sagrado. Está presente na arca de Noé, na tenda de Moisés, no templo de Salomão, nos salmos de Davi, nos quais é representado Cristo e Maria. Com este número o Senhor gosta de ser glorificado e para que tu pregues o Rosário o Senhor quis fazer-te constatar o quanto é de seu agrado’. O advertiu posteriormente que era necessário pregar ao mundo esta devoção, porque tantos eram os males que o afligiam. Teria grande alegria todo aquele que louvasse a Deus daquele modo; enquanto que aqueles que o tivessem desprezado seriam vítimas de calamidades. Viu que os castigos ameaçados ao mundo são causados pelos três pecados capitais: luxúria, avareza e soberba. Para tais pecados o remédio era o Rosário. Viu também a Santíssima Trindade coroar Maria Imperatriz do Céu. Ela se voltou ao Beato Alano e disse: ‘Prega o que vistes e sentistes. E não temas porque eu estarei sempre contigo e com todos os devotos do meu Rosário’. Ele começou a pregar essa devoção, obtendo em todos os lugares grandes frutos espirituais. No ano de 1475 a Santíssima Virgem apareceu também ao Superior do convento de Colônia, este também fazia parte da Ordem dos Pregadores.48 A Virgem o disse que se a cidade de Colônia quisesse realmente liberar-se dos inimigos que a assediavam, era necessário pregar e difundir a prática do Rosário. Só desse modo a cidade seria salva.

47 “Bendita és tu entre as mulheres”.

48 Trata-se de Padre Jacomo Sprenger, já citado na introdução.

O culto Superior tornou público o comando da Rainha dos Anjos e depois que o povo abraçou e praticou a oração do Rosário, a cidade foi liberada. Sabia bem o Santo Pontífice Pio V, quanta força tinha o Rosário no debelar os inimigos de Deus. O ensinava a experiência e a confiança que colocava na Virgem e em São Domingos. O Rosário serviu para reprimir o orgulho do imperador Otomano, que assoberbado pelas vitórias, pretendia ter Roma em seu poder. Mas foi humilhado pelas orações do santo Pontífice e dos irmãos da Confraria do Rosário49.

49 SPIAZZI P. R., op. cit. p. 359-360.

16) São Pio V, deixou na história da Igreja um Documento de vital importância sobre o Santo Rosário, a Bula Consueverunt de 17 de setembro de 1569 50, na qual trata de São Domingos que, durante a difusão da heresia albigense, “levantando os olhos ao Céu, e àquele monte da Gloriosa Virgem Maria benigna Mãe de Deus” 51, viu “uma maneira fácil e acessível a todos, como também muito devota no orar e implorar a Deus.

O Rosário ou Saltério da Santíssima Virgem Maria, através do qual ela é venerada com a Saudação Angelical repetida cento e cinquenta vezes, segundo o número do Saltério de Davi e com a oração do Senhor intercalada em cada dezena. À esta se acrescenta algumas meditações que repercorrem toda a vida do Nosso Senhor Jesus Cristo”.52 São Pio V afirmou em relação a este modo de pregar, difundido pelos Frades de São Domingos e através da Confraria: “Os fiéis de Cristo exaltados pelas meditações e pelas orações, logo se transformaram em outros homens.

As sombras das heresias foram afastadas e manifestou-se a luz da Fé Católica”53. E foram apresentadas tantas outras possibilidades aos cristãos: “Nós também, seguindo os exemplos dos predecessores e vendo a Igreja Militante a nós confiada por Deus, que nestes últimos tempos está sendo agitada por tantas heresias e por tantas guerras, atormentada e aflita atrozmente pelos maus costumes dos homens, preocupados, mas cheios de esperança. Levantamos os olhos àquele monte, de onde provém cada ajuda, exortamos e convidamos cada fiel de Cristo a fazer a mesma coisa amavelmente no Senhor”54. Em ocasião da vitória de Lepanto no dia 7 de outubro de 1571 (era o primeiro domingo do mês), São Pio V propôs a criação da Festa do Santo Rosário, como comemoração de Santa Maria da Vitória. Em seguida Gregório XIII, no dia 1° de abril de 1573, com a Bula “Monet Apostolus”55 relança a Confraria do Rosário, e Clemente XI com um Decreto da Congregação dos ritos56, no dia 3 de outubro de 1716, universaliza a festa do Rosário prevendo a sua celebração no dia 7 de outubro.

50 BULLARIUM ORD. PRAED. Tom. V, p. 223 Anno 17 Septembris 1569.

51 “Levans in Coelum oculos, et montem illum Gloriosae Virginis Mariae Almae Dei Genitricis”, in BULLARIUM ORD. PRAED., tom. V, p. 223, anno 17 septembris 1569.

52 “Modum facilem, et omnibus pervium, ac admodum pium, orandi, et praecandi Deum, Rosarium, seu Psalterium eiusdem Beatae Mariae Virginis nuncupatum, quo eadem Beatissima Virgo Salutatione Angelica centies, et quinquagies ad numerum Davidici Psalterii repetita, et Oratione Dominica ad quamlibet Decimam cum certis meditationibus totam eiusdem Domini Nostri Iesu Christi vitam demonstrantibus, interposita, veneratur”, in Bullarium ord. praed., tom. V p. 223, anno 17 septembris 1569.

53 “Coeperunt Christifideles meditationibus accensi, his precibus inflammati in alios viros repente mutari, haeresum tenebrae remitti, et lux Catholicae Fidei aperire” , in Bullarium ord. praed., tom. V, p. 223, anno 17 septembris 1569.

54 “Nos quoque illorum praedecessorum vestigia sequentes, Militantem hanc Ecclesiam divinitus nobis commissam, his temporibus tot haeresibus agitatam, tot bellis, pravisque hominum moribus atrociter vexatam, et afflictam cernentes, lacrymabundos, sed spei plenos, oculos, in montem illum, unde omne auxilium provenit, levamus, et singulos Christifideles ad simile faciendum benigne in Domino hortamur, et monemus”, in BULLARIUM ORD. PRAED., tom. V, p. 223, anno 17 septembris 1569.

55 Cf. Acta, 2,27,96-98.

56 Cf. Acta, 2,322,775-787.

 

3. Esboços biográficos da vida e das obras do Beato Alano da Rocha.

Alano da Rocha (Alanus de Rupe, Alain de la Roche, Alain Van der Rutze, ou em flamengo Alain Van der Clip), nasceu em torno do ano 1428 em Bretanha57. Entrou ainda jovem na ordem dominicana, na diocese de Saint-Malo, onde assumiu a profissão religiosa, e em seguida se transferiu à Lille.

Estudou filosofia e teologia em São Jácomo de Paris onde, durante a festa de Pentecostes do ano de 1459, a Assembleia de dignidades eclesiásticas gerais o confiou à atividade de ensinar as “Sentenças do II ano” de Pedro Lombardo aos estudantes do curso inferior, para o ano escolar de 1460-61.* Nesse local ensinou do ano 1459 até o ano de 1464, com exceção do ano de 1460. Período em que estava em Lille, como membro da Congregação reformada da Holanda58, para tentar reconduzir os conventos à boa observação religiosa. Durante o ensinamento em Paris ele teve como discípulo Frei Michel de François de Lille, o qual, mais tarde, teria exaltado a piedade mariana do maestro, o seu zelo pela difusão do Saltério da Virgem e da homônima Confraria.59 No outono de 1461 Alano voltou ao mosteiro de Lille, no qual foi admitido no dia 2 de abril de 1462 e onde morou, exercendo a atividade de leitor e pregador até o ano de 1464.

57 Os autores modernos não têm acrescentado nada de novo à excelente biografia de QUETIF-ECHARD, I, 849-852 baseada sobre os atos da Assembléia eclesiástica geral da ordem, sobre aqueles da Congregação de Holanda e sobre os documentos do Arquivo de Lille, que hoje estão perdidos.

* Nota de tradução: o ano escolar europeu começa em setembro e estende-se até junho/julho do outro ano. Assim o ano escolar de 1460-61, começa em setembro do ano de 1460 e termina em junho/julho de 1461. Explicando assim a estadia do Beato em Lille durante o ano de 1460.

58 Na realidade foi no dia 9 de outubro de 1464, que os delegados dos mosteiros dominicanos reformados da Holanda borgognoni, se reuniram em Lille para tratar a sua constituição como “congregação” autônoma. A congregação, em seguida, foi chamada “da Holanda”, visto que a reforma começou em Rotterdam. chamada “da Holanda”, visto que a reforma começou em Rotterdam.

59 Indicamos como importante a obra do Frei MICHEL DE FRANÇOIS DE LILLE, o“Quodlibet de veritate Fraternitatis Rosarii, seu Psalterii beatae Mariae Virginis” editada em Colônia no ano de 1476, da qual trazemos uma passagem, da primeira versão em vulgar dialeto de Pisa nos primeiros anos do século XVI (parte IV n.8, in ORLANDI S., Libro del Rosario, pp. 174-175), que nos faz ver a extraordinária carga afetiva que ligava o discípulo Michel de Lille ao seu mestre, Beato Alano: “o exímio mestre em teologia Beato Alano, amante precípuo deste saltério... do qual algumas vezes mereci ser discípulo foi fervoroso no amor da gloriosa Virgem, e andando, falando, pregando teve na sua boca a Saudação Angélica, e induziu mais de mil pessoas a rezar este saltério. O Beato Alano sem dúvidas, recebe já o paraíso da gloriosa virgem”. ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 174-175.

No dia 9 de outubro de 1464 os delegados dos mosteiros reformados, reunidos em Lille, entre as decisões tomadas naquela ocasião, nomearam Alano leitor do Mosteiro de Douai. Neste mosteiro ele morou durante o ano escolar de 1464-65 e muito provavelmente permaneceu ali até que a Assembleia de dignidades eclesiásticas da Congregação da Holanda não o enderece à Gand no ano de 1468.60 Nesta época ele teve as Revelações da Virgem Maria, que o impôs a propagação do seu Saltério e da sua Confraria.61 Alano permaneceu como leitor em Gand até o dia 13 de maio de 1470, quando foi transferido para o ensinamento no estúdio dominicano de Rostock, incorporado à Universidade do Meckemburg. Nos anos de 1470-71 Alano comentou os primeiros livros das Sentenças, depois no dia 4 de setembro de 1471, como bacharel “formado”, pronunciou o seu comentário (Principium) ao terceiro livro das sentenças, no qual trata do poder da Saudação Angélica. Esse comentário de Alano chegou até nós e está exposto na parte IV do seu livro.

O opúsculo, de extrema importância para a biografia de Alano, nos transmite a sua profunda fé mariana. Entre os anos de 1470 e 1475, Alano começou a colher os primeiros frutos do seu trabalho: a Congregação reformada dos Dominicanos da Holanda concedeu à Confraria mariana de Douai a participação aos bens espirituais da mesma congregação. A assembleia das dignidades eclesiásticas de 1473 impôs aos irmãos convertidos “unum psalterium beatae Mariae virginis” (um saltério da Santíssima Virgem Maria), como oração de sufrágio, rezar para os vivos e para os mortos: foi a primeira vez que esta oração foi prescrita na Ordem Dominicana. Em Colônia no ano de 1472 foi escrito um primeiro “Tractatus de Rosario B. Mariae Virginis”, e em Frankfurt, na igreja dos dominicanos, no ano de 1474 foi construído um altar para a Confraria do Rosário.

60 Visto que não se tem notícias de Alano entre os anos de 1466 e 1468, alguém sustenta que ele tenha voltado à Bretanha para pregar.

61 “Ao narrar esta revelação, Alano confessa ter sofrido por sete anos de árido espiritual e tentações carnais. Por isso o início de tal crise moral data do ano 1457, quando ele ainda estava na Bretanha... A visão dos 1464 parece ser uma espécie de recompensa celeste pela sua fidelidade, por ter rezado todos os dias o Saltério mariano durante a crise moral que o acompanhava desde o ano de 1457. Ao menos assim entendeu Alano (...). Alano, depois explicou como a Virgem o deu de beber do seu seio, colocou no dedo o anel, feito com os seus cabelos, o encarregou de pregar o seu Saltério e de difundir a sua confraria, o ameaçando por parte de Cristo, de uma morte terrível, enquanto não tivesse cumprido a missão a ele confiada. Alano se apegará sempre a esta revelação, sem, porém, exigir que os outros sejam obrigados a acreditar nele. Mantendo em anônimo o nome do beneficiário de uma idêntica visão, ele a contou em um sermão, em Rostock, no dia de Pentecostes do ano de 1471. E, pouco depois, explicou o sentido alegórico daquela em uma carta endereçada ao certosino Jácomo de Marienehe; em maio de 1475 a narrou novamente pregando a Douai; em junho do mesmo ano, finalmente, a defendeu diante do Bispo de Tournai, para justificar-se de tê-la pregada na diocese. Parece, então, que já no ano de 1464, logo após o recebimento de tal missão, Alano tenha introduzido o Saltério mariano na confraria de Douai. Esta data marca a forte mudança na sua vida: o início, isto é, da propaganda do Saltério mariano e da sua confraria”. ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 50-51

No ano de 1475 Alano voltou à Lille onde participou da Assembleia das dignidades eclesiásticas da Congregação da Holanda, como mestre de teologia. Nessa depois de ter visitado a confraria de Douai, e de pregar por oito dias aos membros da Confraria, é levado pelos acontecimentos a compor alguns escritos decisivos para a história do Saltério-Rosário. Nesta situação ele terminara a Apologia do Saltério de Maria.62 Da pregação em Douai “chegou até nós um compêndio da obra de um membro da confraria que traz o melhor do ensinamento de Alano e talvez muitas das suas palavras: trata-se do Livre et ordonnance de la devote confraire du psaultier de la glorieuse Vierge Marie63, um escrito que não é de Alano, mas que é muito do espírito e que pode ser citado como seu”.64

62 O título exato em latim é: Apologeticus seu tractatus responsorius de Psalterio V. Mariae, ad Ferricum de Cluniaco, ep. Tornacensem, e ocupa a primeira parte da nossa obra.

63 Texto em ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 58-65. Trata-se de um texto em francês antigo com influxos flamingos, mas ainda compreensível.

64 Cf. BARILE R., Il Rosario, Salterio della Vergine”, Bologna, 1990, p. 65.

No final de junho, depois de ter entregado ao Bispo Ferrico a sua obra, visitou os seus amigos certosinos de Herine e especialmente o seu superior Lorenzo Musschesele e, antes que começasse o novo ano escolástico em Rostock, ele permaneceu alguns dias em Gand indo depois até Zwolle; ali Alano se adoentou no dia 15 de agosto, festa da Assunção de Maria SS., e morreu com 47 anos, na noite do dia 7 de setembro de 1475, véspera da festa da Natividade da Santíssima Virgem Maria.65 Ele foi sepultado na Igreja do poder da Saudação Angélica. Esse comentário de Alano chegou até nós e está exposto na parte IV do seu livro.

65 Segundo o testemunho de Frei MICHEL DE FRANÇOIS DE LILLE, contemporâneo e discípulo do Beato Alano, no “Quodlibet”, na versão em vulgar pisano dos primeiros anos do século XVI (parte IV n.8, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 175) “no ano de 1475, isto é naquele ano, aliás naquele mesmo dia que esta santa confraria foi instituída em Colônia, ou seja, no dia do nascimento da gloriosa Virgem Maria (B. Alano) deixou esta vida com grandiosa devoção.”

O opúsculo, de extrema importância para a biografia de Alano, nos transmite a sua profunda fé mariana. Entre os anos de 1470 e 1475, Alano começou a colher os primeiros frutos do seu trabalho: a Congregação reformada dos Dominicanos da Holanda concedeu à Confraria mariana de Douai a participação aos bens espirituais da mesma congregação. A assembléia das dignidades eclesiásticas de 1473 impôs aos irmãos convertidos “unum psalterium beatae Mariae virginis” (um saltério da Santíssima Virgem Maria), como oração de sufrágio, rezar para os vivos e para os mortos: foi a primeira vez que esta oração foi prescrita na Ordem Dominicana. Em Colônia no ano de 1472 foi escrito um primeiro “Tractatus de Rosario B. Mariae Virginis”, e em Frankfurt, na igreja dos dominicanos, no ano de 1474 foi construído um altar para a Confraria do Rosário Dominicano em Zwolle. Essa Igreja sofreu um incêndio poucos anos depois e foi reconstruída de forma imponente e majestosa no ano de 1511. Ela existe até hoje, mas infelizmente foi vendida a privados, desconsagrada e atualmente abriga um mercado. Parece que o sepulcro do Beato Alano ainda está sob o pavimento da ex-igreja, mas não se sabe precisamente em que ponto da Igreja. O velho mosteiro, onde se consumou a agonia e a morte do Propagador mais alto da Nossa Senhora do Rosário, é perto da igreja (onde hoje existe um restaurante).

Quando Alano morreu, ele estava de passagem em Zwolle, sendo que seu diário e os seus escritos permaneceram em Rostock, e as cartas que ele escreveu estavam com os respectivos destinatários. Os únicos escritos que tinham sido publicados eram o Principium super III Sententiarum e Apologia.

No dia 25 de maio de 1476, a Assembléia eclesiástica da Congregação da Holanda dos dominicanos de Haarlem, ordenou a todos os frades de recolher e enviar em tal ocasião os escritos de Alano. A partir da sua morte ele foi chamado de Beato. Do seu culto, que teve origem só a nível diocesano, como todos os santos antes do Concílio de Trento, não se encontra a documentação oficial, provavelmente perdida ou destruída. No ano de 1478 Adriano Van Der Meer, superior da Congregação da Holanda compilou dois opúsculos, sobre o material recolhido e deixado por Alano em Rostock: o “Instructio Psalterii” 66, em defesa da memória e da doutrina mariana de Alano, e o Compendium psalterii beatissimae Trinitatis magistri Alani” (Compêndio do Saltério da Santíssima Trindade do mestre Alano), obra editada pela primeira vez em Anvers, por volta do final de 1480, que reassume toda a doutrina de Alano, em vista de uma maior difusão do Saltério mariano e da sua Confraria universal. Por volta de 1480, alguns certosinos de Marienehe próximo a Rostock, amigos e estimadores de Alano, publicaram em Lubeck uma colheita de escritos, dentre os quais alguns tratados marianos e algumas cartas de conteúdo doutrinal e, por fim algumas confidências sobre as revelações da Santíssima Virgem, posteriores ao ano de 1463. Esta colheita teve o título: “De immensa dignitate et utilitate psalterii precelsae ac intemeratae Virginis Mariae”.

Os certosinos de Mariefred em seguida reimprimiram a edição, de Lubeck, da obra de Alano, no ano de 1498 e a segunda vez no ano de 1506 na Suécia. Foram realizadas traduções alemãs de suas obras na cidade de Augusta e de Ulma antes de 1500. Em 1629 o dominicano P. Frei João André Coppenstein, organizou todos os escritos de Alano e imprimiu em Friburgo (seguida de muitíssimas edições)67, as cinco obras (“Apologia”; “Revelationes et visiones”; “Sermones S. Dominici Alano rivelati”; “Sermones et tractaculi”; “Exempla seu miracula”) com o título: “B. Alanus redivivus, de Psalterio seu Rosario Christi et Mariae tractatus”.68 Esta edição foi a base de todas as sucessivas, inclusive aquela do ano de 1847 de Ímola, que nós preparamos para publicar de forma completa e com a tradução em italiano de toda a obra.

66 “Cod. lat. Monac. 13573 foll. 123r-142r: “Instructorium psalterii sponsi et sponsae Christi Jesu et gloriosae Virginis Mariae ». Copia anteriore al 19 aprile 1486”, in ORLANDI S., Libro del Rosario, p. 44.

67 E no ano de 1665, temos uma edição com o titulo: COPPENSTEIN JOANNES ANDREAS O.P., “Beati fr. Alani redivivi Rupensis, tractatus mirabilis de ortu et progressu Psalterii Christi et Mariae eiusque fraternitatis », Venetiis, apud Paulum Baleonium, 1665.

68 Entre as tantas edições temos também o titulo: COPPENSTEIN JOANNES ANDREAS, O.P. “De fraternitate sanctissimi Rosarii beatae Virginis, ortu, progressu, atque praecellentia, libri tres, Friburgo 1619; Heidelberg 1629.

A obra é assim subdividida: a primeira parte inicia com a Apologia, dirigida por Ferrico de Cluny, bispo de Tournai, em defesa do Santo Rosário e para justificar o sucesso das Confrarias; a segunda parte da obra é constituída pelas Revelações e Visões, que narram de forma detalhada a experiência mística do Beato Alano. Experiência que ele já tinha apresentado de forma sucinta na Apologia; a terceira parte recolhe alguns Sermões de São Domingos, que Nossa Senhora revelou a Alano. Notável por extensão e importância é o capítulo III, no qual a Virgem Maria revela ao Beato Alano, como o Saltério salva das presenças diabólicas que têm forma humana.

São Domingos, capturado por alguns piratas, foi conduzido ao Castelo de um Príncipe, consegue liberá-lo da presença de quinze mulheres lindíssimas que escondiam horríveis demônios. Esses obtiveram do Santo, a permissão para distanciar-se com o seu barco e de afundar no Inferno.

Segue o capítulo IV com o Sermão de São Domingos para catequizar o Príncipe e os seus piratas. Os capítulos V e VI citaram o Sermão de São Domingos sobre as 15 virtudes, representadas por 15 Rainhas.

A quarta parte é um pequeno tratado sobre as excelências das Saudações Angélicas, que o Beato Alano exibe em Rostock para conseguir o bacharelado; em seguida estão alguns Exemplos utilizáveis nas pregações, e alguns pequenos tratados sobre as 15 excelências dos sacerdotes e dos religiosos. Em seguida se encontram na obra os 150 artigos ou “mistérios” do Saltério de Alano. A quinta parte recolhe os Exemplos: 23 exemplos de homens devotos e 14 exemplos de mulheres devotas. Alguns pequenos exemplos não são escritos por Alano, mas pelo P. João A. Coppenstein, que os indica sempre e com exatidão no início de cada exemplo. Com os Exemplos se conclui a obra de Alano.

Na edição de 1847, temos também um Apêndice, escrito no século XVII pelo dominicano P. André Rovetta de Brescia, que acrescenta as datas memoráveis do ano de 1212 (instituição em Toulouse na França da Confraria do Saltério); e do ano de 1663 (publicação do Breve “Ad Augendum” de Papa Alessandro VII. A Alano é atribuído: Compendium psalterii B.mae Trinitatis et s. Mariae; La confraire du psautier de Notre Dame; Expositio in regulam S. Augustini (dividida em 15 capítulos, número dos mistérios do Saltério mariano). Tais obras porém, não foram inseridas pelo P. Coppenstein no elenco das obras da qual se compõe o livro.

O culto do Beato Alano, assim como se desenvolveu rapidamente, também foi esquecido rapidamente. Permanecem dele diversos retratos em altares que o representam entre os santos dominicanos próximos a Nossa Senhora do Rosário. A sua festa é no dia oito de setembro, mas não resulta a existência de nenhuma Igreja intitulada ao seu nome.69

69 Nos “Acta Sanctorum”, septembris 3, Parisiis et Romae, apud Victorem Palme, MDCCCLXVIII, estão estas palavras: « Alanus de Rupe, Ordinis Praedicatorum, Beatus vocatur hodie apud Raissium, et apud scriptores Ordinis sui, qui eidem longa texuerunt elogia. At nihilo reperio de cultu ipsius publico; et Saussayus eum veneralibus tantum aggregavit”. “Alano della Rupe, dell’Ordine dei Predicatori, oggi è festeggiato come Beato da Raissio e dagli scrittori del suo Ordine, i quali lungamente ne hanno tessuto elogi. Ma niente ritrovo sul suo culto pubblico...”.

4. Indicações históricas sobre o desenvolvimento da obra de Alano, no magistério dos papas e na ordem dominicana, da morte de Alano ao ano de 1600.

O santo Rosário foi desde sempre um bem de família na Ordem dos dominicanos, e os frades pregadores foram assíduos promotores da sua difusão.

O superior do convento de Colônia P. Jácomo Sprenger, o mais ativo promotor da devoção do Rosário depois de Alano e fundador da primeira Confraria do Rosário renovada,70 obteve no ano de 1479 do Pontífice Sisto IV, a primeira Bula de indulgência para quem rezava o Rosário: a Bula “Ea quae ex fidelium” (8 de maio de 1479). Logo após a difusão da obra de Alano, os Mestres gerais da ordem dominicana se fizeram ativos promotores do Rosário. O Mestre Leonardo de Mansuetis já no ano de 1479 autorizava oficialmente o P. Corrado Wetzel a dar maior publicidade ao Saltério ou Rosário da Santíssima Virgem Maria e a sua Confraria. Assim como, a inscrever os fiéis à mesma Confraria e a delegar outros com este objetivo.

70 “É necessário considerar as exatas relações da confraria com a história precedente: essas são análogas ao saltério/rosário no sentido que Alano não inventa nada de absolutamente novo, mas organiza, seleciona, levas à maturação fases precedentes. Do ponto de vista da agregação social, Alano encontra nas realidades dos mosteiros dominicanos: a ordem da penitência de São Domingos (a futura terceira ordem) que se baseia sobre uma regra promulgada no ano de 1285 pelo mestre da ordem Munio de Zamora e as “Confrarias da Virgem (e de São Domingo)” fundadas por São Pedro Martire (morto no ano 1252)... as confrarias da Virgem... conheciam o saltério das cento e cinquenta orações e talvez também pessoalmente o praticassem, mas a oração prevista pelos estatutos era certo número de Pater e de Ave divididos segundo o esquema das horas canônicas da atividade sagrada; honrava em modo particular a festa da Anunciação e por óbvios motivos a memória de São Pedro Mártir e de São Domingo; enfim conheciam e praticavam alguns modos de orar ligados às exultações de Maria ou às dores de Cristo... encontramos confrarias símiles junto aos franciscanos. No século XV as confrarias marianas eram um pouco decadentes e Alano, através da obra desenvolvida em Douai, agiu sobre estas as revitalizando com duas novas propostas: a universalidade e a substituição dos Pater e das Ave divididos segundo as horas canônicas, com o novo e mais respeitado saltério da Virgem”. Cf. BARILE R., Il Rosario, Salterio della Vergine, pp. 99-100.

Nos registros dos Mestres gerais da Ordem resulta que, especialmente do ano de 1479 até 1509, muitos dominicanos alemães e italianos foram encarregados de pregar o Rosário e de criar Confrarias.

O Mestre Bartolomeu Comazi obteve de Inocêncio VIII a indulgência plenária "semel in vita et in morte" (uma só vez na vida e na morte) para todos os escritos às Confrarias do Rosário. Esta Bula, do dia 15 de outubro de 1484, está presente nos Atos da Assembléia eclesiástica geral (1484). É a primeira vez que uma Assembleia eclesiástica geral menciona "il Salterio della Beata Vergine" e la "Società o Confraternità del Rosario".

Com o pedido do Mestre Gioacchino Turriani, Alessandro VI confirma os privilégios e as indulgências já concedidas aos escritos das Confrarias do rosário e concedem outras.

Depois da Bula de Sisto IV, os sumos Pontífices reconheceram expressamente a estreita ligação existente entre o movimento do Rosário e a Ordem de São Domingos. Ao mestre geral dos frades pregadores, foi confiada a direção do movimento e concedem exclusivamente a ele e aos seus delegados, a faculdade de criar novas Confrarias do Rosário. As Confrarias, eventualmente fundadas sem a autorização do Mestre geral dos dominicanos, não são reconhecidas pela Santa Sé.

Os sumos pontífices também concedem aos frades pregadores a faculdade de pregar o Saltério da Santíssima Virgem ou Rosário em todos os lugares, sem limitações territoriais até então impostas pelas leis canônicas. As confrarias do Rosário, porém, devem ser fundadas nas igrejas dos dominicanos. Só nas cidades nas quais não existe um mosteiro dominicano podem ser criadas as confrarias em uma igreja não dominicana. Nesse caso, porém, no decreto de heresias se diz expressamente que, quando os dominicanos posteriormente fundassem um mosteiro nesta cidade, a confraria seria passada na igreja deles.

Manifestação da íntima relação existente entre o movimento do Rosário e a Ordem dos dominicanos é o fato que, os mestres gerais, concedem a todos os inscritos na confraria do Rosário a participação aos benefícios espirituais da Ordem.71 No dia 29 de junho de 1569, o Papa dominicano Pio V confirmou ao mestre da Ordem a autorização para criar, exclusivamente, em pessoa ou por delegação, as Confrarias do Rosário.

Publicou depois a Bula "Consueverunt Romani Pontifices" (17 de setembro de 1569), que se pode considerar um tipo de magna carta do Rosário. O Pontífice ali descreveu a origem do Rosário, o nome, os elementos essenciais, os efeitos, a finalidade e o modo de propagá-lo.

71 Cfr. Bullarium O.P., IV, p. 392; Acta S. Sedis... pro Societate SS. Rosarii II, p. 1027 -1028.

A Bula contém a definição clássica desta oração: “O Rosário ou Saltério da Beatíssima Virgem Maria, escreve o santo Pontífice, é um modo puríssimo de oração a Deus; modo fácil e acessível a todos, que consiste no louvar a mesma Beatíssima Virgem, repetindo a saudação do Anjo por cento e cinquenta vezes, como os salmos do saltério de Davi, interpondo a cada dezena a oração do Senhor, com determinadas meditações ilustrando a inteira vida do Senhor nosso Jesus Cristo”.72 Nesse documento o Pontífice declara, pela primeira vez, que para obter as indulgências do rosário é indispensável meditar os mistérios. Esta declaração oficial contribui para a difusão do uso, já existente, de inserir breves meditações sobre os mistérios enquanto se reza.

Não se pode certamente resumir em tão poucas páginas séculos de história sobre o Santíssimo Rosário da Gloriosa Virgem Maria. Então colocamos nas mãos dela um nosso vivo e sentido desejo: que esta seja a primeira de uma longa série de publicações com o objetivo de dar novamente vulto a uma história, que o tempo e os homens têm recoberto de erros e de esquecimentos.

72 BULLARIUM O. P., V, p. 223.

Bibliografia

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ADRIANO VAN DER MEER, Compendium psalterii beatissimae Trinitatis magistri Alani, 1478.

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44 GAUTIER DE COINCI, Dialogus miracolorum, Lib. III, capp. 24 e 37.

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45 ROSATI G., L’Ave Maria e i francescani, in ATTI DELLE GIORNATE DI STUDIO, n. III, Stroncone, 4 maggio 1996 e 29 novembre 1997, su “Il Beato Antonio da Stroncone”, a cura di SENSI M., Ed. Porziuncola 1999, pp. 117-125.

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CAPÍTULO I

Prólogo de elogios do Saltério do Esposo e da Esposa, (ou seja) de Jesus Cristo e de Maria, Virgem Mãe de Deus.

Deus, cantarei a ti um Canto novo: cantarei a ti com o Saltério a dez cordas (Salmo143). Quem o mesmo Salmodiante exorta também os adoradores de Deus: Cantais ao Senhor um Canto novo, porque ele fez (Sl.97), com certeza na Encarnação, na Paixão e na Ressurreição do seu Filho. Tais (coisas maravilhosas), junto aos outros benefícios obtidos para nós junto a Deus, dão a ele claramente o lugar mais importante. Todo cristão é obrigado com toda a alma a Deus, por essas coisas maravilhosas.

É importantíssimo que nós quase em competição, expandimos as nossas almas na presença de Deus, nos seus louvores com todo o coração, a palavra e a ação; e que não nos acusem de ter um alma ingrata. Quanto mais deve seguir o Salmodiante e cantar ao Senhor um canto novo.

I. Novo: visto que segundo São Bernardo, é divino o canto Nupcial do Esposo e da Esposa, a dúplice oração do Novo Testamento, saída da boca de Deus. Numa dessas (orações), expôs o auspício de Gabriel a Maria Esposa de Deus, noutra (oração) Cristo esposou a sua Igreja. E por isso, aquela é a Saudação Angélica e esta é a Oração do Senhor: ambas receberão o nome do mesmo acontecimento, e o titulo do Autor.

2. O mesmo Cântico novo, honra a Mãe de Deus, como uma agradável sinfonia aos ouvidos divinos.

3. (Esta oração) foi o início do Novo Testamento, e também a primeira palavra do Evangelho, que, como a menor das sementes de mostarda, gerou a maior árvore entre as árvores, o Evangelho. As pequenas partes e as concisas palavras de (tais orações) eram como numerosas sementes de uma flor de papoula.

4. A outra (oração) do Santo Evangelho, no Novo Testamento, foi o primeiro e único modo, novo e universal de rezar e de honrar a Deus entregue pelo Senhor dos discípulos: e esta se tornou na nova Igreja geradora, fonte e princípio de todas as outras fórmulas de celebrar que se seguem. Todas as coisas seguem a esta oração, assim como os rios, desembocam no mar.

II. É novo também: 1. Porque (esta Canção) é a nova ajuda dada pelo Céu aos homens, para pedir, com as divinas orações, o perdão das nossas culpas.

2. E isto é de uma eficácia extraordinária, de uma infinita utilidade, de um valor inenarrável e enfim de uma doçura inestimável diante de Deus.

3. Este flexibiliza as consolações divinas, procura as sagradas revelações e opera grandíssimos milagres. Este foi o início do Evangelho, a saudação do Anjo: O verbo fez-se carne: este é o dom dos dons por três vezes Santíssimo: é a luminosa direção de todas as revelações: é o mais alto dos milagres e a coisa mais alta de todas.

4. É novo enfim: porque a nova Igreja foi gerada por ambas as orações, e surgindo acreditou e cresceu também de todos os carismas de graça, e foi corroborada em espírito, vigor e sangue, agredida sem dúvida, mas por nada destruída.

III. Que Cristão não acolheria com alegria os dois Divinos Cânticos: aquele de Cristo, Esposo de Maria, e o da Esposa, como um celeste Hino nupcial? Nessas existe a exultação santa dos Anjos, o Jubileu, a alegria de Cristo e de Maria; por isso exulta triunfante toda a Corte celeste, e a Igreja militante luta fortemente em campo aberto. O agradável espetáculo oferecido por Deus, aos anjos e aos homens! Quem seria capaz de tirar os olhos, a alma, o cuidado e o amor disto, por um só instante?

IV. Um cântico novo, entre muitos, harmoniza-se.

1. Como no Saltério de dez cordas de Davi, com o repetir, compor e cumprir as dezenas de orações até o número de cento e cinquenta. Desde o tempo dos nossos avós, queria-se chamar esta forma de rezar de Saltério de Cristo e de Maria.

2. Se olhardes muito profundamente ao mistério desta harmonia e dom do Saltério, podeis ver admirar e venerar os três grandes, santos, divinos e universais Jubileus da natureza reparada, da graça oferecida e da gloriosa promessa. A estas três acrescenta-se também a mais importante alegria: a salvação pessoal, (por causa) da Encarnação, da Paixão e da Ressurreição de Cristo na glória.

3. Todas sabem que o cinquentenário é um Jubileu também na lei de Moisés: todos sabem que, a cada cinquentenário, na cidade de Roma, as absolvições das Indulgências dos cristãos, realizadas pelo Papa, são e se chamam Jubileu: todos sabem que, completados cinquenta anos de Sacerdócio, o Jubileu solenemente afasta o Sacerdote do seu exercício. Como um juiz na Religião, depois de ter cumprido o seu mandato, ele pode gozar o Jubileu, sendo dispensado das obrigações sacerdotais até a morte. Assim também ocorria aos Levíticos, que como escravos, terrenos e campais após cinquenta anos, segundo a Lei de Moisés, tinham um repouso jubilar, durante todo o ano do Jubileu.

V. Cristo e Maria são para nós a causa e a origem dos Jubileus, e também dos Cânticos. É digno, justo e merecedor que um solene ano jubilar sagrado, santo e perpétuo seja celebrado em honra destes na Igreja.

Para que o Jubileu fosse vivido não apenas por um número limitado de servos de Deus por status, ordem e grau dever-se-ia fazer na Igreja de Deus e para Deus um Jubileu público. Desse poderia participar qualquer tipo de fiel Cristão. O Jubileu seria universal, para todos os lugares do mundo inteiro; contínuo e não interrompido nas horas diurnas e noturnas, por um ano. E verdadeiramente a divina Providência, como uma fundadora levantou sobre a Saudação Angélica e a Oração do Senhor, esta divina Esparta, como o reino da devoção oferecida a todos: assim também no Saltério de Cristo e de Maria, este Cântico repetido cento e cinquenta vezes, fez coisas maravilhosas, levantou aquela Esparta: como previu Davi em espírito, quando exclamou: Oh! Deus, cantarei a ti um Cântico novo, a ti celebrarei com hinos no Saltério a dez cordas (Sl.143).

CAPÍTULO II

Origens, prática, revelação e difusão do Saltério.

I. Origem do Saltério. Eis, a Trindade três vezes Santíssima que inventou a Saudação, concebendo-a na sua mente divina: o Arcanjo Gabriel depois de tê-la recebido, levou-a para a terra e a anunciou à Gloriosa Virgem Maria; o Espírito Santo, através de Isabel, disse a terceira cláusula e enfim a Santa Mãe Igreja acrescentou a última cláusula. Jesus Cristo deu vida a Oração do Senhor, ensinou os Discípulos a pregar, e os recomendou a oração. Estes como constituíam toda a Igreja, assim fizeram. Esta é a origem do Saltério.

II. A prática. 1. Conta-se que na vida de São Bartolomeu Apóstolo (como narra um Santo Doutor), ele sempre rezava as duas orações cem vezes por dia e outras tantas de noite, ajoelhado, quando orava a Deus. O Saltério de Cristo e de Maria é composto por estas cento e cinquenta pequenas orações até agora repetidas. São Bartolomeu, por devoção pessoal, acrescentou um quarto grupo de cinquenta orações.

2. A Igreja, Sociedade dos fiéis de Cristo, desejando seguir o exemplo de orar na Sinagoga, como o Saltério de Davi (composto de cento e cinquenta Salmos) optou pelo mesmo número de Orações do Senhor e Saudações Angélicas para a prática do Saltério. O fervor da fé, porém, diminuiu com o passar do tempo, porque a prática do Saltério era muito longa com a união da Oração do Senhor e da Saudação Angélica. A Igreja então diminuiu a forma do Saltério, voltando-o a sua dimensão anterior e acolheu a separação das orações.

III. Conta-se de uma revelação que aconteceu, por bondade de Deus, aos santos pais no deserto em relação ao Saltério da Virgem Maria.

1. Eles eram, há muito tempo, atormentados por tentações de demônios e doenças, e temia-se que houvesse um perigo ainda maior. Todos eles então passaram a rezar com zelo continuamente, pedindo com insistência a Deus, à Mãe de Deus e aos Santos do Céu, que fossem liberados das tentações satânicas ou que pudessem suportar e vencer estas tentações.

2. Não se suplicou em vão. Aqueles que oravam tiveram uma revelação, em que se devia praticar o Saltério de Maria, além daquele de Davi. Assim todos os dias eles recitavam louvores a Deus e à Mãe de Deus. Através dos louvores eles obtiveram todas as graças Celestes.

Dedicaram-se a um Saltério contínuo81, realizado por todos como competição, assim como uma ordem, com todo o afeto e religiosidade da alma: estes celebraram o Saltério de Cristo e de Maria, assim como aquele de Davi. O Saltério de Maria, porém, como é mais breve, era rezado com mais frequência.

3. O resultado foi equivalente ao esforço. O poder dos demônios diminuiu, aplacando a libido. As tentações acalmaram-se e houve uma grande tranquilidade, que foi acompanhada por muitas virtudes e graças. A Rosa da graça e a força da Coroa de rosas tornam-se visível a estes: aquele perfume das santíssimas orações aproximou-os de Deus, por intercessão da Virgem Maria. Eles praticaram maravilhosamente a religiosidade e a santidade. A ordem e a sociedade dos eremitas, também pelos milagres obtidos, tornaram-se digna de admiração e de veneração por todos.

4. Com o passar do tempo, porém, cancelou-se a memória dos próprios Pais. A prática do Saltério diminuiu e pouco a pouco o nome, a instituição e o número de eremitas também reduziu-se tanto que, precipitou no descrédito e enfim na destruição. A grande árvore da Igreja caiu, ferida e abatida pelas feridas de Maomé: João o Grego testemunha na vida dos Pais da Igreja. Deus, porém, não permitiu que se arruinasse o Saltério e o replantou.

81 É este o fundamento da Hora de Guarda na Associação do Rosário, ainda hoje presentes nas históricas e mais importantes Igrejas dominicanas.

IV. A difusão do Saltério aumentava com o tempo. São Basílio Magno no Oriente juntou os monges dispersos nos desertos e nos lugares solitários.

Os agregou em sete comunidades de mosteiros e os organizou com novas instituições. São Benedito fundou e tornou célebre no Ocidente a vida de monge que já existia no oriente e tornou-se ilustre Patriarca da nova instituição. Ele difundiu entre seus discípulos o Saltério de Maria, ao qual era habituado há muito tempo, não como um preceito, mas como prática.

Este fato se deu seguindo um santo costume, desenvolvido e implantado na Ordem Religiosa: como testemunha, muito tempo depois, João do Prado, um seguidor de São Benedito.

2. Seguiu o Venerável Beda, Anglicano (que homem admirável!), que fez prosperar e pregou o Saltério de Maria em toda a Ânglia, Bretanha e França. Ele levava e disseminava esta prática muito saudável para regiões longínquas. O culto foi seguido pelas demais gerações e manteve-se especialmente na Ânglia. Onde houve menos força no tronco, também os ramos secaram.

E hoje existem muitos testemunhos; graças à santidade do Venerável Beda, a antiga devoção do Rosário permanecia em alguns templos, junto a objetos votivos de uso comum ou mesmos as Coroas para rezar.

3. São Bernardo, que também difundiu o Saltério, seguiu Beda. Que outra coisa podia ter feito o apaixonadíssimo Marido de Maria? Nem o seu ardor parou por aqui. Ele ao Saltério de Maria deu o mesmo número de orações do (Saltério de Davi), segundo o conteúdo dos Salmos. Isto eu vi e toquei com as minhas mãos. Este grande homem teve em si muita graça, ao ponto de tornar-se diante de Deus, maior do que muitos santos na terra. Ele foi promotor e fundador de uma Ordem santíssima e vastíssima, através do Saltério, superando muitos grandes (homens).

4. Santo Otto pleno do Espírito de São Benedito deu esta disciplina à mesma Ordem sagrada e tornou-se posteriormente Bispo e Apóstolo dos Eslavos. Ele difundiu naquele povo, assim como a fé cristã, o Saltério. Aquele povo absorveu o suco colocado gota por gota pela Divina Rosa. Homens e mulheres levam o Saltério pendurado no pescoço até hoje.

5. Santa Maria de Egniaco, que rezava por costume todos os dias o Saltério de Davi, ao final de cada Salmo colocava a Saudação Angélica, rezando assim o Saltério de Maria.

Este é apenas um exemplo do exercício das sagradas Virgens e ao mesmo tempo é uma prova real do costume de grande parte dos fiéis.

V. De São Domingos falaremos também no próximo capítulo.

1. São Francisco como muitos testemunharam, recebeu o Saltério de Maria, e o entregou à sua Ordem Sagrada para que fosse rezado. Ele o aconselhou através de seu exemplo, rezando, não sendo necessária nenhuma ordem escrita. Tenho certeza que vi um dos Rosários que ele usou.

O que dizer dos homens ilustres, sucessores das Ordens Sagradas? O que dizer dos inumeráveis santos, como São Ludgardo, Santa Cristina de Colônia, Santa Cristina da Vaga, ou dos milagres, junto às muitíssimas outras coisas, que não temos tempo de enumerar? E se o fizesse não ficaria muito longo? Retorno a uma antiga lembrança.

2. Santo Agostinho, incomparável Doutor da Igreja, usou o Saltério. Nunca se ousaria dizer que este grande homem não conheceu o grande Saltério, que nós conhecemos e que a Igreja prega e reza.

3. Sabemos através do testemunho de São Jerônimo, que a Santíssima Virgem revelou o Saltério a Santo Agostinho. A forma de rezar, com cento e cinquenta contas, era uma defesa em relação aos heréticos. Com a prática deste ele excedia qualitativamente em cada tipo de ciência, maravilhando o mundo.

4. Sabemos, pela revelação das três vezes Bendita Mãe de Deus, que Santo Ambrósio e São Jorge conheceram a santíssima dignidade deste Saltério, e deste conheciam a necessidade, a grandeza e a qualidade. Quem poderia acreditar ou pensar, que eles fossem culpados de negligência e de omissão em relação a esta forma de orar?

VI. Os Santos Certosinos, digníssimos servos, através do Saltério de Cristo e de Maria, oravam muito pelo povo de Deus. Eles sempre honraram e honram esse Saltério, em primeiro lugar pela sua secreta e privada devoção. Isto será explicado com exemplos mais tarde.

CAPÍTULO III

A história conhecida do Pregador do Saltério, São Domingos.

I. O Santíssimo Domingos enobreceu a ilustre estirpe dos pais da igreja, com uma brilhante santidade de vida, que não tiveram os seus seguidores, tanto que o esplendor da sua glória se espalhou por toda a Igreja. Sem dúvidas as chamas da sua primeira infância eram já o sinal da luz da santidade. Ele lançou-se com ternura e ardor na fé a Cristo e à Mãe de Jesus, quando tinha apenas dez anos de idade. Desde então ele deliciava-se com o Saltério de Maria, não apenas rezando, mas o tendo entre as mãos e orando com assídua devoção.

2. Encontrava alegria em rezar e tê-lo consigo pendurado na cintura, mais do que se tivesse um colar de ouro ou de diamantes. Aprendeu a rezá-lo desde o leite materno e teve ainda como reitor e mestre de sua infância, um sacerdote que também o incentivou. A índole da criança, mais elevada do que de um homem, foi usada por Deus como digna professora para uma experiência mística.

3. Quando ele tinha aproximadamente dez anos a Virgem Maria o revelou o Saltério e desde então ele sempre o levou e pregou.

4. Quando se tornou mais velho e sábio, seguindo a regra de Santo Agostinho, dedicava a Deus, em horas diferentes, três Saltérios por dia. O rezava como uma de suas outras obrigações, atrelado a si como uma corrente de ferro. Nem as muitas e importantes atividades, para a salvação das almas, o tiravam do duplo sacrifício da oração e do flagelo.

5. Quando obtinha qualquer graça especial rezava nove ou até doze vezes o Saltério, passando frequentemente as noites acordado.

6. E foi também de grande importância, que esse grande homem tenha podido instaurar tão grande familiaridade com Cristo e Maria. Graças a esta familiaridade ele recebeu admiráveis, grandes e numerosas Revelações e Visões: das realidades divinas e do Saltério. Ele foi capaz de realizar muitas coisas extraordinárias, como pregações e milagres.

7. E eram várias as razões que aumentavam o seu zelo no pregar e no rezar o Saltério junto ao povo: instituir (o Saltério), já foi uma estrada de santidade, pela sua dignidade divina; a prática (do Saltério), universal do mundo, a facilidade de tal oração, a sua brevidade, a sua comodidade, a anunciação (à Maria) de Deus através (do Arcanjo Gabriel), a Igreja que o recomenda, o fruto: os extraordinários resultados nas coisas espirituais e materiais, como testemunham muitos livros.

8. E não bastou o ardor de Pregar, ter difundido os Saltérios para atingir o espírito, ter realizado assembleias para falar ao povo; pregava também doutrinas, Rosários, prodígios por todo o lado, percorrendo todos os lugares.

Com o seu exemplo e conselho, incentivava os nobres e numerosos homens e mulheres a distribuir em doação os Saltérios.

9. A sua sabedoria era reconhecida e observada por muitos e, se lhe parecia que pregar doutrinas dava menos frutos às almas, lançava-se com o espírito e esforço recomendando o Saltério. Com este argumento, mesmo falando de coisas simples, acendia e fortificava de forma maravilhosa os ouvintes, atormentava, criticava e confundia os hereges e os hunos. Aliviava os sofredores e estes se enchiam de veneração e admiração por ele. Não é possível dizer quem, quantas almas e lugares, ele tenha feito retornar a Deus através de milagres, sinais e prodígios. Porém, pela excepcionalidade do fato, acredita-se que tenha sido logo depois da conversão dos habitantes de Toulouse, onde ele instituiu uma fraternidade, prelúdio do nascimento da Ordem Religiosa.

HISTÓRIA II

Os habitantes de Toulouse (ilustríssima cidade da Gália, famosa pelo domínio do principado), combatiam com grande força e autoridade a heresia dos Albigenses, em defesa das Igrejas e das famílias.

1. Estes preferiam morrer a ceder à maldade. São Domingos com a sua pregação (e Deus com os seus milagres), já tinham divulgado o Saltério em toda a Itália e Espanha, com uma maravilhosa conversão das almas e costumes. Assim atesta Gregório IX na Bula de Canonização do mesmo, dizendo: Ele transpassando os prazeres da carne e fulgurando as mentes de pedra dos pecadores, fez tremer cada sede dos hereges e exultar cada Igreja de fiéis.

Mas o Beato Domingos nunca foi capaz de entrar na cidade, apenas nas almas dos Tolousenses.

2. Por isso, atormentado de preocupação e dor, retirou-se em uma gruta numa selva próxima dali para suplicar, mais intensamente, a potência da Mãe de Deus. Acrescentou à oração, jejuns e rigorosos flagelos pedindo para si as penas pelas culpas dos Tolousenses.

Com eriçados de pontas de arame, e galhos com espinhos, maltratou o seu corpo, até que sem forças, desmaiou.

3. A poderosa Patroa e Rainha dos Céus aproximou-se do discípulo caído e ensanguentado e com o vulto, as palavras e as carícias, o despertou. Próximos à Santa Rainha dos Céus estavam três Rainhas, que a acompanhavam, semelhantes no vulto e no ornamento, mas abaixo dela. Em torno a cada uma das três rainhas havia cinquenta Virgens, quase a seguindo, todas de aspecto tão majestoso acima da natureza humana, esplendente nos vestidos. São Domingos ficou encantado com a visão.

4. A Benigna Virgem Mãe de Deus o disse: Domingos, filho e intimo Esposo, porque combates fortemente contra os inimigos da fé, se Jesus te chamou e eu te socorri. Tu me invocastes e eu venho ao teu socorro. Estas palavras também foram ditas contemporaneamente pelas três Rainhas. Domingos foi recolhido do chão quase morto, pelas três rainhas. Estas o levaram, com grande veneração, à Maria que o acolheu com abraços virginais, o beijou carinhosamente, e aproximando-o aos seios do casto Peito, o saciou com o seu Leite e o restabeleceu completamente. A suprema Rainha então disse: Do fundo do meu coração, caríssimo filho Domingos, sabes me dizer bem, quais armas a Santíssima Trindade usou por três vezes, quando decidiu renovar todo o mundo? E ele disse a ela: Oh Senhora do mundo, tu o sabes muito bem: através de Ti vem a salvação no mundo, e sendo Tu a própria mediadora, o mundo foi renovado e redimido dos pecados. E ela sorrindo ao íntimo Esposo disse: A Santíssima Trindade para aniquilar todos os delitos do mundo escolheu entre as principais armas a Saudação Angélica, da qual é composto o nosso Saltério, fundamento de todo o Novo Testamento. Por isso se queres que o teu pedido seja atendido, pregues o meu Saltério: e imediatamente sentirás viva a ajuda das três vezes Santíssima Trindade.

ESTRUTURA DO SALTÉRIO III

A suprema Rainha também o disse as seguintes coisas: Tenho como testemunha disto as três Rainhas que estão comigo. Elas representam a Santíssima Trindade.

1. A primeira destas, como vês, que esplende pelas roupas branquíssimas, designa a Potência do Pai, que se manifestou na Santíssima Encarnação do seu Filho, nascido de mim. Estas cinquenta Virgens, igualmente dignas de veneração pelo esplendor, designam o primeiro Jubileu de graça e de Glória, a Potência que está no Pai e que provém do Pai. A segunda Rainha avermelhada pelas vestes de púrpura, indica a Sabedoria do Filho, a qual no mundo se manifestou pela Redenção na sua Paixão. As cinquenta Virgens suas companheiras, reconhecíveis pelas roupas de igual púrpura, recordam o segundo Jubileu do cinquentenário ano de graça e de glória, que deriva dos méritos de Cristo sofredor. A terceira Rainha revestida de estrelas representa a Clemência do Espírito Santo, e indica a santificação do mundo Redimido pela misericórdia; as cinquenta virgens que a assistem, cintilantes de estrelas, prometem o terceiro Jubileu de graça e de glória, que flui no Espírito Santo e do Espírito Santo.

2. Deves saber que eu, como sou a Rainha das três Rainhas, também sou a Rainha dos três Jubileus, ao longo desta vida e em Pátria: sou a Rainha da Lei Natural, daquela Escrita, e daquela da Graça, as quais são eternas pela felicidade dos Beatos. Este é o motivo pelo qual a Santíssima Trindade que (neste mundo) me intitulou e conferiu um Saltério, com o santo número de cento e cinquenta, o qual nas primeiras cinquenta orações sobre a Encarnação resplandece branquíssimo; no segundo grupo de cinquenta orações sobre a Paixão do Filho, reflete-se a cor púrpura; no terceiro grupo de cinquenta orações sobre a sua Ressurreição e a glória dos Santos, cintilam as estrelas.

3. Portanto, pegues este Saltério e ora-o constantemente à mim.82 Entra corajosamente na cidade e entre as legiões dos inimigos, onde se reunirá tanta gente, o louves e recomendes; aconselhes a Oração e crês: verás logo as maiores maravilhas da potência divina. Disse e se afastou, na direção das estrelas.

82 Este é o momento solene da entrega do Santo Rosário a São Domingos, vindo à Toulouse, cidadezinha do Alto do Garona na França, no 1212.

IV. 1. São Domingos crê na promessa, obedece ao comando e entra na cidade de Toulouse; ao mesmo tempo os sinos da Igreja principal, por intervenção divina, tocam nas torres, com um som diferente do conhecido.

O terror, a emoção e o estupor assaltam a alma de todos, assim como a curiosidade de saber o que era aquilo que ouviam e a sua origem.

Quase toda a cidade vai imediatamente à paróquia principal, e eis aparecer diante de todos, o tão odiado, o intrépido e divino pregador do Saltério, São Domingos, o martelador dos corações: ele é, então, escutado e visto com admiração. O estupor foi maior pelo som dos sinos do que pela pregação. Todos ficaram temerosos e maravilhados pela presença do Santo, mas mesmo assim não se dobraram da obstinação herética. Verificou-se então uma intempérie no céu, bastante forte e assustadora.

2. Ouvem-se os trovões, os raios relampagueavam um depois do outro, repercutem os raios que se abatem: a cidade agita-se, todos os habitantes tremem pelos flagelos que se aproximam. Parece que a terra torna-se menor e mistura-se com o céu, com as ondas e as chamas. E como se não bastasse: abate-se sobre a cidade um terremoto e parece que todos serão sugados em uma imensa voragem. Nem mesmo as águas permanecem no seu curso, pois se retiram e inundam todas as coisas; e toda a força dos ventos, espalhando um horrendo fim de mundo, range e estala.

3. Coisas horríveis ocorreram, mas entre todos os flagelos não abaixava a voz de Domingos, que era escutada por todos, pregando o Saltério. Essa, que vencia cada coisa, vencia também os corações hereges. Os agita, os adoça, os transforma e, entre outras coisas, diz: “Esta é a mão direita do Excelso: é a voz de Deus que ouves cidadão. Deis um lugar a Deus: ele está na porta do vosso coração e bate.

É Deus que fulmina e trovoa entre as nuvens. Amedronta para corrigir, não pune para matar. Porém, a punição supera as cabeças: eviteis a pena e tenhais medo da última pena, aquela eterna. Aprendeis como exemplo aqueles que crucificaram Jesus Cristo, que foram amedrontados por estes acontecimentos. Espereis a salvação de Jesus e da Mãe de Jesus. Vamos, peçais tudo à Virgem Mãe do Salvador, advogada Mãe da misericórdia, porque o amado Filho não nega nada à amada Mãe. Amais a oração de ambos, utilizais o Saltério. Honrais Deus e Maria, rejeitais com juramento, a heresia. E confiais: prometo a salvação, a graça da Mãe de Deus confirmará esta minha promessa. Uma inesperada calma e tranquila segurança, por vontade de Deus, os libertará destes tormentos. Acreditais: Vejo aqui os cento e cinquenta Poderes, os Anjos executores da punição de Deus, mandados por Cristo e pela Mãe Virgem de Cristo do Céu contra vós, para castigar-vos pelos vossos pecados”.

4. Durante essas palavras do Santo, sentem-se arruinadoras vozes, e se escutam os confusos lamentos dos demônios: Deus! Estamos presos com correntes de fogo, por causa da potência infinita do Saltério e somos enviados para longe deste mundo, ao Inferno, infelizes. Escutavam-se os seus enormes gritos, parecia que cobriam a voz do Pregador do Saltério. O teriam coberto se Deus não tivesse dado um tom maior à voz de Domingos.

5. No final um acontecimento terrível e maravilhoso somou-se aos outros. Por acaso na Igreja maior estava exposto uma estátua da Mãe de Deus, em um lugar elevado e visível. Todos viram Nossa Senhora levantar a mão direita apontando para o Céu e repetir por três vezes as advertências, como se dissesse: Se não seguires as ordens, apodrecerás. São Domingos interpretou assim, imediatamente o gesto da estátua dizendo: Não se cessarão as punições e os terríveis sinais, se não afastais a obstinação e pedires com o Saltério, a salvação através da Advogada de misericórdia.

Por isso aplacais a sua ira com as sagradas orações do Saltério e Ela dobrará com a misericórdia o braço levantado ameaçadoramente.

V. 1. Deus já tinha estremecido as fibras do coração de todos, e Domingos as tinha ferido. Estavam todos desesperados e ajoelhados, com as mãos suplicantes estendidas a Deus e à Mãe de Deus. Apavorados, tremiam-lhes os braços e todo o corpo. Podiam-se escutar os gemidos provenientes do fundo dos corações, soluços, gemidos confusos com gritos e urros. As lágrimas de homens e de mulheres misturavam-se. Todos estavam banhados de lágrimas, vestidos com roupas sujas, agrediam-se os peitos, jogavam-se na lama e arrancavam os cabelos, todos juntos invocam a misericórdia, como se tivessem acompanhado o próprio funeral.

2. São Domingos diante deste espetáculo passional voltou-se para a estátua da Mãe de Deus e ajoelhado suplicante rezou: Senhora do céu e da terra, Virgem potente, olha, escuta os penitentes suplicantes, a vergonha do passado e a dor do presente, promete coisas melhores para o futuro.

Abandone a ira, afaste as ameaças e recoloque o braço no seio da tua clemência. A Amada Mãe escutou, moveu e redobrou o braço da sua estátua. Os ventos, os trovões e os terremotos acalmaram.

3. Todos os Toulousenses que experimentaram aqueles terrores e perigos colocaram as suas mãos e as suas almas na mão do único Deus e sob a orientação de São Domingos. Veio a paz e uma profunda calma, com a admiração e a mudança total das almas. Eles abandonaram os seus erros, rejeitaram as sombras das heresias e se abriu a luz da fé católica.

4. No outro dia, os cidadãos novamente repetiram o espetáculo. Usaram roupas brancas, levaram nas mãos velas acesas, e rezaram na mesma Igreja do dia anterior.

Para todos aqueles que se reuniram, São Domingos iniciou o ensinamento do Saltério e Deus continuou a realizar milagres através do seu servo.

VI. 1. Estas coisas aconteceram aproximadamente três ou quatro anos antes da criação da Sagrada Ordem dos Pregadores.

2. Em memória do acontecimento, o Bispo de Toulouse Fulco, doou a sexta parte do dízimo da sua Igreja, para sempre, a São Domingos e aos seus Frades.

3. E assim teve inicio a Sagrada Ordem dos Frades Pregadores, na Igreja, dita de São Romano, fundada e dedicada à Santíssima Trindade e à Santíssima Virgem Maria.

4. Este foi o inicio não apenas da Ordem, mas também do Saltério, a ser difundido em outros lugares. Por esta estrada o Saltério entrou na Ordem, e nesta se transmite até hoje sem interrupção.

5. Desde a fundação da Sagrada Ordem na Igreja e do Saltério, é evidente o quanto são grandes as coisas feitas por Deus e pela Mãe de Deus. É notório o resultado por onde se estende o nome cristão.

ATESTADO

Todas as palavras amabilíssimas, a Virgem Maria, Mãe de Deus referiu-se àqueles que Ela esposou com um anel feito de seus cabelos e com o (presente de um) Saltério maravilhoso, que está pendurado no pescoço do Esposo. Esses fatos são verdadeiros, visíveis e reais.

CAPÍTULO IV

O Beato ALANO, Esposo da Mãe de Deus, renovador do Saltério, segundo a narração atestada na Apologia ao capítulo dez.

I. Clemente Deus de toda Misericórdia e de toda consolação, da abundância da sua indulgente piedade e eterna caridade, revelou o Saltério de Cristo e de Maria a um Padre, Frei da Ordem dos Pregadores.

1. Através dele, com a ajuda da graça de Deus, foram realizados inumeráveis e inesperados milagres; esse Frei Pregador era particularmente devoto ao Saltério de Deus e da Mãe de Deus.

2. O mesmo Padre antes de conquistar a vocação divina, a graça de extraordinária pregação, por muito tempo rezou o Saltério de Maria, em assídua devoção quotidiana a Deus. Liberado das tentações do diabo, da carne e do mundo, e imune a estas através do Saltério, ele transcorria uma vida segura com Deus na sua vocação. Ele foi liberado de algumas tentações, mas foi muito torturado e teve que combater uma luta cruel, contra muitas doenças.

3. Deus permitiu-o sair da tentação após ter sido tentado cruelmente por sete anos inteiros pelo diabo. Durante esse período São Domingos agrediu-se com esferas, e recebeu duros golpes com açoites, tentando libertar-se das tentações. Foram tão cruéis aqueles golpes que a benigna Virgem de Deus, com piedade, levou socorro e remédio ao aflito, para que ele não caísse em desespero.

4. A grande força oculta do impetuoso torturador, o fez muito frequentemente aproximar-se do desespero. Pensou em se matar, separando a alma do sangue através de uma faca ou renunciando a vida com qualquer outro tipo de morte. Em um de seus momentos de desespero, na Igreja da sua Sagrada Ordem, Santa Maria o salvou, aparecendo-lhe inesperadamente, dissipando as tentações.

5. A mão, embora ainda não decidida, já segurava a faca para tentar o suicídio. Quando ele dobrou o braço e lançou a faca contra a própria garganta, em um golpe mortal, aproximou-se, misericordiosa, a salvadora Maria, e com um ato decisivo agarrou o seu braço, não o permitindo de suicidar-se. Deu um tapa no desesperado, e disse: O que fazes, miserável?

Se tu tivestes pedido a minha ajuda, como fizestes outras vezes, não estarias em tão grande perigo. Ouvindo isto o miserável desmaiou e permaneceu sozinho.

II. 1. Depois de pouco tempo, ele foi vítima de uma gravíssima e incurável enfermidade corporal e todos aqueles que o conheciam, acreditavam que ele fosse o próximo filho da morte.

2. Quando saia da Igreja e entrava na sua cela monástica, ele era perseguido por demônios, perturbado psicologicamente, maltratado por uma nova doença, e jazia miseravelmente com ardentes gemidos, enquanto orava e invocava a Virgem Maria: Colocaram-me como filho da morte. O que farei? As coisas celestes me são hostis: para mim o céu é de ferro. As coisas infernais me atormentam; as coisas humanas me abandonam. Não sei o que pensar, o que dizer e aonde ir. Eu esperava Maria Auxiliadora, que eu fosse mais forte e mais seguro com a tua ajuda: e eis, dor! Caí em uma maldição maior. Por que nasci? Por que infeliz vi esta luz? Por que entrei nesta Religião, também a possuindo? Por que me destes um tão longo e difícil serviço de vocação? Onde está, por favor, a verdade daquele que diz: a minha escravidão é suave, e a minha carga leve? Onde está a verdade, que não permite sermos tentados acima do quanto podemos? Verdadeiramente, dando a Deus a reverência e também a ofendendo, preferiria não existir, ou ser uma pedra, do que transcorrer assim os dias da minha vida. Assim ele suplicava como Jó e Jeremias: e inseguro perguntava-se se deveria abandonar pelo resto da vida o serviço ao Senhor ou continuá-lo.

III. Em meio à dúvida, surgiu subitamente, a Santa das Santas.

1. Enquanto ele se debatia entre os estados da alma, e se inclinava a uma ou à outra coisa, quase a metade da noite tempestuosa, entre a décima e a décima primeira hora, na cela monástica onde estava, renegou o esplendor de Deus com uma luz improvisada, e nesta apareceu majestosa a Beatíssima Virgem Maria, que o saudou de forma muito doce.

2. Depois de muitos santos colóquios a Virgem disseminou o seu Leite puríssimo sobre as muitas feridas mortais dos demônios e as curou totalmente.

3. Ao mesmo tempo, na presença do Senhor Jesus Cristo e de muitos Santos, que estavam ao redor, esposou esse seu servo, e deu-lhe o anel da sua Virgindade, feito cuidadosamente com os seus cabelos Virginais.83 É inexplicável e inestimável este anel de glória que se usa no dedo, e (com o qual) esposa-se de forma tão admirável sem ser visto por ninguém. Ele sente profundamente, através deste, indubitáveis ajudas contra todas as tentações diabólicas.

83 Indicamos a antiga imagem usada na capa, para contemplar a majestosidade da cena.

4. Da mesma forma, a Bendita Virgem Mãe de Deus pendura no pescoço dele uma Corrente com tranças de Cabelos Virginais, sobre a qual estavam presas cento e cinquenta pedras preciosas, e (entremeadas por outras) quinze, segundo o número do seu Saltério.

5. Depois de tudo isto, Ela disse que estas coisas faz em modo espiritual e invisível, àqueles que rezam devotamente o seu Saltério. O mesmo número de pedras é contido também no anel, mas de forma menor.

6. Depois destas coisas, a mesma suave Senhora lhe deu um beijo, e o permitiu sugar dos Seios Virgens. Sugando avidamente destes, ele se sentiu revigorado em todos os membros e forças e transportado ao Céu. Assim muito frequentemente a benigna Mãe o deu a mesma graça do aleitamento.

IV. Narro coisas (dignas de) serem admiradas por todos os mortais.

1. Essa Rainha de ambos os mundos, depois do Matrimônio, aparecia-lhe frequentemente e deixando estupefato, recompôs divinamente a sua força, e o revigorou, para que levassem coragem aos outros devotos, através do Saltério da Mãe de Deus. Uma vez Ela disse: “Caro esposo não deves considerar-me, nunca mais, separada de ti e não deves separar-te da confiança a mim e do meu serviço. A união entre mim e ti é tão grande, que nem mesmo o Santo Matrimônio corporal (se tivéssemos nos unidos tantas vezes, quantas mulheres existem no mundo) poderia me unir tanto a ti, quanto o Matrimônio espiritual que temos. Sou unida a ti, sem união carnal porque esta é sem valor diante da união espiritual e divina. Na união espiritual consiste a procriação virginal e a celeste fecundação das almas, que ninguém com a razão ou erudição consegue compreender, somente aquele que a recebe.

2. Então, coragem caríssimo esposo. É necessário que, por direito matrimonial, seja compartilhado entre nós todas as coisas. Por isso quero comunicar-te pelo Matrimônio espiritual, as graças conferidas a mim.

3. Saibas que o Matrimônio corporal é um sacramento Santo na Igreja, porque simboliza o Matrimônio espiritual entre o Cristo e a Igreja.

4. Eu te esposei através do Saltério Angélico, assim como, Deus pai me esposou através da Angélica Saudação, para a geração do seu Filho. Eu, Virgem puríssima e incorrupta, fui unida a ti, pela vontade de Deus para renovar o mundo, como fez o (meu) Filho, através dos Sacramentos e das Virtudes.

5. Que ninguém pense nada de impuro nesta (união). A geração espiritual é mais pura do que o sol, mais limpa do que as estrelas, contendo o abraço da Trindade infinita. Nesta consuma-se este Matrimônio, no qual estão todas as coisas, do qual provém todas as coisas e através do qual existem todas as coisas.

6. Alegra-te, Esposo, visto que me fizeste tantas alegrias, quantas vezes me saudastes no meu Saltério. Por que quando eu estava infeliz, tu estavas angustiado, fortemente atormentado ou duramente aflito? Eu tinha prometido te dar coisas doces, mas por muitos anos, te dei coisas amargas. Então alegra-te agora. Da abundância dos meus dons, te dou quinze Joias, como os quinze Lírios do meu Saltério Virginal”.

CAPÍTULO V

As quinze Joias dadas pela Esposa, ao Esposo BEATO ALANO.

I. Primeira Joia: é a remissão final dos pecados. “Obtive para ti, Esposo, a remissão de todos os pecados, mesmo dos mais graves: não morrerás na culpa do pecado, mas se cometeres um erro, neste mundo serás punido, visto que frequentemente me saudastes com “Ave”: sem culpa”. Ela deu este perdão, porque ele foi um grande pecador, e tinha vivido rodeado de diversos e numerosos tipos de pecados. Isso foi exemplo para os outros, para que os pecados sejam perdoados (Nela).

Então Maria não escolheu um inocente, assim como, Cristo escolheu para o Matrimônio Espiritual uma (discípula) Madalena, cheia de gratidão, por acreditar em seu arrependimento. E a mesma Madalena participou deste Matrimônio, como auspicio e iniciadora, junto com a sua filha Catarina Mártir, que também esposou Jesus Cristo.

II. Segunda Joia. A Presença de Maria: “Eis, porque frequentemente ofereceu-se a mim ‘Maria’, iluminada (da Graça): “por isto dou a ti este clarão celeste, para que tu tenhas sempre em mim uma luz presente, e sempre me terás e me verás, como tua Assistente e Auxiliadora. “E isto é mais forte e verdadeiro pelo espírito do que pelos sentidos corporais”.

III. Terceira Joia. A graça de obter as coisas pedidas: “Visto que oferecestes frequentemente a mim a oração de “Graças”, pela qual eu agradei a Deus e mereci a vantagem do mundo, por isso dou a ti a graça de obter toda e qualquer coisa. Reze e peça no modo devido, que assim terás coisas ainda maiores do que aquelas que desejas”. E isto foi comprovado.

IV. Quarta Joia. A ajuda do Céu. “Visto que frequentemente oferecestes a mim o lírio do “Cheia”, eu, enquanto sou cheia em todas as minhas potências, obras e graças, concedo a ti que (da cabeça aos pés, dentro e fora), não exista parte ou potência, que não sinta a divina ajuda na alegria e na tristeza, como em cada ação”. E assim aconteceu. Ele sentiu profunda e frequentemente em todos os membros certa luz que se insinuava, de modo inexplicável e o conduzia à vontade da Santíssima Trindade

V. Quinta Joia. A Presença de Deus. “Visto que muito frequentemente oferecestes a mim o lírio do “Senhor”, que é a mesma Santíssima Trindade, eis que para ti obtive que o Senhor Deus esteja sempre junto a ti”. Desde então ele via em si sempre a Santíssima Trindade, que o assimilava. Ele não via mais a si mesmo, mas apenas ela. E ao lado dela estão três Pessoas distintas: uma dentro da outra. Todas as coisas presentes em uma, estavam presentes também nas outras. Mas esta visão não é ligada à imaginação, e não é material, mas é própria da fé, luz mais alta do que de toda a ciência criada.

Assim ele sentia e via, de acordo com a sua maior ou menor disposição e devoção. Se às vezes ele não era devoto, ou era ocupado em coisas mundanas, ou era ocioso, a visão desaparecia por um pouco de tempo.

Após obras de devoção e penitência esta vagarosamente voltava a ser como antes.

VI. Sexta Joia. A Presença dos Santos. “Visto que oferecestes a mim frequentemente o “Contigo”, pelo fato que fui ao Tabernáculo da Santíssima Trindade. Eis, eu te concedo ver dentro de ti e sentir toda a Corte Celeste, de forma clara”. E assim aconteceu. Viu dentro de si os Santos, as Santas e os Anjos, que invoca-se com muita devoção. Ele também escutou coisas especiais e (viu) uma luz que o iluminava, com grande alegria, mas também com grande arrependimento.

VII. Sétima Joia. O modo de expressar-se dos Santos. “Visto que oferecestes a mim o “Bendito”, porque foi bendito o modo de expressar-me, eis, concedo a ti o modo de expressão meu e dos Santos, de modo que tu ouças a nossa língua”.

E assim aconteceu. Escutou frequentemente palavras do Pai, do Filho, do Espírito Santo, de Maria ou dos Santos. Aquela voz não era ligada à imaginação e nem era material, mas era de outro tipo, clara e distinta, que influiu na sua mente e o instruiu. Não conheço, na natureza, uma coisa semelhante a esta.

VIII. Oitava Joia. Uma certa Onipresença. “Visto que me oferecestes frequentemente o “Tu”, como os Doutores ao expor, referir, sustentar as doenças do povo; dou-te a ciência não conquistada com a capacidade humana, mas concedida pela minha graça”. Desde então ele foi especialista e formado em toda a ciência divina, moral e humana: não foi necessário livros para pesquisar. Através da oração, podia encontrar-se com a Virgem Maria e aprender muito mais do que se tivesse estudado todo o dia em uma ótima Biblioteca. Ao mesmo homem a Santíssima Virgem revelou as origens e as sutilezas das ciências: se os homens as conhecessem, desprezariam as ciências humanas, pela grandíssima imperfeição que estas têm.

IX. Nona Joia. A Inocência das mulheres. “Visto que me oferecestes o lírio: “Entre as mulheres”, subentendidas Santas; visto que não é um louvor, ser bendita entre as cativas; concedo-te esta graça: as mulheres não te incomodarão, nem mesmo minimamente. E visto que me aceitastes como Esposa, te concedo além da presença, a ajuda e o favor das minhas Jovens, ou seja, todas as Santas”. Ele frequentemente viu Santa Ana com a filha Maria, Santa Madalena, Santa Catarina Virgem e Mártir, viu aquela de Siena, e Agnese, assim como muitas outras, com grande devoção e amor angelical.

X. Décima Joia. A Eloquência. “Visto que frequentemente me oferecestes o “E bendito”, que é a Palavra da Sabedoria, te concedo a Graça que na tua expressão e no teu discurso sintas a glória celeste e vejas as grandes coisas de Deus. Isto que vês em ti mesmo, o verás também na palavra”. E assim via e sentia. A SS. Trindade era vista por ele como um todo, e toda em qualquer parte desta, igualmente potente, igualmente perfeita. A estas coisas acrescentou a Santíssima Virgem: “Terás esta graça para que, quando pregues ou ensines, tenhas a devida fé e devoção. Sintas Cristo em ti, que diz o que deves (dizer), e (sintas) também a mim, que te respondo para que ores, ensines ou leias”. E aconteceu assim.

1. Ao se expressar, ele sentia uma alegria inexplicável e isto (acontecia) especialmente depois da assunção da Santíssima Eucaristia.

2. Ele sentia inexplicável e extraordinariamente um homem inspirado e que absorveu ideias e sentimentos, em todo o seu corpo, como disse Santo Agostinho: Tu não me mudarás em ti, mas tu te mudarás em mim.

3. E este homem, assimilado nele, fazia todas as coisas, falava, caminhava, etc., como o ditado: Não sois vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós.

Este modo é difícil e cansativo, sobretudo quando faltam as devoções e uma grande Fé.

XI. Décima primeira Joia. A Presença de Cristo: “Visto que me oferecestes o lírio da Virgindade, o “Fruto”, que é o meu Filho, que está dentro de cada fruto do Espírito Santo, e quer para si, entre as primeiras coisas, o coração e a alma: de fato com o coração, mais do que com a carne, concebi: a Deus ofereci (a Virgindade) e a recebi no coração de Deus, que se veste da minha carne. Por isso concedo ao teu coração a benção da Virgindade, para que tu sintas claramente a vida do meu Filho”.

E aconteceram estas coisas: 1. De fato, no seu coração sentiu como um globo, dentro do qual olha com maravilha a vida do Senhor Jesus, ou seja, a Encarnação, a Paixão e a Glorificação. E em seguida a isto, o seu coração é orientado seja para a alegria, seja para a compaixão.

2. Da mesma forma na profundidade do próprio coração, teve claramente uma luz extraordinária, da qual é maravilhosamente confortado no fazer todas as coisas boas, em suportar a adversidade e se afastar dos males da ira, da preguiça e das outras paixões.

3. Se esta luz apaga-se, então ele logo se sente incapaz de fazer qualquer coisa. A décima segunda, terceira, quarta e décima quinta Joia, o esposo não escreveu. Não se sabe por quê: acredita-se que existam tantos segredos sublimes, que preferiu não manifestá-los aos mortais.

CAPÍTULO VI

 

Como olhar para a Santíssima Virgem Maria, durante a oração.

Revelação Mariana ao BEATO ALANO.

I. A Santíssima Virgem Maria apareceu ao seu Novo Esposo quando ele perguntou: “Qual é o melhor modo para honrar a Mãe de Deus e os Santos do Céu?” A ele a Esposa respondeu: "Esposo meu, põe diante dos olhos da tua mente a minha figura e contempla-a, não na sua existência puramente humana, que é uma realidade mínima, mas em um modo diferente de existir, que tem quatro aspectos. Escuta:

1. O Estar na graça, visto que eu sou o Templo de todas as graças de Deus, cada uma das quais supera grandemente cada graça dos Santos.

2. O Estar na glória, através do meu Cristo, que supera a glória de todos os Santos.

3. O Estar, em parte, em Deus, porque sem dúvidas na minha alma mora a Santíssima Trindade por essência, presença e potência: assim como nas outras criaturas. Mas em modo mais alto está em mim, através da graça, pela qual eu me tornei o Triclínio da Santíssima Trindade, por isso concerne a Natureza, a Graça e a Glória.

4. O Ser (em si), “porque sou a mãe de Filho de Deus”.

II. “Visto que em modo absoluto, as almas de todos estão em Deus, assim no mesmo (homem) está a minha imagem no modo mais absoluto.

Esta alma, assim como está em Deus, não é outro que uma imagem da realidade do mesmo Deus, mas com uma natureza diversa. Por isso se tu me visses no Paraíso, contemplarias em mim a existência segundo a Natureza humana, a Graça e a Trindade. Em cada uma destas realidades, a primeira é superada completamente por aquela sucessiva. Por isso a figura de Maria é igualmente quádrupla: Natural porque é uma realidade belíssima: Graciosa, porque é uma realidade ainda mais bonita: Gloriosa, porque não existe nada mais divino do que esta. E enfim Divina pela perfeição, porque a Santíssima Trindade que é a perfeição, existe em mim.

Maria é a Senhora de todas as coisas existente, conservadas e governadas no mundo inteiro. Ela é a primeira em perfeição e respeito a todas as criaturas. Maria é aquela, que penso, conheço e amo em modo especialíssimo, e quero que seja pensada, conhecida e amada pelos seus servos. Ela é, sobretudo, a Mãe de Deus, do Verbo Encarnado, para que a sua natureza estivesse em mim.84 A ela em primeiro lugar se refere à Saudação Angélica, visto que, a minha natureza teve a benção de ter Maria Mãe de Deus, vivente em mim. Esta minha realidade humana é bastante importante, e primeiramente deve ser entendida pela mente, como a imagem de Cristo e dos Santos. Por isso observa verdadeiramente, o meu dileto Esposo85, o seguinte modo de orar, memorável pelos séculos e maravilhoso a ser seguido, do meu Unigênito Filho Jesus Cristo, para o progresso da tua alma”.

84 Como se pode notar se interpõe as Revelações de Maria com aquela de Jesus, como neste caso, sem que este seja muito especificado.

85 Retorna a falar Maria Santíssima que esta Revelação tenha, no mesmo tempo, Jesus e Maria, a ser interlocutor com o Beato Alano.

MODO DE ORAR

Meditações sobre as partes do corpo de Cristo e de Maria, de acordo com o ensinamento da Mãe de Deus.

Nas primeiras cinquenta orações.

“Em relação à mente, medites ao máximo:

1. É a Senhoria real, que mede os méritos e os prêmios, porque a Santíssima Trindade mora nesta, como no seu Triclinio.

2. Em relação aos olhos, medites a luminosidade de todos os conhecimentos, de acordo com o mérito, o prêmio e a natureza divina. Onde também se manifesta a visão que tens de ti.

3. Em relação ao olfato, medita a fragrância de todas as graças. De fato está em mim toda a graça de vida e verdade.

4. Em relação à boca, medites a suma abundância, a suavidade, o sabor e a eloquência de todos os dons de Deus.

5. Em relação a garganta, medites o som e a modulação do falar e da voz, do qual Deus e todos os Santos se agradaram”.

No segundo grupo de cinquenta orações.

1. Em relação ao ouvido, medites sobre o porquê as tuas palavras ressoam sempre nos meus ouvidos, como o acordo de todas as virtudes e os dons de graça.

2. Em relação ao estomago, medites que esse seja o depósito de toda a suavidade e prazer.

3. Em relação aos seios, medites que esses contenham cada consolação e doçura.

4. Em relação ao braço esquerdo, (medites) que nesse esteja contido toda a vantagem de graça e de glória natural.

5. Em relação ao direito, (medites que neste esteja contido) os infinitos tipos de todas as alegrias.

No terceiro grupo de cinquenta orações.

1. Em relação ao ventre, medites a potência imensa de dar à luz e o quanto é máximo o respeito materno.

2. Em relação aos fêmures, (medites) a grandíssima força.

3. Em relação aos joelhos, (medites) a graça incansável de salvar e de libertar dos males.

4. Em relação as tíbias, (medites) a unção, que está em quase todos os Sacramentos.

5. Em relação aos pés, medites o dom da agilidade, da constância, etc. E estas coisas (medita também) sobre o corpo beato”.

IV. “Em relação à Alma, depois, em maneira apropriada, podes meditar e ao mesmo tempo orar, voando pelo Intelecto, a Vontade, a Memória, a potência Irascível e aquela Desejável: ao mesmo tempo (voando) pelo sentido comum a todos, à Imaginação, à Fantasia, ao Discernimento e à Recordação. Assim as potências dos cinco sentidos interiores. Em cada um destes venerarás as coisas espirituais, que são infinitamente melhores, mais dignas, mais verdadeiras, mais sanas, mais puras, mais claras, etc., do que as coisas criadas neste mundo”.

V. Ao esposo que pensa: Aquelas coisas podem ser pura fantasia e imaginação? A Senhora responde: “São verdadeiras por três motivos.

1. O revelo com a razão. De fato, a Santíssima Trindade é por toda a natureza, potência e presença: por isso é também em cada imagem criada, especialmente na figura de Santa Maria, à qual, desde a eternidade foi concebida na mente divina, e esposada com Deus. E assim a Santíssima Trindade é mais presente em todas as coisas criadas, do que a forma dentro da matéria, ou a posição em um lugar. Aqui existe um ser divino, no qual não existe falsidade.

2. Eis um exemplo evidente. Logo depois o Esposo observava na Esposa Mãe de Deus, e também em cada parte (do corpo) dela, todo o mundo e inumeráveis outros mundos, e parecia que uma coisa, estava contida em outra. Esta é a visão do corpo.

3. Em relação à alma, o Esposo acreditava que todas as partes da alma tinham sido absorvidas e levadas ao espírito da Virgem Maria e mais do que antes, a mesma Maria viu, sentiu e pôde cada coisa. Então o Esposo obteve o beijo e dos seios divinos foi alimentado, etc.

VI. Da mesma forma, por intercessão da Mãe de Deus, viu as mesmas coisas na imagem de Cristo e dos Santos. Os Santos, porém, pareciam evitar serem honrados e imaginados nas mentes humanas na pura natureza humana, que não estimam por nada. Devem, porém, ser honrados assim e o fazem por disposição da Santíssima Trindade.

VII. Observa então o seu grau e diferença, diz a Esposa. Desejam ser honrados com o culto, a Santíssima Trindade, Cristo, eu e os Santos, e este em duas formas.

1. A (forma) principal é a submissão à Santíssima Trindade, que deve ser adorada.

2. Logo depois, ou seja a segunda (forma) é que pelo culto, Cristo escolheu a mim antes de todos:86 Eu então estou antes de todos os outros, em modo absoluto. Adora-se a (Santíssima Trindade), e venera-se a (mim). E a Santíssima Trindade, por conta da alma de Maria, é a Esposa de todos os Beatos e de Cristo: assim também Cristo, que é o Esposo de todos aqueles que devem ser salvos”. Nesse modo, aquele novo Esposo frequentemente teve um colóquio verdadeiramente habitual com Cristo e com Maria.

86 Entendemos que seja “expedit” e não “exedit”, porque se não a frase não teria senso.

CAPÍTULO VII

Breves revelações feitas por parte da Mãe de Deus ao BEATO ALANO

1. À Santíssima Trindade os homens não podem oferecer nada de mais agradável do que o Louvor do Saltério; seja com (o Saltério) de Davi, onde em cada Salmo está contido todo o Pai Nosso e a Ave-Maria; seja com o nosso (Saltério) de Cristo ou de Maria. Por isso louvais o Senhor e a Senhora através do Saltério.

2. Porque este agrada muito a Deus, o revelou a Mãe de Deus ao Venerável Beda, a São Domingos, à Santa Catarina de Siena e ao seu Esposo, que costumava recitar o Saltério há muito tempo.

3. Também assim no Coro recitava os Salmos, visto que se imaginava que Cristo estivesse à direita do Altar, e a Virgem Maria à esquerda do mesmo, aos quais dirigia com ardor em alternância os Salmos.

Assim também São Domingos normalmente orava os salmos.

4. No (recitar o) Saltério de Maria depois, aquele Esposo era particularmente luminoso, de uma admirável alegria unida a uma inexplicável exultação.

Em tal circunstância aconteceu uma vez, que a Santíssima Esposa Virgem Maria se dignou de fazê-lo brevíssimas Revelações. E estas são expostas em seguida, assim como as palavras são da Mãe de Deus.

I. “Maria Santíssima, qualquer coisa que tenha pedido a Deus, certamente a obterá: qualquer coisa, por maior que seja e por quanto Deus possa ser contrário ao pedido”.

II. “Assim ordenou Deus, que a ninguém será concedida a misericórdia, a não ser pela forte oração de Maria Santíssima”.

III. “O mundo há muito tempo já teria se perdido, se a Virgem Maria com o seu socorro não o tivesse defendido”.

IV. “Ela ama a tal ponto a salvação de qualquer pecador, que se Deus o permitisse, estaria pronta há suportar cada dia as penas do mundo e do Inferno (exceto o pecado), pela reparação de cada um. Por isso que ninguém despreze os pecadores, porque eles valem muito para a Mãe de Deus”.

V. “O menor ato de piedade oferecido à Virgem Maria, também com uma única Saudação, vale mais de mil vezes do que a devoção oferecida a outros santos (fazendo uma comparação entre um Santo e a mesma), por quanto o Céu seja maior do que qualquer estrela”.

VI. “Dentro dela existe mais misericórdia, do que em todos os Santos”.

VII. “No Novo Testamento não existe nenhum Santo, a qual maior obra não tenha buscado o louvor da Mãe de Deus. Por isso São Domingos, São Francisco, São Vicente, São Tomás, São Bernardo, etc. viviam devotos em relação a ela na devoção do Saltério”.

VIII. “Aqueles que a serviram constantemente no Saltério, receberam qualquer graça especial. Assim São Domingos, São Francisco, etc. tiveram o mérito de se tornar Fundadores das Ordens Sagradas e São Domingos mereceu ainda ser chamado Filho de Deus, Irmão de Cristo, Filho e Esposo de Maria”.

IX. “O Senhor Jesus, quando se toma a Santa Comunhão, não deixa de estar naquele que a tomou quando a hóstia consuma-se, permanecendo a graça. Em uma alma pura a (presença de Cristo) é maior, do que na hóstia: visto que a finalidade e a razão do seu estar na hóstia é de estar na alma. E esta (presença na alma) é tanto melhor (do que a presença nas Sagradas hóstias), quanto à alma o é em confronto às simples hóstias. De certa forma está (nas hóstias) e em outra alma. O novo Esposo, depois da Comunhão, sensível e espiritualmente sente Cristo, vivo em si. Do mesmo modo também Santa Catarina de Siena e muitos outros Santos”.

X. “A nossa Advogada, ama mais do que qualquer um possa jamais (amar) algum (outro)”.

XI. “Uma só Ave-Maria dita é mais preciosa do que qualquer coisa sob o Céu ou mais preciosa do que qualquer dom temporal do corpo, da alma, da vida, etc.”.

XII. “O culto aos Santos é como prata, o culto a mim é como ouro, a Cristo é como ornado de pedras preciosas, à Santíssima Trindade é como o esplendor das estrelas”.

XIII. “Como no mundo o sol tem mais valor do que todas as estrelas, assim eu socorro os meus pequenos servos, mais do que os Santos”.

XIV. “Os favores feitos aos Santos são quase nada, se não são animados, depois de Cristo, dos meus méritos e da minha luz”.

XV. “Os meus verdadeiros Salmodiantes moram fortificados pelos Sacramentos: não perdem a palavra ou o uso da razão”.

XVI. “O serviço demonstrado a mim, procura alegria a todos os Santos”.

XVII. “Os nomes de Jesus e de Maria são dois fornos de caridade, nos quais estão ardentes e derrotados os demônios: e as mentes dos devotos são purificadas por estes, a devoção é inflamada, a carne é castigada”.

XVIII. “Como pela geração do Filho de Deus e a reparação do mundo, Deus escolheu a Saudação Angélica, assim, aqueles que se dedicam com zelo a gerar e renovar os outros, ocorre que me saúdem com a Ave Maria”.

XIX. “Como Deus, através de mim, assim como através da Estrada, chega aos homens, é necessário que também estes, logo depois de Cristo, cheguem através de mim, às virtudes e às graças”.

XX. “Saibas, que Deus Pai me tomou como Esposa, o Filho como Mãe, o Espírito Santo como amiga, a Santíssima Trindade como Triclínio, e assim amo ser venerada”.

XXI. “Os meus verdadeiros Salmodiantes superam a maior parte na glória: em geral são postos na primeira hierarquia, dita Epifania”.

XXII. “No mundo glorioso existe a unidade espiritual dos Santos, e se verá todas as coisas em qualquer outra coisa; mas em mim (esta unidade) é máxima. E qualquer Esposo e Esposa são unidos espiritualmente na castíssima alegria do Amor de Deus”.

XXIII. “Todos os dias liberto alguns do Purgatório”.

XXIV. “Se os homens soubessem e meditassem sobre a visão beatífica, chegariam a brevíssimo tempo a mais alta caridade, fé, esperança e temor de Deus”.

XXV. “Meu Esposo, quero que tu penses que Cristo é todo em ti, a sua testa na tua testa, o pé no pé e assim também os outros membros. Visto que não posso te ver em tal modo, na verdade te abraçarei docemente, e tu vencerás todas as adversidades”.

XXVI. “A Missa é a memória da Paixão do meu Filho, e queria ainda sofrer por aqueles que escutam a Missa, outras tantas vezes, quantas vezes pudesse: substituir com o seu mérito infinito”.

XXVII. “A Virgem Maria, todas as vezes que viu que o novo Esposo se revestiu de Cristo, gozou em o chamar de forma docíssima e em respeito com o nome de Esposo. E então ele sente nos seus membros uma maravilhosa potência”.

XXVIII. “Aqueles que celebram a Missa devem ter tanta caridade, a ponto de querer ser crucificados por aqueles pelos quais oferecem o Sacrifício”.

XXIX. “Muito frequentemente, em certo modo concebo e parto Cristo, por motivo das virtudes operadas pelos meus servos, e abraço Ele e estes, etc.”.

XXX. “É um ato bastante devoto, se elevar com a mente pela verdade da fé, a escada para Deus, e imaginar os degraus um a um, como se fosse verdadeiramente visível”.

XXXI. “É espiritual o matrimônio entre os anjos e os homens: por isso se deve (tributar) a eles, uma grande reverência, são de fato os Custódios de cada um, e Eu sou a Custódia universal de todos; e os meus olhos, assim como os olhos de Deus, estão acima dos bons e dos maus”.

XXXII. “Deus é o Esposo amável de todos os devotos e de cada um. O matrimônio depois acontece, não considerando si mesmo e maximamente sempre Deus: e devolvendo si mesmo a Deus, até ao ponto de existir, compreender, querer, agir, sofrer, poder e toda a outra coisa”.

XXXIII. “O novo Esposo, era um grande pecador, eu preguei por ti com o desejo de enfrentar por ti, se fosse possível, todas as penas, para que te salvasse. Porque os pecadores convertidos são a minha gloria”.

CAPÍTULO VIII

Visão que o SANTO ALANO teve da assunção da Santíssima Virgem Maria.

I. O Saltério de Maria se opõe a todas as maquinações e às sujeiras do diabo, da carne e do mundo, porque através da Saudação, o Verbo de Deus, que se fez Carne veio ao mundo. Onde São Jerônimo disse: Com razão Maria é rainha de todos, porque gerando o Verbo de Deus, regenerou todas as coisas do mundo. Esta (verdade de fé) é proclamada no prelúdio da Assunção.

O novo Esposo de Maria, na festa da Santíssima Virgem Maria Assunta nos Céus, depois de ter recebido os celestes Sacramentos, brevemente contemplou a maravilhosa Assunção da Virgem Maria. Viu como ocorreu, quando ela em Jerusalém acalmou-se, entre os apóstolos que a circundavam como uma coroa.

1. Viu a alma dela, sete vezes mais esplendente do que o sol, enquanto avançava pelo Templo do corpo, e se lançava com admirável celebridade entre os braços do filho Esposo Jesus Cristo, estando presente a Igreja triunfante, e, sobretudo o Coro dos Anjos, destinado para a proteção dos homens. Apenas chegou às portas do Céu, se ouviu a voz de Jesus; Levantais as vossas portas principais, e elevais as portas eternas; e entrarão o Rei e a Rainha da Glória: no mesmo tempo entrava o Senhor forte e potente na batalha com a Esposa, que se apoiava sobre o seu Esposo.

2. Aqui manifestam-se de repente as exultações celestes, e ao mesmo tempo as Legiões Celestes se encontraram, e tendo se ajoelhado, com uma harmonia melódica de diversos sons, aclamam a Angélica Saudação, com um indescritível triunfo, reverência, felicidade e solenidade. Nenhum dos Celestes era visto sem um Saltério musical, não ouvindo nada que não fosse a Saudação Angélica, com uma suavidade de admirável melodia.

3. Entre as outras coisas, etc.

ESQUEMA DO SALTÉRIO

história e revelação do Santíssimo Rosário.

II. (O Saltério) era similar a um instrumento grandíssimo, que sozinho continha cento e cinquenta Saltérios, cada um dos quais era composto igualmente de cento e cinquenta bastões. Em cada bastão, de uma forma maravilhosa, tocavam novamente cento e cinquenta modulações, em grandes acordes.

O Santo Arcanjo Miguel se divertia nisto, como um Músico e estavam ao redor cento e cinquenta concertistas; próximo a estes, estava o Anjo que servia Cristo, quando era peregrino.

Parecem que, por fim os mortos pudessem ser ressuscitados pelo canto.

O Esposo que ali escutava, sentia que era levado pelo maravilhoso amor de Cristo e de Maria.

4. Os coros se alternavam e depois que tinham cantado sobre aquele glorioso Saltério: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”, respondia a inteira corte dos Céus: “Bendita seja vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus Cristo”. Deste nome acontecia uma única repetição, e (iniciava) súbito uma nova melodia, e assim continuamente: nem nunca se repetia o mesmo significado e compreensão das palavras. Parecia que este Saltério tivesse recebido a infinita Sabedoria de Deus.

5. O Esposo depois sente que a sua Guia o dizia: Todo o mundo através desta sentença foi perdoado, e o Rei dos Céus se encarnou e foram reparadas as ruínas dos Anjos. Por este motivo os espíritos angelicais cantaram eternamente, este Cântico novo a Deus.

Aproximando-se depois de todos os Celestes de Maria nas várias legiões (em cada uma das quais o número não era superior a cento e cinquenta), cada um o oferecia este próprio Saltério.

6. Visto que o Esposo estava bastante surpreso, um dos que estavam presentes disse: Do que te surpreendes? Este número é santíssimo e é representado na Arca de Noé, no Tabernáculo de Moisés, no Templo de Salomão: e este através de vários números de dez, que muito frequentemente se repetiram diante deste mistério; este (é o número) da medida do templo novo, visto por Ezequiel. Com os Salmos de Davi, o número cento e cinquenta é de uso comum: e (os Salmos) profetizam a todos em volta a Cristo e à Mãe de Cristo. Este é de fato o verdadeiro e vivo Saltério da Santíssima Trindade, e por isso de toda, e as Igrejas87. Por isso se oferece no Saltério dos homens, orações em igual número, àquelas que alegram os Celestes, e é honrado Deus. Deus quis, por isso, que tu aqui escutasses e visses coisas tão grandes, para que tu pregues a todos que estas orações agradam tanto a Deus.

87 Trata-se da Igreja peregrina e militante sobre a terra, e daquela triunfante no Céu.

III. (Sobre o) pregar: “O grande momento crítico do mundo pede o Saltério, por causa dos males que o perseguem. Qualquer um que o pegar, sentirá a força e o sustento destes: aquele que o desprestigiar, será arrastado pelo males futuros. Uma miserável devastação ameaça o mundo: e somente o Saltério Angélico, que já recuperou o mundo, agora pode novamente salvá-lo”. O Esposo ouviu isto e, orientando por acaso os olhos ao mundo a ele inferior, viu três coisas bastante desmedidas avançarem contra esse.

1. Das extremidades viu um abismo de imensa profundidade, do qual uma fumaça misturada com fogo obscuro se levantava e levava devastação ao mundo. E se ouviu então a voz de uma águia que voava e gritava: “Maldição à carne e ao sangue, no incêndio, todo o mundo arde em fogo”.

2. Em outra região viu uma horrível preparação para a guerra se expandir e se desencadear, gerando uma imensa devastação, junto com tempestades, raios e trovões em todo o mundo. E entre estas coisas uma voz de mulher gritava: Os males geram desgraça ao mundo. E gritava ainda: Visto que não existe misericórdia no mundo: não peçam mais clemência ao Céu, visto que se aproxima o fim, se aproxima o fim.

3. Em uma outra região, ele via inumeráveis grupos de demônios, que com duas chagas faziam precipitar quase todo o mundo no abismo do inferno, com cento e cinquenta fornos, além de infinitos tormentos de todos os tipos.

Que fim de mundo! Que horror provinha dali! Sente que as três chagas ditas, eram devidas aos três males do mundo, à Luxúria, à Avareza, à Soberba, e contra estas tinha eficácia o Saltério.

IV. Entretanto o Rei Jesus fez a Rainha do Céu subir acima dos Coros dos Anjos e a disse: “Minha Mãe, Esposa e Virgem Rainha, é justo te apresentar a Santíssima Trindade, e os teus méritos, por ter vindo em socorro ao mundo. Aqueles que chegam da terra, consagrando a si mesmos a Santíssima Trindade, oferecem os seus dons e méritos à mesma (SS. Trindade). Serei eu a tua Guia: estais para entrar na posse, de fato, dos Reinos Celestes”. Disse: e depois de ter dito isto, eis imediatamente, o novo Esposo viu diante dele uma coisa espetacular.

A (PRIMEIRA) VISÃO DO SALTÉRIO

Apareceram quinze rainhas bastante majestosas, acima dos mortais: e ao redor de cada uma estavam as próprias Servas.

1. As primeiras cinco rainhas, junto com suas cinquenta servas, levavam diante (de Maria Santíssima) cinco Rosas de beleza maravilhosa: se via escrito em letras de ouro sobre a primeira destas: “Ave”, sobre a segunda: “Maria”, sobre a terceira: “Cheia”, sobre a quarta: “Graças”, sobre a quinta: “Senhor”.

2. Outras cinco rainhas, junto com suas cinquenta servas, levavam cinco Gemas de grandíssimo valor: sobre a primeira destas estava escrito “Contigo”, sobre a segunda: “Bendita”, sobre a terceira: “Tu”, sobre a quarta: “Entre as mulheres”, sobre a quinta: “E Bendito”.

3. As últimas cinco rainhas, junto com suas cinquenta servas, levavam diante da Mãe de Deus, cinco estrelas. Sobre a primeira destas estava escrito: “Fruto”, sobre a segunda: “Teu”, sobre a terceira: “Ventre”, sobre a quarta: “Jesus”, sobre a quinta: “Cristo”.

Então seu Filho dizia à Mãe: “Docíssima Mãe, Esposa caríssima; três são os sumos Impérios dos Céus, e os três são Um só (Império): aquele Paterno, aquele Filial e aquele Espiritual, e cada um (desses) possui cinco reinos próprios. É justo que tu sejas a Rainha dos Céus, não somente participante e consorte, como são todos os Santos, mas também que Tu sejas a Senhora dos Impérios. Coragem: eis a ti”.

O PRIMEIRO: O IMPÉRIO DO PAI

V. Desse, cinco são os Reinos que estão de acordo com o Pai: 1. A Paternidade; 2. A Unidade; 3. A Potência; 4. A Eternidade; 5. A Criação.

Estes, isoladamente e juntos, são imensos, adoráveis, divinos. Então a Santa Virgem Mãe, suplicante, com muita humildade, disse ao Imperador e Pai Onipotente: Ave Pai, Ser dos Seres. Eis por mim e por todos os meus salmodiantes ofereço esta Rosa, precedentemente doada na tua graça. Ao mesmo tempo, da mão da primeira Rainha, ela recebeu a Rosa ornada da inscrição “Ave” e a ofereceu ao Pai pelo Reino Imperial da Paternidade.

Recebida a Rosa da Paternidade, o Pai disse: Esta rosa é digna e gloriosa!

Por causa desta, serás para sempre Rainha do Reino do Pai, como Mãe única de todos os Seres. Visto que diante da Ave gerou meu Filho, o Criador de todas as coisas. Ao Esposo parecia que toda a Corte Celeste escrevesse em um Livro esta doação, feita à Maria e aos Salmodiantes dela.

II. Apresentando-se ao Rei, e ao Reino da Unidade, Maria, oferecendo uma Rosa, disse: Ave, Rei das Luzes, eis a Rosa da unidade infinita, da qual derivam todas as coisas; eu, Maria, ofereço por mim e pelos meus, como tu sabes e queres.

Recebida, o Rei disse: Tu serás a Rainha bendita no Reino da minha Unidade. Quero que as Unidades dos Seres, juntas e isoladamente, estejam sob o teu poder.

III. Ela oferecendo uma Rosa, escrito “Graças”, se apresentava ao Rei e ao Reino da Potência, dizendo: Ave Gracioso Rei: eis esta doação por mim e pelos meus servos Salmodiantes. Espero que tu gostes e te acalme. O Rei disse a Ela: Eu gosto me acalma, e me acalmará. És tu a Rainha do meu Poder; e que tu sejas Rainha sobre cada poder no Céu e na terra. Visto que tu geraste o Filho, Potência do Pai, que é a Graça do mundo.

IV. Introduzida pelo Rei no Reino da Eternidade, suplicante dizia: Rei receba a Rosa “Cheia” de mim e dos meus servos. O Rei disse a Ela: Tu Mãe da Plena Eternidade, em recompensa do teu mérito, recebes, Rainha, este Reino da Eternidade.

V. Oferecendo do mesmo modo a Rosa ao Rei, e ao Reino da Criação, o Senhor disse: A Rainha recebe o Reino da Criação, visto que gerou o Filho Criador. Depois disto quanto é grande a exultação de todos?

O SEGUNDO: O IMPÉRIO DO FILHO

A este Império pertencem cinco Reinos da Exultação, conforme as propriedades do Filho: 1. A Filiação; 2. O Verbo; 3. A Sabedoria; 4. A Redenção; 5. A Providência. A Virgem que se devia apresentar ao Rei e ao Reino de cada um destes, seguia humildíssima o Guia.

I. Por isso falando normalmente, ofereceu por si e pelos seus salmodiantes a Pedra preciosa “Contigo”, ao Rei da Filiação, para o Rei dos Filhos de Deus.

II. Igualmente dá ao Rei a Pedra “Bendita”, pelo Reino do Verbo Encarnado; e a Rainha o recebe.

III. Para o Reino da Sabedoria, dá ao Rei a Pedra “Teu”, e se torna Rainha da Sabedoria.

IV. Para o Reino da Redenção, dá a Pedra: “Entre as Mulheres”, e se torna Rainha da Sabedoria.

V. Para o Reino da Providência, dá a Pedra: “E Bendito”, e recebe o Reino. Aqui novamente cantam novas exultações dos Celestes e louvores maravilhosos.

O TERCEIRO: O IMPÉRIO DO ESPÍRITO (SANTO)

Este Império possui igualmente cinco Reinos, conforme as propriedades do Espírito Santo: 1. O Espírito Santificador; 2. Os Dons; 3. A Missão; 4. A Bondade; 5. A Custódia.

I. Ao Rei Espírito Santo, a suplicante oferece a estrela em que estava escrito: “Fruto”. E o Rei a disse: Amiga caríssima ocupa o Reino de todos os Espíritos: que seja feita a tua vontade sobre esses. Porque concebestes com boa vontade o Fruto do Espírito Santo.

II. Ela então oferece a estrela em que estava escrito: “Ventre”, para o Reino dos Dons. Diante desta o Rei disse: Sim Rainha dos Dons de Deus; e a ninguém será dado algum dom natural, moral, de graça, e de glória se tu não és cooperadora e mediadora.

III. Ela oferece a estrela em que estava escrito: “Teu”, para o Reino da Missão. Então o Rei disse: Assim como através do teu Ventre bendito foram dados ao mundo todos os bens: igualmente a minha aparição, suma Missão, foi conhecida através da Missão dada a Ti, de gerar o Filho.

Por isso tu serás Rainha de todas as Missões nos dois mundos, e nenhuma mudança acontecerá sem o teu consenso.

IV. Ela então dá a estrela em que estava escrito: “Jesus”, para o Reino da Bondade, e o Rei disse: Tu serás a Rainha da Bondade. E eu a ninguém a comunicarei, sem a tua mediação.

V. Ela que entrega a estrela em que estava escrito: “Cristo”, para o Reino da Custódia, e o Rei disse: Não quero que seja tutelado sem ti, nada, do que está na natureza, nem na graça. Tu de fato, Rainha Conservadora, gerastes o Salvador do mundo.

Depois disto, novamente ocorreram imensas exaltações.

EIS A CONCLUSÃO

VI. Enfim, (Maria SS) oferecia a si mesma, à Santíssima Trindade, por si e pelos seus servos Salmodiantes. E a Ela Deus disse: Disponho e quero que as doações a ti feitas sejam válidas eternamente. Tu serás o nobre Triclínio da Santíssima Trindade: Eu assim serei inteiramente em ti, e tu serás inteiramente em Mim: não pela Assunção, mas especialmente pela glorificação. Nunca negarei nada à tua vontade. Depois destas coisas: Porque ligaste aquelas quinze Doações aos meus dez Preceitos, as minhas dez principais Virtudes contrárias aos dez Vícios do mundo, as dez subdivisões da natureza a renovar: por isso quero que no Céu e na terra, sob este número tu sejas louvada no Saltério. No final a Esposa, voltada ao Esposo, disse: Prega as coisas que vistes e que escutastes. Não tenhas temor: eu estou contigo; ajudarei a Ti e a todos os meus Salmodiantes. Eu castigarei aqueles que se opõem a Ti: irão à ruína; como vistes que muitos morreram através de uma forma ruim.

Agora, porém, presta atenção.

CAPITULO IX

Segunda parte da Visão. A luta entre a Misericórdia da Rainha e a Justiça, etc.

NOTA.

A Santíssima Virgem, no final do capítulo, recorda ao BEATO ALANO: no Céu existe uma suma paz, nenhuma discórdia, não existe mudança em Deus: mas à inteligência humana, assim se apresenta nos diferentes tempos, da Lei, e do Evangelho; a ira de Deus a eliminará com a sua Graça.

I. O Saltério de Maria é a Chave e o Vaso da Misericórdia: é como o vaso d’água de Rebeca, que refresca os viajantes da Fonte da Mãe da Misericórdia (Gen.24). Assim ensina a segunda parte da Visão, e a afastar os males através do Saltério, assim como também e principalmente, a pedir as coisas boas. Àquela visão claríssima tida pelo Novo Esposo, se seguiu outra, bastante severa e confortante. Eis a nova (visão).

A (SEGUNDA VISÃO) DO SALTÉRIO

Maria já tinha sido instituída Imperatriz dos três eternos Impérios nos Céus e Rainha dos quinze Reinos, e estava para iniciar de forma feliz o seu Império da Misericórdia.

Eis, (apareceram outros) três (Impérios) maiores, do lado oposto, (que são os Impérios) do homem, do mundo que caiu e do mundo usurpado (de Deus); com grande agitação estes impérios se movem, e surgem contra a extraordinária Misericórdia de Deus e da Mãe de Deus. Assim pareceu acontecer a coisa. Deus, irado pela queda dos primeiros homens, tendo assim colocado de lado a Clemência, iniciou a governar quem o era submisso com o cetro de ferro do seu Poder, Justiça e Verdade: agora, como o homem recebeu a reparação do Filho, foi acalmado liberou os freios da Misericórdia no mundo do seu Império; mas para isso, o novo tríplice Império, foi necessário que fosse suprimido o Antigo Tríplice Império usurpado (de Deus). Portanto as Três (servas) dessa Imperatriz, a Potência, a Justiça e a Verdade, juntas dizem: A Soberana Misericórdia sozinha governa todas as coisas? Se cedermos, pereceremos. Será destruída a Lei, cessará a Potência de Deus sobre os maus, e também a Justiça contra estes, e mesmo a Sentença da Verdade sobre a condenação dos cativos.

Então: queremos combater? Todos estavam de acordo. Coisas a serem vistas com admiração! Ao Esposo (isto) aparecia praticamente diante dos olhos, como se as visse: A POTÊNCIA DO IMPÉRIO DO PAI.

II. Esta Imperatriz se move com a sua grande dimensão, e avança em batalha. A seguem cinco pérfidas Rainhas: (1. Maldição; 2. Ignorância; 3. Dureza; 4. Pobreza; 5. Escravidão). Inumeráveis legiões ameaçadoras semelhantes a estas eram presentes, desordenadas e com grande confusão.

Estavam ali. Estava também naquele lugar a Soberana Misericórdia de Maria, junto com a Potência. Esta, confiando nas armas da Misericórdia e das Virtudes, e nos Méritos de Cristo, dela (Maria SS) e dos Santos, e daqueles que estavam sentados sobre os cavalos brancos; depois de ter enviado bandeiras contra o exército inimigo, veio, viu e venceu. Pegou aquela severa Potência do Pai, juntou às suas Rainhas e a todas as milícias.

Eram todas de gigantesca grandeza e de uma força invencível. Aquelas que tinham as mãos presas nas costas, a Rainha Maria disse: “Soberanas potentíssimas, é justo que a vontade de Deus seja observada, que a Sabedoria seja cumprida, que a bondade seja mantida? Visto que ele me chamou, eu que não sou merecedora da sua graça especial, (me tornei) Imperatriz de Misericórdia, era necessário que o meu Império fosse defendido por mim com todas as forças. Vós, ameaçadoras, a mais de quatro mil anos afastam a misericórdia do mundo, fechada somente nos Céus. Agora (assim parece justo a Deus) Eu, Rainha vossa e de todos, pela Autoridade da Santíssima Trindade vos libero e declaro que sois livres. Ao mesmo tempo vos nomeio Soberanas da Misericórdia, e vos restituo aos Reinos.

I. Por isso tu, Maldição, te retires: que se aproxime a minha Benção no Reino da “Ave”, que é sem Culpa.

II. Ignorância, por muito tempo poderosa no mundo, desapareça: iluminação, avances no Reino de “Maria”.

III E tu Dureza, fujas: Boa Graça te aproximes ao Reino da “Graça”.

IV. Ah, gigante Pobreza, que eliminastes até agora todas as coisas boas, te afastes: e tu, Plenitude, entres na penúria e reines “Plena” no Reino.

V. Cruel Escravidão, porque persegues? Desapareces: Te aproximes, Liberdade dos filhos de Deus, e reines no Reino do “Senhor”.

Escutem: todos vós Salmodiantes, meus súditos que servem a Cristo e a mim, escutais, pegais os vossos privilégios.

Quero que os meus Salmodiantes na vida, na morte, e depois da morte, tenham a Benção, a Iluminação, a Graça, a Plenitude e a Liberdade e reinem ilesos e seguros da Maldição, Ignorância, Dureza, Pobreza e Escravidão.

II. A JUSTIÇA DO IMPÉRIO DO FILHO

III. Esta Imperatriz, quando soube da prisão da irmã, se precipitou às armas e chamou às armas as suas cinco Rainhas aliadas. Voaram estas cruéis, com uma massa de males (1. Peregrinação; 2. Infâmia; 3. Severidade; 4. Impiedade; 5. Má Sorte). Agrupam-se e partem para a ofensiva no combate contra a Mãe de Deus, Rainha da Misericórdia.

Acontece o assalto e a força de Maria vence a Violência e a Justiça, capturando os seus exércitos. Com a cabeça ferida, as mãos e os pés amarrados, a Justiça disse à Misericórdia de Maria: Feristes o meu coração, minha irmã: de fato os teus raios aguçados e os carvões que disseminam desolação penetram, e avançam. E a esse disse a Clemente Maria: Por muito tempo e muito duramente dominastes sobre os filhos de Adão, ordeno o final e a conclusão ao teu Império. Eu desejo que comande a Misericórdia, (e quero) que de agora em diante as tuas pérfidas Soberanas façam desse modo. E tu, I. Peregrinação pare de maltratar os exilados e fugitivos sob o céu, os míseros mortais e os estrangeiros sobre a terra e no limbo. Afastados: Aproximes-te minha Rainha Hospitalidade e pegues o teu Reino “Contigo”.

II. Infâmia, ignorante e hostil ao nome humano: vá embora. Entre a Boa Fama e pegues o Reino, “Bendita”.

III. Severidade, ora infere cruelmente: afaste-te do Reino: por longo tempo rejeitastes e retardastes o Mediador. Tu, Conciliação, pegues o Reino “Tu”.

IV. Impiedade te afaste e evita os Reinos, (vem) tu Piedade, no Reino “entre as mulheres”.

V. Má sorte te afaste: aproximes-te, Boa Sorte, ao Reino “E Bendito”. Aqui Maria: Escuteis vós todos, os edito. Quero que no meu Saltério os Salmodiantes tenham em mim o Triclínio da Santíssima Trindade: 1. Hospitalidade. 2. Boa fama junto a Deus. 3. Mediação minha, do Filho e dos Santos. 4. Piedade e 5. Boa Sorte; “e sejam libertos por todas as coisas contrárias a estas, porque obedecem a mim nos Reinos: contigo, Bendita, Tu, entre as mulheres, e Bendito”.

III. A VERDADE DO IMPÉRIO DO ESPÍRITO (SANTO)

IV. Conhecida estas coisas, se lança na batalha, junto às cinco aliadas e todo o Reino, inventa novos (planos), que se acrescentam àqueles de antes.

Maria invade, combate e com a ajuda do Espírito Santo a vence e, a trazendo junto aos seus, na porta do tribunal da SS. Trindade, onde Maria disse do alto: “Essa é aquela que até este momento privou da verdade os filhos do nosso pai Adão, e os manteve amarrados na sombra tenebrosa, saias agora, e abandones o Império. Afastes-te também das suas Soberanas: (1. Esterilidade; 2. Infecundidade; 3. Pobreza; 4. Prisão; 5. Morte ruim). Te afastes dos nossos Reinos: o Fruto, do Ventre, Teu, Jesus Cristo.

No lugar destas entrais vós, exultante Rainha do Espírito Santo: 1. Frutificativa. 2. Fecundidade. 3. Abundância. 4. Liberdade 5. Saúde e Vida Santa. Quero que os meus Salmodiantes gozem destas coisas, e sejam privados das coisas contrárias a estas.

A CONCLUSÃO

V. A SS. Trindade, expectadora de tão grandes conflitos, suplicada pela Potência, pela Justiça e pela Verdade, que eram prisioneiras, responde: Filhas caríssimas, a minha filha Paz, seja árbitra entre vós. Escutem-na.

Aqui estava a belíssima Paz e disse: “Seja dado a cada um aquilo que é seu e seja feita Paz na sua Virtude. Três vezes SS. Trindade, eu estabeleci uma dúplice Sentença. A primeira: Maria escolheu a melhor parte dos quinze Reinos, que é a Misericórdia. Por isso cada um, no Saltério de Cristo e de Maria, deve servir submisso ao Império das outras (Rainhas) já derrotadas: mas (deve) exultar beato no Reino de Maria”. O Onipotente aprovou e toda a Corte do Céu aplaudiu. Novamente com voz terrível, a Paz proclama a segunda parte da Sentença para os prisioneiros. “A Potência, a Justiça e a Verdade voltam a exercer o (seu) Domínio: mas impõe a dura submissão àqueles que, nos Reinos da Misericórdia, rejeitam de ser submissos à bandeira do Saltério de Cristo e de Maria pelo desprezo da soberba, pela negligência da preguiça ou pela eternidade”. A voz dos Santos juntos gritava: “Seja feito, seja feito. Amém, amém”. A Verdade, sorrindo, acrescentou:

VI. “Certamente, três vezes Virgem Maria, Imperatriz digníssima, o teu Reino será pequeníssimo, o nosso grandíssimo. Visto que uma parte muito pequena se dobrará a bandeira do pregar, do levar e do difundir o Saltério.

Estreita é a estrada que conduz ao Céu, e poucos entram através dessa. A maior parte geme, é servida, se purifica sob a nossa sumidade, e esta purificação é incessante”.

UMA NOTA DE CAUTELA

Enfim, voltando-se ao seu Esposo, a máxima Santa avisa: “Não acreditem que nos Céus se faz a guerra e se semeia a discórdia. Não acreditem nisso. Aqui a paz é infinita. Vistes essas coisas, como se tivessem acontecido, para a vantagem tua e dos homens que devem ser instruídos por ti, para anunciar aos homens, a Graça de Deus e do Saltério, que veio para mudar a Ira em Graça”. Ela Disse e ao mesmo tempo o deu um beijo e o amamentou através de seu Seio para confirmar a verdade. E depois de ter sido amamentado, regurgitou de tão grande exultação, que parecia ser desgostoso de todas as coisas humanas e terrenas. Assim aquele Esposo, restituiu as coisas humanas e a sua humanidade, compreendidas então que é por esta visão que a Igreja canta na Assunção: Hoje Maria ascende aos Céus, vos alegrais: visto que com Cristo Reina em Eterno.

CAPÍTULO X

As preciosidades da Saudação Angélica reveladas por Jesus, ao Esposo de Maria.

O novo Esposo de Maria, sem merecer viu e ouviu o que se segue: Jesus disse à Mãe: Docíssima Mãe e Esposa, muito me agrada que tu sejas louvada na Saudação Angélica. Por isto, me alegra revelar ao teu Esposo os louvores contidos na tua Dignidade. Voltando-se a ele (ao novo Esposo) Jesus disse: Filho meu: aparecendo a ti visivelmente, explico que coisa inconscientemente oferece à Mãe de Deus quando a dizes, muito devotamente, a Ave. O Esposo responde: O amor e a alegria dos corações, docíssimos de Jesus: te agradeço pela tua suma graça e piedade, com a qual te dignasses em visitar a mim indigno pecador, restituo não quanto deveria, mas quanto sou capaz; ao mesmo tempo te peço muito humildemente: ensine-me as coisas que não conheço. Jesus disse: meu Filho escuta através das grandes coisas do mundo, quais são as preciosidades na Mãe de Deus.

AS SETENTA E DUAS SUPERIORIDADES DA SAUDAÇÃO ANGÉLICA

PRIMEIRO SALTÉRIO

Primeiras cinquenta orações.

“Ela é o Paraíso, no qual o novo Adão e Eva, Cristo e Maria foram colocados para a regeneração dos homens (Bernardo).

2. Ela é o Céu esplendente de estrelas das Virtudes, das Graças, das Ciências e dos Méritos (Agostinho).

3. É o Sol que adorna o mundo, o qual é guiado, iluminado, e inflamado pelo fogo da castidade (Anselmo).

4. É a Fonte da vida na Igreja, na qual os pecadores se lavam, os doentes se curam, os sedentos matam a sede e se regam as hortas das ciências (Agostinho).

5. É a arvore da vida que ressuscita os mortos, cura os doentes e salva os vivos. (Jerônimo)”.

Segundo grupo de cinquenta orações.

“6. É a arvore do conhecimento do bem e do mal, o qual provar me ensina a fazer o bem e a fugir do mal (Anselmo).

7. É o jardim da amenidade com as flores das virtudes, das quais é possível realizar perfumes para a salvação dos vivos e dos mortos (Anselmo).

8. É a Mina dos metais, para enriquecer e defender os meus servos, e para expulsar os inimigos (Alberto Magno).

9. É a mina das pedras preciosas, ou seja das virtudes, para coroar as almas (Agostinho).

10. É a Estrela do mar, entre as ondas do mundo e as sombras dos pecados, da qual somos guiados e iluminados, para que cheguemos no Porto (Bernardo)”.

Terceiro grupo de cinquenta orações.

“11. É o Coro de Glória, que é composto pelas pedras preciosas dos méritos, e do ouro da caridade, com a qual a minha Mãe é Coroada quantas vezes é Saudada (Agostinho).

12. É a Veste Real de Maria, com a qual são cobertos os pecadores, e são ornados os justos (Bernardo).

13. É o Castelo Celeste, não de pedra, da Trindade (Bernardo).

14. É o Jardim arborizado da amenidade com as ondas da graça e da virtude. Neste repousa a Pomba do Espírito Santo, se nutre o pintinho das graças, medita o rouxinol da consolação espiritual, perfumam a fama e a virtude (Bernardo).

15. É a Cidade construída com as pedras preciosas e com o ouro da Igreja militante (Bernardo).”.

SEGUNDO SALTÉRIO

Primeiras Cinquenta orações.

“16. A Ave é o Templo de Salomão, no qual são oferecidos a Deus: Vítimas, Votos, Sacramentos, são destruídos os pecados, são afastadas as tribulações, são obtidas as ajudas dos Santos, são escutadas as melodias dos Beatos e se encarna o Filho de Deus (Agostinho).

17. A Ave é a Vida de Engaddi, que ofereceu ao mundo o bálsamo, com o qual são curados os doentes, são iluminados os cegos, se servem os vivos e são untados os mortos (Agostinho).

18. É a Escada e a estrela de Jacó, com a qual se vai e se torna do Céu (Jerônimo).

19. A Arca do Testamento, na qual estão as Tábuas da Lei da Sabedoria de Deus e o Maná da Consolação (Bernardo).

20. É a Arca de Noé, com a qual o mundo é livre do dilúvio dos pecados e é protegido da inundação dos sofrimentos (Anselmo)”.

Segundo grupo de cinquenta orações.

“21. A Ave é o Arco-íris da Clemência, que dá o perdão à soberba, que dá ao ouro à avareza, à cor verde dá alegrias vãs, dá inconstância, etc. (Agostinho).

22. É o Monte de Deus, onde são abandonadas as coisas terrenas, ressurge o coração, se foge do incêndio de Sodoma. (Jerônimo).

23. É o Campo das sementes das virtudes (Basílio).

24. É o Órgão para alegrar os Céus: a Cetra da alegria para levantar a Igreja. A melodia para colocar em fuga os pecados. (Ambrósio; Beda).

25. É a Selva da devoção solitária, onde as feras estão sob a submissão da penitência e com rápido passo fogem do mundo (Damasceno)”.

Terceiro grupo de cinquenta orações.

“26. A Ave é o Prato da amenidade, no qual pastam os rebanhos de Cristo (Anselmo).

27. É o Rio da suavidade e da fertilidade, do qual é nutrida e irrigada a terra da Igreja (Basílio).

28. É o Mar da riqueza, sem tempestades, através do qual com segurança se vai às Estrelas (Alberto Magno).

29. É a Casa e Hotel e o Triclínio da Trindade (Ricardo de São Vitor).

30. É a Balança das obras humanas (Damasceno)”.

TERCEIRO SALTÉRIO

Primeiras Cinquenta orações.

“31. A Ave é a Biblioteca das ciências divinas e humanas (Ambrósio).

32. É a Sala dos Tesouros de Deus: da qual os Bens do Céu, de Cristo, etc. são dispensados aos necessitados. (Damasceno).

33. É a Oficina do mundo regenerado (Agostinho).

34. É a Vale, de onde nós procuramos a humildade (Hayimo).

35. É o Celeiro da Misericórdia, do qual se nutrem as almas”.

Segundo grupo de cinquenta orações.

“36. É o Altar de Deus Vivo, a nossa quiete (Orígenes).

37. É o Perfume da santa fragrância, junto do qual ofereciam as nossas obras o odor da suavidade (Beda).

38. É o Livro da Vida dos Justos (Damasceno).

39. É a Estrada do Céu, pela qual se chega à Pátria e à Recompensa (Anselmo).

40. É o Escudo, com o qual se apagam os dardos de fogo de cada mal, se vencem as adversidades (Bernardo).

Terceiro grupo de Cinquenta orações.

“41. A Ave é o Arco e a flecha para ferir os inimigos, para alcançar o triunfo do Imperador (Basílio).

42. É o cinto da Castidade, o Véu da honestidade, a Cinta da dignidade, o Anel do Matrimônio Celeste.

43. É a Coroa de flores, para coroar os Beatos (Agostinho).

44. É a Porta do Céu, para salvar as almas (Alberto Magno).

45. É o Forno onde o alimento é o Pão dos Anjos, que dá a vida ao mundo (Bernardo)”.

QUARTO SALTÉRIO

Primeiras Cinquenta orações.

46. A Ave é o muro e o tapume da Cidade contra os inimigos (Anselmo).

47. É a Nuvem de orvalho, da qual o mundo é irrigado, floresce e frutifica (Agostinho).

48. É a Dispensa dos carismas, para curar as doenças (Bernardo).

49. É o Espelho da pureza, no qual contemplam as Coisas Celestiais (Anselmo).

50. É o Mundo, com os quais o Mundo externo foi renovado”.

Segundo grupo de cinquenta orações.

“51. A Ave é o Vaso da Potência do Pai, da Sabedoria do Filho, da Bondade do Espírito Santo (Bernardo).

52. É a cidade Seráfica dos Beatos (Agostinho).

53. É o Trono dos tronos da Justiça dos Santos, junto com o qual aconteceu a Paz. É o Domínio das Dominações (Basílio).

54. É a Potência dos Poderes, contra o poder das sombras (Pier Damiani).

55. É o Diretório dos Principados, com os quais somos guiados ao Céu (Blesens)”.

Terceiro grupo de cinquenta.

“56. A Ave é a Providência maior, com a qual as Províncias se apropriam de grandes bens (Agostinho).

57. É como a primeira Inspiração dos Anjos, para exaltar a Humanidade de Cristo, contra a soberba de Lúcifer (Bernardo).

58. É a primeira Esperança dos Patriarcas, que leva à Encarnação (Agostinho).

59. É a Rainha dos Profetas, para a qual eram endereçadas as Profecias (Jerônimo).

60. É a Fé dos Apóstolos, mediante as quais tem cumprido coisas maravilhosas (Ambrósio)”.

QUINTO SALTÉRIO

Primeiras cinquenta orações.

“61. A Ave é a força dos Mártires, com a qual vencerão todos os suplícios (Alberto Magno).

62. É a Ciência dos Doutores, mediante a qual dirigem a si mesmos e julgam (Dionísio).

63. É o Poder dos Pontífices, que esses receberam acima dos Sacramentos da Igreja: visto que mantém viva a Encarnação (Alberto Magno).

64. É a perseverança dos Confessores nos sofrimentos, enquanto obtém o Reino (Raban).

65. É a vida dos Religiosos, com a qual morrem no mundo os mais perfeitos em Deus (Cassiodoro)”.

Segundo grupo de cinquenta orações.

“66. A Ave é a Glória dos sacerdotes: através da qual receberam no Corpo do Senhor o verdadeiro e místico poder (Beda).

67. É a Pureza das Virgens, que se casaram em Deus, recusam os outros amores, se conservando angélicas (Jerônimo).

68. É o princípio e a regra do Mundo, com o qual se aprende a medir em relação a Pobres, Ricos e Nobres (Bernardo).

69. É a tolerância daqueles que se arrependem, através desta, muitos fizeram penitência, e foram salvos (Agostinho).

70. É a Auxiliadora daqueles que iniciam.

71. É a Força dos progredidos.

72. É a Contemplação dos perfeitos”.

O Esposo suplicante, depois que Jesus terminou, dá graças por todas aquelas coisas, e confessa ter visto que Jesus era tão grande, que para ele é um contínuo martírio não poder encontrá-lo até o dia do Juízo. Expressa especiais agradecimentos a Jesus que fala: visto que aquelas mesmas verdades, São Jácomo o Maior revelou a São Domingos, quando ele, na Espanha, estava próximo a morte: porém, depois daquela Revelação se renovou tanto no espírito e no corpo, que de súbito se curou.

CAPÍTULO XI

Revelação sobre a Bandeira da salvação e da perdição.

Era este o particular modo do Novo Esposo de recitar a Angélica Saudação: Ave Maria, Misericórdissima, para nós se tornou Virgem Mãe de Deus, cheia de Graças, o Senhor é contigo, Bendita és tu entre as mulheres, e Bendito o Fruto do teu Seio Jesus Cristo: homem verdadeiro e verdadeiro Deus, nascido pelos pecadores, que sofreu, ressuscitou e é honrado nos Sacramentos, o qual, Virgem, concebestes através do Senhor Santo, quando respondeu a Gabriel esta palavra muito humilde: Eis a Serva do Senhor, venha a mim segundo a tua palavra. Amém. Às vezes aparecendo a ele, a Virgem Maria recomendava esta fórmula que é muito apreciada por ela: visto que nesta estão contidas outras tantas qualidades e excelentes perfeições da Mãe de Deus, além das palavras trazidas. Enfim a Santa termina com estas palavras, dizendo: “Doce Esposo, agora te explicarei o segredo da divina Providência”.

I. Saibas, e com segurança compreendas isto que tu, aos outros, deves também manifestar sem demora: isto que é sinal provável e próximo à perdição eterna: se horrorizar, sentir tédio e descuidar da Saudação Angélica, capaz de renovar todo o mundo.

II. Para quem tem esta devoção, essa será o sinal grandíssimo da disposição e da designação à glória.

III. Por isso, quem se dirige a mim com essa Saudação, se dirigirá sempre: até me alcançar no Paraíso.

CAPÍTULO XII

Revelação de Jesus, sobre a inexplicável Paixão de Jesus Cristo.

I. O Saltério da Santíssima Trindade conforta maravilhosamente a consciência perdida: dirige quem está no erro e confirma aquele que se aperfeiçoa através dos Méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Beatíssima Virgem Maria, visto que estes (Méritos) adornam as consciências dos fiéis com as flores das virtudes, e as fecundam com os frutos dos dons do Espírito Santo. Onde narro um suavíssimo e admirável exemplo, revelado aos nossos tempos.

Um cristão, uma vez, enquanto orava muito devotamente o Saltério de Cristo e de Maria, foi sequestrado em espírito, não com o corpo, nem com a imaginação, mas com um verdadeiro milagre e com a permissão de Deus.

Neste êxtase ele sentia ser absolutamente absorvido por Cristo e quase mudado neste, sentindo sobre a testa a Coroa de Espinhos, nas mãos e nos pés (advertindo) sensivelmente as Estigmas do Senhor Jesus. O próprio querer e saber o foram subtraído e o vinha dado o querer e o saber de Cristo: como, aconteceu depois desta, via estar já no Céu e, porém observava também a si mesmo enquanto orava sobre a terra. Coisa que é extraordinária para um homem, mas não para Aquele, que só cumpre grandes maravilhas.

II. O Senhor Jesus assim dizia ao Espírito dele: “Tu e numerosos outros, maiores que ti, dizes normalmente: Eis, o Senhor Jesus Cristo somente por uma meia jornada suportou a Paixão e, visto que era Deus, facilmente era capaz de fazer isto. Ao invés, se tivesse querido, teria podido suportar coisas muito mais duras; porém, não o fez. Nós em verdade seus servos, por muitos anos, em modo pesadíssimo somos atormentados pelo mundo, pela carne, pelo diabo; nem somos Deus, nem somos de ferro. Porque então nós, assim tão pequenos, sofremos com coisas tão duradouras, enquanto Cristo completou a Paixão em um exíguo espaço de tempo? Vem então, e olhe aquilo que estou para te mostrar”. Disse. E eis, repentinamente estavam no palácio Real, e na sala Real. Aqui era presente uma jovem de inexplicável beleza, humildade, e todas as virtudes, e diante a ela estava o Anjo Gabriel, que respondia: “Eis a Serva do Senhor, faça de mim segundo a Tua Palavra”. No mesmo instante no qual terminara de pronunciar estas palavras, o Marido com os olhos, naquele momento mais luminoso do que o sol, penetrando com o olhar a parte mais íntima das vísceras de Maria Virgem, viu que tinha sido concebido improvisadamente uma criança, de natureza pequeníssima, parecia um pequeno pássaro, absolutamente verdadeiro homem em todas as partes. Enquanto Jesus exortava: “Observa atentamente”. Ele via que em cada parte da criança era presente todo o mundo e ainda, em qualquer parte do mundo, que estava dentro da criança, existia a cidade de Jerusalém, na qual ele sofreu.

E neste momento, como também mais tarde constantemente, o jovem tão pequeno não sofreu diversamente, de como teria sofrido no fim da vida. E dizia: Assim, desde o início da minha Concepção, até a hora da morte, continuamente atormentado, sofri por ti e por todos os filhos de Adão.

Observou atentamente.

III. E no mesmo instante, via o jovem Jesus na Cruz, que parecia uma árvore imensa, em um espetáculo tão miserável, que parecia que cada criatura, não só natural, mas também celeste, podia morrer pela compaixão do Crucifixo. Então a ele que olhava aquelas coisas Jesus dizia: “Eis quantas coisas sofri por ti. Que tu as saiba e as anuncie aos outros:

1. Eu por qualquer pecado particular, contínua e separadamente, sofri assim e tão asperamente, que se eu tivesse tido tantas vidas, quantas criaturas vivem sobre a terra, outras tantas vezes em todos os momentos eu poderia morrer, se Deus não me tivesse conservado em vida.

2. Suportava assim aquelas coisas, por todos os teus bens, pela perfeição moral e pela Ordenação a ser instituída em vantagem da Igreja.

3. Do mesmo modo, eu sofria tantos tormentos por cada dom de glória, quantos são o grãos de areia, quantas são as estrelas no céu, como se me fossem bastante, e me tivessem pertencido toda a vida, assim como aqueles Anjos imortais. Eu não teria sobrevivido se o poder de Deus não tivesse me mantido (em vida). A razão é que, eu era o Verbo de Deus, que tanto amava a salvação, e sentia dor pela perda de cada um, e sobretudo pela ofensa a Deus. Aquela grande dor foi tão forte, ao ponto de invadir o meu corpo, somente depois de ter possuído todos os meus pecados, naquilo que permite a Divindade. A minha glória, de fato, era tão forte, que não cabia no meu corpo, assim (assumiu) também a pena. E como a glória, assim, também a pena era igualada à esta, e também os meus méritos e virtudes”.

IV. Entretanto, vendo e sentindo essas coisas, mesmo que dentro de si sentisse Cristo, ao mesmo tempo, também se sentia dentro de Cristo, como (se fosse) guiado e movido por ele. Aproximou-se mais da Árvore da Cruz, e sentiu em um breve espaço de tempo, não sabendo como, que ele estava dentro da Santíssima Virgem Maria, como numa fortaleza e num Templo: se via todo este mundo mais resplendente e mais bonito, de quanto o é realmente.

Escutei o Jovem que grita na Cruz: Tenham piedade de mim, filhos de Adão, pelos quais sofro tanto. Agora peço que todos escutem a Paixão do Senhor Jesus Cristo; para que acolham as verdades expostas com consciências sinceras, contra os males presentes e iminentes, para que os desprovidos não sejam esmagados.

Eis: A (TERCEIRA) VISÃO DO SALTÉRIO

V. Era uma vez uma árvore de grandeza infinita, cheia de todos os frutos e sobre esta (estavam) todos os Beatos. Dividia-se em três partes, de um só tronco com três ramos. Cada um dos três ramos se dividia de novo em cinco ramos, e sobre cada um tinha um Jovem crucificado, que assim dizia a quem o olhava: “Eis quais e quantas coisas sofro. Compreendes então as coisas que vistes sobre a minha Encarnação. Três eram as realidades Infinitas nesta:

1. A Essência, ou o Verbo de Deus.

2. A União entre a natureza finita e aquela infinita do Verbo.

3. E a Soberania da Graça e da Glória.

Mas além destas, desde o instante da minha Concepção, estavam três Crucifixos de infinito tormento:

1. Do Verbo, quanto ao Desejo e à vontade infinita de dar reparação ao Pai, pelo infinito Amor aos homens, ao ponto que, se Deus fosse mortal e se tivesse podido, teria desejado morrer infinitas vezes.

Mas visto que Deus não pode morrer, por isso quis morrer em mim, enquanto era possível, em amor a vós. Homens, não reconheceis esse amor? Vós todos, devotos, considerais a dor e o amor como a minha dor e amor.

VI. Primeiras cinquenta orações.

A serem recitadas pela infinidade da Paixão do Senhor no Verbo. Esta grande Árvore é a Oração do Senhor e a Saudação Angélica: os cinco Ramos são as primeiras cinco palavras de ambas, segundo a descrição do Senhor Jesus Cristo.

Primeiro ramo:

“Ave”. “Visto a vossa liberação, de cada desastre da maldição de Eva, eis, assim eu morro na Cruz, desde o tempo da Concepção. Morro eu, o vosso Pai, seja por Criação, que por Redenção.

Mesmo que se juntem os amores de todos os Pais que foram, são e serão, porém, não chegam à mínima parte do meu amor. E o crucificais ainda com os pecados, então a eles pedidos: “Pai Nosso”.

Segundo ramo:

“Maria”. “Visto que, depois da Saudação (do Anjo) à Maria, para dar luz ao mundo, sofri crucificado. O Ser dos seres, aquele que existe em todas as coisas, através da essência, da presença e da potência, na forma mais verdadeira de quanto a vossa alma exista em vós.

Admitido que a morte do corpo seja dolorosa, mas o quanto é ainda mais a da alma? A minha foi infinitamente mais cruel. Onde está a vossa compaixão?”.

Terceiro ramo:

“Graças”. “Visto que, para obter a Graça ao mundo, fui crucificado, com dor e por amor. A Luz e a Glória dos Céus. Se surgisse a morte nos Céus, todos os seres vivos morreriam: Eu sou mais necessário na vossa vida: Eu em relação a vós sou inflamado pelo fogo do Amor, mais do que, se todas as coisas criadas fossem um só fogo e é deste modo que vós devolveis o afeto?

Quarto ramo:

“Cheia”. “Visto que, sendo Crucificado, sofro com a infinidade absoluta da dor, do amor e do mérito, para distanciar a vossa futilidade com os bens, e para dar a minha plenitude de Graça e de Glória.

O Santo dos Santos, “Seja santificado”. Unidas as mortes de todos os mártires, de todos os seres vivos, os tormentos e as cruzes em uma só, não haveria comparação à minha, será semelhante ao infinito. Haveis compaixão de um animal sofredor e moribundo: onde está a compaixão por mim?”.

Quinto ramo:

“Senhor”. “Visto que, pela liberação dos homens da escravidão do diabo, pela aquisição do Reino e do Domínio assim Eu sofro.

Quem são? O vosso Senhor nobilíssimo, liberalíssimo, amabilíssimo, ao qual dizes: “Il Tuo Nome”, ao qual todas as coisas se ajoelham, no qual fostes batizado, e tivestes o nome e o dom Cristão, e a inscrição no livro da vida. Em nenhuma língua se poderá pronunciar, a sua morte, nem menos naquela de todos os Anjos. E vós porque não ouvistes a mim que me lamento sobre a Cruz? Tenhais piedade de mim ao menos vós, meus amigos. Vês os inumeráveis tormentos e as mortes, na (minha) única morte, e no meu tormento. Observais estas coisas. Assim sou atormentado ao máximo em cada um dos cinco Ramos, pela vossa violação dos Dez Mandamentos de Deus. Eis os cinquenta tormentos, e as mortes de infinito amor, dor e mérito.

Porque então não me honrais ao menos com cinquenta Saudações Angélicas? Assim me re-amais? Assim, vós haveis se tornado culpado junto comigo? E como podereis reinar e exultar junto comigo?”

VII. Segundo grupo de cinquenta orações.

A ser recitado pela infinidade da Paixão do Senhor, derivada da união da natureza divina com aquela humana. “Prestes atenção ao gênero e a suma perfeição da minha Crucificação, a partir do gênero da união acontecida”.

Primeiro ramo:

“Contigo”. “Eis, o Verbo Encarnado aqui Crucificado, para que o mundo tenha consigo o Deus pedido, depois de ter renegado o Diabo. Qual Verbo? Aquele ao qual se pede: “Venha o vosso Reino”. É o Rei dos Reis. De qual morte morrerei? Inexplicável, inestimável, incessante até o fim do mundo. Se o servo de um Senhor, ou de um Rei, que são (seres) mortais, não sofressem junto com ele, o servo seria considerado um traidor. E quem sofre junto comigo? Muitíssimos ainda me crucificarão novamente”.

Segundo ramo:

“Bendita”. “Aqui sofro pela união entre o homem e Deus, para que o gênero humano receba a benção. O Senhor da liberdade, da qual recebeis a liberdade Natural, Moral, Espiritual dos filhos de Deus.

“Seja feita a vossa vontade”. A morte foi maior do que todas as vontades criadas de cada um e unidas em uma só. Desgraça àqueles ingratos, que não honram o libertador! Desgraça àqueles que o ultrajam! Serão escravos eternamente no Inferno à disposição dos demônios.

Terceiro ramo:

“Tu”. “Aqui sofro pela união entre Deus e o homem, para que se conheça a divindade, manifestada abertamente a eles. Sofro com aquele que primeiramente move, e dá impulso a todas as coisas; se este parasse, pereceriam todas as coisas, a ele pedidas: “Como no céu”, no qual está Aquele que primeiramente move todas as coisas que tem impulso.

Se alguém desde o início até o fim do mundo tivesse que suportar todos os raios, os trovões, as tempestades do céu, não chegariam, porém, ao mínimo da minha pena”.

Quarto ramo:

“Entre as Mulheres”. “Aqui sofro por causa da natureza humana unida com a Divina, para obter para os mortais, a amável misericórdia. Aquele que mantém a terra, forma todos da terra, “Assim na terra”. Se todas as coisas que estão na terra se incendiassem, fossem submersas pela água, fossem mordidas pelo corvo, esquartejadas pelos animais, etc., até ao fim do mundo, isto seria nada em confronto com a minha Paixão. Por isso os cruéis, que não sofreram comigo, serão devorados como Datan e Abiro; serão incendiados como Sodoma, etc.”.

Quinto ramo:

“E Bendito”. “Aqui sofro, como homem Deus, como um maldito, para obter a todos as oito Beatitudes. Aquele que nutre todo o mundo e cada um com “o nosso pão cotidiano”. A fome e a sede de todos, até o fim do mundo, não seria nada em relação ao meu tormento pela sede.

E não tens compaixão por aquele que te nutre? Tu, então, trazes a mim o segundo grupo de cinquenta orações, com aquele número e medida mínima (do Saltério), visto que, naqueles cinco gêneros e graus supremos da Crucificação, eu sofri e estou morto para dar aos homens as Dez Virtudes: isto é, as três Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade e as quatro Virtudes Cardeais: Prudência, Justiça, Temperança, Força; as três Virtudes Morais: Humildade, Alegria espiritual, Liberdade, em relação a Deus e aos pobres”.

VIII Terceiro grupo de cinquenta orações.

Orar pela incomensurável Paixão do Senhor, sofrida pela Alma de Cristo. “Triste é a minha Alma até a morte, assim como a morte na Cruz, e este é o objetivo da minha Concepção, na parte inferior (da alma); de fato a parte superior da alma sempre foi feliz na Visão e incapaz do contrário. A causa da minha dor era a infinita caridade, a graça e a virtude, a piedade e o ódio do pecado. A minha alma quis conformar-se em todo o Verbo e a União (entre a natureza divina e aquela humana), porque sentia compaixão, por quanto era possível à vontade. Ora, vice-versa, o Verbo levava à Alma uma dor infinita, que a minha infinita Vontade trazia, desejando sofrer muitas coisas também maiores. Então compreendi os graus supremos da Paixão”.

Primeiro ramo:

“O Fruto”. “é a permissão, para ter no mundo os doze frutos, que são: Alegria, Paz, Paciência, etc. Aquele que dá todas as coisas e ao qual orais: “Nos dê hoje”. Se todas as mentes exaltadas por todos os tiranos inventassem tormentos diversos e cruéis, estes todavia em confronto aos meus nada seriam. De fato, nada do que é material pode ser comparado ao espiritual. Se uma maçã ou um pão de pouquíssimo preço, pudesse salvar uma vida, não o negarias, e à minha alma não dás o teu afeto e a tua força?”

Segundo ramo:

“Ventre”. “Eis a passagem, para regenerar todos como filhos adotivos de Deus. Aquele que tem a chave de Davi para amarrar e para desamarrar, etc., ao qual oras: “E perdoe os nossos pecados”. É tão grande cada falta que, se cada tormento da alma fosse transformado em tormento do corpo, todas as coisas corpóreas morreriam. Se tivesses sofrido tanto com os demônios, terias podido se salvar, e não temerias sofrer na minha Graça”.

Terceiro ramo:

“Vosso”. “Eis, é a Permissão para arrancar os homens da escravidão do pecado e do Inferno. O Rei da Misericórdia, ao qual oras: “Como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”. Com uma (justiça) maior, do que aquela (dada) a todos os condenados. A Glória de Cristo, por natureza, supera aquela de todos os Beatos, assim como a tristeza da minha alma supera qualquer outra. Alma ingrata aquela dos homens, que retribuem (a minha) compaixão (com isto).

Quarto ramo:

“Jesus”. “Eis, é a Permissão, para que o mundo se salve através de mim. Quem sou eu? Aquele que livra de toda a tentação e sofrimento ao qual oras: “E não nos deixeis cair em tentação”. Recolhe todas as tentações, tribulações e mortes que foram, são e serão, todas são nada, em confronto com a minha (morte). A minha (morte) é de fato, de maior dignidade, consideração, amor, etc., as quais não tem nenhuma medida nem limite”.

Quinto ramo:

“Cristo”. “Eis, é a Permissão, para obter de mim as unções dos Sacramentos. O forte e potente na batalha contra todo o mal, ao qual oras: “Mas livrai-nos do mal”. Com aquela imortal, visto que é infinita a vontade, o amor e a dor de morrer por cada pecado, para o pecador e para o mundo”.

Verdadeiramente tão pequena é a compaixão dos homens por mim, que estou presente, governo, imploro, sirvo, salvo todos em todas as coisas.

Ingratos! Eis as coisas que sofrerei sobre estes cinco ramos da Cruz, para reparar os vários Coros dos Anjos, para salvar uma décima parte dos homens. E não deveria ser saudado cinquenta vezes mais devotamente e assiduamente nas cinquenta orações do Saltério? A Saudação Angélica foi o início da minha Paixão, como também da Encarnação e do Evangelho.

“A minha Paixão material não pode ser maior, em base a Potência de Deus”.

IX. Ditas estas palavras, eis, ele via que inumeráveis almas eram levadas do mundo, na voragem, por inumeráveis demônios.

1. Ouvi terríveis gritos.

2. Vi a Justiça divina, transportada por um cavalo vermelho em corrida, voar para devastar o mundo. A ele foi dito que esta, desde então, ameaçava o mundo.

3. Por isso a Clemência de Deus indicou os remédios, no Saltério de Cristo, a serem pedidos com as orações através da Mediadora Mãe de Deus, a qual Deus nega.

4. Enfim uma voz muito terrível soou com estas palavras: Uma vez só através da Saudação Angélica regenerei todas as coisas através do Filho; através da mesma (Saudação), também agora quero regenerar todas as coisas através do Filho; através da Saudação, também quero regenerar o mundo depravado, através daqueles que querem louvar- me no Saltério e conservar as consciências.

CAPÍTULO XIII

Sobre as penas do Inferno: Revelação (feita) ao Esposo de Maria.

I. Visto que a oração, segundo Santo Ambrósio, é o melhor remédio para reconciliar os homens com Deus, e a Rainha das orações é o Saltério, por isso nesta oração existe uma grandíssima força: tendo especialmente a força da Vida, da Paixão e da Glória de Cristo, com o acréscimo dos Méritos da Mãe de Deus e dos Santos.

II. Um devoto no Saltério de Cristo, principalmente à Paixão, sentiu forte e frequentemente no seu corpo, a Paixão de Cristo. Ele, enquanto celebrava a Santa Missa, viu na Sacra Hóstia, Jesus Crucificado, e o ouviu, dizendo: “Tu me crucificas pela segunda vez. E ele disse: Senhor Jesus Cristo, como posso cometer um delito tão cruel? E o Senhor disse: Os teus pecados me crucificam. Prefiro ser crucificado, a ver Deus ofendido pelos pecados, com os quais tu já o tinhas ofendido. Mas, ainda agora, me crucificam se não com o ato, mas com a omissão. Tens a ciência, a faculdade e o dever de pregar: és culpado dos males que podias proibir, se pregas o meu Saltério.

Mas te tornastes um cão mudo, incapaz de latir, enquanto o mundo está cheio de lobos. Se não corrigires, juro pelo Pai Onipotente, continuarás a comer o errôneo alimento dos mundanos.

III. Depois desse discurso, eis, viu se abrir uma voragem infinita, e nesta estavam deitados Eclesiastes, Religiosos, Príncipes, Soberanos e muitos outros; e fogo, pedra, neve, gelo e o vento das tempestades eram uma parte do cálice deles, do mesmo modo, (eram) serpentes e aquelas coisas que o mundo entende muito desagradáveis. Nessas coisas, estavam submersas, até a sumidade, os impunes, que gritavam ferozmente.

Em torno a eles estavam demônios, com a aparência de mulheres e não se pode imaginar nada de mais torpe já que estes monstros com lanças ardentes, queimavam, depois de ter ferido, os órgãos sexuais daqueles que estavam deitados, e nos corpos nus deles entravam serpentes ardentes, najas, sapo, etc.; e vinham outras larvas que os atormentavam, mais ferozes do que as outras. Ele reconheceu muitos, que antes trabalhavam entre os vivos. E a ele Jesus disse: “Este (será) o teu repouso, se deixares de pregar.

Anuncies o meu Saltério: e juro: eu lutarei, com toda a Corte celeste, contra todos aqueles que se opuseram a ti. E faças aquilo que pregas, para que não ti tornes como estes que dizem e não fazem”.

CAPÍTULO XIV

Visão estática da compaixão em relação a Cristo sofredor.

I. Uma vez o dito Esposo de Maria viu que todas as coisas estavam para morrer com Deus, como se todas as criaturas, no céu e na terra, tivessem compaixão por Cristo sofredor, com um luto e um choro, digno de admiração. Aquele que viu tais coisas ficou tão desorientado, que acreditou que deveria morrer. Mas a mão do Senhor o confortou e o levou ao alto, e uma voz disse: “Temos tanta compaixão do Senhor: não só a compaixão da sua vontade e do (seu) desejo”.

II. E aparecendo a ele a Santíssima Trindade, como se chorasse largamente, disse estas palavras: “Vistes estas coisas, não para que tu acredites que dentro de mim estejam tristeza e dor, mas para que tu entendas que, se eu tivesse um corpo mortal, podendo conter a Divindade, também choraria e sentiria a mesma dor, junto com o Filho sofredor. E se tu como os Beatos, me observaste com uma elevada compaixão, certamente não tolerarias a ti mesmo, e sentirias uma grande dor por Jesus sofredor, (embora sempre menor) em relação àquela da sua Mãe, quando ele em lágrimas estava na Cruz”.

III. Depois se voltou a Jesus, com uma grande amabilidade, o perguntou: “Jesus, e tu sentistes dor?” E Jesus (respondeu):

1. “Não pelo evento em si, de fato, este passou uma vez a favor dos pecadores, para que se salvem.

2. Então, mesmo não Crucificado na carne, estou nos membros, na Igreja e nos pecados cotidianos, que estão mais enfraquecidos do que a crucificação sobre o Calvário; o afeto deriva da vontade, não dos sensos, e assim queria sentir dor, se ainda tivesse um corpo mortal. Porque Eu, Advogado dos pecadores, facilmente acalmaria a Justiça Divina se os miseráveis usassem o meu Saltério, e participassem deste modo aos meus méritos!”.

CAPÍTULO XV

Porque quinze Orações do Senhor no Saltério?

São Bernardo, caríssimo Esposo de Jesus e de Maria, orava muito a Jesus, na compaixão a Cristo sofredor, por conhecer, o que era mais necessário para se conformar a Cristo, e, entre todos ele destacou-se por ser amabilíssimo na reverência (a Jesus sofredor).

Ele tocou as estrelas (feridas) da paixão do Senhor e durante o êxtase, com a abundância da mente, viu Cristo, com o rosto e o vulto, de quando foi conduzido à morte. Um espetáculo de compaixão e de lágrimas, até para as pedras! Depois São Bernardo, que chora junto a todos, ouviu uma voz: Bernardo meu, me ajude porque sofro tantas penas por ti. Ele socorrendo levava a Cruz nas costas: Permita-me, Senhor, que eu sofra isto, disse. E a ele o Senhor disse: Qualquer um que ame levar a Cruz, comigo que ore todo o dia por mim que sofro, quinze Pai Nossos e Ave Marias, por um ano inteiro, e terá cumprido o número das minhas feridas. O número de feridas seria cerca de cinco mil quatrocentos e sessenta e cinco.88

88 Este número resulta da multiplicação do número de quinze orações, pelos trezentos e sessenta e cinco dias do ano.

CAPÍTULO XVI

Porque no Saltério existem cento e cinquenta Saudações?

Revelações da Santíssima Virgem Maria.

Exaltamos ao escutar isto da Santíssima Virgem Maria, que nos deu vinte razões.

“1. Visto que no Saltério de Davi existem cento e cinquenta Salmos, nos quais estão contidos simbolicamente o Pai Nosso e a Ave Maria, como o fruto está contido na flor.

2. Visto que recebi cento e cinquenta exaltações espirituais, de enorme valor, durante a concepção (imaculada) e a gestação do (meu) Filho, com êxtase, visão, revelação e inspiração.

3. Visto que tive cento e cinquenta exaltações, durante o nascimento e aleitamento do (meu) Filho.

4. Visto que tive cento e cinquenta exaltações durante a Pregação do (meu) Filho, pelas suas palavras e obras.

5. Visto que suportei, durante a Paixão do (meu) Filho, cento e cinquenta mil grandíssimas dores, de todos os tipos. Por quanto, de fato, amei, também senti a dor da compaixão.

6. Por causa dos cento e cinquenta principais dons, que Cristo trouxe ao mundo, desde o seu ingresso neste, até a sua saída.

7. Morri das cento e cinquenta Dores, que Cristo sofreu, cada uma das quais teve dez referimentos: I. A Deus; II. À própria alma; III. Ao corpo; IV. Aos Santos; V. A mim; VI. Aos Discípulos; VII. Aos Judeus; VIII. A Judas; IX. Aos povos; X. Às almas do Purgatório. Depois sofreu sumamente em quinze coisas, ou seja, nos sentidos: nos cinco interiores, nos cinco exteriores e nas cinco potências superiores, que (são) o Intelecto, a Vontade, a inclinação à concupiscência e à ira, e a força motriz.

8. Pelas cento e cinquenta exaltações do (meu) Filho, e também minhas, por causa da sua Ressurreição.

9. Pelos cento e cinquenta Frutos da Paixão do Senhor.

10. Pelas cento e cinquenta Virtudes Principais pela Salvação, que são as (Virtudes) Teologais, Cardinais, Capitais, Morais, as oito Beatitudes, etc.

11. Pelos cento e cinquenta mil Vícios opostos àquelas Virtudes.

12. Pelas cento e cinquenta misérias do mundo, que são: fome, sede, frio, calor, nudez, infâmia, injúria, doença, discórdia, fogo, inundação, feras, escravidão, ignorância, etc. e as coisas parecidas com estas.

13. Pelas cento e cinquenta ameaças de morte, que são: enfermidade, tristeza, terror, hesitação, sarcasmo dos demônios, remorso da consciência, perda dos bens, privação do uso do membro, impaciência, enfraquecimento, e as coisas semelhantes estas.

14. Pelos cento e cinquenta terrores do Juízo que são: terror do Juízo, terror daqueles que assistem o insulto dos demônios, a manifestação dos pecados, a infâmia infinita, o temor, o medo do remorso, a desesperação, a malvadeza, o desejo da morte, a ira que nasce das criaturas; e as coisas semelhantes a estas.

15. Pelas cento e cinquenta maiores penas do Inferno, diante de outros vícios, e coisas parecidas (estão também no Purgatório. Tais realidades são imensas, a alma, o corpo, os demônios, Deus, o lugar, o fogo, os sentidos, a glória perdida, a eternidade da condenação).

16. Pelos cento e cinquenta gáudios da beatitude.

17. Pelas cento e cinquenta exaltações completas da Virgem Maria e de Cristo, no Céu.

18. Pelas cento e cinquenta principais Ajudas que serão dadas aos Salmodiantes.

19. Pelos cento e cinquenta dias, ou outras horas, de premonição sobre a morte, que serão dadas aos devotos Salmodiantes: durante as quais, se dispõem a demora da sua alma.

20. Pelas cento e cinquenta exaltações especiais que serão concedidas aos Salmodiantes, em nome da reverência demonstrada no Saltério: “as quais joias, corresponderão iguais prêmios (para os devotos) da Coroa”.

A estas palavras, o Esposo (disse): Maria, docíssimo júbilo do coração, que considerasse estas coisas, gastaria tudo nos louvores do teu Saltério. E a ele a Esposa: Digo a ti: os Beatos na Glória, sem parar repetem o Pai Nosso e a Ave Maria, em maravilhosas exultações, agradecendo Deus pela glória dada, e orando pelo mundo.

CAPÍTULO XVII

Nascimento, Estatutos, Frutos e Estado da Fraternidade.

Revelação de Maria ao Esposo.

I. Aparecendo uma vez, a beatíssima Maria ao seu Novo Esposo disse: “Doce Esposo, observa com atenção que revelarei a ti coisas belas, diversas, úteis, e certamente que devem ser conhecidas. Algumas dessas revelei ao teu Beatíssimo Pai, o meu Esposo Domingos, no dia festivo da Anunciação do Senhor, com milagres. Para que todos no mundo saibam a Revelação que ele teve, faças com que todos escutem a Mãe da Verdade, que narrará do caríssimo Esposo Domingos e da Confraternidade. O início do Saltério está sob o meu Nome, através de (São Domingos): os Irmãos da Confraternidade eram chamados Irmãos de Jesus Cristo e da Virgem Maria, pela figura do Saltério Angélico, que era pregado”.

NARRAÇÃO

A origem da Confraternidade do Saltério.

II.1. São Domingos, revestido de Virtude do alto, se tornou um homem verdadeiramente Apostólico, pregando, percorreu as terras da Espanha (nas quais já antes o Sarraceno, inimigo do Nome Cristão, se difundiu), e ensinou as suas doutrinas saudáveis: quando já olhava aos outros povos que estavam em volta. Quase quinze anos antes do glorioso dia da sua morte, ainda não tendo iniciado a Ordem Sagrada dos Pregadores, enquanto era ainda um professor Canônico, sob a Regra de Santo Agostinho, com o companheiro de peregrinação Frei Bernardo, perto de São Tiago de Compostela, caiu nas mãos dos piratas. Estes conduzem o excelente e as riquezas roubadas, tendo sido ambos raptados, na frota dos seus navios.

Depois de tê-los interrogado várias vezes, e depois de tê-los maltratado com flagelos, os entregaram aos serviços mais baixos, os remos. Estes como cordeiros entre os lobos malvados, confiando no Nome de Cristo, e confiantes de suportar todas as coisas, sendo o Espírito superior de um homem, suportam corajosamente, mas não renunciam por nada aos costumeiros louvores de Deus, (os quais faziam) de noite e de dia, se bem estivessem em meio aos chefes bárbaros dos traiçoeiros piratas.

2. Depois de três meses de duros trabalhos nos remos, com os (piratas), os tendo suportado com uma extraordinária paciência: Quando eis, Eu (estas são as palavras da Santíssima) Mãe de Misericórdia, olhando o meu caro esposo, me comovi por ele, com todo o íntimo da Caridade. Estando eu irada com os malvados, do momento em que quis e dispus, enquanto os mesmos atravessam rapidamente o mar, o céu mudou totalmente e recobriu-se de nuvens negras, veio uma noite amedrontadora; fiz soprar os ventos, que se lançaram sobre o mar: se desencadeou uma tempestade terrível, os raios relampejaram, os céus ecoaram; os mares se revoltaram; todas as coisas flutuavam. Uma densa chuva se descarregou sobre os malvados: terias dito que o céu estava vindo abaixo. O mar também estava profundamente agitado; e furiosamente se revoltava. Quaisquer coisas fizessem os inimigos, com as velas, com os remos, não obtinham nada, enfim desesperados se lamentavam do destino.

3. Ao contrário só São Domingos junto ao companheiro, não estava confuso nem aflito com estes acontecimentos; eles, tendo uma alma viril, e tendo sido confortados pelo Espírito, São Domingos tentava revigorar as almas dos piratas, com a habitual pregação. “Irmãos”, disse, “a coisa é feita por Deus, que está irado. As ameaças sobre todas as coisas terrestres e celestes; a ira tão grande dos ventos e das ondas, são manifestações da ira de Deus. Se acalmamos a Deus, se acalmará todo o resto. Os vossos crimes impulsionam fortemente a Direita vingadora de Deus, e incomodam os mares. Desprezáveis são as vossas almas e estão condenadas; peçais perdão a Deus: invocais e suplicais a auxiliadora Estrela do mar, Maria Mãe de Deus; tenhais fé; aprendereis a conhecer (nesta) o Senhor, maravilhoso e a vós propício”. Disse isto, mas em vão.

4. A crueldade daqueles desesperados se tornou fúria, e agiram com ira, contra aqueles que os ensinavam coisas justas; ultrajaram São Domingos e seu companheiro com escárnio, como se se tratassem de um delírio; alguns os bateram com chicote; e aconteceu então o que é de mais grave podia ocorrer: ofenderam a Deus e à Santa dos Santos com grandes blasfêmias, e então aconteceu que com os exemplos, ao invés de arrependerem-se, se mancharam com sacrilégios.

Alguns destes, de fato, cegos pelo caráter Sarraceno, tinham repudiado a Fé, outros ao invés, cobertos de crimes, tinham abandonado a penitência. O homem de Deus, que exaltava Cristo, com satisfação recebia as pancadas e ofensas, enquanto se voltava a Deus. Com a alma e as orações, ele pedia perdão pelas blasfêmias dos ímpios.

5. Na (segunda) noite, aumentou a tempestade (era o dia anterior à Anunciação Beatíssima, que seria o dia sucessivo), e a mesma (festividade) estimulava o zelo de Domingos, em tentar levar novamente a veneração de tão grande rainha da piedade, com um delicado Sermão, os corações cruéis dos malvados, que já choravam a própria ruína. O zelador das almas e o salvador dos desesperados começava falar, muito humilde e devotamente, para acalmar os violentos. No que foi possível, os convidou a orar a Deus, o Salvador Jesus e a Salvadora Maria.

6. Quando os piratas ouviram os doces Nomes se iraram ainda mais e tornaram-se ainda mais violentos, e blasfemando Jesus e Maria ainda mais do que antes. Domingos, porém, não teve o tempo de proferir as últimas palavras, quando uma onda enorme irrompeu com ímpeto, surpreendendo a todos, e ameaçava uma ruína iminente. Então o encontro dos vencidos, os furacões, o tumulto das ondas e a dúplice noite, jogou fora (dos navios) os mau resolvidos. O capitão foi lançado fora do barco e pereceu entre as ondas; os remos caíram e se quebrou o timo: a proa da nave se rompeu e o barco naufragou: e a espera pela morte foi mais cruel do que a própria morte.

7. Estes então foram vencidos pela violência da tempestade, como se as ondas não quisessem os engolir: era iminente a solene vitória da Virgem da Anunciação, enquanto o sol surgia e já iluminava a escuridão. São Domingos enquanto isso se dedicava às orações à Anunciada com diligência. A preocupação com a salvação dos piratas desventurados o tornava inquieto; enquanto orava a Ela, eis a sua Advogada Maria, que apareceu somente a ele, e na luz do dia, se aproxima resplendente ao Esposo, e diz: Força Domingos: para o bom êxito da salvação lute fortemente; os piratas estariam perdidos, se tu não os salvasses. Coragem, visto que se tu quiseres, graças as tuas orações, eu guiarei o navio com os indignos salvos através deste ventinho: pelo teu amor, perdoarei os sacrílegos, que não perdoam nem a mim, nem a ti. Um tipo de castigo será (para estes) ter retardado o castigo, dado que sobre estes se abaterá ainda mais grave. Darás a eles uma escolha livre: que apodreçam pela eternidade ou que acolham o meu Saltério e conduzam uma vida mais honesta, iniciando, junto contigo, que é o fundador, uma Confraternidade que se intitulará a Jesus e à Maria. Se isto agradar aos malvados, parece justo dispor que, após o sinal da Cruz, a tempestade se acalme. Eu mesma acalmarei o Filho em relação a eles. Se não for assim, só tu com o teu irmão, avançando sobre as ondas, saireis delas e do mar, e os outros serão engolidos pelo Inferno. “Anuncia com segurança a estes o quanto eu te digo”.

8. Assim São Domingos, contou as ameaças e as ordens aos piratas: explicou sobre a ira que os ameaçava de morte e a força do Espírito diminuiu a resistência dos piratas à palavra divina: se rompeu os corações duros como o aço, os desnudou, e depois de tê-los vencidos, contentemente os abraçou. Enfim com um discurso melhor, ensinou os ignorantes, sobre Jesus, Maria, o Saltério de ambos e a Confraternidade; ensinou-os a fazer penitência e os convenceu, enquanto Deus penetrou devagarzinho no íntimo dos que choravam. Com este final a grande tempestade se acalmou, através da Cruz e da palavra. As palavras e os desejos de todos os suplicantes passaram a ser unânimes: executariam as ordens, e ele só os deveria comandar.

Renunciando a perfídia, aos crimes, a vida passada e a também si mesmos, com um grande lamento, se obrigavam à penitência. Eles receberam da mão de seu Salvador, o Saltério, o aceitando e reunindo-se, em uma só e nova Confraternidade, sob o sinal de Jesus e de Maria, e sob o Saltério.

Humilhados, cheios de lágrimas, cobertos de trapos desolados, jogavam-se aos pés de Domingos, enquanto ele os tirava (da água), e invocava perdão e ajuda.

9. De fato, depois desta palavra: Em nome de Jesus Cristo e da sua devota Mãe, tudo o que estava em volta silenciou, realizou-se o silêncio e a segurança; mas dentro do navio, notava-se que a morte tinha entrado. A tal ponto que a roda da proa, os flancos do navio foram destruídos e o fundo foi quebrado, pela colisão com uma rocha. Ondas abundantes entravam sobre o navio como no mar e os piratas nadavam mesmo estando dentro do navio. Todos ficaram surpresos pelo milagre que, com a chuva, a tempestade das ondas, a água que penetrou pelos buracos no casco do navio, nem mesmo uma gota de água tinha tocado Domingos, o único que tinha permanecido enxuto. Então, com a certeza da presença de um Santo e seguros que o navio não afundaria, não deixavam de pedir ajuda. Mas improvisadamente todos assistiram a um espetáculo celestial.

10. A Augustíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, passou sobre todos brilhante em uma intensa luz e maravilhosa em sua majestade, amável na graça, notável no vulto e na nobreza. Ela provocava maravilha e horror: os corações palpitavam com esperança e medo e enquanto estavam com os rostos atentos e com os olhos fixos, assim fala a Santa: Homens com sorte nesta desgraça! Tenham confiança! Escutaram o meu Domingos! Escutem-me! De Domingos aprendeis a fé em Jesus e em Maria: a piedade e a virtude do homem recebem a recompensa divina. Assim Eu salvo, aqueles que se recolhem sob as insígnias do meu Saltério. Antes, somente ele me via, eu estava escondida de vocês porque não eram dignos, não me reconheceram, e me tratavam hostilmente: agora, vos agrada que eu seja visível e seja reconciliada, que esteja (aqui) e que esteja em paz com vocês, para ser acreditada! (E este) porque mais diligentemente executou os meus comandos, e mais devotamente cumpriu as promessas. Após estas palavras ela, voltando-se para o Céu, desapareceu.

11. Quando todos voltaram a si, descobriram-se salvos juntamente com o navio: se surpreenderam que antes o que estava destruído pelas águas, quebrado, despedaçado, horrível, agora estava todo intacto, integro e salvo. Maravilhados estavam atônitos e silenciosos. Como em um porto, observam o céu e o mar, de todas as partes: aproximando-se docemente uma plácida onda, esta levantou o navio e a fez navegar.

12. Então, o Santo Padre Domingos, pelo secreto conselho da Esposa, fala àqueles que conservam profundo silêncio, e que não conhecem nem a si mesmos. Homens irmãos: esta é a mudança provocada pelo Direito do Excelso; esta é a Graça de Jesus Salvador; esta é a Misericórdia de Maria Mãe de Jesus. Louvais a Deus, glorificais a Jesus, magnificat Maria, saudais Maria que se preocupou com o naufrágio.

Cantais ao Senhor o Cântico Novo do Saltério, porque Ele realizou maravilhas.

Certamente orarei ao meu Deus, e à Santa enquanto estiver vivo. A auxiliadora Maria nos trouxe aquelas bagagens, aquelas mercadorias, as coisas, que vós jogastes do navio, durante a tempestade para torná-lo mais leve: encontrareis todas as coisas inteiras, na praia Britânica, evitais somente as terras negativas, e confiais nos ventos mais favoráveis às velas.

13. O medo, o amor, a maravilha e a honra de Deus e da Santíssima, tinham amordaçado a boca e a voz dos homens: porém, gritavam profundamente as almas dos silenciosos. Com dificuldade, tendo cada um dado graças em silêncio, todos emitiam estas poucas palavras: Jesus, Maria; prometo que: a Deus cantarei um Cântico novo: sobre o Saltério de dez cordas, salmodiarei ao meu Deus, enquanto eu estiver vivo.

14. Logo depois, no escuro em torno do navio, como se estivesse longe, se ouviram horríveis gritos e lamentos de demônios: Maldição, gritavam, somos amaldiçoados! Este Domingos nos vence e infinitamente nos atormenta.

Ah! Rouba o nosso botim, liberta os nossos escravos; faz dos nossos prisioneiros os seus libertos e nos acorrenta com o seu Saltério, nos flagela com suas cordas, nos coloca no cárcere entre os prisioneiros, e nos relega acorrentados ao Inferno. Somos amaldiçoados.

15. O navio manteve a rota, e se aproximou do porto Britânico, e tendo superado regularmente todos os perigos, cantavam o saudável Cântico do Saltério. Ali reencontraram todas as coisas que tinham lançado ao mar: também os vinhos, que muito tinham lançado junto aos vasilhames: agora, de maior valor em relação à antes.

Convertidos em outros homens, estes vieram santamente à Confraternidade e se dedicaram ao Saltério, nos solitários institutos de Penitência.

Estatutos da Confraternidade do Saltério

III. Logo depois, a Rainha do Saltério e Patroa da Confraternidade, define essa mesma (Confraternidade) com os seguros termos das leis. E quer que essas sejam estabelecidas e perenes: assim as ditou a São Domingos:

I. “Essa minha Confraternidade do Saltério, deve ser fundada em nome de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Todos podem participar da Confraternidade basta que observem os ritos indicados nos Estatutos: declarem que perseverem nesta Confraternidade, e ao mesmo tempo inscrevam o nome deles no Registro. E estes nomes, como também aqueles dos mortos, sejam lidos publicamente uma vez por ano”.

II. “O princípio dessa Confraternidade é que, todos os méritos de cada um e de todos, sejam comuns a todos”.

III. “Se estas decisões e ritos forem pouco observados, não comportarão nenhuma culpa, mas serão penalizados com a privação (dos méritos); e para cada omissão, serão privados de participar à recompensa, e este limitadamente às orações (não ditas); permanecendo intacta a participação a todos os outros méritos da Confraternidade”.

IV. “Pelo acolhimento e ingresso nesta Fraternidade, não se pagará nada: a não ser de espontânea vontade, para cobrir o preço dos ornamentos da Igreja, das lâmpadas e das outras coisas necessárias ao culto divino, de acordo com a devoção de cada um”.

V. “Todos os anos se celebrará três Missas: a primeira pela Santa Cruz, a segunda pela Rainha (Maria SS.), a terceira pelos mortos da Confraternidade. Aqueles que não são Sacerdotes, uma vez por semana rezarão um Saltério. Nos dias de festa solene, além do (Saltério) semanal ao Filho, também me oferecerão um Saltério inteiro. As crianças, os doentes e os outros, aos quais é impossível rezar todo o Saltério, podem oferecer cada dia um Pai Nosso e uma Ave Maria. Estas orações favorecerão também os mortos, que eram inscritos e serão partícipes igualmente, através da forma do sufrágio”.

VI. “No que se refere ao ingresso na Confraternidade: cada um deve confessar-se e receber a SS. Eucaristia no mesmo dia, ou em outro momento oportuno. E devem rezar ao Filho pela oferta, e a mim em consequência, por sete vezes o Pai Nosso e a Ave Maria, contra os sete pecados capitais, em favor dos Irmãos e das Irmãs”.

VII. “Além da Confissão Pascoal, devem confessar-se (ao menos) três vezes por ano: na festa de Pentecostes, de São Domingos e no Natal”.

VIII. “Para um morto ou uma morta da Confraternidade, cada um orará um Pai Nosso e uma Ave Maria, estarão presentes às suas honras fúnebres e a cultuarão em turno, para que se salve”.

IX. “Esta regra da Confraternidade, será fixada publicamente em uma mesa, para que possa ser conhecida a todos”.

X. “Enfim, assim como as coisas ditas acima, estas não são ordens, mas conselhos.

1. Quem cada dia quiser oferecer Missas e o Saltério de Maria, com cento e cinquenta Ave-Marias e quinze Pai Nossos, fará bem.

2. Fará melhor, quem oferecer o Saltério de Cristo, com cento e cinquenta Pai Nossos e quinze Pai Nossos e Ave Marias.

3. Fará ainda melhor: quem recitar o Saltério máximo de Cristo e de Maria, com cento e cinquenta Pai Nossos e Ave Marias, e com cento e cinquenta Creio, Pai Nossos e Ave Marias.

4. Muito melhor é aquele que, com leves auto-flagelos de disciplina, oferecer um destes Saltérios como orações.

5. “Enfim depois, superará todas as medidas, aqueles que acrescentarem às coisas já ditas, a alma como a vida, vale dizer a meditação da Vida, da Morte e da Glória de Cristo”.

“Nada me agrada mais do que ir ao sacrifício três vezes Santíssimo da Missa e após realizar o descrito acima. Por isso certamente a ajuda do Filho e a minha proteção serão certas aos nossos Salmodiantes. Eu a esses serei Mãe, Mestra e Amiga e meu Filho a esses será Pai, Mestre, e Amigo. E assim quero que entendam, esperem e confiem em ambos”.

Frutos da Fraternidade do Saltério

IV: Além, caríssimo Domingos, quanto mais tu estás no coração daquela Confraternidade, e todos mais claramente conhecem os excelentes Frutos da mesma, ti manifesto alguns entre estes (Frutos).

Primeiro Saltério: Primeiro grupo de Cinquenta.

1. Ser imune da culpa da avareza, da simonia e do sacrilégio.

2. (Estar) frequentemente junto dos Santos.

3. A paz dos Reinos, das Repúblicas, das Cidades, das Vilas.

4. As respectivas divisões das orações, com Cristo e comigo.

5. O perdão das ofensas e a reconciliação.

6. A esmola.

7. O prover vantajosamente ao próximo.

8. A correção fraterna.

9. A pureza das consciências.

10. A mais completa satisfação, o desconto dos pecados diante da divisão.

Segundo grupo de Cinquenta.

11. A liberação das almas do Purgatório.

12. Uma vida mais Angélica e Cristã.

13. O reforço por uma esperança mais certa, pelas singulares orações de muitíssimos.

14. O aumento dos méritos de cada um.

15. A consolação dos aflitos.

Terceiro grupo de Cinquenta.

16. A religiosidade: isto que, de fato, a divisão monástica pode entre os Irmãos, a mesma coisa também (pode) esta (divisão) fraterna.

17. Uma disposição melhor com grandes bens.

18. O aspecto e a forma de um cristianismo mais conforme a Cristo, aos apóstolos e a Igreja primitiva.

19. A força contra as tentações.

20. A alegria espiritual por causa de uma sociedade tão rica de graça.

Segundo Saltério: Primeiro grupo de Cinquenta.

21. A tranquilidade das consciências, que não tem remorsos.

22. A educação da infância, da adolescência, da juventude, e a guia a cada tipo de virtude.

23. A proteção das ordinárias calamidades e misérias da vida e do mundo.

24. A salvação da morte.

25. A superioridade desta Confraternidade, em relação a qualquer outra de qualquer instituto particular.

Segundo grupo de Cinquenta.

26. A facilidade de entrar nesta, que não custa nada.

27. O amor dos irmãos espirituais, que é superior aqueles carnais.

28. O temor a Deus, mais puro e mais filial.

29. Uma maior perfeição da vida ativa, em relação ao próximo.

30. Uma maior propensão ao amor da vida contemplativa na elevação de si e no ascese do coração.

Mesmo o tempo e a experiência serão mestras de muitas coisas. Estas, e outras muitíssimas, revelo ao meu Esposo Domingos.

O Ordenamento da Confraternidade, revelado ao novo Esposo.

V. “Então, também tu, filho do grande Pai, meu Novo Esposo, escutes o ensinamento da tua Mãe.

1. Depois que o meu Esposo Domingos adormeceu o mundo foi vítima de uma peste terrível, que atingiu o Clero e o povo, trazendo uma avareza e preguiça mais feroz do que a precedente: estas, junto, mandaram o Saltério à ruína, assim como a Confraternidade e a Inscrição dos Irmãos.

2. Todavia persistem ainda, aqui e ali custodiados, as primeiras formas e figuras destes fundamentos, na Espanha e na Itália, escritos em mesas, paredes, e até impressos sobre os vidros, para a posteridade.

3. A Ordem de São Domingos, chamada de Penitência, começou a existir, avançando suas origens aqui.

4. Todos os Irmãos e as Irmãs da sua Ordem, por exemplo, e pelo conselho de São Domingos, indubitável e incessantemente, serviam com suma devoção a mim e ao meu Filho, neste Saltério da Santíssima Trindade, assim cada um dos Irmãos, dia por dia, oferece ao menos, como um débito cotidiano o inteiro Saltério. E por isso:

5. Quanto mais durou este Saltério em tal Ordem Santa, mais durou a ciência, a sabedoria, a observância, a fama dos milagres, a glória junto a Deus e os homens.

6. Mas quanto menos este Saltério é utilizado, imediatamente é menos utilizada a Ordem dos Pregadores: assim que as paredes, os quadros e os livros e os epitáfios dos mortos o apresentam, mesmo que as línguas dos homens não queiram admitir isto. E ao invés, nas primícias do Espírito, todos tinham uma persuasão comum: se alguém um dia tivesse omitido o Saltério, entendia de ter perdido um dia.

7. Através do mesmo Saltério, tantos e tão grandes milagres e prodígios se realizaram, encheram completamente a Espanha, a Itália, a França e quase todo o mundo, assim que pela sua frequência ultrapassaram os outros. Se devesse escrever todos estes milagres então se teria vários livros.

8. Através do Saltério, se deve admirar as perfeitas conversões de pecadores e de pecadoras: por todos os lados, nos Templos, nos lugares retirados se emitiam choros e gemidos, soavam os batidos dos peitos, ferviam as Penitências, até mesmo nas crianças; hoje isto parece inacreditável! Terias acreditado, que os Anjos permanecessem sobre a terra.

9. Por quê? O ardor da Fé fazia fugir os Hereges, e cada bom (cristão) retinha o máximo proveito, como efetivamente por ter oferecido a vida pela Fé.

VI. “O convidado herói Simão de Montfort, com todo o exército aprendeu o Saltério do meu Mestre Domingos, e o recita habitualmente.

Através deste venceu, resistiu e acabou com os inimigos. Os triunfos dos homens sobre o inimigo, que a Fé obtém do Céu, quase superam os fatos da história.

1. A Albígio, com quinhentos homens, (Simão de Montfort) desbaratou e colocou em fuga dez mil hereges.

2. Outra vez, com os seus trinta homens, venceu três mil.

3. Outra vez enfim com os seus três mil, em uma batalha junto a Toulouse, destruiu o rei dos Aragoneses e seu exército com mais de vinte mil: e resultou ao mesmo tempo, vencedor na batalha e na guerra.

4. Aconteceu de serem atacados por inimigos inesperados, perigosos e inumeráveis, mas graças à força divina do Saltério, que levavam habitualmente, eles venciam.

5. E aparecia então aos inimigos, que cem Montfortani enchessem quase toda a terra, quando vinham em ajuda, na verdade, os meus Anjos. Esta era a força do Saltério e a oração de São Domingos, o martelo dos hereges. “Esta milícia pela terra e pelo mar, em paz e na própria pátria, não fazia coisas menores, ao contrário maiores”.

VII. O fruto e a obra do Saltério são máximos:

1. A renovação, a construção e o embelezamento dos novos Templos, de Hospedarias de forasteiros, de Altares; a inclinação a muitas e grandes Revelações, Sinais e Prodígios; a santidade de vida, a honestidade dos costumes, e o candor das almas; o desprezo do mundo; a honra e a exaltação da Igreja; a justiça dos Príncipes; o equilíbrio das comunidades, a paz dos cidadãos, o modo de viver nas casas.

2. Nem silenciaram os operários, a servidão e os assalariados. Pode-se reter que, como estas, assim também todas as outras coisas (se obtiveram)! Estes não começavam uma obra, se antes não saudavam a mim e o Filho, através do Saltério; e se adormeciam, não antes de ter oferecido naquele dia, um ato de piedade a Deus, ajoelhados no chão. Eu sei que muitos, quando na cama lembravam que o seu costumeiro dever cotidiano, de rezar o Saltério, não tinha sido cumprido, levantavam para orá-lo.

3. O Saltério, para quase todos os bons e malvados, é tido em grande consideração. Se alguns são mais devotos, de consequência são os Irmãos de Maria do Saltério. Se alguém se mostrasse de comportamento reprovável, se dizia que não era da Confraternidade do Saltério.

4. Sobre a minha e a tua Ordem, saibas que: se alguém era considerado mais negligente, escutava: “Irmão, ou não pregas o Saltério da Santíssima mais Virgem, ou não o oras devotamente”. Certamente no Coro se encontravam afastados os Irmãos, que oravam o Saltério mais rapidamente, do que no dormitório ou no trabalho.

5. Então escutem todos, quando então era honrada a minha glória nesta Ordem! Veja, quanta é agora à distância!

Onde está, de fato, esta antiga assiduidade dos milagres? Onde (se encontra) igual abundância de santos homens? Onde está à força da disciplina e o rigor da vida? Onde está o zelo e a grande salvação das almas? Eu e o Filho amamos a perfeição e a vossa salvação. Agora estamos tristes pela fraqueza e preguiça (em rezar o) Saltério. “Digo que, se tivéssemos a natureza humana, teríamos dor, mas agora a chuva de lágrimas terminou e é uma recordação distante”.

Todavia estejam atentos a si mesmos, aqueles que assim, privaram a Mim e ao meu Filho da honra do Saltério. Procurem levantar-se graças a mim, que sou a Rainha da piedade, da misericórdia e dos Pregadores, e retornem o mais cedo e mais devotamente aos Saltérios dos Pais e das Irmãs de um tempo.

FIM DA SEGUNDA PARTE

Numerosas Revelações se contarão nas partes sucessivas, no momento dos Sermões.

CAPÍTULO I

Primeiro Sermão sobre a Oração do Senhor, revelado em Toulouse por Jesus Cristo a São Domingos e sucessivamente ao novo Esposo de Maria.

I. O Saltério dá o conhecimento da Santíssima Trindade àqueles que o amam, e amando-o louvam o Esposo e a Esposa em um exultante Cântico.

Por isso São Jerônimo (afirma) em uma reflexão: “A grande bondade de Deus esplende nas nossas casas, quando a divina Majestade habitou no asilo Virginal. No pequeno reparo a Divindade estava inviolada e através do nascimento do menino, a Trindade se manifestou”. E Ele, que foi concebido através da Saudação Angélica, pregando, ensinou como fazer a Oração, não do Profeta (Davi), mas (a Oração) do Evangelho. Por isso todos devem venerar mais santamente ambos, e devem praticar com a reza, para que nos perigos da ignorância das sombras, conheça-se as estradas de Deus. Visto que todo o mundo está possuído pelo maligno. O Novo Esposo de Maria recebeu um Sermão de São Domingos que, por sua, vez tinha sido revelado ao Santo Padre em Toulouse, na Igreja Maior.

HISTÓRIA

II. O Pregador de Cristo, São Domingos, Patriarca da Ordem dos Pregadores, percorreu o campo de joio dos albigenses e as terras espinhosas com o tormento das maldiçoes heréticas, para semear a boa semente de Cristo. Mesmo sendo muito experiente na pregação, estava sempre preparado, instruído, seu coração não encontrava nada de prazeroso a ser dito publicamente. É normal que cada Pregador, amado por Deus, por humildade peça a Ele de lhe dar um bom Sermão, visto que a conversão das almas acontece através da potência divina, não através da ciência humana.

(É a potência divina que) dá a boa Palavra aos Evangelizadores que tem muita virtude, até que os pregadores, como Sansão, abatam os Filisteus, ou seja, os pecadores, os demônios e os desejos desorganizados.

II. Por isso São Domingos esforçando-se para conquistar as almas com uma pregação mais sólida, encontrou ajuda junto ao seu confidente, o Salvador das almas. Ele obteve de Jesus o mérito de gozar do fruto do ensinamento, pela forma de consolar e por aquela de pregar. Como quando, entre outras coisas, o Salvador aparecendo à ele, manifestava a realidade maravilhosa da salvação, dizendo: “Caríssimo Domingos tu és a minha exultação, porque com humildade salvas as almas dos homens. Não amo aqueles que procuram as coisas celestes e esquecem os humildes. Que amam pregar coisas extraordinárias mais do que aquelas úteis. Não são esses que preparam as almas doentes, para que Eu possa ser uma eficaz medicina. Antes de tudo os cultos, os ignorantes, os ilustres e os desconhecidos devem ser conduzidos à devoção da Oração, e especialmente ao meu Angélico Saltério. Esse eu ditei ao meu Gabriel e Eu mesmo ensinei e entreguei como única Oração, em sete formas. É necessário que aqueles que tentam produzir frutos na salvação das almas, a recomendem em assembleia pública. Porque a bondade da divina Clemência alegra-se intimamente pela fé devota daqueles que a escutam.

Essa é a verdadeira utilidade das pregações. Pregues à mim ou à Domingos a minha Oração. Quero que, com a humildade, tu destruas a soberbia dos heréticos e com a piedade a dureza dos pecadores e com ambas tu os faça louvar à mim. Para isso revelo à ti as quinze vantagens da minha Oração.

Tu interrogarás os auditores e o tornarás capazes de decisão. Ordeno, comovas as consciências. Recebas o Modo, o Lugar e o Tempo”.

PRIMEIRO SERMÃO DE SÃO DOMINGOS TEMA: Mateus 6

Vós que orais não quereis falar muito, como fazem os Pagãos.

Assim então vós rezareis: Pai Nosso, etc.

Primeiro grupo de cinquenta orações do Saltério.

1. “Pergunto caríssimos: em uma terra deserta e selvagem para os filhos pequenos, que caminham com dificuldade, não seria necessário ter um pai atento como companheiro de viagem? Eu o admito, vós confirmais. E nós somos aqueles pequenos, no deserto do mundo; não temos a força de caminhar, nem de cumprir nada sozinhos: porque essa provém de Deus. Por isso é necessário aprender a Oração do Senhor, através da qual teremos presente o Pai nosso, quando dizemos: “Pai Nosso”.

2. “Pergunto: se alguns viajantes atravessassem uma terra onde todos, atacados por serpentes ou dragões morrem. Não seria necessário aos viajantes um fortíssimo homem como guia? Alguém que não pudesse ser agredido pelos animais e que fosse capaz de matá-los? Que transportasse os viajantes nas costas num rio ou estrada? Ninguém diz que não. Nós vivemos na terra dos dragões infernais e de todos os pecadores.

Na verdade, Cristo é nosso Pai e Guia, é também o fortíssimo e máximo gigante do céu. Ele é a morte para a Morte e o tormento para o inferno, e Ele não morre, a morte não o domina. Por isso o acolhemos em nós, confiamos nele e dizemos “Que és”, Ele é o Ser dos seres, imortal pela essência: “Aquele que é me enviou à vós” (Ex.3).

3. “Pergunto: se devêssemos caminhar através das terras tenebrosas do Egito, seria necessário o esplendor do sol, da lua e das estrelas? Sim, com certeza. Nós vivemos na terra obscura de trevas e na sombra da morte de todos os pecadores, pelos quais temos maior necessidade da luz do Céu.

Para chegarmos à essa espiritualidade com os nossos corações, mais frequente oremos “Nos Céus”. Já que Cristo é o Céu dos céus e o esplendor de todos os Céus. Ele é o Sol de justiça e a Estrela descendente de Jacó”.

4. “Pergunto: Se alguém passasse onde todos caem em pecado mortal e são abandonados à morte eterna. Seria necessário que esse, para não cair em pecado, fosse cheio de santidade e ter parte na assembleia dos Santos? De que modo esse poderia ser salvo e liberto da morte? Ninguém o negará.

Nós vivemos nessa terra. Quando a alma comete um pecado mortal, ela é destinada à morte, é condenada à privação da graça e da eternidade. Então levemos e rezemos o Saltério e com esse oremos “Seja santificado”, para que nós possamos ser, não só santificados, mas também ajudados pelos Santos de Deus”.

5. “Pergunto: estando prestes à percorrer a região de uma língua desconhecida, é necessário um interprete de confiança? Ninguém diz não.

E bem nós somos esses peregrinos em terra estrangeira e procuramos a cidade futura, onde é necessário falar a língua dos Anjos. Se não a aprenderemos seremos exilados e afastados da pátria. Veem-se assim duas escolas onde é possível aprender a língua dos Anjos, ou seja, a Oração do Senhor e a Saudação Angélica. A repetimos então com uma continua familiaridade, no “Vosso Nome”. Essa é a Palavra de Deus, através da qual foram criadas todas as coisas: o nome de Jesus deve ser acrescentado por aquele que conhece bem a língua. Por isso Bernardo diz: Oh! Bom Jesus, o teu Nome é um doce Nome, um santo Nome, um forte Nome, um Nome terrível e piíssimo”.

Segundo grupo de cinquenta.

6. “Quem vai viajar no Reino de um Tirano, que mata por prazer, precisa implorar a autorização do Rei para não sofrer violência em seu território? Certamente sim. E isso é o mundo, esse é o tirano: ele arrasta qualquer um à escravidão e à morte, depois de o ter espoliado de tudo, deixando apenas um vil pano para envolver o cadáver.

Nós estrangeiros devemos atravessar isso: o que permanecerá se não implorarmos à potência de Deus: Oh! Senhor, “Venha vós ao vosso Reino”? Te dirigirás ao Reino de todos os Reinos, ao Reino do Filho, Vencedor de todas as coisas, das quais (diz) Crisóstomo: “O teu Reino, Jesus Cristo, supera todos os Reinos do Mundo e faz passar com segurança aos Reinos Celestes qualquer fiel: visto que tu és o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores (Ap.19)”.

7. “Aquele que encaminha-se para uma terra hostil, deve obter a proteção de um Imperador poderoso, que o defenda dos roubos, da escravidão e dos ladrões pela avidez?

Certamente sim. Nós, circundados pelas adversidades da terra, seriamos conduzidos à rapina, à escravidão e à morte, se uma força do Império não nos salvasse. Na liberdade procuramos um lugar imperial que nos proteja, como libertos do Senhor dos Senhores, do qual a única vontade pode ser a nossa segurança e liberdade. Oramos: “Seja feita a vossa vontade”. Diz Santo Agostinho, a extrema liberdade é fazer a vontade divina. Servir Deus é reinar”.

8. “Se alguém devesse atravessar uma região inundada pelas águas, não precisaria de um navio ou de um carro ou de um outro meio de transporte?

Concordem comigo. Nós somos aqueles acercados pelas misérias da vida: então, diz S. Basílio, esse mundo é um dilúvio de pecadores. Por isso o nosso refúgio está no Céu. Dizemos orando “Como no Céu”. No Céu existe o carro dos astros, a via Láctea, Maria a estrela do mar: a saudamos no Saltério. Do céu a salvação difunde-se sobre as coisas terrenas”.

9. “Se a estrada da tua peregrinação fosse áspera pelos montes e selvagem pelas florestas e no trajeto cheio de buracos, fostes abatido por terremotos, seria inevitável a tua morte por ter suportado os extremos males ou encontrar uma estrada através da qual possas prosseguir. A tua Alma é peregrina sobre a terra do teu corpo, circundada por enfermidades, cheia de espinhos, volúvel entre os tremores e as vicissitudes das situações e duvidosa entre a esperança e o medo. Entres no celeste caminho da Oração do Senhor “Na terra”. Essa Oração é a vida para os Céus”.

10. “Faças assim: sobre a terra estéril tu conduzes uma vida mísera, onde existe a fome e a privação e vês muitas imagens da morte que realizam-se.

Diante disso não devias procurar comida e bebida? Porque não falas? Ah, onde vivemos a vida! E quanto é mísera! Estamos na terra deserta, diz São Gregório, num lugar de horrores e de grande solidão, de fome e de morte: porém a Oração, diz São Basílio, oferece o pão da vida e a bebida. Porque então vós não pegais o Saltério e a ele não vos voltais pedindo o “Pão nosso de cada dia”?

Terceiro grupo de cinquenta orações

“11. Se alguns tivessem dedicado toda a vida ao Príncipe, tanto que não pudessem ser nutridos por ninguém que não fosse ele. E se o Príncipe não quisesse dar à eles nenhum alimento, exceto aqueles que tivessem o distintivo real e a palavra de ordem. Isso não seria de estrema maldade? Não duvidais. Nós vivemos sob a potente mão do Senhor, a qual aparece e sacia cada ser vivente, mas somente diante da palavra de ordem, dada ao mesmo. Considerando que, segundo São Crisóstomo, a Oração evangélica é o verdadeiro distintivo da divina bondade e poder: é justo, que seja dito mais frequentemente no Saltério: “Dai-nos”.

12. “Aqueles que endividaram-se grandemente com um rei cruel e não o pagam, então deviam pagá-lo pessoalmente, sob a pena de morte eterna. Se, ao invés, o Rei se demonstrasse pronto a perdoar tudo, bastando para tanto que fosse pedido o perdão: não seria considerado louco e infeliz aquele que não quisesse dar à ele um tão pequeno gesto de submissão e de reverência?

Sim, com certeza. E mesmo nós somos devedores de Deus, por nos vendermos pelos infinitos débitos e terminarmos nos mercados dos escravos, e passar aos atormentadores: e podemos fugir à essas coisas com uma pequena oração. Disse o mesmo Rei: se me invocam, eu os ouvirei e serei o Deus deles. Quem de nós, então, não o invocará mais frequentemente no Saltério? Oh Senhor, “Perdoai os nossos pecados”. De fato a oração do Senhor, diz Remigio, é o pedido dos filhos ao pai, para aliviar a miséria humana com a colheita dos bens e a remoção dos males”.

13. “Se alguns homens, aprisionados pelo Príncipe e feitos escravos, estivessem para ser mortos pelos seus cruéis delitos e não quisessem perdoar as ofensas do próximo: esses deveriam ou não ser considerados infelizes e malditos? Todos concordam comigo. Essa remissão é em relação ao próximo, quando orando dizemos “Como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”.

14. “Se alguns fossem tentados pelo demônio, da carne e do mundo, das dores e das misérias, e pudessem ser imunes desse apenas com uma pedra preciosa: como poderiam se negar a adquirir tal pedra, ou afastá-la e não a querer? Deveriam ser loucos e certamente míseros, e nenhum deles seria digno de compaixão. Essa pedra preciosa é a Oração do Senhor, que protege, diz Santo Agostinho, de todas as ilusões e agressões. Por isso é necessário orar frequentemente o Saltério “E não nos deixei cair em tentação”.

15. “Se enfim devêssemos navegar através do mar infestado de baleias, com o perigo de naufragarmos pelas pedras, redemoinhos, monstros, sereias e até tempestades e piratas; e o Rei e a Rainha, nos tivessem oferecido semelhantes pedras preciosas, que tivessem a força de nos liberar de todos esses males e nós não a aceitássemos. Quem não nos chamaria de loucos? E nesse mar do mundo estão demônios, existem delitos implícitos e explícitos, luxúria, gula, etc. Cristo então oferece a sua Oração e Maria a sua Saudação, para que a acolhamos e digamos no Saltério: “Mas livrai-nos do mal”.

A CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA

IV. O Salvador Jesus (disse) tais coisas à São Domingos em uma aparição:

1. Ele então sem demora, cheio de alegria, esperança e de espírito divino, no dia seguinte (consagrado à Virgem Mãe de Deus, com solenidades e festa), na Igreja Maior de Toulouse, diante de muitos do Clero e do povo, pregou o Sermão prescrito pelo Senhor. E foi tanta a força daquelas palavras e a sua eficácia, que quase todos, do maior ao menor, foram tão encorajados e encheram-se de amor pelo Saltério, que uma grande parte decidiu de servir sob esse símbolo, Deus e a Mãe de Deus. Os fiéis passaram a proclamar o Saltério, enquanto que os heréticos, condenando o erro deles, voltaram-se ao seio da Igreja.

3. Dentre esses, três homens de fama especial e heréticos implacáveis, depois de ter publicamente renegado a heresia, reconheceram-se como Católicos: ou seja o Mestre Norberto do Valle, Doutor em Direito Canônico, Mestre Guelrino do Fracmo, exímio na Arte da Filosofia, Mestre Bartolomeu do Prado, Médico e também grande Teólogo. Esses três, além de tantos outros, pregaram humildemente o Saltério difundido por São Domingos: e seguiram a Instituição de seus Pregadores.

4. Daquele momento, obtém-se uma maravilhosa conversão dos heréticos, a prática da sagrada Religião e da devoção no culto coronário de Deus beneficiou o Saltério, com o fruto máximo e com a expansão da Igreja.

CAPITULO II

O segundo Sermão sobre a Saudação Angélica, revelado primeiramente pela Mãe de Deus à São Domingos e em seguida novamente por ele ao Novo Esposo.

1. S. Domingos permitiu-se revelar à um Pregador Religioso, o novo Esposo de Maria, que o era muito fiel e devoto, o seguinte:

HISTORIA

1. “Tu, oh Irmão – disse São Domingos aparecendo subitamente – pregues, mas estejas atento para que não procures o louvor humano e a glória sem zelar a salvação das almas. Quanto à mim, não pretendo esconder, o que me aconteceu uma vez, enquanto eu vivia em Paris. Na Maior Igreja metropolitana, consagrada e dedicada à Maria, Mãe de Deus e Virgem Imaculada, me preparava para pregar e falar com diligência atenção e desejo. Não o fazia por vaidade, mas para os ouvintes muito sábios, pela nobreza do vastíssimo público e para demonstrar a evidência luminosa e completa verdade e para marcá-la nas almas, para que o fruto à Deus resultasse satisfatório. Antes da pregação e da assembleia, como de costume, me recolhi na capela atrás do Altar maior, por uma hora, rezando o Saltério. Entrei em êxtase, diante de uma luz que admirava com maravilha e vi a minha Amiga, à quem orei desde a juventude como Esposa caríssima, a Mãe de Deus. Ela levava na mão um livrinho e o dando à mim disse: Oh! Caríssimo Esposo Domingo, mesmo que seja um bem aquilo que decidistes pregar, eu prefiro que tu pregues o sermão que eu te dou e que é muito melhor. O aspecto e o afeto familiar me raptava ao êxtase e era como de uma alegria maravilhosa: peguei o livro, o li respeitosa e fortemente, e soube ao que referia-se a Soberana Maria.

Ela, depois de ter me agradecido, pelo que eu pudesse (dizer), desapareceu. Já estava perto da hora do sermão e estavam presente todos os Chefes da Universidade parisiense, os Aristocratas, os Senhores, o Senado e muitos do povo, e a assembleia era muito ilustre. A fama dos milagres já realizados, exortava todas as Classes sociais à escutar. No sermão, depois de ter omitido a história da vida e as exímias excelências do Apostolo e Evangelista, São João, o celebrei através de poucas palavras, porque mereceu ser o custódio especial da rainha dos Céus e da terra, a Mãe de Deus e Virgem Maria, a qual (disse) possuis quinze antídotos muito eficazes, e ao mesmo tempo facílimos para todos, contra todos os perigos do mundo. Então insistindo e persistindo nesse argumento, preguei tais coisas”.

SEGUNDO SERMÃO DE SÃO DOMINGOS TEMA Lc.1

Entrando o Anjo o disse: Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, etc..

Primeiro grupo de cinquenta orações do Saltério.

II. “Cristianíssimos ouvintes, etc.. exímios mestres. Esse lugar e as vossas orelhas tão eruditas são contrários às elaboradíssimas orações, mas eu agora não falo com as palavras eruditas da sabedoria humana, mas com a manifestação do Espírito e da virtude. Escutem-me, por favor, com devoção cristã”.

1. “Se deves percorrer uma terra hostil, não desejarias alguém que vos conduziste sãos e salvos? Darias pouca importância a isso? Creio que o pensamento e o consenso é comum e único a todos. Concordais comigo.

Certamente nós vivemos cercados de inimigos e a Saudação Angélica é o sinal da salvação. De fato o que é “a Ave”, se não a ausência das culpas de cada Eva89? Voz exultação! Exulta a “Ave” é o novo e primeiro Evangelho, é o bom Anúncio, feliz e propício. Pelo qual exilados filhos de Eva, nos apegamos Àquela que nos guia sãos e salvos, libertos do (demônio), fugiremos à cada coisa diferente; sem dúvidas todo o mundo foi liberado da maldição de Eva, através da Ave”.

89 Abbiamo lasciato il testo originale per rendere il gioco di parole evidente nello scritto latino.

2. “Se devêssemos andar por cavernas e lugares obscuros, não procuraríamos e preferiríamos uma lanterna? E então vós direis: justamente. Mas todos nós nos dirigiríamos pelas obscuras sombras e as cavernas serpentinas da mortalidade humana. O que nos guia, se não o Lampião de “Maria”? Acendemos essa na Saudação Angélica, repetida amavelmente, com o fogo da devoção e seremos iluminados. Ela própria, Maria, é a Estrela do mar que nos ilumina”.

3. “Fazes que seja assim: suponhamos que o Rei de França esteja desgostoso dos teus malvados crimes; te alegrarias ou não, se (encontrastes) graça (junto) à Rainha para que o descontentamento do Rei termine? (Estais de acordo) comigo, me escutem todos.

Nós somos todos aqueles que ofendemos à Deus em muitas coisas. A Rainha do Céu, Coração de Misericórdia, pode e quer reconciliar-nos com Deus: que a “Graça” da Virgem seja recultivada e convenientemente honrada por nós no Saltério. Vos persuado para que hoje também rezais o Saltério, visto que talvez nem todos amanhã estarão vivos”.

EXEMPLO

III. “Eis uma voz profética, que explora os pensamentos. Quatro estudiosos de arte, com costumes muito desonestos, desprezando o homem de Deus, disseram após o discurso que esperavam algo grandioso quando escutaram uma lição para crianças. Na noite seguinte, os mesmos fartavam-se e foram às meretrizes. Durante os abraços das meretrizes, visto que o prazer estimula a ira, se precipitaram em brigas e armas: no massacre, dois foram mortos e os outros dois feridos de morte. Tendo sido esses dois presos nos cárceres dos guardas, depois de brevíssimo tempo, no mesmo lugar, entre as bestas, exaltavam a alma corrompida e infeliz”.

4. “Aqueles que protegem uma viagem, através de lugares desertos e terras incultas, sendo privados de alimentos humanos, não entendiam necessário prover a esses outra forma de alimento? Nenhum sábio (de outra forma) iria querer ir. A terra da nossa peregrinação está deserta, inacessível, árida, pobre de bens celestes, vã e vazia. Porque tardamos então, porque permanecemos atrás, ao invés de receber todos, súbito, da abundância dela, que é “Cheia”? Dê a ela no Saltério essa palavra, e recebereis os bens”.

5. A terra arruína-se com guerras ferozes, e ladrões a infestam, tanto que em lugar nenhum existe uma salvação segura, exceto que um só castelo é inexpugnável: junto a esse quem não se refugiaria? Mas a terra na qual nós vivemos é essa e o Senhor é o nosso refúgio. E porque o invocamos com pouco ardor na Saudação Angélica? Quem de nós no Saltério, com a (Saudação Angélica), não tem duvidas em dizer frequentemente ‘O Senhor’”?

IV. Em meio à isso São Domingos dá, ao Novo Esposo de Maria, um exemplo: “Enquanto eu pregava essas coisas, a Alma Patrona Maria estava de continuo ao meu flanco como assistente: próprio ela, como se lesse o livro à mim, me sugeria uma à uma as palavras como em um ditado: ela sustentava as (minhas) forças, a alma e o espírito, me confortava e me sugeria palavras virtuosas. E as palavras ditas, entravam nas orelhas e nas almas dos ouvintes, como dardos em chamas. Muitíssimos sentiam carvões que devastavam os pecados nas próprias consciências, e essas no interno queimavam e cresciam pouco a pouco como as chamas do Temor e do Amor de Deus. Enfim assim terminava a primeira parte do discurso: “Nós vemos que fomos negligentes em relação à reverência e obediência aos Dez Mandamentos de Deus, pela humana malvadeza e fragilidade, oh desconsiderados! Que Deus afaste de nós isso! Mas cada um dos cinco perigos já elencados, pode habitar com a malvadeza ao longo de todas as divisões do Decálogo, e procurar (assim) a morte à alma. Por isso para afastar e proibir os quinze males existe como remédio, para todos, as primeiras cinquenta orações do Saltério: a Coroa de Maria, que é a armadura própria para cada defesa.

Segundo grupo de cinquenta orações

V. 6. “Em uma improvisa necessidade, que durante uma noite profunda leve alguém em viagem, na qual seja ameaçado por animais terríveis e monstros horríveis: O que seria necessário além de companheiros armados e sensatos como próprios defensores? Nós somos àqueles expulsos às sombras do mundo, e realizamos uma viagem entre os ferozes monstros dos homens e dos vícios: desgostamos todos e somos privados da graça. Desgraça à quem está sozinho! Seremos privados de uma guia e de um defensor. Eis aparece pronta a Amável Mãe Virgem: pede a Senhora, e a prende “Contigo”. A tua acompanhante em todas as coisas, a Saudação Angélica, qual o valor dela no Saltério?”

7. “Se és obrigado a andar em casas ou lugares, que estão corrompidos com todos os crimes. Uma pessoa que ama o seu honesto nome, iria? Sem dúvidas levará consigo como testemunhas e companheiros, muitos homens santos e íntegros, de vida e de fama. Não existe nenhum lugar nesse mundo, que é de infâmia mais nota, e todos devem o atravessar: feliz daquele que ninguém golpeou pelas costas, aquele que não leva consigo nenhuma infâmia. Dentre todos apenas uma não tem nenhuma (infâmia), é “Bendita” pela excelência: aquele, que a apresentar como companhia, estará seguro. Essa associa-se, com aqueles que a exultam como a saudação “Bendita”, presente no Saltério. Ela é testemunha de vida e de fama e custódia confiante”.

8. “Se o vosso nobre desejo de aprender os tivesse levado a uma escola e o conhecimento fosse transmitido em uma língua estrangeira, o que seria necessário para realizar o vosso honestíssimo desejo? Um mestre de línguas? Quem não se aproximaria para o escutar? Nós que passamos por uma símile escola, desejosos em aprender a arte celeste, embora sejamos ignorantes da língua. Qual é o mestre que procuramos? Eis o mesmo vem em ajuda, podendo ensinar com a sua palavra. A Saudação Angélica o faz conhecer aos Salmodiantes, com a pequena palavra que nos indica o “Tu”. Nesse é contido o Espírito, o Divino Mestre da Mãe de Deus. Tu mesmo o procura com as orações. Maria te tornará amigo”.

9. “Imaginamos que: entramos em uma nação, na qual não é lícito levar nada, seja dentro que fora, na qual se deve viver de esmolas à mendigar, na qual homens sem piedades levam aço entorno aos corações, endurecidos pela barbárie. A natureza das mulheres dessa terra é, porém, inclinada ao bem. Maria SS. é a Mãe da Misericórdia! Se os Anjos Santos e todos os Santos por causa dos nossos pecados para com Deus, fossem contrários e duros com nós, Ela porém seria sempre uma boa Mãe. Por isso a bendizemos justamente com: “Entre as mulheres”.

10. “Caminhando todos os dia através das estradas cheias de amarguras do mundo, como testemunha São Gregório, seria ou não um agradabilíssimo companheiro aquele que é docíssimo na consolação? Esse é Ele, e escolhes de o estar próximo. Orando à Ele dizemos: “Bendito”.

Porque então não desejamos de nos ligar estreitamente à Ele no Saltério?

Por isso através dos quinze perigos à nossa salvação (ditos antes), avançam terrivelmente os amedrontadores dez monstros das principais malvadezas: os sete pecados capitais, a perfídia, a presunção e o desespero.

Que não exista ninguém que tão odiado por si mesmo, se tivesse conhecido as seguras defesas da salvação, as teria omitido. Ao contrário, todos os teriam julgado louco ou o teriam compaixão por ter perdido toda a esperança. Por isso contra aqueles cinquenta (cinco vezes dez) péssimos monstros, agrade a vós como refúgio o segundo grupo de cinquenta orações do Saltério”.

Terceiro grupo de cinquenta orações

VI. 11. “Àqueles que viajaram, cansados e exaustos pela fome e pela sede, e privados de um refúgio para se refazer: O que pode acontecer aà eles de mais agradável, do que encontrar uma árvore florida, cheia de bons frutos e uma fonte de água fresca? Na estrada árida da vida, encontramos a Santíssima Virgem, Árvore do “Fruto” três vezes Bendito, junto à Fonte da Vida: então saudamos juntos o Fruto e a Árvore no Saltério”.

12. “Suponhamos que um de nós deva ser coroado Rei de um Reino, no qual todos são estéreis, ninguém pode ser pai ou mãe. Mostram, porém, ao Novo Rei uma pedra preciosa, que tem a força de fecundar todos. Seria sábio ao rejeitar? Ele amará muito o seu reino e cada um será Rei do próprio corpo. Esse reino, porém, é colocado numa terra de maldição e de espinhos, onde domina a infeliz esterilidade: distante dessa, o Reino pode ser feliz por fecundidade, cada um utilizaria cuidadosamente, a pedra preciosa que é a Saudação Angélica, dita “Do Ventre”. Por isso nos será dado fecundidade, pelo Espírito Santo. Com essa a Virgem Maria distanciou cada esterilidade do espírito do mundo, para que invocada corretamente, ela restitua amplamente a fecundidade da carne!”

13. “Não ignoramos isso que nos foi dito: negocias, até que eu venha.

Mas cada um pode dizer: eu sou mendigo e pobre, não possuo ouro nem prata: com que coisa então negociarei? Nos sejas então uma potente Rainha, que queira te dar abundantemente riquezas: não solicitarias a sua graças em cada modo? É Maria, da qual a posse é própria: “Do teu”, Teu, oh Virgem, tua posse de todos os dois mundos, do celeste e daquele que jaz no compromisso; ela possui a verdade por ti: tu somente serves a ela no Saltério”.

14. “Se alguém fosse amarrado com cordas e preso num cárcere, e não tivesse a chave com a qual se libertar e abrindo todas as porta do cárcere, o fosse concedido de sair com gloria: Ele não seria louco se não aceitasse?

Nós também estamos amarrados, sentados na pobreza e acorrentados.

Porque então não aceitamos “Jesus”, que é a Chave de Davi? Ele é acolhido com a mesma Saudação, através da qual foi concebido.

Omitiremos de pregar, orar, levar, beijar, venerar abertamente o Saltério, Palácio da Saudação?”

15. “À quem vive sobre uma terra infecta e em putrefação, o que seria necessário para garantir a (própria) saúde?

Nós míseros filhos da morte arrastamos a respiração e a alma nessa pestilência do mundo, porque vivemos. Morremos, porém, sepultados na imortalidade: O quanto a peste respirada pode tornar infeliz em eterno.

Quais são as formas de combate? Aos cristãos basta o remédio “Cristo”, ou seja, o Unto, para todos foi difuso o Nome, como um Remédio; e a difusora dos remédios é Maria, que dá Cristo ao mundo pestilento. Ela concederá também à ti de venerá-la no modo devido com a Saudação Angélica”.

“Por que entre tantas desaventuras e a morte eminente, tardamos em nos procurar um remédio pela vida? Eis os cinco próximos perigos, venenosos e portadores de venenos funestos, e nós os absorvemos com o mesmo espírito. Porque através dos dez sentidos, ou seja, dos cinco exteriores e dos outros cinco interiores, é tão fácil quanto perigoso absorver a peste.

Devemos fazer uma coisa muito saudável e procuramos o remédio, repetindo por cinco vezes dez Saudações Angélicas no Saltério”.

A CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA

VII. “Essas coisas, o meu filho (S. Domingos dizia ao novo Esposo): eu pregava, como tinha ordenado a Máxima Santa entre as Santas, a nossa Maria. Com aquele Sermão, lançava a rede como um pescador, pescava quase toda a cidade de Paris. A pregação dava tantos frutos, que seguindo-a as almas dos habitantes e dos estrangeiros a prática, o culto e a veneração do Saltério começou a crescer e a ser divulgada por todas as partes do Reino, em todas as famílias e casas do povo.

Antes de tudo o fervor daquele Sermão entregou a flor escolhida pela sábia juventude que, sob o influxo do Espírito de Deus, lançou-se para as metas mais altas do novo Instituto dos Pregadores. Por isso, abdicada a vida secular, muitos jovens se consagraram à Ordem, seguindo São Domingos como mestre de vida. Naquele tempo, começou a pregar exatamente no nosso convento de Paris. Aquela construção engrandeceu-se como ainda hoje pode-se ver: tendo ajudado muitíssimo o Bispo, o Rei, a Cidade e principalmente toda a Academia desse lugar, em vantagem de Deus e da Mãe de Deus”.

CAPITULO III

Como revela Maria ao Esposo, o Saltério salva das bruxas.

I. Leia-se um exemplo, que também a Beatíssima Virgem Maria revelou em modo extraordinário a um novo Esposo, seu devoto.

I. “Meu caríssimo Esposo (dizia Maria, a Esposa de Deus), São Domingos depois de Roma, atravessou a Alemanha tinha empreendido uma viagem à Paris, seis irmãos do mesmo Instituto o acompanharam. Ele ia em todos os lugares e acostumou-se a fazer exortações e assembleias especialmente nos mosteiros e colégios, mas também nas casas dos populares. Ele pregava muito nas nações estrangeiras, através de um interprete, mas também falava em espanhol e mesmo àqueles que não conheciam essa língua, parecia que falasse na sua língua nacional, pois era entendido perfeitamente.

2. Enfim, por graça o foi concedido por Deus o dom de mesmo não sabendo falar línguas estrangeiras poder comunicar-se em todas as línguas de todas as nações. Ele empregava o extraordinário dom das línguas em beneficio dos povos. Visto que a virtude e o espírito divino infuso em São Domingos, impaciente de salvar o mundo, não devia ser freado por causa do conhecimento das línguas o foi concedido de usar esse dom.

Visto que ele era o primeiro comandante, aquele que Deus queria designar aos Pregadores, para todas as zonas e nações dos povos do mundo.

3. Não falava as línguas estrangeiras, apenas por dom do único Deus, mas também por seu mérito: como quando, sob o impulso do espírito, pregava de forma ainda mais ardente Deus pela graça. Na França por muitos dias fez belos sermões aos germânicos na língua deles.

4. Eu obtive para o meu Esposo, junto ao Filho, sobretudo a faculdade de poder sem dificuldades falar também com uma multidão, para a salvação das almas. Então, em qualquer Nação estrangeira colocasse os pés, por graça, a pregação adequava-se imediatamente à língua do mesmo povo. E justamente: em nenhum lugar parava, se não como Apóstolo do Senhor: onde o Espírito o conduzia. Foi enviado a um mundo quase moribundo, por caridade, para o acordar”.

“II. Mas então, escutas a história, memorável e extraordinária. Existe na terra Germânica um Castelo muito seguro, pela natureza do lugar, arquitetura e construção. No castelo morava um Soldado, poderoso na guerra e nas armas, e iguais à ele eram os seus quatorze tribunos, prontos à ação, robustos e especialistas na batalha, todos habituados a roubos. A alma muito selvagem tinha levado os corações deles para uma verdadeira e própria inumanidade, a tal ponto que se deliciavam mais pelos roubos obtidos por crimes, do que pelos botins conquistados após uma justa batalha. Eles não importavam-se de cometer latrocínios, de banhar com sangue os povos, de tal forma eram desumanos. Os ditos quatorze, todos sob um único Príncipe, conduziam muitos homens sob os próprios exércitos, não só fiéis ao dito arrolamento militar, quanto ligados por juramento à criminosa companhia dos crimes. Esses tendo feito roubos em lugares e em largo, em todas as terras entorno, ameaçavam à todos com roubos, latrocínios e massacres, submergindo os enumeráveis corpos dos mortos, jogando-os no rio que escorria (esse seria o rio Reno ou o Danúbio).

I. Então São Domingos estando numa cidade perto daquele infame castelo de ladrões, de manhã cedo, junto ao altar, no momento do Sacrifício da Missa, antes de seguir viagem, eu, a Beatíssima Mãe de Deus, me tornei visível somente à ele e o fiz as seguintes advertências:

1. Oh! meu Domingos, cheio de confiança em Deus, até agora, fizestes uma viagem favorável, porém, hoje não será como ontem. A tua sorte está nas mãos de Deus. Serás colocado em meio à ferozes ladrões, e a tua vida não estará segura sem mim.

2. Escutas o que deves fazer. Quando os ladrões te aprisionarem peças que te levem ao Príncipe. Tu possuis a sabedoria que eles não tem. Digas tudo aos chefes militares para a salvação de todos, e as palavras imediatamente serão confirmadas pelos fatos. No presente e iminente perigo, terás entre as mãos a vida deles.

Eles nunca verão e escutarão essas coisas sem que tu as pronuncie.

3. Saibas que: no dito Castelo moram quinze mulheres maravilhosas pela singular beleza do corpo, pela vestimenta e refinadas. Por serem consideradas maravilhosas pela elegância e beleza, elas fizeram o Príncipe e seus tribunos militares perderem a razão, fascinados pelos seus enganos. Eles não preocupam-se em cometer malvadezas pela influência dessas. Essas dominam completamente os guerreiros, elas não são criaturas humanas, mas verdadeiros demônios do Inferno! Bruxas. Os quinze homens estão convencidos que elas são deusas e o povo as chama de Fadas. Acredita-se que o que elas dizem traz prosperidade, que os seus conselhos são oráculos.

Infelizmente! De quantas dessas o mundo está cheio? As fúrias são doces como o mel e matam com o fel da víbora. Enfim devastam o mundo.

4. Por isso, a partir desse momento, leve contigo pela estrada a sacrossanta partícula do Corpo do Senhor, na forma como será pedido o uso. Isso produzirá a prosperidade dos teus irmãos e por isso, serás capturado pelos ladrões. Todos os ladrões serão como o teu botim para Deus, e também estais para triunfar sobre demônios capturados, que guiam os infelizes ladrões capturados.

5. Tu logo que sejas capturado, serás levado ao Príncipe dos ladrões, pedes que seja chamada toda a família: sabiamente colocas diante desses os seus torpes crimes, denuncia a esses os poderosos perigos, pelos quais eles deviam ser arrastados à morte: afastarás os espíritos malignos; revelas a forma para fazer fugir os (demônios): elogies aos homens o Saltério. Salvarás as almas. Esse é o preço e o prêmio do perigo. Disse e desapareceu”.

III. “Na forma como as coisas foram ditas e ordenadas as coisas aconteceram e foram feitas por São Domingo.

1. Assim ele e os irmãos companheiros realizaram a viagem. Quando eles chegaram perto do Castelo (não ouso chamar pelo nome o lugar, em respeito a um habitante presente) São Domingos entrou em êxtase. A Mãe de Deus apareceu ao seu Domingos, dizendo: Te envio junto à pessoas pecadoras. Há trinta anos atrás a maior parte desses, não pagou os pecados através da confissão e não quiseram escutar nada de divino: são todos magos, e devotos aos demônios. Insistes, pregues o Saltério; dás ou fales dos quinze remédios contra os pecados. Vencerás com Deus.

2. Logo que esses começaram a viagem, o grupo de ladrões os assaltou; os aprisionaram e amarraram, os rapinaram, os enganaram e os maltrataram com frustrações. Os demônios foram mais cruéis com São Domingos do que contra os outros. Eles conduziram os prisioneiros ao Castelo e certamente os matariam cruelmente, se Deus não o tivesse impedido. O Santo homem pediu para falar separadamente com o Príncipe, ao qual disse apenas poucas palavras. Introduzindo-se na alma do Príncipe, o tinha convencido com muitos conselhos sábios.

Somente ao Príncipe ele revelou as coisas mais secretas, explicou quais monstros este mantinha em casa e o prometeu desvelar as bestas subterrâneas.

3. Paralisado pelo medo, o Príncipe estava incerto: chamou os tribunos, diante dos quais interrogou o Santo, sobre onde tinha conhecido os monstros dos quais falava! O que precisava fazer, para que esses, no mesmo dia, não precipitassem na ruína? E o Santo o disse: falarei mais com os fatos, do que com as palavras: levarei contemporaneamente, diante das orelhas e dos olhos, o que tenho à dizer: o Príncipe, ordene que se apresentem aqui e se aproximem todos aqueles que estão no seu castelo.

Dito e feito: estavam presentes todos, exceto as Senhoritas, que davam como desculpa as suas muitas ocupações que inventavam. São chamadas: renegam. Então Andais, disse Domingos, em Nome da Santíssima trindade e através da virtude do Saltério que prego: ordeno à todos que as façam vir súbito aqui. Entanto àqueles que estavam em volta, disse: Mas vós, oh homens, permaneceis imóveis? Protegeis a fronte e o peito com o sinal da S. Cruz: creiais, contemplareis terríveis monstros do Inferno.

4. E fazendo sair à força, chega então às orelhas o fragor daquelas, que gritavam e se escondiam, (mas) arrastadas por uma força oculta elas apareceram: blasfemavam Deus, Jesus, a Mãe de Deus e os Santos, furibundas de ira, semelhantes e enlouquecidas. São Domingos novamente diz à todos: Cada um se arme com o Sinal da Cruz. Todos obedecem, mas elas ao contrário enfureceram-se ainda mais.

IV. Esse homem de Deus tira fora do ventre, uma Hóstia três vezes Santíssima, que mostra e assim diz:

1. Juro por Aquele que vês em pessoa entre essas mãos, que aqui entre vós se encontram das fúrias enfeitiçadas do Inferno.

Dizes abertamente: quem são, de onde vem, porque estais aqui? E tu expressamente, superbíssima besta, a primeira dessas, fala. Essas furiosas, espirantes inefáveis iradas e ameaçadoras, distorcem os olhos nas direções mais diversas e frementes, gritando em modo feroz: Maldito o dia que ti fez vir aqui. Maldita seja Ela junto ao Filho, que aqui te deixou vir. Assim, numa só hora destruis os nossos esforços de tantos anos? Sou obrigada, ai de mim, ai de mim, sou obrigada a trair o nosso segredo, oh Príncipe do mundo; Nós somos horríveis demônios: já há muitos anos fizemos àqueles aqui presentes perder a razão; realizamos através desses ruína e devastação e hoje estávamos a ponto de os afogar no rio, para jantar com nós no Inferno. Saibam: estavam prontos os navios, para que 500 deles fossem saquear uma terra. Mas hoje seriam submetidos e suprimidos nas ondas.

2. Porque, pergunta o Santo, não cumpristes isso antes? E essa: faltava a ocasião, não a vontade. Ele pergunta: E porque? Ela disse: Já sabes o suficiente: porque ainda nos atormentas? O Santo responde: Quero e ordeno em Virtude de Cristo: o manifesto. A Fúria: Aquela falsa Cançãozinha de Maria, Mulher Judaica sempre nos impediu: todos eles, por ordem do Príncipe, cada dia a saudavam. E o Santo: Quanto oravam?

E essa: Quanto tu pregas o Saltério da nossa inimiga.

3. A São Domingos que encalçava: da onde aprenderam isso? Responde: Não sei. Porque perguntas com insistência? Longe de mim, é por causa dessa antiga oração, antes acolhida em todo o mundo: mas quase apagada pela nossa arte que não os matamos antes. Agora tu a rezas novamente para a nossa ruína.

Mas muitos a levam (consigo) e hoje como antigamente a escolhem, e a recitam em baixa voz. O pai desse Príncipe, nosso inimigo, o obrigou desde criança a murmurar isso, por isso nele permaneceu o costume; também se se encontrava em situações de perigo, por se querer ser grande, queria que cada companheiro de batalhas o levasse consigo (o Saltério) e o rezasse.

Hoje em pé de guerra, visto que preparavam o necessário não tinham ainda podido orar. Assim estavam expostos indefesos à nós: aqui as ondas, ali as chamas, seriam mortos de uma só vez. São Domingos disse: A verdade veio à tona. Acrediteis homens: eu o confirmo. Mas escutais: se a potência do Saltério protegeu os criminosos, quanta força achas que o Saltério terá para proteger os justos?

4. As fúrias combatiam, debatiam-se e gritavam muitas coisas, para que, as deixassem afastar-se dali: ao mesmo tempo, ajoelhadas, suplicando a (sua) partida. As fúrias, porém, ainda não tinham deposto as máscaras de rosto feminino, (e eram) belíssimas; se não que, obrigadas a ir embora, assumiram um vulto tão miserável, que com o aspecto, com o comportamento e com o choro misturado a gemidos, adoçaram até os férreos corações dos homens, à comiseração e também ao choro. Esses mesmos, jogando-se no chão suplicaram, oraram com insistência à São Domingos para que esses, tão terrivelmente atormentado pela sagrada presença da Potência Divina, as liberassem das penas, as permitindo de ir embora: “São boas e muito amáveis, e também consoladoras e obsequiosas pelos homens, acima da estima humana”.

V. A esses então São Domingo, nervoso, exclamou: “Oh vós insensatos e ineptos à fé, não conheceis o suficiente os vossos perigos? Não vos arrependeis o suficiente dos vossos delitos, e não vos envergonhais de não amaldiçoar as Fúrias, péssimas mentoras de delitos e de perigos de forma funesta? Eu e Deus fizemos com que imediatamente o vosso amor e desejo em relação à essas, fossem arrancados totalmente. Por isso vos ordeno em Nome de Jesus e com o Saltério de sua Mãe: permaneçam homens fortes, não vos distanciais do local, para que, observando a imensa obscenidade desse monstros, vós mesmos tenhais piedade da vossa sorte. Vós ao contrário monstros infernais, péssimas bestas, depostas as máscaras, vos mostrais visíveis a esses, como sois por malvadeza. Assim, digo, ordeno à vós, pela força de Nosso Senhor Jesus Cristo aqui presente, e pelo seu Saltério.

2. E eis os monstros da besta, mais escuros do que o próprio Inferno. E se uma virtude divina particular não tivesse concedido a força àqueles que olhavam, teriam desmaiado diante do horror, do clamor e do fedor dos fantasmas. Não parava, porém, o homem divino: Ditas, ordeno: Por que e quem sois vós quinze? E tu superbíssima princesa das bestas, fales. Essa, deu um rugido, tão alto que quase arrancou as almas dos corpos: “Nós somos as quinze Rainhas do Inferno, e sedutoras do Mundo: e antes de tudo as insidiadoras desse Príncipe: para que esse homem de sangue Real e Imperial, fosse um instrumento oportuno para os nossos objetivos: para arrastar numerosos povos à nossa rede e diminuir a fé cristã. E com sucesso, ao menos até esse momento, nós exercitamos o comando sobre os mesmos magos e sobre os prestigiosos semelhantes a esses.

E não ignoramos nem desprezamos os astrólogos. Aqueles presságios, que esses fingem de pregar, como fruto dos astros, são inventados para vos enganar. Esses diziam muitas coisas, com as quais enganavam os Príncipes, semeavam as guerras e tramavam muitos males.

3. As outras estavam paralisadas iguais na malvadeza, mestres de crimes. À essas São Domingos disse: Distanciais imediatamente daqui e precipitais nas partes mais baixas do Inferno. Elas desmaiaram velozmente na fumaça e no fedor; ao mesmo tempo, os navios acostados com as armas fora do porto, afundados sepultaram (as armas) sob as ondas e empurrando (os navios) entre as chamas se queimaram, diante do exército quase fora de si pelo espetáculo.

VI. 1. O mesmo comandante abandonando todos os projetos de roubo e surpreso pelos horrores, junto com o mesmo grupo de ladrões (que era composto por mais de quinhentos homens), caíram suplicantes aos pés do Santo. Pediram de ordenar o que quisesse, de os aconselhar para a salvação e de cumprir o que foi iniciado.

2. Mas ele respondeu: Vós homens, purificais os templos com a confissão, desistais das ações desonráveis costumeiras, habituais ao bem. Quanto ao resto louvais o Senhor Jesus e a sua Mãe Virgem, no seu Saltério. E assim permitiu aos convertidos de repousar-se pelo resto do dia, visto que esses estavam atônitos, tremiam e estavam fragilizados na alma e no corpo. Para Domingos era suficiente ter visto uma coisa tão grande, ter escutado os culpados e ter cumprido (a vontade de) Deus.

3. Convocados novamente no dia seguinte, eles vieram em grande número ao encontro de Domingos, o qual descreveu em um longo Sermão, as espécies e a natureza dos monstros do Inferno que tinham visto. No final do sermão aconteceu a visão.

CAPÍTULO IV

Os quinze Abismos, ou seja as quinze bestas do Inferno e os quinze vícios: ao mesmo tempo torna-se público à visão.

TERCEIRO SERMÃO DE SÃO DOMINGOS TEMA: Salmo 150

Louvais Deus no Saltério, etc.

Oh! Filhos de Deus, combatentes do mundo, por longo tempo (fosses) filhos do diabo, como visses com os vossos olhos. Eu vim ao encontro da vossa vontade e vós sois por engano do demônio: porém por Natureza e por Criação, por Redenção e Sustentação, sejais Filhos de Deus. Agora escutem-me, suplico as almas porque, sem saber, haveis obedecido ao vosso Príncipe, com a realização de cada dia o Saltério da Virgem mãe de Deus. Eu fui enviado aqui para ensinar em nome da Santíssima Trindade e de Maria, apreendeis como e por quais males, deveis recitar o Saltério no modo devido para a remissão dos pecados. Primeiramente, quero que saibais: são quinze as supremas fontes de toda a malvadeza, as quais até agora como escravos servistes. Agora (e essa é uma Graça de Deus misericordioso), através do Saltério de Maria, vós sois distanciados desse; para, se quereis, seres livre.

E essas, como são quinze, se opõe também as quinze fontes da graça, que se desenvolvem na Saudação Angélica. Exporei, com a ajuda de Deus, os três grupos de cinco em tríplice ordem.

PRIMEIRO GRUPO DE CINQUENTA ORAÇÕES DO SALTÉRIO

A PRIMEIRA BESTA DO ABISMO É O LEÃO DA SOBERBA

Nessa (besta), o mundo erra pela arrogância, a vanglória e o desejo de ser o primeiro, em pensamento, palavra e obra. Contrária a essa é a fonte de graça do Saltério, que se encontra na palavra da Saudação Angélica, “Ave”.

Os soberbos estão na máxima culpa da Maldição. E se isso acontecesse à um dos Santos, ele seria imediatamente enviado do Céu ao Inferno. Se (tal Besta) pudesse ser vista com os olhos em sua desonestidade, seria um horror e poderia levar a todos à morte eminente.

A besta desse Abismo é o demônio da Soberba, que vistes sob a forma de um Leão em chamas, que emanava chamas dos olhos e tinha dentes e unhas de ferro. Esse agita as asas de serpente, visto que todas as suas penas eram serpentes venenosas em chamas. As penas eram répteis, de veneno penetrante, que matam quem as olha mesmo de longe. O seu hálito continha faíscas com enxofre: que de tão grandes poderiam colocar fogo e consumar uma província inteira. Ninguém que a vê, vive, se não é protegida por um milagre de Deus. Vós que haveis recebido o milagre, o viram: porém, não haveis visto bem o monstro. E na verdade quem é capaz? Como testemunha Agostinho, uma pequena culpa mortal, supera ao infinito qualquer suplicio passageiro, assim como, todas as coisas materiais são superadas pelas espirituais. Por isso louvais à Deus no Saltério, para que viveis com Deus livres dessa soberba, e sereis um só coração com os humildes.

A SEGUNDA BESTA DO ABISMO É O CÃO DA INVEJA

Essa (Besta), através dos ódios, das murmurações, das detrações, da exaltação para o dano dos outros, da tristeza pelo o bem dos outros, etc., envenena todo o mundo. A arma contra essa é a segunda palavra da Saudação Angélica, “Maria”. Ela como testemunha São Máximo, é a Mãe e a Senhora da Caridade: a fonte e o fogo do amor, que junto ilumina e está próxima. Ela é o mais respeitável Serafim, mas quantas e tão grandes são as sombras para os invejosos. Se uma pequena parte dessa existisse materialmente nesse mundo, cobriria completamente, levantando os olhos, o sol e as estrelas: as sombras do Egito e os Cimeiros90 seriam nada em relação à essa. É essa, que leva a noite eterna ao Inferno.

A Fera desse Abismo é o demônio da inveja, que por muito tempo apareceu a vós sob as belíssimas vestes de jovem, depois (apareceu) na forma de um cão negro de montanha, das orelhas saiam uma fumaça horrível, para escutar as detrações, a língua era muito negra e cheia de vermes pútridos, pelas difamações que exalava, os dentes muito acuminados, pela língua pungente.

90 Os Cimeiros eram um povo legendário, que vivia nos extremos confins do mundo, onde não era vista a luz do sol.

As partes posteriores eram abomináveis pelo fedor e obscenidade, uma parte era sem pelos e outra era recoberta por pelos espinhosos. Com esses lacera e mancha a reputação inocente. Observais os seus cabelos cerdosos, todos como uma espada. Com esses, oh quantas e que cruéis mortos difunde escondida e abertamente, e contamina cada coisa! O rabo curvo se retorcia e todos os pelos pareciam flechas à serem lançadas na escuridão aos puros de coração. Os pés eram mais terrificantes da sua monstruosidade e eram horríveis pelas unhas: cada uma dessas levava uma arma, pronta à ferir todos os que encontra. Diz Ambrósio: Os invejosos movem-se para matar os corpos e as almas, para maldizer Deus e os Santos. Por isso para os libertar dessa Fera, louvais à Deus no Saltério.

A TERCEIRA BESTA DO ABISMO É O PORCO DA PREGUIÇA

Essa (Besta) é a tristeza das coisas Divinas, por causa dessa o mundo é indolente aos Mandamentos de Deus. No orar, maldizendo a si mesmo, procuram evitar os mistérios da salvação.

1. Contra essa besta a Fonte da graça é a terceira palavra da oração de Maria, “Graças”. A Graça, como atesta Santa Fulgência, torna alegre e disponível os homens para as coisas Divinas. Visto que servir à Deus é reinar, diz São Gregório.

2. Quais serviços os Reis poderão disponibilizar diante de um só obséquio de Deus?

Esse se opõe à Preguiça: desse flagelo todo o mundo está corrompido e é entorpecido até a morte. Em nenhuma parte do mundo se poderia viver, se um pouco de tristeza e de preguiça, se transformasse na natureza corpórea.

Não tem o porque surpreender-se, visto que a eterna e infinita tristeza é devida à pena da Preguiça.

3. A Besta desse Abismo assumiu a forma de um porco, que foi colocado na lama do Inferno. Levava as orelhas pontudas, muito largas, para ouvir todas as coisas fúteis. Os cabelos pareciam lanças ardentes, com as quais os preguiçosos ultrajam Deus e os Santos, o focinho é muito longo e apresenta-se numa série tríplice de dentes de ferro, porque São Crisóstomo ensina que os tríplices bens da Graça, da Natureza e da Boa Sorte destroem a Preguiça. De resto aquele porco era recoberto de pelos que, eram mais negros do que todos os etíopes juntos, e o tornavam horrivelmente monstruoso. Porque, como atesta São Basílio, o ócio é o leito do diabo, e o preguiçoso é o lugar e o refugio dos demônios.

Os pelos do rabo obsceno pareciam brasas ardentes, e das partes posteriores saia uma chama fétida: a preguiça é a mãe da luxúria. Por isso para viver imunes dessa fera, louvais à Deus no Saltério.

A QUARTA BESTA DO ABISMO É O DRAGÃO DA IRA

Por essa (Besta), muitos tem cóleras, cansam-se em brigas, blasfêmias e vinganças.

1. Contrária à essa, como fonte da Paciência é a quarta palavra na Saudação Angélica, “Cheia”. Como diz São Gregório, a plenitude das virtudes é a plenitude da paciência, que faz uma obra perfeita e que não é muito inferior ao martírio. Maria Santíssima a manteve escondida durante toda a vida e durante a Paixão do Filho.

2. O fogo desse abismo queima tanto, que se alguém visse uma pequena parte da chama da ira que provoca a morte e sobrevivesse, seria um milagre maior, do que se o mundo pegasse fogo e sobrevivesse um homem ileso e sobrevivente.

Visto que, como atesta São Jerônimo, o incêndio da culpa não tem comparação com o incêndio material e natural: é evidente quanto é mais grave a ofensa a Deus à qualquer dano terreno.

3. O Dragão foi por essa razão, a quarta besta aqui vista. E vedeis a sua imensa grandeza, que parecia engolir dentro de si as terras e os montes. Mas porém, saibais que: aquele monstro ocupava uma pequeno território, porém, aos vossos olhos parecia que ocupasse imensos espaços.

Aquela visão não era só natural, mas, pela minha oração, recebemos a ajuda de Deus. Assim o basilisco é pequeno no corpo, mas é enérgico pela força do veneno e pela ferida. Ele largamente espalhou o veneno mortal.

Esse Dragão é pequeno no espaço e na mole, mas por vontade da Mãe de Deus, via-se como uma besta de imensa grandeza. E tinha a cor vermelha do fogo porque, como atesta São Basílio, a ira é o verdadeiro fogo do Inferno. Os seus dentes são numerosos e muito afiados porque, como disse Agostinho, a ira é uma espada furiosa. Da boca saía exalações de pestilências e fedores, que corrompiam a tudo. Assim sem dúvida, disse Santo Ambrósio, leva consigo as injúrias venenosas contra o próximo e as blasfêmias contra Deus. Arrastava um rabo longuíssimo e verdadeiramente horrível. Por isso, disse Crisóstomo, a brama de vingança dos coléricos arde há muito tempo e é terrível, desejosa de arrastar consigo, todas as coisas na mesma ruína. Vibrava ali sem medida, assim a ira voa e em fúria erra pelo mundo. Tendo dominado os Príncipes e os Senhores das terras e das coisas, chama os homens às armas e confunde tudo com as chamas da raiva. Pontiagudos ganchos em fogo e tridentes longos giravam as asas amedrontadoras porque a raiva fornecia tais armas. Mas com o seu assovio crepitante de fumaça os acolheu com terrores e sombras, que vós aterrorizava, como se fossem lançados no Inferno. E se a força de Deus não vos tivesse conservado salvos, vós haveis entregue as almas. Os olhos da besta, que infelizmente tinha irritado-se, rodavam como globos de fogo de um forno. É difícil encontrar uma coisa semelhante à essa por horror. Por isso diz Santo Ambrósio, que ficando nos olhos, a ira prende tantas estradas, para executar a vingança. As unhas dos pés eram como lanças militares, sedentas de sangue e emanando pus. De que gênero é o homem, invadido por essa fera? A água, para ser imunes da sede, é: Louvais à Deus no Saltério.

A QUINTA BESTA DO ABISMO É O SAPO DA AVAREZA

Essa (Besta) devora a tudo com furtos, roubos, usuras, comércios e sacrilégios.

1. A fonte da graça contrária a essa, na Saudação Angélica é a palavra: “O Senhor”. De fato, como diz São Jerônimo, o avaro é servo da riqueza, mas aquele que é generosamente misericordioso é como o Senhor e a Maria Rainha de Misericórdia.

2. Esse Abismo é o Inferno e não tem fundo, caindo no abismo todas as coisas. Porque, como disse São Gregório de Nice, o avaro não enche-se, nem se sacia do dinheiro.

Para essa voragem não são suficientes todos os Reinos, se existissem mais mundos, os engoliria.

3. Por isso essa besta parecia um sapo, porque nunca se saciou com a terra. Mesmo que esteja com a barriga cheia tem grande apetite e teme que um dia possa faltar a terra. Esse levava a coroa, justo pela maldita ambição. O avaro, de fato, persegue sempre as coroas da ambição. A magnificência da coroa ultrapassava a crespa dos montes, entre os profundos vales dos quais, como em habitação, os avaros eram fechados, e no mesmo lugar, condenados com justas penas. E todas as coisas não podiam ser imaginadas, mas deviam ser mostradas e vistas. O demônio leva consigo sempre o Inferno, assim como o avaro e todos os condenados, como atesta São Gregório. Parecia que as unhas de ferro dos pés, terrivelmente curvas, possuíssem todas as coisas desejadas, às quais ao mesmo tempo ele era privado. É assim, diz Santo Ambrósio, visto que o avaro não possui aquilo que tem. Ele possui sempre somente desejo e esse é fome. A boca do sapo tinha uma garganta tão larga, que era capaz de engolir templos, terrenos e reinos inteiros. Por isso mais justamente Santo Agostinho, compara a avareza à boca do Inferno, porque nunca diz: Basta!

As suas asas eram sutis, como aquelas dos morcegos: através destas adentram nas noites da avareza, num voo diversificado. Assim é todo avaro.

Epílogo do Primeiro grupo de cinquenta.

Eis à vós então os cinco monstros e os outros tantos abismos, nos quais vós entrais na triste escravidão à serviço das bestas. Eis quem haveis honrado, o que haveis feito, sem saber, em todas as partes. Mas até agora saibais isso: imersos nesses cinco abismos, convivendo com essas cinco feras, vergonhosamente haveis violado o Decálogo dos Mandamentos de Deus; haveis provocado a ira de Deus, com a vossa ruína: terieis apodrecidos se a insigne misericórdia de Deus não fosse presente sobre todas as coisas.

Por isso vos aproximais solícitos das cinco Fontes da Graça, abertas na Saudação Angélica à todos os pecadores, assim como aos justos. Com qualquer uma das dez (palavras do Angélica Saudação) pode-se reparar os delitos cometidos contra o Decálogo e curar as feridas: alimentar aos famintos de alma para um vigor de piedade e de santidade. E assim oferecestes com a oração o primeiro grupo de cinquenta orações do Saltério mariano, para Deus e para a Mãe de Deus. Louvais então Maria no seu Saltério. Não duvidais, porque se a prática do Saltério vos levou à salvação, depois de os ter restabelecido na graça, também os conservará nessa: e dessa (vida) vos conduzirá a glória certa e eterna! Aqui interrompia a oração, a confissão dos ouvintes, o choro do profundo do coração, o lamento e o grito sofredor dos homens, seja daqueles que se arrependeram dos pecados, como daqueles que exaltavam pela liberação de tão grandes perigos e males; essa (liberação) foi procurada, eficazmente e felizmente, pelo benefício oferecido por Deus e pela Mãe de Deus e com a ajuda do Saltério.

SEGUNDO GRUPO DE CINQUENTA ORAÇÕES

A SEXTA BESTA DO ABISMO E O LOBO DA GULA

Essa (Besta) enche a barriga e pensa no cuidado ao corpo.

1. A Fonte na Saudação contra essa besta é “Convosco”.

Visto que o Senhor está com os moderados, diz Santo Ambrósio, o Diabo está com os gulosos. Mas a Santíssima Virgem Maria mereceu, com a sua grande moderação, de ser a Rainha dos moderados. E certamente é tanta a bondade dessa abstinência, quanto grande (pode ser) a enormidade da gula.

E se Deus fizesse com que na natureza das coisas existisse em forma corpórea, ela sozinha, mataria e devoraria todas as coisas animadas e inanimadas e poderia por isso engolir o mundo. Nesse Abismo, quantas vezes submergiram os seres e soterraram os corpos, quantas vezes acolheis em vós essa fera? Qual? De que tipo? O visse! O Lobo era voraz e barrigudo; tinha a boca aberta de fome, espumava pela boca, mastigava sangue com pus. Na boca tinha cinco barreiras de dentes (dispostas) em cinco filas, por causa dos cinco tipos de garganta: e os dentes eram de ferro, longos como uma haste. O que ele não devora? A voz é tão monstruosa, que o mundo treme quando essa soa.

O fedor da garganta é maior, do que aquilo que navega sobre o mar: (tal fedor) poderia envenenar todas as costas das terras e fazer morrer todas as coisas. Sob os pelos híspidos, como varas de ferro, estavam escondidas as casas e as salas de jantar dos gulosos, que se camuflavam nas penas. Os testículos inflando-se reciprocamente de dois em dois, como pequenas colinas, com chamas sulfuras que ardiam e com um insuportável fedor. Tal é a luxúria, filha da garganta, que também é punida com as mesmas coisas, com as quais peca. Ao invés o rabo curvado para cima, dividia em dois, com obsceno obstáculo, as nádegas, para o horror daqueles que olhavam.

Oh, monstro abominável! Para evitar o seu furor, louvais a Deus no Saltério.

A SÉTIMA BESTA DO ABISMO E O DIABO DA LUXÚRIA

Aqui existem fornicações e adultérios, incestos, estupros, sequestros, sodomias e tantas outras coisas malvadas.

1. A fonte contrária à essa é a palavra da Saudação “Bendita”. Porque como Maria é a Virgem das Virgens, assim também o horror da luxúria é gerador dos outros delitos, e ambos são inexpressíveis.

2. Julgais por uma caso semelhante. Se Deus mudasse o fedor espiritual da luxúria em material, imediatamente sufocaria tudo e corromperia os seres inanimados. E não te surpreendas, disse Santo Agostinho, por causa do fedor da luxúria, cada fedor é ligado ao Inferno e esse é perpétuo. No Céu cada Beato prefere sofrer os tormentos do Inferno, mais do que suportar a pestilência da luxúria.

3. Por isso fez-se a representação, horrível e monstruosa de um bode, que levava na barriga inumeráveis condenados. Aquele ostentava dez altas coroas, cada uma grande como uma árvore, ramificada e, inumeráveis pequenos chifres, e cada um desses era capaz de devastar o mundo. A luxúria é tão potente, que despreza os Dez mandamentos de Deus. De fato, como diz São Gregório, o fogo é a origem da libido. A obscenidade dos genitais, por quanto era grande não deve-se, nem pode-se explicar com as palavras. Terias apodrecido imediatamente pelo horror daquilo que visses sem a ajuda de Deus. Diz bem Santo Ambrósio: o que existe de mais horrível do que os horrores da luxúria?

Uma torrente com fogo e sulfura, que vinha dos genitais do bode, cobria com a fumaça todo o mundo. A boca grande e aberta, levava em si quase todas as penas do Inferno, espirando chamas, que evocavam palavras obscenas. E essa extrema infelicidade recebeis em vós tantas vezes, quantas sejais contaminados com a libido. Para fugir desse futuro, louvais à Deus no Saltério.

A OITAVA BESTA DO ABISMO E O URSO DA FALTA DE FÉ

Essa (Besta) tinha infestado o mundo com os sortilégios, as artes da adivinhação, as magias, as heresias e os erros.

1. A Fonte da Fé contrária à essa jorra na palavra “Tu”, incredivelmente significativa e eficaz: Não é essa que faz adquirir a fé em Cristo, indicando-a? (Não é essa) que indica a pura fé da Virgem Maria? (Já) na (fé), a Santíssima Maria foi o maior e mais extraordinário milagre. Assim o Espírito o mostrou à Elisabete, quando ela disse: Santa tu, que crês. São Jerônimo disse: O Maria, grande é a tua fé!

Tu de fato mostrastes a fé ao mundo: Tu, trazendo a nós o Verbo de Deus, fundaste a Igreja sobre os santos montes, através do Filho. E assim, essa grande fé todos recebem de ti! Através dessa (de fato), satisfazendo à Deus, merecestes te tornar a Mãe de Deus.

2. A malicia dessa falta de fé, superava longamente a malvadeza das (Bestas) precedentes.

Por isso foi representada num urso gigantesco, mais cruel, feroz e voraz do que os outros monstros. Porque, disse Agostinho, a falta de fé é o maior dos pecados. A sua boca é a porta do Inferno, da qual se diz: Da porta do Inferno trás fora, oh Senhor, as suas almas. Na boca tinham doze filas de dentes semelhantes a traves e esses eram muito pontiagudos: por causa das sutis razões dos errantes contra os doze artigos da fé. Sob a barriga do urso, enfureciam-se muitas feras, assassinas das almas. A falta de fé, como atesta Santo Ambrósio, é a mãe dos outros crimes. Da boca saia um grito, que turbava o mundo. O que é mais horrível do que a blasfêmia? E o grito precipitava com o ímpeto das chamas, submergindo a tudo. Os pés eram enormes e horrendos por causa das unhas, assim como os dentes; e ambos espumavam de pus, sinal da crueldade dos infiéis. As asas eram de plumas de serpentes em chamas. Em um Sermão disse São Fulgêncio: Os infiéis enquanto voavam entre as falsas ciências, envenenavam o mundo. Cada um de vós deu moradia à essa fera dentro de si. No futuro, para evitá-la, louvais à Deus no Saltério.

A NONA BESTA DO ABISMO É A BALEIA DO DESESPERO

Essa, longe de Deus, gozou como pôde, das imediatas consolações do mundo.

1. A Fonte da Boa Esperança, contrária à essa, estabeleceu-se na Saudação: “Entre as mulheres”. A Santíssima Maria, disse São Jerônimo, é a Mãe da Esperança. Ela mesma, sofrendo em aparência a rejeição91 por essas palavras: O que queres de mim mulher: não ainda, etc., porém não foi privada da esperança, ao contrário, permaneceu certa da esperança, ordenando aos servos: façais aquilo que ele vos disser.

91 O Beato Alano se refere ao casamento de Caná, onde Jesus realiza o seu primeiro milagre de transformação d'água em vinho, graças ao pedido da sua Mãe (Gv.1-12).

2. É porém tão grande a morte por desespero, que se as mortes de todos os vivos se unissem numa só não superariam uma ínfima dessa. Por isso com golpe certo separa da vida eterna, como disse São Remigio.

3. Ela era representada por uma baleia, gigantesca pelo tamanho, a fúria e o aspecto, porque o desespero é a reta final e suprema dos pecados ditos anteriormente: era o dragão do mar, ou o Leviatã segundo Jó. Na sua boca apertavam-se inumeráveis fileiras de dentes, maiores do que os dentes das outras bestas, assim como era maior o cetáceo em relação às outras. Com essas devastava o Céu, a terra e todas as coisas criadas. Porque como esses imaginavam-se Deus, como o inimigo deles, prefeririam que Deus não existisse: o que é impossível e contrário à todas as coisas. A sua boca era semelhante a uma voragem, que engolia tudo. Na boca tinha um cárcere que aprisionava com corrente os desesperados. Dos olhos, saiam centelhas e chamas, grandes quanto os montes; da boca sai um rio enorme com um fedor sulfúreo, que são as palavras e as vozes dos desesperados. Aimone diz que esses se opõem às palavras da salvação, para que os vivos sejam como mortos, como se fossem num segundo Inferno. Para distanciar essa então pelo resto (da vida), louvais à Deus no Saltério.

A DÉCIMA BESTA DO ABISMO E O ABUTRE DA PRESUNÇÃO

Essa (Besta), ao contrário do desespero, caiu em pecado contra o Espírito Santo, além da misericórdia de Deus, essa é a única que não se pode redimir sem a penitência.

1. A Fonte da graça contrária à essa besta na Saudação é: “E Bendito”. Disse Anselmo, o Filho de Deus deu a benção ao mundo, com a sua inexplicável pena, nos ensinando também a fazer penitência.

2. A gravidade da presunção é tão grande, que não se pode avaliar, ela não admite confronto. Quantas mortes corporais poderiam se equiparar à uma morte espiritual, quando a vida espiritual é mais digna do que as vidas de todos os corpos? A existência no (mundo) natural é (de grau) inferior à espiritual, enquanto que a existência da graça, está acima da natureza. Vós julgareis, o que haveis visto, que com os corpos estáveis presentes no castelo, porém, com o espírito estáveis no Inferno.

3. Vós vistes um abutre, que de frente parecia uma Harpia, pelo voo atrevido, e pela soberba: detrás parecia um leão, pelo tamanho do corpo e a ferocidade sem igual: o monstro, era comparável somente à si mesmo e a nenhuma outra Besta. Por isso São Gregório de Nice disse: A presunção mais do que todos os pecados, viola a justiça de Deus, distanciando-a como uma coisa odiosa. O seu bico com a forma de um gancho de ferro incandescente, abria-se sobre as vítimas, agredindo muitíssimos com o terrível hálito. Para São Máximo foi o modo de vida que difundiu esse pecado. O seu estrondo devastava todas as partes do mundo, através dos discursos dos presunçosos, que não acreditam nas ameaças de Deus e da Escritura, desestimulam a honestidade, não escutam a Igreja que reprova os vícios. O ventre da fera era cheio de imensos fornos, onde (os presunçosos) eram derretidos completamente e transportados em outros, sem interrupção como castigo. Ao mesmo tempo eles morriam infinitas vezes e ressuscitavam para morrerem novamente. E isso (aconteceu) pela grande e vã confiança (de si), pela presunção. Vós sois surpresos pelas inumeráveis asas do monstro? Essas revelam as ideias que possuem os arrogantes voadores: (ideias) inconstantes e incertas; por isso procuram justificar-se nos pecados e se asseguram, iludindo à si mesmos com a misericórdia de Deus. Essas asas com os seus movimentos faziam vento que acendia o fogo do Inferno. As maldições de todos os condenados eram lançadas contra os presunçosos. Pés horríveis os pisavam e com ganchos os dilaceravam, fazendo-os em pedaços. Depois a Besta parou sobre um gélido rio, cheio de presunçosos e essas bestas, como disse Jó, passaram das águas geladas, ao excessivo calor. Derretendo-se nesse e repetidamente lançados em outros castigos, no final os presunçosos eram evacuados pelo posterior da Fera no gélido rio, como um rápido rio ardente, e trazidos em forma humana. Novamente rastelados, amontoados e triturados pelas unhas do abutre, eram devoradas. Esse é o Inferno, que nunca diz: Basta! Aqui via-se, pela maior parte, os Potentes e os Cleros, mesmo ricos, robustos, jovens, muito confiantes na nobreza, na potência, nas riquezas, na força, na idade, etc. Vós haveis visto essas coisas e haveis desejado, durante a visão, que os vossos filhos nunca sejam colocados ali. Haveis visto tantas coisas incomensuráveis, que não é possível descrevê-las. Com os corpos continuáveis a viver nesse castelo, porém, com os olhos do espírito e da visão, roubados e protegidos pelo milagre de Deus, vós estáveis no Inferno.

É natural que agora podeis julgar: porque podeis ver, com os próprios olhos, a besta como ela é, assim como podeis imaginá-la ainda maior.

Assim a vós acontece por querer de Deus. Aquele que acolhe em si essas bestas monstruosas, assume as (suas) infames culpas, assim como, o seu aspecto monstruoso e um dia o juiz dirá a esse: Não os conheço. Para fugir dessas Feras, louvais à Deus no Saltério.

 

Epílogo das coisas ditas anteriormente.

As Fontes divinas das quinze graças, jorram na Saudação Angélica e são abertas aos fiéis, que as frequentam diligente e dignamente. Esses beberão a vida eterna. As suas águas quando são bebidas, permeiam e se expandem através dos dez sentidos, cinco externos e cinco internos, lavando-os de todas as culpas, os purificando e enriquecendo de beatitude. Com esse objetivo, procurais oferecer santamente à Deus e à Mãe de Deus, cinquenta Saudações no segundo grupo de cinquenta orações do Saltério.

Terceiro grupo de cinquenta orações

A DÉCIMA PRIMEIRA BESTA DO ABISMO É O RINOCERONTE DO ÓDIO

Esse é contrário à Deus, em Pessoa, na Senhoria, na Providência, na Fé, nos Sacramentos e nas outras obras divinas. Os inimigos de Deus entendem que não tem valor os dons divinos e raramente os usam, amando com mais ardor somente à si e as coisas que apodrecem.

O pecado é imensamente ruim, quanto sumamente Bom é Deus.

1. A Fonte da Caridade é presente na Saudação Angélica, através da palavra “O Fruto”. Entre os frutos da Espírito Santo, o primeiro é a Caridade, que escorre continuamente desse. E verdadeiramente a Mãe de Deus o deu com o Fruto do seu ventre.

2. O horror abominável de todos os cadáveres juntos não poderia superar, nem mesmo, uma pequena parte da grande ferocidade e monstruosidade do ódio. A culpa mortal é tão grave porque pune a alma com a morte eterna e não porque mata a natureza. Na verdade creiais ao invés de matar Deus, porque ele é presente na alma, que é a imagem de Deus.

3. O rinoceronte por isso, representava o pecado do ódio, porque esse possui o ódio comum a todos os brutos e às feras e odeia imensamente todas as coisas que não reconhece, até mesmo quem olhou pela sua espécie.

Esse possui no único chifre uma força tão grande, que pode penetrar, rapidamente, com um golpe, troncos de arvores grossas como muros, tão facilmente vence qualquer fera, com um golpe de chifre; porém com a astúcia apenas de um e com a arte de uma virgem é enganado e aprisionado. Igualmente o ódio, diz São Gregório Nazianzeno, possui e ao mesmo tempo é possuído e mata com o pensamento. Pela habilidade da Virgem Mãe de Deus, cheia de Caridade, através da Saudação Angélica, esse pode ser vencido e acorrentado.

Haveis visto que a força dessa Besta se desenvolve mais do que qualquer outra e se alarga em uma imensa dimensão. A força do ódio é semelhante aquela do Espírito, porque é como a natureza de amar à Deus e aos homens, é inevitável a que mesma natureza possa ser usada para odiar à Deus e ao próximo. Assim o ódio fere a natureza e agride o próprio Deus.

O chifre do monstro podia ser medido, com dificuldade, pelo olhar e se expandia em muitos ramos de chamas e ganchos lembrando, pela abundância, uma selva. Todas as coisas se tornam horríveis, cheias de pus, de sangue e de podre e arrastam ferozmente a si mesmos com mortos silenciosos. Essas são as loucuras daqueles que odeiam. Esse abria uma grande boca através da qual podia facilmente engolir cidades e campos, porque o ódio, como disse Orósio, é a porta de todos os males. O ventre internamente era cheio de inumeráveis formas de maldades e se corroía espontaneamente, pela rotação das coisas do inicio ao fim. O Monstro continuamente rejuvenescia e crescia: assim os ódios renovam-se todos os dia e crescem lentamente. Visto que certamente de todo o Inferno nunca se ouvira com tanta ferocidade tantas blasfêmias lançadas contra Deus, e vindas dessa única Besta; por isso nos infernos invoca-se a morte de Deus.

As patas e as costas eram cheias de chifres espinhosos, como um porco espinho. Sobre cada chifre ramoso sentavam-se muitíssimos tiranos, perseguidores dos justos e da igreja. Um deles, ferido numa parte do corpo, permanecendo pendurado entre os chifres, foi dilacerado e torturado, porque na suprema batalha foi capturado nas costas da Besta, pelos (seus) cabelos, os quais estavam levantados como lanças em chamas.

Os mais cruéis entre esses, revigorados, voltavam à outras penas; novamente arrancados dos ganchos dos chifres, lançados de uma parte à outra, chacoalhados para cima e para baixo, abertos, inchados pelas torturas e novamente privados das vísceras.

Sabeis como eu, com dificuldade, expresso palavras de sombra daquelas coisas, que haveis visto. Quanto mais infeliz sois vós, que conservais as Bestas monstruosas, enquanto ardentes de ódio, vos atormentais abertamente e publicamente. Eu sei, agora odiais todos os ódios e vós mesmos e preferireis não os ter vividos, por isso, para que espiais os pecados e estais atentos, detestando os velhos pecados, louvais à Deus no Saltério.

A DÉCIMA SEGUNDA BESTA DO ABISMO É O CORVO DO COSTUME

Essa (Besta) segundo os teólogos, não identifica-se com um pecado preciso, em gênero, espécie e número, mas é a condição dos pecadores, que se repete de forma recorrente (como o corvo com o seu cras92) sem pausa: essa é a perseverança nos pecados ou impenitência.

92 O autor joga com o som emitido dos corvos que em latim significa “amanhã”.

1. A Fonte contrária à essa Besta na Saudação Angélica é contida na palavra: “Do Ventre”. Cada um nasce, cresce e é plasmado pela natureza com as próprias características, seja porque as características são, na maior parte, como os humores dos corpos e as índoles deles correspondem às disposições dos animais mais ou menos iguais. Porque os filhos tem certas características recebidas em herança dos pais, assim são gerados os mais violentos, os maiores mitos, os mais preguiçosos, os mais doentes. Por isso: todos os lobos uivam, os cães ladram, etc, e a prole segue o pai. A Mãe de Deus, com a sua benção corrigiu esse mal costume do ventre de Eva e inverteu tudo.

2. Por outro lado, a malícia do mal costume é aquele, que não pode ser explicado por nenhuma língua. Direi que nada a pode igualar, nem será possível alcançar uma coisa espiritual, boa ou ruim.

3. Um pássaro a representou a vós durante a visão: do momento que não existe nada igual (a esse), que nunca tenha sido visto e seja invocado pelos habitantes do Inferno, o Corvo do Inferno. Na extensão do seu corpo, superava grandemente as outras Bestas: porque, disse São Jerônimo, o costume de pecar é o maior mal dentre todos os pecados, assim que por maior que sejam os pecados, esse atira na sua imensidade, um acréscimo. O mal também é menor na culpa, porém é o máximo na perseverança. Essa enche o Inferno, porque alimenta e difunde os males. O mal, através dessa, é habitual para os juristas. No ventre do corvo, corvos iguais (a ele) gritavam, socorro, socorro, mas o corvo, aos corvos respondia, amanhã, amanhã e assim eternamente. Outros pássaros carnívoros e predadores, estavam em torno a esse corvo e esses eram devoradores de almas e imensamente vorazes. Com o bico arranhavam as almas, enquanto, através das imensas mandíbulas completamente abertas, abria-se muitas gargantas em si ávidas, cheias de almas. Através de cada uma, cada alma devia passar por tantas outras penas: transportadas ao ventres, eram transformadas em bestas ferozes, com as formas dos pássaros e novamente enviadas do ínfimo ventre, eram restituídas às gargantas daquele que gritava, amanhã, amanhã, com gritos horríveis e imediatamente vinha reabsorvida no ventre.

Assim no mundo se desenvolveu os mesmo percursos, segundo o rito do costume perpétuo.

Por isso vós que haveis mantido com tenacidade, o costume de pecar, depois de o ter condenado, expulso o corvo de vós, louvais à Deus no Saltério.

A DÉCIMA TERCEIRA BESTA DO ABISMO É A MERETRIZ DA APOSTASIA

A Fé da Igreja é profanada por essa (Besta), assim como a promessa e a concórdia. Cada um que se separa de cada uma daquelas três, procura ao invés aquelas coisas, que as são próprias.

1. A Fonte contrária à essa jorra na Saudação Angélica, nas palavras: “Teu”. Tu és teu, sobretudo então, disse São Jerônimo, quando és de Deus, restituindo à Deus e à Igreja, as coisas que são de Deus, à César e à cada um o que é seu; e assim a Virgem Maria, a toda de Deus, foi certamente sua. Quem pois, disse Píer Damiani, é todo seu, todas as outras coisas são suas e deve ser compreendido entre aqueles que não tem nada e que possuem tudo. A imensidade da apostasia, supera todas as coisas, não só para quem é apóstata, mas também para aqueles que favorecem os apóstatas. Vós todos sois aqueles, que haveis favorecido a falta de fé. E alguns de vós, obstinados, ainda não desistiram.

Isso dizia para aqueles, que eram paralisados pelo medo, mas ainda não tinham se arrependido pelo amor de Deus.

Ao mesmo tempo uma mulher representava a apostasia. Era tão gigantesca, que a cabeça alcançava as nuvens. Visto que São Gregório disse que a apostasia ultrapassa em amplitude e largueza todos os seus pecados e prolonga as coisas malignas. As mulheres, disse o sábio, fazem apostatar os sábios. Por isso como a mulher é todo o mal, disse São Jerônimo, assim também a apostasia, é o vento Aquilão, que disseca a graça de Deus e arranca as árvores: o (vento) Aquilão difunde todo o mal.

Se diz que se excluímos as mulheres, as Leis divinas permanecerão santas, respeitadas. A mulher é chamada justamente a Mãe do Inferno. A apostasia quando se separou de Deus, fez os demônios e o Inferno. Essa tinha mais de mil cabeças e cada uma maior que uma montanha; a boca aberta tornava-se imensa e dela saíam tantas blasfêmias e mentiras. Os dentes eram mais das (ilhas) Baleares, e similares a traves, tanto que cada um continha em si três outras filas de dentes. Essas, em torno, arranhavam, trituravam, mastigavam as almas, com um tormento sempre mais cruel. A partir do momento que a apostasia da fé distanciava da Fé, da Esperança e da Caridade: os três votos da profissão. Quanto grandes são os tormentos que aqui se praticam contra os apóstatas! A Fúria, devorava ao interno (de si) e consumava aqueles que eram inconsumíveis, e os vomitando, os torturava e os contorcia. Em um fluxo e refluxo ondulado, essa o arrastava para os tormentos maiores: como uma mãe esquentava o seu ventre e o seu peito, com beijos e abraços. Para os conservar livres dessa, louvais à Deus no Saltério.

A DÉCIMA QUARTA BESTA DO ABISMO É O MONSTRO DA GUERRA.

A guerra, disse São Máximo é o mal: nenhum pecado está longe dessa.

Quem deseja a guerra, coloca facilmente a vida em risco: na guerra não existe nenhuma salvação.

1. A Fonte contrária a essa na Saudação Angélica é “Jesus”, que é um Rei pacifico. Quando Pedro estava para se lançar na batalha disse: Recoloques a tua espada na bainha. Quem matar com a espada, perecerá da espada.

A espada representa: a espada temporal, da condenação ou até mesmo com ambas. Maria o tornou acessível ao mundo, como uma Fonte. Ela, como diz Agostinho, gerou para nós a paz: reconciliou o mundo com Deus e fez de ambos um só.

2. Por isso, mais grave e mais condenável à sua infelicidade: por isso se propõe de imitar os condenados Heitor, Aquiles, Júlio César, Alessandro Magno e os iguais a esses, mais do que o pacifico Jesus. Não é a vitória, mas a causa, que justifica a guerra. Não é a procura pela glória do nome que torna ilustre o guerreiro, mas o combate pelos preceitos da Religião.

Procures a glória? Amais a glória dos Anjos: Paz na terra aos homens de boa vontade: e não aos homens de uma vontade bélica. Assim o Rei pacífico é magnífico sobre todos os Reis da terra. Eis vem a ti o teu Rei dócil.

1. A Paz é linda e agrada a salvação, tanto quanto a guerra é abominável e absolutamente não necessária, tanto é inimiga à Deus e é uma ruína infeliz.

2. Considerando que o pintor deve retratar o horror da guerra; mesmo se juntassem todos os pintores, que nunca foram reconhecidos e esses acrescentassem um segundo e terceiro defeito à pintura, não seriam capazes de retratar nem mesmo uma parte do horror da guerra injusta e da abominável alma dos seus guerreiros. Não se pode fazer nenhuma comparação entre as coisas materiais e finitas e aquelas espirituais e infinitas, mesmo se existe uma certa semelhança.

3. Por isso para Pitágoras os guerreiros são monstros; para Dídimo são demônios, não homens. Os demônios só fazem mal à quem querem; mas os guerreiros (fazem mal) àqueles que não querem. Aqueles depois da morte precipitam no Inferno, esses precipitam antes mesmo do dia da morte. Aqueles (os demônios) tentam aconselhando secretamente. Esses (homens) constringem, ferem violentamente.

4. As feras economizam os seus iguais, o lobo não devora o lobo, etc., mas na guerra o homem é para o homem, mais do que um lobo.

5. Os carnífices são considerados infames e são os ministros da justiça.

O que deve-se pensar dos sanguinários seguidores da guerra injusta? Qual será a sua futura infâmia nos Céus no dia do juízo final? Desespero, aos servos malvados que terão uma fama ruim assim, junto ao Senhor: com as mãos e os pés amarrados, esses são relegados às sombras, porque preferiram a injusta glória do mundo, diante da glória e justiça divina. Sem dúvidas era esse, que os teria privado da vida, quando o monstro da guerra foi oferecido diante dos vossos olhos, se não os tivesse encorajado a virtude de Deus. Estais horrorizados pela visão, orais ao escutar o que acontecerá?

O monstro apareceu tão estranho de aspecto, que não era possível escolher um nome. Todas as formas horríveis de malvadeza presentes no mundo, pareciam misturadas nele. Por isso é chamado o Inferno dos Infernos, mas no Inferno é dito paraíso do mundo: porque muitos acreditam que a guerra seja o seu paraíso. Eu penso justamente o contrário. Como diz São Jerônimo, a guerra é dita ironicamente bonita: quando o mundo nunca viu nada de mais monstruoso. Um monstro de tão grande corpo vos apareceu, quase maior do que o mundo: ele contém em si todos os males do mundo, como o total em relação às partes e a morte em relação as doenças.

O quanto é grande o tamanho e a massa dos sofrimentos, assim como, o peso dos mais altos males? Quem o explicaria? Quem poderia imaginá-las?

Com razão, àqueles que tem dificuldade de entender o divino com a mente, foi dito: se engana quem pensa que pode explicar os monstruosos sofrimento desse Monstro.

Quem são os beligerantes, se não aqueles que se comportam como as feras: furiosos contra o gênero humano, porque não podem atacar Deus através da Teomancia, como conta-se dos gigantes, que tentavam conquistar o Céu. Também haveis visto no Monstro as armas que usavam Cain, Nembrot, Saul, Olofernes, Décio, etc. Esses dirão: Aprovamos a guerra: 1. Por uma justa causa. 2. Pelo Império dos Senhores. 3. Pelo bem comum. O que? 1. A causa da guerra nunca é justa, quando o homem, pelo bem temporal, se expõe ao perigo mortal ou ao perigo de pecar. 2. Deve-se obedecer mais à Deus, do que aos homens e é melhor ser privado da graça terrena, do que daquela do Senhor do Céu; principalmente quando a devastação se dirige para a Igreja. 3. O bem comum político só raramente é em si verdadeiramente tão grande, que é igual ao dano das armas, que no mais está atrás das catástrofes das batalhas. O bem é frequentemente considerado como presente na fama e na paixão, mais do que na verdade das coisas em si.

Visto que o meu discurso é orientado aos belicosos, desejareis escutar qual das guerras deve-se considerar justa! Digo então.

1. Quando o promotor de uma guerra possa ter um justo direito.

2. Quando não se possa obter a paz de nenhuma forma.

3. Quando tenha surgido por justa causa defensiva e não ofensiva.

4. Quando não se pratique violência ao bem comum, por causa de um bem privado, (que não se danifique) um (bem) maior, por causa de um (bem) menor.

5. Quando o mal da distância com as armas, tenha sido maior do que o sangue cristão a ser derramado. Visto que o homem é o mais nobre dos bens da natureza, a sua morte violenta deve ser julgada o mal maior da natureza. E será pela fortuna terrena, que os filhos do Rei consumarão um parricídio, em troca de rãs e sapos; mas o homem é filho de Deus, se não por graça, certamente por natureza.

6. Quando há uma guerra em defesa da Igreja, da fé, da justiça, ou de uma outra virtude, etc. Observada a ordem da Caridade e o grau dos bens, isso é por um bem melhor. Visto que essas coisas raramente levam à guerra e pouquíssimos são aqueles que confrontam lealmente as almas, os eventos incertos; disso um Santo soube por divina revelação, que em uma guerra, não em um encontro, digo, se perderam cerca de quarenta mil homens e entre esses não mais de seis tinham evitado a condenação eterna.

7. É necessário que aquele que dá o nome à milícia, saiba o que pode ser considerado justa causa. E se essa não é presente no que foi dito, evidentemente deve-se obedecer mais à Deus, do que ao próprio Príncipe.

8. A sua potência não chega ao Tribunal do juízo de Deus e nem mesmo àquele da consciência. Nem é necessário que por causa de um bem incerto, se afronte o mal da guerra.

9. Quando for clara a causa da guerra, então que cada um celebre o Sacramento, procure com a Sagrada Confissão de purificar a alma, para não se expor temerariamente aos perigos.

10. É necessário que a todos, com segurança, seja proibido com acordos, um edito, etc.. os injustos roubos e os outros crimes e que a consciência e a oração de cada um à Deus, (seja acompanhada) frequentemente da ação e sempre de (tal) desejo: Em ti Senhor esperei, não estarei confuso eternamente; na tua justiça libere-me e leve-me embora.

Então, antes de começar uma guerra, que se escute o pensamento dos Teólogos e os homens santos e justos. A causa justa da guerra, em relação à fé e à caridade, a defender e a manter, não é tão intrínseca dos Príncipes e dos leigos, quanto dos homens capazes por profunda ciência, e por divino discernimento. Por isso, homens guerreiros, louvais à Deus no Saltério.

A DÉCIMA QUINTA BESTA DO ABISMO É O DRAGÃO DO SACRILÉGIO

Esse (dragão) é, em geral, tudo o que designa a irreverência à Sacra Fé, porém, sob uma tríplice diferença de formas, como à tríplice propriedade da santidade, ou seja, das Pessoas, dos Lugares, e das Coisas Sagradas; como por exemplo os Sacramentos, os Sacramentais, as coisas consagradas e aquelas consagradas aos mistérios. Aqui se observa o Comércio fútil e revestido de competições, (que são) as profanações da condição eclesiástica.

1. A Fonte contrária a esse, na Saudação Angélica é a palavra Cristo, ou seja Ungido, do qual se expande toda a força e a santidade dos Sacramentos, através da Mãe de Deus, como um canal. Ela, disse Santo Anselmo, é a Tesoureira de tão grandes Mistérios.

2. Desespero, àqueles que se deliciam em estar nessa situação os Alquimos, os Jasões, os Menelaos, os Antíocos; essa indescritível impureza grita de forma atroz ao Céu; tanto que se Deus representasse um semelhante som corporal, esse seria tão intenso, que poderia ecoar através dos mundos infinitos. O pecado é tão amargo para Deus, que se dos infinitos mundos (se existissem), todas as coisas mais amargas da natureza se juntassem em uma coisa só, não se poderia aproximar nem mesmo à distância a menor amargura desse. Por Deus, o mal é tão feroz, que a inteira fúria de todos os furiosos, não poderia reconduzir a raiva dessa malvadeza. Quando todas as criaturas forem transformadas por Deus em Dragões, os menores fedores dos sacrilégios e da blasfêmia se apresentarão inferiores.

3. O Dragão por isso representava à vós esse ímpio delito; era semelhante àquele do Apocalipse que tem sete cabeças, contrárias aos Sete sacramentos e dez chifres, contrárias ao Decálogo.

4. Arrastava, porém, a terceira parte das estrelas do céu, tanto esses abusam sacrilegamente dos Sacramentos.

5. E esse Dragão fazia guerra contra a Santíssima Virgem Maria e o seu Filho; assim escandalosamente mostram-se e apresentam-se ou ao menos vivem, os Simoníacos, etc.

6. E o Dragão fazia sair, detrás da Mãe e do Filho um rio sulfúreo; esse representava as podres orações, as indignas celebrações de Padres e de Religiosos ou de leigos: como se com esse estivesse para submergir a Justiça vingadora de Deus.

7. A terra, ou seja, o Inferno, engolia o rio, mas não o Céu, porque todas as obras desses são terrenas. Desespero, àqueles que assim usavam as Coisas Divinas, que as querem em terrenas e em sacrílegas.

8. Fazem guerra contra Miguel e os seus Anjos, porque agem mal contra os bons e os justos. Os olhos matavam somente com o olhar; assim o sacrílego (age) com o escândalo. Os desejos da boca tinham mais de mil fileiras de dentes, porque os sacrílegos, principalmente através da boca contaminada pegam as Coisas Divinas. As bocas eram sete. Haveis ouvido que surgem contra os sacrílegos mais de sete mil gêneros distintos de tormentos e além desses, muitíssimos outros (tormentos) indicados precedentemente.

Os Dragões levavam também sete ventres, assim até os dez chifres levavam inumeráveis tormentos e repetindo-os, os tornam eternos. Deus nos mantenha longe desse (Monstro). Por isso louvais Deus no Saltério.

NOTA

EXAME TEOLÓGICO E EXPLICAÇÃO DA VISÃO

XVI. Perguntais: Como se viu essas coisas, se nenhuma Besta encontra-se no Inferno? Respondo: Porque perguntais sobre o que haveis visto?

Esses são os principais demônios do Inferno e aparecem assim às almas a serem atormentadas, as vezes com uma visão fruto da mente, outras vezes (com uma visão) ligada à imaginação, outras vezes através das aparências assumidas por eles. Os demônios são vinculados ao aspecto corpóreo especialmente pela Potência divina, seja porque só por os ver as almas atormentam-se muito, seja porque os mesmos demônios, com aquela constrição das (aparências) assumidas, sofrem mais cruelmente pela eternidade e enfim para que as almas, com as quais pecaram, também sejam atormentadas. Por outro lado, esses com as suas aparências, são colocados diante das almas condenadas.

2. Perguntais: Como eles são vinculados? Respondo: A potência Divina e a Sua Justiça infinita, imprimiram nas almas dos condenados uma força e uma forma sensível e todas essas realidades sensíveis sempre se apresentarão a esses, sob essa forma atormentada; nem os demônios, ligados a esses, podem fazer de outra forma. Enquanto a força espiritual é maior do que aquela corporal, mais grave é a pena, como se fosse uma (pena) natural; por isso as almas sofrem de um sofrimento sobrenatural. Para que, incólumes, refugiados dessa, louvais à Deus no Saltério.

CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA

XVII. Finalmente pergunto! Haveis visto algo diferente daquilo que eu expus? E a voz de todos foi uma só: Senhor, nada de mais verdadeiro conhecemos; de novo São Domingos (disse): E na verdade vós todos, não sois obrigados, mas horrorizados pelo terror; mesmo tendo visto as Bestas, as manténs ainda nas vossas almas. Por isso muitos desses (responderam): O Pai, isso parece impossível. E eles; Oh! preguiçosos de coração em crer à todas as coisas que haveis visto e ouvido! Olhais novamente! Ao mesmo tempo orientado a Santíssima Hóstia orava claramente. O bom Jesus; mostra de novo a esse, que isso é verdade, para que se deem conta da imensidão dos pecados que eles experimentaram. E uma voz veio do alto: Isso que viram basta, para que acreditem. E novamente São Domingos disse: Oh Senhor, basta certamente para a tua justiça, mas para a tua misericórdia e para a miséria desses pecadores ainda não basta.

E imediatamente cada um voltou à si e junto aos outros, os mesmos quinze Monstros eram vistos ainda mais horríveis. Para os presentes, parecia que o que tinha sido visto antes, fosse como um sonho ou uma pintura. E se não tivessem sido protegidos pela mão de Deus, estariam mortos. É cruel, ver a malvadeza dos próprios pecados. o que existe de mais cruel está no Inferno? A Razão ensina que quanto mais nobre é o positivo, mais o negativo é pior. Assim o pecado priva da graça e da glória e a pena do Inferno priva de um bem sensível e em si (a pena) não faz parar o desejo da glória; por isso a pena do dano é mais atormentada, do que a pena do sentido.

E como humanamente não pode ser compreendido o que Deus preparou para aqueles que o amam, assim não podem ser compreendidas as coisas que Deus preparou para aqueles que o odeiam. Só aquele que o recebe, o sabe.

XVIII. Todos que viram essas coisas, jogaram-se no chão, em lágrimas, e arrependendo-se de todo o coração numa verdadeira penitência, alegraram-se. E se sabe que, desde então, nenhum deles foi visto rir: abandonado o mundo, todos os renunciaram, com poucas exceções.

Entraram em varias Ordens religiosas, realizaram durante toda a vida, a penitência. Alguns viveram professando a Ordem dos Pregadores, outros aquelas dos Menores, muitos aquela dos Certosinos: alguns se fecharam nos ermos. Através desses, que eram muito potentes, ergueram, aqui e ali, muitos Conventos de Religiosos. Ao mesmo tempo os Senhores e os Príncipes, sob o exemplo deles, retiraram-se para um melhor fruto. Lí que São Domingos fez algo parecido na Espanha.

TESTEMUNHO DA VISÃO DO NOVO ESPOSO

Tenho certeza, que há pouco tempo um Novo Esposo da Santíssima Maria viu todas essas penas singularmente, de forma muito real. Ele também escreveu o que foi dito, porque continuamente tem suportado penas, pelos seus pecados e pelos dos outros. Li também que São Domingos mostrou algo parecido nas aproximações de Toulouse e das gemas heréticas: mas por pouco, aparecendo o demônio, sob forma de um prisioneiro. Li coisas parecidas também foram vistas por outras pessoas: mas não tão precisas e tão grandiosas. São Domingos também fez com que fossem pintados aqueles quinze monstros, assim como se manifestaram. Esse quadro ainda existe, mesmo se a origem tenha caído no esquecimento.

CAPÍTULO V

As quinze Rainhas das virtudes. Visão do Povo de Bretanha, revelada ao Novo Esposo de Maria, através de São Domingos.

O Saltério da Santíssima Trindade através dos diferentes dons dos caríssimos e das virtudes, adorna o mundo. Primeiramente decores a Igreja com as rosas e os lírios da primavera. Visto que existem as divisões das Graças, São Jerônimo as subdivide em tríplice: Morais, Teológicas e Sobrenaturais. A única raiz dessas é a Encarnação de Cristo, através do qual aconteceram as subdivisões. E para que se tornassem perenes, colocou dentro das suas palavras a mesma força, para que os mesmo dons contidos nessas fossem protegidos e para que as coisas boas da vida fossem obtidas através das orações. Aquelas palavras estão em duas orações e fórmulas para orar e honrar à Deus, ou seja, a Oração do Senhor e a Saudação Angélica. Por isso Santo Anselmo chama jardins, os Depósitos de todas as Virtudes e os carismas de Deus. E Crisóstomo disse: O que existe de bom que não tenha plenamente a Oração, tida como Sumo Bem? E Santo Agostinho disse: Maravilhosa clemência de Deus, que compreende em poucas palavras a incompreensível Bondade da Sabedoria divina, em modo admirável! Porque na Oração do Senhor pintou a inteira salvação.

Existe verdadeiramente em todas as partes, quinze sinais, cheios de virtudes. E assim os descrevo no gênero e na grandeza.

A NARRAÇÃO DO FATO

I. São Domingos, novo Apóstolo do mundo, levou também em Bretanha a pregação do Evangelho junto à virtude do Saltério e visto que sua mãe, filha de um Comandante da Bretanha, provinha do mesmo lugar, era escutado com grande atenção, como se fosse parente de sangue do Grande Comandante. Muito dessa atenção devia-se principalmente pela enorme fama do santíssimo nome e ao mesmo tempo, pela prova dos milagres, que Deus cumpria através dele, como através de um Libertador do mundo arruinado pelos crimes. O Fundador da nova Ordem exímio Pregador, especialmente (cumpria os milagres) através (da intervenção) de Deus, da Mãe de Deus e dos Santos. E isso acontece de forma justa porque como testemunha Santo Ambrósio, é justo que Deus conceda aos primeiros Fundadores em qualquer estado (de vida) dons muito superiores aos de seus seguidores. Esses últimos devem ser movidos, iluminados, e aperfeiçoados por (tais dons). Visto que cada pregação, segundo Agostinho, deve ser baseada nas virtudes e nos vícios, mas também nas penas desses (vícios) e nos prêmios daquelas (virtudes): São Domingos se dedicou com todo o Espírito e esforçou-se, em ensinar tais coisas.

Por isso, foi necessário que ele fosse iluminado pela bondade de Deus, para que desde então fosse luz para muitíssimos. O que acontece nos tempos sucessivos, em uma sua milagrosa pregação do Saltério. Como o Pai mesmo revelou, aparecendo recentemente, à um Filho devoto, novo Esposo de Maria.

II. 1. São Domingo, antes de preparar-se e falar, segundo o costume, aplicava-se com grande diligência às orações secretas e normais do Saltério: orando à Deus para o fazer compreender e de colocar na sua boca um Sermão eficaz, que envolvesse o povo mais necessitado.

2. A oração da Coroa seguiu imediatamente a Sagrada Atividade da Missa (que raramente ocorria sem um sequestro ou revelação) e na metade (da Missa), na costumeira e primeira recordação a ser feitas aos vivos, enquanto compartilhava as realidades Divinas, teve uma revelação de aproximadamente uma hora. Nessa ele, sem se mover, orientava-se às coisas adoradas; estava com o rosto vermelho como uma chama e tinha dor de cabeça. Onde estava havia muita fumaça por todas as partes, claro sinal da presença do Espírito Santo sobre ele. O fato cria muita surpresa e admiração em todos os Aristocráticos do Reino que assistem ao Oficio Divino. Entre os presentes estava o Grande Comandante, um grande povo, homens de prestigio, que tinham sido convidados à cerimônia e estavam desejosos de o escutar.

3. E visto que a revelação durou muito tempo, o Comandante que permanecia ali com a mulher, e outros que estavam entorno, pensaram que o Santo devesse ser distanciado. E enquanto tentava-se novamente pegá-lo ninguém conseguia o tocar com o tato. Esse, na realidade, suscitava no Superior maior admiração assim como murmúrios de acontecimentos em segredo, à orelha de cada vizinho.

Temor, misturado com estupor, agitava muitas coisas nas almas! Todos eram incertos, sobre o que fazer e temerosos em como terminaria aquele episódio.

4. Quando terminou todas as Atividades Solenes da Missa, São Domingos, como costumeiramente, retirou-se por breve tempo e logo depois, subiu em um alto ambão abençoando à si e ao povo com o Sinal da Cruz.

CAPÍTULO VI

As quinze Rainhas das Virtudes

QUARTO SERMÃO DE S. DOMMINGO TEMA: Salmo 97

Cantais ao Senhor em Canto Novo, porque cumpriu maravilhas.

Comandantes, Príncipes e fiéis do Povo, amados ouvintes, o que proponho nessa Solenidade do Santíssimo Corpo de Cristo, é o tema anunciado antes à vós pelo Salmodiante Davi. O tema é diferente da presente Festividade, ou diferente nessa: talvez algumas maravilhas se insinuam em algumas almas. Escutais bem e reconheceis perfeitamente, qual e quantas coisas maravilhosas e divinas, o Nosso Senhor Jesus Cristo, na Santíssima Eucaristia, dignou-se hoje de vos mostrar. Hoje vos, haveis admirado com os vossos olhos, um novo Espetáculo, o milagre e o mistério do Novo Testamento. Haveis visto e conhecido o Redentor do mundo Jesus Cristo, Filho de Maria Virgem, Mãe de Deus, nascido para nós, Crucificado, Ressurgido. Então se qualquer faísca do Espírito de Jesus é dentro de vós, se algum filamento do Nome, do Amor e da Honra Cristã está em vós, dizeis obrigado, Louvais à Deus, celebrais as Maravilhas de Deus: Cantais ao Senhor um Canto novo, porque realizou maravilhas.

Se vos perguntais o que é esse canto Novo, esse, vos digo, é aquele que eu agora a vós prego, a dúplice oração do Novo Testamento: uma é aquela que no inicio (do Novo Testamento) o Anjo anunciou a Maria, Ave cheia de graça; a outra, é aquela que Jesus Cristo entregou e pregou aos Apóstolos, Pai Nosso que estais no céu, etc. Com esses, louvais o Esposo e a Esposa e louvais Esses no próprio Saltério deles. E não só, será oportuno louvar por uma justiça merecida, mas também os amar com toda a mente.

Por isso tenhais pendurado na cintura, os Saltérios, para que sejais, e vos reconheçais pelo adorno: 1. Do Sigilo Real. 2. Do Sigilo Imperial. 3. Do Sigilo Celeste e do todo Divino: do Sigilo, digo, da Santíssima Trindade e do Novo Testamento.

Visto que na mesa da Santíssima Trindade, ao lado Dela sentam-se as quinze Rainhas das Virtudes Principais, penso que dessas eu deva falar com clareza à vós, para que, depois de as ter conhecido, andais com essas, servir à Deus mais devotamente. Essas vos foram dadas e se quereis, essas (aspiram ser) as vossas prometidas Mulheres, belíssimas e ao mesmo tempo, gloriosas. Essas bramam por ser as vossas Protetoras, as vossas Comandantes e Salvadoras, até que vós, sejais introduzidos nos tronos dos Quinze Reinos Beatos.

Desespero àqueles, que assumiram comportamentos inimigos à Deus através do pecado, (desespero àqueles) que violados criminosamente um ou muitíssimos (preceitos divinos), incorrerem no crime de Lesae Maiestatis junto à Deus. O Deus ciumento e forte, não deixará impune quem tenha obscurado uma dessas; o réu, acusado de parricídio, será submetido à segura sentença da eterna condenação. Ora, as Virtudes Rainhas são aquelas que devem julgar a condenação, visto que as paixões dos malvados seguem criminosamente opostas à (Virtude). E dessas, vós haveis observado três filas e cada uma dessas é dividida em cinco. Visto que as virtudes podem manifestar-se, que sejam honradas: (isso) será ensinado mais tarde, depois da décima quinta Rainha.

PRIMEIRAS CINQUENTA ORAÇÕES DO SALTÉRIO

A PRIMEIRA RAINHA: A HUMILDADE

I. Essa é a base e o fundamento de todas as virtudes, a qual, na Santíssima Virgem Maria, o Senhor amou com um amor muito ardente. Essa é chamada assim da terra, dizem Santo Anselmo e outros, visto que os humildes se abaixam até a terra, se pospõem à todos, e, pelo amor de Deus, antepõe todos à si mesmos. Esses olham a fragilidade da sua natureza e adoram nas outras coisas a presença de Deus. Essa virtude exulta pelo sucesso dos outros, foge ao próprio, a menos que o louvor e a grandiosidade da pregação seja voltado à Deus. Essa ama ser desconhecida, odeia passear em um lugar elevado: procura corações pacíficos e dóceis.

Disse São Jerônimo: Se a Santíssima Trindade abaixou-se à ele, como a qualquer outra coisa e aproxima-se através da própria Virtude, por que o homem, pó e vil sombra, quer levantar-se acima da terra? Porque (o homem) esqueceu de si e de Deus, conhece pouco a sua covardia, assim como, os méritos e a Majestade (presentes em) Deus? A Soberba, sua inimiga, o insidia até à morte.

II. Uma habitação está pronta para ele em um luxo real, no Palácio da Oração do Senhor “Pai Nosso”. A Santíssima Trindade, através da humildade, é por graça, o Pai de todos nós e nós, filhos seus, temos que servir com suma humildade: o obedecer, temer, amar e adorar. Porque (fomos) criados da terra, enquanto não (somos) filhos (de Deus) por criação. Depois de tudo isso não nos humilharemos diante do Criador?

Assim, Ambrósio (afirma): o Aspecto e a beleza dessa Rainha é indescritível.

Ao novo Esposo de Maria, o Senhor mostrou a (Rainha). A Virgem vestida de branco, coroada de dez pedras preciosas, com uma cinta de maravilhosa beleza, marcada por quinze ornamentos; com um esplêndido colar de doze pérolas esplêndidas.

Na mão direita levava a Cruz, sinal da humildade de Cristo sofredor.

Uma capa maravilhosa a revestia toda de estrelas e de gemas e era luminosa. Ornava os dedos de anéis marcados com a Cruz, testemunhos do seu noivado com Cristo.

III. São Domingos tinha pregado, mas acrescentou: a beleza e o valor de todas as estrelas, não poderia aspirar a superioridade do seu valor. Por isso é melhor obter a posse dessa, do que ter o domínio do Sol, da Lua e das Estrelas. Cirilo disse: Essa, de fato, está entre as primeiras filhas de Deus que reina sobre as almas santas; por isso também Deus, como atesta Agostinho, nesse mundo, ama mais uma graça mínima, do que toda a natureza. E vós, através da soberba, disse São Domingos, quase a matais.

Atesto que são mais de trezentos, aqueles que contemplaram muito limpidamente, mais do que uma pessoa possa representar na oração, com os olhos da mente. Por isso, cantais ao Senhor com um Canto novo. São Domingos, olhou durante a sua visão, as outras Rainhas da Virtude, quando ordenaram, sob pena de morte, de o pregar. O Homem Santo desejou que a memória dessa visão, que todos tiveram, fossem pintadas na Sala do Comandante e na Igreja Maior.

A SEGUNDA RAINHA: A AMIZADE

A união dos amigos reside nessa concórdia recíproca, em uma só vontade, como aquela do membro, diz Agostinho, manifesta-se em um só corpo. São Remigio chama a cadeia áurea, que circunda os fiéis, e, depois de serem estreitos juntos, retornam invencíveis. Essa torna um entre muitos homens indestrutível, distanciando a inveja, as detrações e os ódios, diz Macróbio. Por essa crescem as coisas humildes, as sumas discórdias se dispersam, como diz Salústio. Na natureza, a concórdia cancela a corrupção do mundo, ao invés no Reino da graça, que os homens recebem de Deus, a concórdia gera a constância e a glória. A inveja do inimigo é hostil à essa.

Ditas essas coisas, São Domingos acrescenta.

I. A digna habitação na Oração do Senhor reside no: “O que és”, ou seja, Aquele que é por essência, Aquele que dá as restantes coisas o Ser por participação, diz Boécio: a amizade é isso que emana de Deus à nós e assim então não devolves àquele que (ti) ama? Então não abraçareis aqueles que são amados por ele?

1. Logo responde: isso que é teu, não é teu? Disse de não Deus, o qual distribui o seu Ser à todas as coisas que são.

E se Deus ama isso, como podes tu as odiar? Verdadeiramente Deus quis que todos os homens fossem seus filhos: e tu então não os reconhece e amas como irmãos? Quem então ou o que amareis, se não amas aquele, que recebe como você, do único Pai, o mesmo Ser?

2. Cassiodoro conclui com as seguintes palavras: Se por natureza, Vos irmãos do mesmo pai devem amar-se reciprocamente, por consanguinidade, o que não deveras ao irmão cristão, por direito de Deus, por direito do Espírito, por direito de todos os Sacramentos e carismas? Desespero ao homem, que ama o próximo mais com o corpo do que com a alma.

3. O que é e da onde vem, o que tu amas? responde Santo Agostinho, a Alma é criada somente por Deus, não por derivação de nenhuma carne e pela parentela da carne amas o irmão, pela comunhão do espírito, amas menos o cristão. Se amasses (o teu irmão), como amas ao cristão, pensarias ter pecado: com isso (o cristão), não te sentes nem mesmo pecador. Oh maravilha? Oh amor? A maravilha se toca: o amor, nem mesmo se sente.

4. Quem não pode transpor a natureza ao Espírito? Certamente não pode vir que de um insensato: por consequência (seguindo) o mesmo, o homem distancia-se de si mesmo e subtrai o homem do homem: coisa que nem mesmo se atribui à uma besta.

Verdadeiramente essa é a desonra da natureza e o desprezo de Deus.

Isso é a destruição e corrupção de toda a beleza, que exista nos seres humanos, a mudança em um outro (ser), será inevitavelmente a máxima degradação (do homem). Quanto mais amável é a divina beleza da doce Amizade. Porque? Certo quase um terço do mundo combateu pela linda Helena: pela concórdia, mãe de todos os bens, disse Ambrósio, poucos preocupam-se.

II. Considerais com veneração a olhais. Estava como uma filha de Deus, com uma Coroa de glória: com um vestido de ouro, coroada de lírios de primavera: com um maço de dez flores; com uma luminosidade maior do que aquela do sol. Olhais as Companheiras que, como Anjos de Deus, a circundam e essas são também dez. Quanta beleza tem na sua imagem!

Quanto ornamento de graça! Quanto esplendor de Glória! O podeis recordar: eu não sou capaz de descrever, nem mesmo a sua participação e preocupação com a paz no mundo. Quem poderia estimar o seu valor? O que estimaria a alma de todos os tesouros e riquezas do mundo, a qual tesouro pertence o espírito, a alma, a razão, a vida, etc..

1. Devem-se ter como infelizes aqueles que, cavam escondido, ou abertamente semeiam e levam inimizades.

2. É gravíssimo perder um Reino; mais grave é perder a concórdia. Essa de fato pode recuperar um reino perdido, mas sem o sustento dessa um Reino não pode estar sano.

3. Digo que, aquele que perdeu a caridade, perdeu também Deus! Porque? A morte arranca um Reino do mundo, mas em seguida a Amizade consolida o Reino do homem e o introduz na gloria.

4. Quanto mais é feliz o homem, que morre em paz no seu dia: mais é infeliz aquele, no qual morre a Paz.

Aquela é a morte da carne, está é o apagamento do espírito e da alma.

Quanto mais nobre é uma pessoa, mais cruel é estabelecida a morte da mesma, ou não? Assim São Basílio sustenta e afirma. Se a perda do que é bom, é um mal, certamente deve ser a pior de todas as coisas, a perda da Paz, que é a maior dos bens: como o é a Caridade e a concórdia. Essas coisas são de Deus. Dais à Deus, as coisas que são de Deus, e por isso cantais ao Senhor um Canto novo no Saltério.

A TERCEIRA RAINHA: A EXULTAÇÃO ESPIRITUAL

Essa (Rainha) exulta pelos serviços e as escravidões divinas e é um fruto do Espírito Santo.

1. A habitação dessa Rainha é “Nos Céus”: aqui existe a pura exultação espiritual e nupcial. Assim Paulo: O nosso lugar de moradia é nos Céus! Quando, disse São Jerônimo, o nosso espírito repousa com exultação nas obras divinas, que assim vive na terra, como no Céu. O seu esplendor é limpo; todos os artistas usem arte e todos os materiais mais bonitos para realizar uma estatua: porém, não se aproximariam nem mesmo da sombra dessa. 1. Porque, disse Averroè, a arte não pode mais do que a natureza; porém o artífice da exultação é o Autor da natureza.

2. O Espírito Santo a produz da eternidade. É verdadeiramente a visão santa, segundo Agostinho. Nenhuma arte se aproxima da representação das Virtudes, porque essas são pintadas não com o pincel, mas com o dedo do Espírito Santo.

3. O haveis visto, disse Domingo, com o vulto róseo e em vestido púrpura, como, disse Avicena, a (cor) vermelha é o sinal da exultação, a (cor) amarela (é sinal) de tristeza. A sua coroa de ouro, que fazia evidenciar o símbolo da santidade, a vermelha Cruz de Cristo. Visto que, disse Santo Anselmo, a exultação dos Santos é sobretudo na Paixão de Cristo. Dez lírios de ouro eram trançados na coroa, por causa de observância exultante do Decálogo; as dez companheiras cantavam em todos os gêneros de música: pois as exultações silenciosas provocaram em vós as lagrimas.

Essas, como todas as Rainha, levavam Saltérios nas mãos, visto que a Saudação Angélica é o início de toda a verdadeira exultação.

Com essa acolhe e convida em si Deus: de fato Deus ama aquele que dá com exultação. Essa, disse Jerônimo, leva em si todas as riquezas dos bens celestes. Com uma pequena parte dos quais confere as maiores riquezas terrenas e a comparação será como a noite e as sombras, a argila e o ouro.

Por isso é apagada na alma de cada um: Essa é mais incomensuravelmente Rainha do Céu, do que o parricídio é incomensuravelmente um pecado. Existe quem provoque a peste no Reino, devastando à tudo: de quantas mortes julgareis isso digno? E se com os ultrajes haveis destruído a exultação do espírito de todos os justos? Que (exultação) é a vida da alma, a coroa e também a flor e a honra do corpo.

Portanto na graça dessa, cantais ao Senhor um Canto novo.

A QUARTA RAINHA: A PACIÊNCIA

Essa distancia todas as cóleras, blasfêmias e temores obscuros e concilia a paz com Deus; é superior à todos, seja aos homens, seja as coisas humanas: da vencedora ouve os Céus. Inimiga à essa é a Ira.

1. Exulta nessa moradia: “Seja Santificado”. E merecidamente, porque, diz Cipriano, a Paciência santifica os pecadores, aperfeiçoa as virtudes, obtém a vitória; é a armadura dos fortes e a coroa dos Santos. Em uma palavra: Na vossa paciência possuirás as vossas almas vossas.

2. A beleza dessa é tão grande, quanto deseja os corações de todos os homens, porém, não a poderiam nem mesmo imaginar nas suas almas. Em confronto a isso, a beleza da Sagrada Raquel, de Judite, etc... são sombras. Por essa beleza quantos desafios os Apóstolos, os Mártires, os Confessores e as Virgens não afrontaram? Toda a força tirana está contra essa, mas nenhuma está acima dessa. Essa manifesta-se da paixão do Senhor: é o espelho da divina bondade, disse Beda, e permanece eterno.

3. Vós a haveis visto, com dez amigas, purpúreas, cobertas de pedras preciosas e de estrelas, coroadas e assim adornadas. Acima delas nada pode existir. Os olhos não viram e os ouvidos não escutaram, as coisas que Deus preparou para aqueles que o amam.

Prova disso é que as almas se acalmam diante dele. Mesmo que ninguém tenha maior caridade do que essa: porém não existe nem mesmo maior beleza e maior glória do que essa. Por isso a Paciência tem uma Auréola especial.

4. Os perfeitos, os normais, os medíocres, perderam (a Paciência).

É digno de grande prêmio, porém, quem a manteve. É digno de grande condenação quem a expulsou: esse é um pecado indescritível, a ter cancelado é como a ter decapitado e nem mesmo infinitas mortes poderão fazer perdoar esse pecado.

É como se haveis arranhado a filha de um Rei, por mil vezes. A enormidade do delito é pequeno em relação ao cancelar da Paciência, como são todas as Rainhas mortais, em relação a Rainha imortal e claramente divina. Muitas catástrofes, porém, são planejadas contra a Rainha imortal nas almas dos homens. Por poucos essa é honrada e conservada! Talvez porque não se pede por essa ao Rei da paciência? Por isso cantais ao Senhor um Canto novo.

A QUINTA RAINHA: A MISERICÓRDIA

Por essa, disse V. Agostinho, tenhamos compaixão das misérias dos outros, assim como das nossas. E justamente, porque somos irmãos e hóspedes na mesma condição. Sem dúvida, disse Sêneca, a Natureza é comum à todos, a Sorte é igualmente muito comum à todos. Essa dá aos outros generosamente as próprias coisas, restitui as coisas tiradas; docemente abraça a pobreza de espírito, mas a sua inimiga, a Avareza, profanadora, não se preocupa com todas as coisas sagradas, mas com os roubos, os sacrilégios, o Comércio, etc.

1. A Habitação da Misericórdia está no “Teu nome”, como o Nome do Senhor, disse Ambrósio, é a fonte de toda a natureza; por isso cada joelho deve dobrar-se a esse. O que de bom pertence aos fiéis, que não é dado à Igreja?

2. O que pedireis no meu Nome, será feito à vós: por isso, todos que invocam o Nome do Senhor será salvo. Oh! Nome rico, porque Misericordioso! Por isso o Rei dos Reis é Jesus. Grande Senhor e muito louvável.

3. Deus amedronta com a potência, mas glorifica si mesmo com a Misericórdia; porque com essa santifica e glorifica. Nessa vivemos, nos movemos e existimos. Por essa esperamos a Redenção e não existe no Céu ou na terra, quem se esconda do seu calor. Essa filha de Deus fez descer do Céu sobre a terra o seu Irmão, disse Bernardo.

4. Essa é mãe das obras espirituais e corporais, pelas quais misericordiosamente ensina aos ignorantes, aconselha os duvidosos etc., nutre os afamados, veste os nus, etc.

5. Essa fez servo o Rei do Céu, porque nos conduziu entre os Reis, disse Ambrósio. O mesmo Deus pela sua grandeza cria a luz material; porém, essa é ínfima diante da luz espiritual da Misericórdia, assim como o Espírito é superior ao corpo. A vistes vestida de puro linho, com o Nome Jesus e Maria, por todas as partes, porque aqueles são os Nomes de toda a Misericórdia, disse Bernardo. Levava o Saltério na mão, porque a sua Misericórdia começou na Encarnação do filho. A vistes distinta da tríplice Coroa, porque a Misericórdia de Deus está no Céu, na terra e sob a terra.

Enriquecem as mineiras? Mas com bens terrenos, na verdade a Misericórdia, enriquece com os bens divinos. Como são míseros aqueles que não tem misericórdia, assim como são muito cruéis aqueles que são perseguidores e também assassinos dessa (Misericórdia); esses são todos duros e bárbaros nas almas. Então nas ditas cinco Rainhas e nas dez amigas de cada uma, foi possível à vós ver as primeiras cinquenta orações do Saltério; e então reconhecereis que essas são evidenciadas em Jesus e Maria e residem na Saudação Angélica; o que permanece, se não através da santa observação do Decálogo, através da graça auxiliadora das cinco Rainhas, cantais um Canto novo, a Deus e à Mãe de Deus no seu Saltério.

SEGUNDO GRUPO DE cinquenta ORAÇÕES

A SEXTA RAINHA: A ABSTINÊNCIA

Essa (Rainha) renuncia as coisas lícitas e supérfluas no comer e no beber, usa moderadamente as coisas necessárias, com alegria mista e dor.

Se alegra com a generosidade de Deus, se entristece com a tristeza; foge do prazer. Submete a carne, para que o Espírito reine; está entre as Companheiras (Rainhas) e ao lado delas. Enquanto de uma parte prepara os espíritos, da outra desarma os carnais. Ao invés, como disse Sêneca, ela é o freio de todos os vícios, e Agostinho: Oh! Temperança, és suave e fina. Tu de fato conduzes uma vida Angélica, desprezes aquela bruta: és nutridora e custódia das virtudes. A Rainha de Cipro é mais bela sob o Sol, mais elevada da Lua e mais agradável de disposição das Estrelas. Se opõe como sua inimiga à Gula. Estais naquela habitação do Rei: “Venha o Teu Reino”.

E visto que a abstinência conduz ao Reino de Deus, disse Ambrósio, merecidamente. De fato aqueles que reinam sobre o corpo através da (Abstinência), esses se mantém também no Reino das Virtudes; a esses se deve conceder o (Reino) do Céu.

A beleza dessa é Angelical: por isso nenhuma beleza humana ou terrena pode ser semelhante, mesmo que em parte, à ela.

1. De fato, a beleza nunca supera a sua espécie, assim cada coisa mortal e corporal é distante, acima das coisas imortais e espirituais.

2. O que não cumpre e suporta os fúteis, para aparecer graciosos? Como adaptam-se, preocupam-se, alimentam-se, maquiam-se, dissipam-se! Porém a Abstinência sai do jejum, mais gorda e mais bonita. Tornais a honrar os jovens, que se nutrem de forma moderada somente de pão, legumes e água.

3. Visto que então essa é vencedora dos vícios, e vencer os vícios é mais glorioso do que vencer os reinos; quem pode expressar em palavras a glória da Abstinência?

4. Os outros celebram os Heróis, os reis, e os Heitores; eu prefiro essa Rainha a todos esses. Deus não fez deles seus servos, porque nada bastou à garganta deles.

5. Os outros se alimentam e enchem-se de comida, carregam-se desses e fragilizam-se; a mínima quantidade da Abstinência é mais robusta do que (a Gula). A fome, conquistadora das cidades, é a nutridora e a conservadora dessa. Haveis visto, que ela em uma mão leva o cetro e na outra leva o Saltério; a cabeça era coroada de pedras preciosas; com o vestido um pouco pálido, mas com coroas de todos as partes, não perde para ninguém em força; era luminosa e em companhia de dez Virgens. De fato sem essas, ninguém alcançou a santidade ou chegou na assembleia dos Santos. Os inimigos da Abstinência, bêbados e gulosos, a decapitam em si mesmos. É de fato a gula, como atesta Sêneca, o sufocar da razão e de todas as virtudes. Visto que o encadear-se das Virtudes é necessário, a sorte também é igual para todos; por isso, é necessário o cancelamento da abstinência para que as outras sejam vencidas e colocadas em fuga. Direis: não se vê, que aquelas coisas acontecem assim. Porque, eu digo, se tu não tens olhos, com os quais veja acontecer, talvez por isso não representam uma coisa verdadeira? Na alma se veem e se verão assim representados, Deus, os Anjos e os Santos, as veras, também tu mesmo, mas mais tarde. Por isso, agora e sempre, cantais ao Senhor um Canto novo.

A SÉTIMA RAINHA: A CONTINÊNCIA.

Essa (Rainha) é a integridade da carne e do Matrimônio (a carne) não só pode, mas deve conservar-se santa; mesmo a Virgem sendo ausente desse, porém, é necessário que (no Matrimônio) a castidade seja presente. E essa é tríplice: da mente, da boca, da obra, como quer São Jerônimo.

1. Por isso São Gregório Nazianzeno (afirma): É a mais bonita de todas as coisas bonitas, a mais suave das coisas suaves, a mais elevada das qualidades morais e Deus e os anjos exultam por quem a defende. Essa ama o outro sexo, mas está atenta e evita a comunhão, odeia toda a ira, toda soberbia e cada ostentação. Ama, disse Aimone, as vigílias, os jejuns, as orações, os cilícios, os castigos e todas as coisas ásperas. Em relação à uma coisa só: o coração puro, para que olhe Deus nos olhos: Beatos os puros de coração, etc. A sua adversária é a luxúria.

2. A rainha nessa Habitação: “Seja feita a Tua Vontade”, porque, 1Ts,4 (afirma): Essa é a vontade de Deus: a vossa santificação. Portanto, a castidade procura agradar à Deus, para que seja santa no corpo e no Espírito.

3. A sua beleza então é digna de Deus, possui, leva e liga à si Deus, que a esposa. Deus tinha plasmado Eva, assim como a mais bonita de todas as coisas, porque são perfeitas as obras de Deus: nem, porém, a si mesma, mas a prometia em matrimônio à Adão.

Certamente a Virgindade e a sua vizinha, a Castidade, precedeu o casamento com Deus. Esse (Casamento com Deus) é espiritual aquele (Matrimonio com Adão) era corporal e não tinha valor superior à continência da alma, (Eclo.26). Beatos aqueles que desejavam.

4. A haveis vista em um aspecto muito majestoso, acima do homem, coroada de lírios e de rosas; adornadas de flores, era admirável pelo candor puro; resplendente em modo incomparável, era circundada por dez virgens delicadas, Angelicais: a digna Esposa para o mesmo Deus, disse Crisóstomo.

5. Desespero, aquele que violentará a esposa do Rei: será condenado à Morte cruel. E bem, essa é o templo de Deus; porque quem a violar, será arruinado: e violar a castidade, significa arruinar: não existe vida em meio.

Oh! Estais atentos às mesmas, é horrendo cair nas mãos de Deus, que não abandona a Esposa nos próprios abraços. A Virgem Castidade gerou Cristo; Cristo gera os Cristãos: essa claramente deveria ser chamada a mãe da Igreja de Cristo; onde a parte mais casta da Igreja é melhor e por isso maior por dignidade, também se não no número. Aquela parte é o sacro Clero, o coro dos Religiosos, pela Profissão, o número restante dos Castos por vontade. Entre esses vive e reina a castidade e certamente também em um Matrimônio Casto. Por isso essa Esposa de Cristo é mãe dos Cristãos, os quais não dá vontade da carne, mas de Deus nasceram. Disse São Jerônimo: a geração da carne é a morte da Castidade e a sua corrupção. A corpórea destruição dessa realidade tão excelente, poderia ser correspondente à destruição da Virtude! Nenhuma realidade terrena é capaz de conservar a Castidade, ao invés (a podem) todas as realidades do Céu.

Por isso louvais Maria, Mãe da Castidade no Saltério: Cantais ao Senhor um Canto novo.

A OITAVA RAINHA: A PRUDÊNCIA.

Essa (Rainha), por São Bernardo, é a constelação e a moderadora das virtudes e a glória das qualidades morais.

1. Reside nessa Moradia: “Como no Céu”. Visto que, disse Varro, é o Sol das Virtudes, que atravessará a noite da ignorância e o céu estrelado. As outras Virtudes, disse Jerônimo, são como as rosas e os lírios. A Prudência é o Céu, que esplende sobre todas as coisas.

2. A sua força e o seu máximo louvor é resposta na arvore da vida, mas ajudará aos corpos sós; a Prudência é mais digna, porque leva às almas a vida e também às mais altas coisas espirituais.

Haveis visto, por isso, como uma Rainha, residente em um palácio estrelado, a qual beleza, como revela Deus, não pode ser vista, nem compreendida pela mente. A haveis vista coroada de estrelas, revestida de estrelas e acompanhada de dez Virgens estraldas, semelhantes a essa.

1. É mais importante receber uma sua pequena graça, do que ter adquirido a ciência de todos os Filósofos, como pensa Santo Agostinho. É de fato a escola de todas as virtudes, sem a qual todas as coisas são sombrias.

2. Com quantas despesas e com quantos esforços, muitíssimos, uma vez se cansavam em procurar, mesmo que fossem valentes na humana e natural (prudência), porém, ignorando (a Prudência) divina. Por isso perderam-se nos seus pensamentos, porque não glorificaram Deus.

3. Cada pecador é estúpido: mesmo desejando aquilo que conhece o sábio, faz morrer (com o) pecado em si a verdadeira prudência. Vendo, é cego e vivendo, é morto. Mas certo, o prudente vive em meio à morte, em modo imortal. Por isso cantais ao Senhor um Canto novo.

A NONA RAINHA: A JUSTIÇA.

Essa restitui à cada um aquilo que o pertence: a obediência aos superiores, a instrução e o exemplo aos menores, a amizade fiel aos iguais.

Assim (afirma) Sêneca. Por isso é a Rainha das virtudes, o decoro dos costumes, o limite das obras, a Imperatriz de todas as coisas: sem essa, todas as coisas são pura tirania. Beatos os Reinos, no qual reina a Justiça.

Assim (afirma) Macróbio

1. A sua Moradia é a palavra: “E na terra”. A Terra, disse São Basílio, é o nosso corpo e deve ser dominada, comandando assim a Justiça. É muito injusto, disse São Bernardo, que os servos comandem e que os patrões sirvam. A qual injusta posse muitos reivindicam sobre si mesmos, sobre os outros e sobre as coisas dos outros.

2. Me escutais, então, amanhã alguns de vós não poderão escutar; só, quatro que agora estão presentes e estão sãos, morriam antes que nasça o Sol. E o resultado corresponde. De fato, quatro ladrões injustos do Soberano não sobreviverão até amanhã.

3. Vós suplico, vos corrigíeis: desejais a justiça. O justo não se comoverá eternamente, para que a sua justiça permaneça para sempre. Oh loucura! Oh, coisas humanas que desaparecem, oh, coisas feitas de terra, privadas das coisas divinas, eternas, celestes! Não assim os justos. Os justos, viverão eternamente, junto à Deus é a recompensa deles.

4. Haveis visto essa insigne Rainha, com um vestido de todas as cores, com essa mão segura o cetro, com aquela segura a espada, circundada por dez virgens, as quais superavam grandemente a delicadeza do aspecto daquelas já ditas: eram todas as Virtudes, servas da divina Justiça. Para que nos mereçamos de ter os seus favores, cantais ao Senhor um Canto novo.

A DÉCIMA RAINHA: A FORÇA

Com essa (Rainha), o homem permanece constante nas adversidades, intrépido nas coisas inesperadas. Com ela são freados o Temor e a Audácia, vem seguidos fortemente os Mandamentos e os Conselhos de Deus, são destruídas as tentações, os escritos tirânicos são despedaçados, se expulsa o relaxamento, o vício vem erradicado, a virtude e a honestidade são honradas.

1. A sua Moradia está nessas palavras: “O nosso Pão cotidiano”. Como a força fortalece o coração do homem, assim essa fortalece a alma e o espírito.

2. O haveis vista Majestosa, quase em um palácio real, dotada de cetro e coroada por dez estrelas; que leva com a direita o loro, com a esquerda o escudo com uma lança, no qual como símbolo brilhava a Cruz de Cristo. O seu vulto é de uma graça maravilhosa e o decoro de tal aspecto, que é animada de zelo viril e heroico. Excelente pela força, mas mais excelente pela prudência e pelo conselho, pronta à trazer ajuda.

Vereis as suas dez virgens com pães e alimentos. 3. Ocorre que avalies cada uma dessas coisas, (como se) toda a força do corpo dos homens e dos animais fosse recolhida, em um único corpo. A sua altíssima força então, não teria alcançado a parte mais baixa da força espiritual. Essa aos muitos frágeis dá uma força imensa, aos fortíssimos (ao invés), com o soprar do seu espírito, fragiliza e aterra. Por isso não temais, pequeno rebanho: Deus escolhe as coisas frágeis do mundo para confundir as coisas fortes.

4. Porém, não obstante isso, também (a força) pode extinguir-se, ou ser arrancada do homem; mas, (só) se ele mesmo o quer, por causa de um grandíssimo pecado. Desespero! Quantos tormentos, esses intensamente sofriam! Esses, não são mais, só, como os culpados de parricídios, não só como aqueles que ofenderam toda a força da natureza em todas as coisas criadas, mas também são como aqueles, que tem desprezado a graça da fortaleza divina, e o tem arrancada em si mesmos. Então é necessário recordar que, depois de ser abandonada por Deus, sem se arrepender de todos os pecados, esses são deformados pelo demônio. Isso não acontece com aqueles, que no Saltério, cada dia, frequentemente, cantam ao Senhor um Canto novo.

5. Por isso, visto que todas as Virtudes, como atesta Agostinho, são dirigidas a colocar em prática os Dez Mandamentos de Deus; assim também são as cinco (Virtudes), agregadas com cura e esforço, para as adquirir: e com essas cinco (somadas) as outras virtudes, chegamos a dez, e completa-se justamente o segundo grupo de cinquenta orações! Para que Deus vos dê a graça e a Mãe de Deus vos dê a ajuda, no Saltério, cantais ao Senhor um Canto novo.

TERCEIRO GRUPO DE cinquenta ORAÇÕES

A DÉCIMA PRIMEIRA RAINHA: A FÉ

Essa (Rainha) é o fundamento das coisas que se devem esperar, a prova das coisas que não se veem. Essa, disse São Jerônimo, ensinou aos homens as coisas Divinas, instruiu os Patriarcas, rendeu estável aos Apóstolos e a Igreja. Essa, disse Santo Ambrósio, acredita nas coisas que não vê: julga as coisas que não conhece. Essa é a regra da Caridade, a Lanterna da Esperança, a Norma da Prudência, a Forma da Ciência, a Anunciadora da Santíssima Trindade e a Esposa dos Santos. Essa é a Escala dos viventes, a Torre dos combatentes e a Nave daqueles que encontram-se em perigo; a guia segura ao porto da glória.

1. A sua Moradia está em: “Nos dê hoje”. A Eucaristia, o Mistério da Fé, nos dá o Pão cotidiano espiritualmente ou sacramentalmente. É dada aos fiéis, aos filhos, não aos cães, que estão fora.

2. A Fé supera todas as Rainhas ditas antes, pela beleza e pela glória, visto que essa é Teologal, enquanto essas são humanas.

3. Por isso o haveis visto com uma veste de três cores: cândida em baixo, púrpura no meio, áurea encima, certamente pela fé em relação à Encarnação, a Paixão, a Ressurreição e à glória da Santíssima Trindade.

Era Majestosa, levava uma tríplice Coroa: Prateada, Preciosa e Estrelada.

Na mão direita levava o Cálice com a Hóstia Santíssima e dando-a aos fiéis, os dava a vida; na mão esquerda levava a Cruz do Senhor, com as armas da paixão.

4. A sua beleza é maior do que a beleza natural das nove ordens dos Anjos. E com justo mérito. De fato, através dessa obtém-se o Bem divino da eterna glória, que é maior do que toda a natureza Angélica.

Por isso é mais agradável à Deus uma alma com a fé formada, do que só a natureza de toda a Hierarquia.

5. É necessário acreditar que, um pequeno ponto de Fé, é mais verdadeiro do que qualquer coisa compreensível, na natureza. Visto que a luz natural sem duvida é muita, sob a luz da fé; esclarece-se que a menor coisa da Ordem Superior é infinitamente mais perfeita, do que qualquer coisa da Ordem inferior.

6. Não se poderia calcular o dano na alma, se ousasse duvidar ou negar a crença na menor parte da fé, exceto se confessasse culpável em todas as coisas. Porque, se então o Senhor, disse: Pedro eu orei por ti, para que não diminua a tua fé, como mais devemos suplicar? Por isso, cantais ao Senhor um Canto novo.

A DÉCIMA SEGUNDA RAINHA: A ESPERANÇA

Essa é a espera segura da futura alegria, segundo os méritos precedentes.

De fato sem esses (méritos), seria presunção.

1. A Moradia da Esperança está aqui: “Remete a nós os nossos débitos”. Através da Esperança em Deus, existe a remissão dos pecados. Assim Davi esperou, mas ao contrário Caim desesperou.

2. Acolhe em si a Esperança, aquele que acredita, que o mínimo da Potência divina seja mais capaz de salvar, do que os pecados sejam capazes de condenar. Por quanto até agora tu tenhas pecado, até agora não recebestes o menor grão da Clemência de Deus.

Porque qualquer coisa que esteja em Deus, é ao mesmo Deus. Blasfemavas, oh Caim, quando dizias: A minha iniquidade é maior do que o perdão que eu possa merecer. Oh gloria verdadeiramente grande da Esperança! Exclama São Máximo.

3. Vós mesmos haveis visto a Rainha junto ao Rei Jesus Cristo, entre as dez Virgens companheiras, vestidas de ouro, ajoelhadas junto a Rainha suplicando pelo gênero humano, Deus (que é) bondoso com aqueles que tem fé. Haveis visto, também a Rainha, que escreverá os eleitos no livro da Vida. A sua beleza e a sua superioridade parecem símiles à Fé, sem dúvida grande quanto ninguém é capaz de dizer.

Por essa merecemos e mereceremos Deus, que assim quer e que se dá a nós. E essa maravilha dileta, assim podemos estar entre os filhos dos homens. Em consequência deve-se valorizar com facilidade, a desmedida desesperação, que induz a alma do desesperado ao ódio de Deus. Visto que Deus vos protege desse (desespero), cantais ao Senhor um Canto novo.

A DÉCIMA TERCEIRA RAINHA: A CARIDADE

Essa (Rainha) tudo crê, tudo suporta, não é ambiciosa, etc., é a alma e o modelo de todas as virtudes, disse Santo Agostinho, sem essa a Virtude não vale nada, não vale nada o mérito: por essa, com o tocar a água fresca, ganha-se o Céu e o próprio Deus. Essa é a vida dos méritos e a justa recompensa é a santidade dos Santos, o fogo das almas, a veste dos nus e a veste nupcial. Essa dispõe todas as coisas e não existe quem se esconde do seu ardor.

1. A Moradia está nessas palavras: “Como nós perdoamos à quem nos tenha ofendido”: “E perdoai as nossas ofensas”. Como atesta o Cristo Senhor à pecadora: Sejam remetidos os seus muitos pecados, porque amou muito. Mas na medida com a qual haveis julgado verso Deus e o próximo, com a mesma (medida) também vos sareis julgados; perdoa então e serás perdoado. Temas o exemplo do servo indigno. E na verdade, porque não? Talvez vós todos não sois irmãos? E talvez que não está em todos Deus, através da essência, da potência e da presença? Porque então não reconhecemos de amar a todos e de perdoar ao próximo, no qual sabemos que está presente Deus? O que nessa vida negais ao próximo, o haveis negado à Deus. Escutais Santo Anselmo. Disse: Deus é tudo em todos, enquanto existem; por isso também deve existir para todos uma regra. São Gregório de Nice, disse: Oh! homem, já que amas algo, porque amaras menos à Deus, do qual derivam todas as coisas? Amas a doação e menos o bem? Porque não amas o Sumo Bem e Aquele que dá todas as coisas?

Amarais também o próximo, como à ti mesmo, visto que disse São Gregório: é como tu da mesma natureza, participante da mesma glória, e um único ser como tu em Deus, no qual vivemos, nos movemos e existimos.

2. Haveis visto a Rainha com três Coroas, para os três tipos de Amor. Era a auxiliadora de todos, circundada por dez próprias Virgens.

3. A sua beleza e o seu valor não podem ser medidos, se não pelo que disse São Máximo: O amor da Caridade é o Amor do Deus eterno. Quanto mais é medido o dano da caridade perdida, maior é o pecado mortal. Disse; nessa alma não o vejo, nem com a visão, nem com o sentido. Tu não vês o coração e não sentes a alma, mesmo se é sabes que ela está verdadeiramente em ti. E por que amais na perfeita Caridade, cantais ao Senhor um Canto novo.

A DÉCIMA QUARTA RAINHA: A PENITÊNCIA

Essa é a dor colhida para pagar pelos pecados e se proteger deles. E essa é a ruína dos vícios, a recuperação da virtude, a confusão dos demônios, a exultação dos Anjos e a medicina do mundo. Se bem, disse São Gregório Nazianzeno, as outras virtudes devem ser amadas pelos homens, essa deve ser mais amada pelos pecadores.

1. A sua Moradia está nesse: “E não nos deixeis cair em tentação”. De fato disse São Jerônimo: Através da penitência, nos liberamos das tentações do demônio, do mundo e da carne.

A haveis visto suplicando, com uma tríplice Coroa, por causa das suas três partes; com uma veste de cada cor, visto que a Penitência tem por companheiras todas as Virtudes. Levando, com a mão esquerda um chicote coroado de flores, com a mão direita uma taça de licor docíssimo; que fazia beber aos penitentes, cada uma das suas deformidades se transformavam extraordinariamente em um tipo de graça. Certamente o ódio do pecado é tão grande em Deus, que, se fosse possível, para apagá-lo da alma do homem, também (Deus) não hesitaria de morte. Visto que isso não é possível, ele levou ao cumprimento a natureza humana, que tinha assumido.

Através dessa, toda a força da penitência dos fiéis se difunde; assim como no Sacramento, ou ao menos quando existe um só ato de contrição perfeita93, os pecados são destruídos, como nuvens. Toda a força dos Reis está na boa sorte, mas a eficácia da penitência está na graça, a qual nenhuma coisa pode ser semelhante em natureza.

93 Letteralmente è: “un solo desiderio non nullo”.

3. Essa porém, é odiada por aqueles numerosíssimos, que odeiam os jejuns, as confissões e a fuga dos pecados habituais e tendo cumprido o mal, exultam no desastre: desespero àqueles que transformam em veneno o remédio da Penitência. E para que Deus mantenha vos distante desse mal, cantais ao Senhor um canto novo.

A DÉCIMA QUINTA RAINHA: A RELIGIÃO

Essa é dúplice: consiste seja naquela (religiosidade) comum aos fiéis de Cristo, na observância dos Mandamentos de Deus; seja naquela particular, na observância dos Conselhos Evangélicos. E é antiquíssima, era já poderosa em Moisés e até mesmo no povo dos Sacerdotes mais Santos; continuada por Samuel e pelos Profetas; cresceu de forma muito extraordinária sob Elias e Eliseu, também prosperou honrada; enfim aperfeiçoada e confirmada por Jesus, começou a florescer gloriosamente.

Nenhuma outra Religião foi mais alta daquela que Cristo e os Apóstolos, conduziram entre os homens. Dessa certamente, (a religiosidade) comum dos Cristãos, é muito distante. Como a diferença da vida pode e deve levar à expressa observação dessas coisas: tornar partícipe da Pobreza, da perfeita Obediência e da íntegra Castidade, em relação aquela (observação) comum que existente em todos; dessa forma, essa pode ser só de poucos, pelas suas eminentes excelências. E resumirei à vós, essas quinze virgens, na Ordem das Rainhas. Essa décima quinta unidade, a mais alta de todas as outras, contém em si todas as perfeições dessas; essas a adornam em modo muito solene, acima do excepcional, próprio como uma sumidade. Essas então são:

Do primeiro grupo de cinquenta orações:

1. A excelência da suma perfeição na Religião consiste na disposição de quem se lança (na estrada) da perfeição.

2. Na continuidade de quem progride.

3. No exemplo dos mais anciãos e na disposição de educar os menores.

4. Na exclusão dos malvados.

5. Na mais evidente pureza da vida.

Do segundo grupo de cinquenta orações:

6. Na mais evidente adequação e perfeição da vida contemplativa.

7. No desprezo mais absoluto do mundo.

8. No cancelamento e no distanciamento do forte demônio.

9. Na mortificação e na imolação mais perfeita do corpo.

10. Em um melhoramento da (própria) condição.

Do terceiro grupo de cinquenta orações:

11. Na vida em comum mais santa e quase Angélica dos irmãos.

12. Na seriedade da penitência mais regular e mais durável.

13. No sacrifício maior da inteira humanidade, até o juízo, a vontade e a capacidade.

14. Na abnegação quase infinita da vontade e no bem infinito, que, se pudesse conseguir, queria para sempre.

Pode não querer ou querer, bens infinitos, como uma (pessoa) livre, mas não pode os ter ou perseguir.

15. Na renúncia feita às mãos do próprio Senhor, ou seja de Deus, de possuir qualquer coisa, para que todas as coisas retornem à uma somente, da qual saem fora segundo aquela sentença: Quem não renuncia a todas as coisas que possui, não pode ser meu discípulo. E das quinze coisas enunciadas, aparece seguramente a diferença entre a Religião em modo especial Apostólica e aquela comumente cristã.

É clara heresia querer afirmar que essa última seja de perfeição igual ou superior àquela.

Os Religiosos restituem a Deus todas as coisas, os seculares ao invés somente uma ou outra coisa, a seu prazer. O mesmo ocorre com os Bispos, que mesmo estando numa perfeição hierarquicamente superior de Poder, não estão numa superior (perfeição) de Virtudes, em relação aos Religiosos e esse frequentemente, mas não sempre.

1. A Moradia da Religião está nesse: “Mas livrai-nos do mal. Amem”. E justamente. Visto que a religião, segundo Agostinho, liga tanto ao bem: que afasta todos os males; assim também une à Deus, como livre do mundo; assim priva do próprio sentimento, como dá ao homem um sentimento Angélico. Por isso também, disse São Jerônimo, os homens obtém na terra com suma dificuldade, aquilo que os Anjos no Céu tem com facilidade.

2. Na Religião depois elevam-se duas coisas excelentes: a primeira, que é o gesto daquele que oferece à Deus a adoração; o qual ultrapassa todas as virtudes morais. A segunda, que professa a observação dos Conselhos Evangélicos: que se soma à Fé e a Esperança.

3. A haveis visto, levantada com uma tríplice coroa, por causa dos três votos, com um vestido pintado de varias cores, pela variedade das Ordens; levava na mão direita o Crucifixo: os Religiosos foram crucificados por Cristo e são mortos no mundo; na mão esquerda levava o livrinho, pelo fato que a Religião é ordenada para contemplar; com os pés esmagava o dragão. Isso é próprio da Religião, dominar o Diabo. As dez companheiras, Rainhas muito parecidas, vigiam ao cumprimento da observação do Decálogo.

Visto que então não existe nada de igual à Religião Cristã ou Religiosa pela beleza, vastidão da glória, grandeza da excelência, certamente àqueles que a traíram com a Apostasia, lançando-se além da enormidade dos pecados; não existirá futuro: além de desesperados, serão jogados da vida mortal à morte imortal. Seguem de perto desses, aqueles que retardam a reforma necessária da Religião. Esses tais são semelhantes aos cruéis Faraós e Herodes e como esses será o futuro daqueles. Para não ser envolvidos um dia, participantes, nas penas daqueles, cantais ao Senhor um Canto novo.

EPÍLOGO

Revogais então com as almas e colegais o futuro, comparais as coisas ouvidas e aquelas vistas. Depois entre vós mesmos, iniciais um raciocínio: cumprais as ações e o estilo da vida vivida segundo o modelo das Rainhas e só então, em previsão da futura eternidade, julgais entre a (vida) Santa e aquela Condenada.

Certamente agora recomendo esse exemplo, digo, o Saltério de Cristo e de Maria, do qual quinze Orações do Senhor são Rainhas: ao invés as dez Virgens, por quinze vezes, indicavam as cento e cinquenta Saudações Angélicas: dessas, justamente se cumpre o Saltério: no qual, visto que todas as coisas são santíssimas, sejam as palavras, sejam as coisas significadas, em relação aquelas Rainhas deve-se saber que, o seu majestoso e digno palácio é disposto por Deus. Certo, eu verdadeiramente gostaria que vós também soubésseis dessa verdade e pensásseis que nada aqui sobre as Rainhas e sobre o cortejo delas é humano ou inventado.

E isso é manifesto, de verdade mais fácil do que se tivesse sabido as mesmas coisas por parte minha, somente com o ouvido.

1. Vós mesmos, com os vossos olhos, haveis visto a verdade: e observais dentro daquele Mistério (Eucarístico) divino e extraordinário, no qual não pode ter nenhuma ficção, nenhum suspeita.

2. Haveis visto também essas coisas, que são sagradas, que são santas e plenamente divinas.

3. E foi concedido de ver as mesmas coisas, não à um, nem a poucos, mas a mais de trezentas pessoas aqui reunidas.

4. Chamo como testemunha as vossos mesmas almas e as emoções das almas, maravilhosamente misturadas à alegria e tristeza.

5. Levo como testemunha a mesma Suma Verdade de Jesus, no qual haveis visto aqueles grãos maravilhosos. Quais são e de que gênero?

A Humildade, a Paz, a Exultação, o Espírito, a Paciência e a Misericórdia.

Esse é o primeiro coro das Rainhas. Na segunda Coroa estavam: a Abstinência, a Continência, a Prudência, a Justiça e a Força. Seguiam as maiores, a Fé, a Esperança, a Caridade, a Penitência e a santa Religião. Das quais, o que tem de mais alto a inteira Igreja de Deus?

XVI. Por isso que as Virtudes Rainhas estejam profundamente impressas nas vossas almas e honradas novamente a cotidiana memória dessa no Saltério. E se quereis, então me escutais. Vivamente aconselho isso, que cada um se entregue nos dias festivos para as ditas virtudes, nas quais se venerem em sucessão, todas as (Virtudes) praticadas. E que cada um disponha ou alcance os altares sagrados e dedicados à essas, sobre os quais as representem em altas estátuas, esculpidas conforme a índole. E que não sejam estimadas aquelas Virtudes (dignas) de um lugar inferior, às Sagradas Relíquias dos Santos, ao invés, as considere todas dignas de honra também mais alta. Mas para que nenhum erro se insinue sobre qualquer argumento na alma de alguém: experimentais as razões do conselho nas festas e eu digo, que as virtudes se honram no modo devido, com os altares.

1. Visto que as razões, pelas quais honramos os Santos, são as Virtudes.

2. Pois, nos Santos as mesmas virtudes são altíssimas e através dessas (Virtudes) que são grandes, esses mesmos são grandes.

3. Se acrescenta que a glória dos Santos se deve admirar e venerar, mas esses voam em alto glorioso através das Virtudes.

4. Se voltásseis as almas às origens das Virtudes, sabereis que essas provém da eternidade, da divina Providência. Assim as leis do pré-estabelecido desenho divino, segundo as quais (à Deus) agrada salvar com a estabelecida divina bondade. Ora pois:

1. Essas existem desde sempre em Deus e existiam, porque não creio que tais realidades sejam distantes do mesmo Deus, também com a só razão.

Em consequência, então ninguém duvidará, até a tal ponto que a esse seja devido o culto de adoração, como únicas e mesmas com Deus.

2. Enquanto, na verdade na Humanidade de Cristo e na Mãe de Deus Maria, surgem santas plenas e notáveis, pedem a veneração em modo superior.

3. E as mesmas enfim encontram-se em todos os outros Santos, que reivindicam para si justamente o próprio culto de veneração.

E nós não atribuímos àquelas Virtudes uma natureza humana, mas um modo de ser e isso não (atribuindo) à essa nenhuma existência, mas apenas uma força e uma semelhante eficácia. Recomendo uma só Oração do Senhor, e dez Saudações Angélicas, em memória e em honra da Humildade, outro tanto para a Paz, etc. e assim andando adiante com todas (as outras), devotamente e santamente, cumprirás inteiramente o Saltério. Então cantais ao Senhor um Canto novo, porque fez maravilhas.

Termina aqui o Sermão do Santo Pai Domingos, revelado ao Novo Esposo de Maria.

PEQUENO ANEXO

E de minha iniciativa, acrescento algumas palavras, para confirmar o que foi dito por São Domingos. Escutei que uma santa rezava habitualmente desse modo. Conheci também muitos Santos, que orando assim, viram essas Senhoras belíssimas no aspecto, acima de todo valor. Assim para São João o Mendicante, apareceu a Misericórdia de Deus, à um outro apareceu a Graça de Deus. E verdadeiramente a Sagrada Escritura, conforme Deus, está toda nos louvores das Virtudes e nos desprezos dos vícios, como notou São Gregório.

CONTINUAÇÃO DA HISTORIA

XVII. São Domingos pronunciou esse Sermão em três partes diferentes e todas as partes no mesmo dia. A primeira na parte matutina, logo após as funções divinas; a segunda entorno à hora do almoço e a terceira na hora vespertina. Visto que São Domingos, enquanto dizia essas coisas, tinha frequentemente notado, que todos aqueles que vivem na graça de Deus possuem dentro de si as quinze Rainhas, junto com as cento e cinquenta Virgens; essas comoveram a muitos, que as tinham visto no Santíssimo Sacramento. Por isso no dia seguinte, se reuniram e perguntaram como os justos podem ter em si tantos dons? O Santo Homem surpreendeu-se e no inicio, disse: Dentro de vós está o coração, as vísceras e a alma, mas nunca as haveis visto. Existem em muitos de vós numerosos pecados, desmedidos e porém, não os veis. Se vós olhais manifestamente à essas coisas, morrereis todos ao mesmo tempo. Assim não veis a Virtude nos justos; nem os presentes os vem. Superam de fato cada visível capacidade em beleza, graça, força e eficácia.

Depois voltou-se à Deus com uma oração secreta, em segredo e com energia, para que, tendo piedade da dureza do povo, realizasse aquilo que, segundo a sua divina Clemência, reputasse justo para os salvar. No mesmo momento, o Senhor Jesus, os disse: Tenhais fé, não temam. Disse a eles: se querem durante a quinzena fazer penitência com jejuns, orações e outros pios exercícios, e, purificados através da sagrada Confissão, quiserem receber a Santíssima Comunhão, acontecerá que verão as virtudes em si próprios. Esses prontamente respondem e asseguram isso. A maior parte foi confessada pelo mesmo São Domingos no mesmo dia, o décimo quinto, esses de ambos os sexos, de quase todas as condições e ordem, recebera, das mãos do mesmo São Domingos a Santíssima Eucaristia, contra a opinião do Bispo Radonense e do Magistrado secular. E a maior parte, enquanto recebia o Santíssimo Corpo do Senhor, parecia ter recebido um carvão de fogo, assim como aos luxuriosos, aos não arrependidos, aos avaros (parecia ter recebido) uma pedra, aos não devotos uma massa de chumbo e isso em modo que não eram capazes de o fazer sair da boca ou de o fazer passar através da garganta. Por isso logo depois, com medo da morte e com as almas dilaceradas, confessaram-se com maior pureza e honestidade. Assim imediatamente puderam acolher a Santíssima Eucaristia neles, com suma consolação a visão tornou-se visível aos olhos, de cada um em si mesmo, assim como aos outros que se comunicaram santamente.

Ao mesmo tempo, colmos da graça da benção divina eram a tal ponto inspirados, que desmaiaram pela força da visão, perdendo os sentidos.

Viam entre as Rainhas e as outras Virgens, o Senhor Jesus Cristo, que tinha recebido, o Esposo das Virtudes junto com Maria sempre Virgem, que era ali presente. E não é nem mesmo surpreendente, porque na Divindade da Eucaristia o mundo é mais verdadeiro, que em si mesmo. Por tal razão, aqueles que recebem a Santíssima Eucaristia no modo devido, recebem Deus, e qualquer coisa aconteça em Deus.

É maravilhoso que não só nos religiosos, mas também nas crianças e nos rapazes inocentes se manifestaram aquelas mesmas coisas e ao mesmo tempo, (viram) também, quase todas as Cortes Celestes. A razão é clara porque como Deus é tudo nos Beatos, por graça é tudo em todos.

Daquele tempo os fervores de todos voltaram-se somente para São Domingos O mesmo Comandante, todo o Clero e toda a nação, diziam que seriam beatos, se fosse possível ter São Domingos com eles, como Arcebispo da Bretanha. E visto que rejeitava continuamente essa honra, (o Comandante) criou um pretexto construído com a arte sem a força e a colocou em execução. Ele comandou severamente em todas as zonas da Bretanha, que ninguém permitisse a São Domingos de sair ou de se distanciar da pátria, obrigando-o a assumir o Episcopado. Mas inutilmente se joga a rede diante dos olhos dos pássaros: São Domingos entregou-se à vontade de Deus e tornou-se invisível, sob os olhos daqueles que o estavam em volta, saindo da Bretanha e naquele mesmo período foi visto na Espanha, de onde seu Pai era originário.

O Comandante ordenou que cada preparativo fosse predisposto para o dia seguinte, para que fosse eleito Pontífice Dolense: que faltava naquele tempo. Ao Comandante chegou primeiramente a noticia segura, que São Domingos (como) apareceu (assim) desapareceu e não se via mais em nenhum lugar. Esse Comandante colocou em movimento tudo, mandou buscas por todas as partes, em toda a Bretanha. A acurada procura já tinha durado um mês inteiro, quando soube-se que ele estava em meio aos Espanhóis e que durante aquele mês tinha pregado na Espanha, com vários milagres.

A esse ponto, verdadeiramente uma suma admiração se apropriou de todos, quando se descobriu que o Santo homem pelo dom da mobilidade e da ligeireza, no mesmo dia, foi transportado da Bretanha pela potência divina para a Espanha. Então a esperança e a coragem retornaram mais fortes entre os habitantes. As delegações, uma depois da outra, reuniram-se para suplicar à São Domingos de aceitar a nomeação de Superior. E a esse disse: O Senhor me mandou para evangelizar, não para ser Bispo. Andais, dizeis aos outros: se recordem do que viram e receberam: e permaneçam na graça e no temor de Deus. De fato se os infiéis conheceram aquela graça, abandonarão os erros e acreditarão no Senhor Jesus Cristo.

O nosso Frei João do Monte narra que São Domingos fez algo parecido em Compostela, que foi Mestre de todos os dois direitos e da Sagrada Teologia, quando conseguiu o titulo de Bacharel. Ele foi companheiro de São Domingo, antes da fundação da Ordem dos Pregadores, quando aconteceram as coisas ditas por São Domingos, que então operava somente como Canônico Regular.

EXAME TEOLÓGICO DA VISÃO

XVIII. Como viram com os olhos aquilo que foi dito não sei. Talvez tenham visto com a imaginação, com a simples inteligência ou com a visão corpórea. Sei que: uma pessoa vivente, Novo Esposo de Maria, viu frequentemente coisas parecidas. Não creio que pude ver todas as coisas pela visão corpórea: porém não nego (que possa existir) visões melhores que as outras. Nem a visão pode ser completamente uma imaginação, quando a imaginação não supera a medida, como disse Avicena! Ninguém negará que uma maior aparição da beleza, não poderia ser produzida pela imaginação nesse mundo. Por isso acredito principalmente, que aquelas coisas tenham acontecido por visão Intelectual, com o acréscimo de uma forte imaginação. Visto que a Inteligência pode compreender algo de maior, de mais bonito e de mais excelente, sem comparação aquilo que se acredita existente na natureza corpórea. De fato a mínima beleza da alma racional é melhor do que todos os limites, do que a inteira ordem de todo o mundo corpóreo.

Se perguntassem: Como as Virtudes apareceram, sob o aspecto humano, visto que as disposições intelectuais não são necessárias, mas contingentes?

E porque sob o aspecto feminino ao invés do masculino?

Respondo: 1. As almas das mulheres e dos homens são esposas de Cristo, uma mulher é porém a razão do matrimônio: por isso aparecem sob o aspecto feminino. De fato o único Esposo de todos é somente Jesus Cristo.

1. Uma contingência espiritual então pode ter um aspecto a cor e os lineamentos corpóreos, visto que segundo Dionísio, Ilário e Agostinho, como aos profetas em uma visão de uma figura, através dos véus das coisas sensíveis, se revelará o infinito da divina inteligência e o raio da providência. A Imaginação dos Profetas não entendia esse raio, através do qual via figuras divinas. Assim também essas visões de imagens eram corpóreas, como acredito, mas, também houve a iluminação divina; através da qual as mentes daqueles que viam essas coisas, eram levantadas à observar imensos e divinos dons, representados através daquelas imagens.

Assim Daniel, assim Jó, etc. Porém, a mente deles não permanecia entre as coisas corpóreas, mas era arrastada por Deus em direção das realidades mais altas. Por isso mesmo que as figuras parecessem vistas na sua beleza, eram limitadas em relação à imaginação, mas eram infinitas, em relação aos corpos, em base a mente e isso estava acima da divina iluminação.

São Domingos afirmou ao Novo Esposo de Maria, que essas coisas se cumpriram de forma maravilhosa.

FIM DOS SERMÕES DO SANTO PAI DOMINGOS

CAPÍTULO I

Primeiro Sermão inaugural de Frade Alano da Rocha, da Ordem dos Pregadores, na Província de França, bretão de nascimento, quando recebeu o título de Bacharel, sobre o Terceiro livro das Sentenças (de Pedro Lombardo), na Alma Universidade de Rostock, na oitava de Santo Agostinho no ano de 1470.

TEMA: Aquele que transforma a pedra em lagoas de água e a rocha em fontes de água. Salmo 113.

Honorável Senhor Doutor, emérito Professor da Sagrada Página e Venerado Decano da faculdade de Teologia de Rostock; Mestre, Tutor e Defensor; excelentíssimo Mestres, Doutores, Bacharéis, religiosos e seculares e outros graduados, vivas fontes na rocha de Cristo, sempre caríssimos a mim.

Oh leitor, este Sermão, escrito com cura muito diligente pelo Beato Alano restituímos a palavra: reuni os outros escritos com um estilo acessível, e contei os exemplos anexos mais explicitamente.

EXÓRDIO

O ilustríssimo Doutor Pedro Blesense, em um Sermão sobre a Virgem Maria, disse: Ela é a Rocha, da qual o pecador suga o Mel e até mesmo a Manteiga, como medicina saudável da alma e do corpo: água viva para a purificação fácil das manchas, ou seja, dos pecados, para saciedade da sede e para o êxito feliz de todo o homem, que ele faz subir à vida eterna depois desta miséria.

Quisesse o céu que eu, Irmão Alano da Rocha, notável pelo título a mim indigno de Bacharel, da rocha teológica, sobre o fundamento do terceiro livro das Sentenças, seja capaz de levar a água da sabedoria aos ouvintes, de purificar os impuros da impureza, de saciar a sede dos sedentos e de curar a doença dos doentes. Visto que, como atesta o Beatíssimo Agostinho, nosso pai do qual hoje recorre a oitava: A água da Sabedoria da saudável doutrina dá a vida aos mortos, cura os enfermos, purifica os impuros cura os doentes, pelo momento recorre à esta docíssima Rocha, a Virgem Maria, que gerou para nós a fonte da Sabedoria, o Filho de Deus, do qual se diz: Eu, Fonte da Sabedoria, resido nos lugares mais elevados.

Saudando-a com a Saudação Angélica, com mente devota e com alegra expressão: Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, Bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto em vosso ventre, Jesus: verdadeiro homem e verdadeiro Deus, que tu, ó Virgem Mãe, concebestes por obra do Espírito Santo: quando a Gabriel respondestes esta palavra salvadora: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. Amém. Dê a mim a graça de começar vantajosamente e aqueles a capacidade de escutar virtuosamente.

TEMA: Aquele que transforma a rocha em lagoas d’água e a rocha em fonte d’água.

Estimado Senhor Doutor, Rocha que versas a mim o óleo dos rochedos da tua sabedoria, e vós Senhores e Mestres, ornados da pedra preciosa da Sabedoria da Rocha.

1. A Santíssima Trindade, no deserto, através de Moisés, mudou uma duríssima pedra em rios e transformou uma rocha aridíssima em fontes vivas de água.

2. Simbolicamente pois: o mesmo Cristo é a Rocha, da qual o Apostolo (disse): a Rocha então era Cristo. E esta Rocha segundo a linguagem ordinária foi transformada em lagoas de água, através da conversão salvadora de muitas populações. E a mesma Rocha foi transformada também em fontes de água, segundo as sete fontes dos Sacramentos, ditas por Ambrósio na obra Os Sacramentos.

3. E em relação à moral, Cristo junto à Virgem Maria transforma os pecadores, duros como a pedra e a rocha, segundo Basílio, em lagoas vivas e nas fontes de água do pranto e da penitência, da verdadeira pureza e da perfeita sabedoria.

4. Ao invés, falando de acordo com a natureza: sempre dos montes altos escorrem os rios e as rochas são de qualquer maneira como as fontes, segundo Isidoro.

5. Pois em sentido místico, a Rocha de Cristo e a Rocha divina na Glória, são transformadas em lagoas e fontes de água; quando faz subir as almas, segundo Crisóstomo, a vida eterna, que tem o significado da fonte d’água viva do Paraíso, que escorre do Trono de Deus, como viu João no Apocalipse.

EXPOSIÇÃO GERAL

Excelentíssimos Senhores, quis aprofundar o tema com quinze formas: Aquele que converte a rocha em lagoas d’água e a rocha em fontes d’água. Mas, Senhores caríssimos, segundo Alberto Magno, a Rocha tem quatro propriedades. Primeiramente tem uma louvável dureza, não é facilmente movível, mas resiste à adversidade. Em segundo lugar, tem a capacidade de estabelecer firmemente as outras coisas sobre si e constantemente as sustenta. Em terceiro lugar, sofre um esfacelamento, pela fragilidade de si mesma e pela consumação do solo.

Em quarto lugar, tem a eminência no embelezamento dos edifícios e para esconder as riquezas. Por isso, também neste ato (acadêmico) sobre a Rocha e sobre a Rocha Angélica, em favor de Cristo, eu, oh, Irmãos, Alano da Rocha como cristão de Cristo, depois do cumprimento do primeiro e do segundo livro das Sentenças, estou para fazer o quarto, segundo o costume daqueles que devem se tornar Sagrados Bacharéis em Teologia.

REPARTIÇÃO. I. Mostrarei a louvável solidez da Teologia trazendo as suas quinze exaltações, as excelentes maravilhas da Rocha da Saudação Angélica.

II. Estando a ponto de disputar, inicio com uma atestação costumeira e fundamental, que sobre a Rocha de Cristo está toda a força da presente obra, também aquela (força) que sustenta a fadiga.

III. Referirei a opinião de alguns Mestres, que observam a consumação e o pisar desta Rocha. Falarei da excelsa doutrina fundada sobre a Rocha da Saudação Angélica: da onde saíram todas as riquezas, excelências e delicias do mundo, segundo Bernardo.

Primeiramente então, deve-se louvar a solidez da Teologia, que funda em si todas as coisas, por causa da sua imobilidade. Para que isto se torne mais claro, mostraremos as propriedades da Rocha. Esta, segundo Isidoro, no livro da Ética, possui quatro propriedades. Primeiramente, tem uma elevação sólida que se levanta ao Céu. Em relação a isto, existe o primeiro livro das Sentenças, que está sobre a Rocha altíssima da Divindade, e sobre o infinito poder da Trindade, do qual se diz em Roma.

11: Oh altura da riqueza da Sabedoria e Ciência de Deus, quanto são incompreensíveis os seus juízos e impenetráveis as suas estradas. Em segundo lugar tem a amplitude de Rocha imóvel, que estabelece solidamente cidade e cidadãos, que ergue os templos, castelos e palácios, dificilmente acessíveis. E no que é relativo a isto, existe o segundo livro das Sentenças, que está sobre a ampla Criação do mundo e sobre o governo e a sua sábia conservação, assim como sobre a rejeição de todos os vícios. E isto se toca quando se diz: Em lagoas d’água. As quais (se acede) através de Cristo. Reconhece-se a natureza da totalidade das criaturas, assim como a razão do que se lê em Jó: A sua extensão é mais vasta do que o mar. E no Salmo: É larga demais a tua ordem.

Em terceiro lugar, a Rocha possui a admirável clareza dos astros; em primeiro lugar, capaz de refletir a luz de si sobre as outras coisas, e que possui em si o explendor das pedras preciosas. Isto é tratado no terceiro livro das Sentenças. Isto se toca com mão, quando se disse também Rocha: a qual Rocha, segundo Agostinho e Isidoro, em primeiro lugar é iluminada pelo sol e por causa desse, por vários efeitos celestes; em segundo lugar torna-se fecundo, pelo movimento e influência da lua. Por isso em Jó se diz que a águia mora sobre as rochas inacessíveis e segundo Alberto e Bartolomeu ela, a águia, procura sempre as rochas luminosas.

Em quarto lugar, segundo Ambrósio, a Rocha tem a maravilhosa riqueza de todas as plantas: tem também a beleza das diferentes ervas, dos aromas que tem força curativa de Deus e a abundância rica de indescritíveis frutos.

O motivo deste, segundo Alberto, é porque atira para si a virtude da terra que está sobre uma natureza mais ordenada, mais dedicada, torna-se pura pela força dos astros. Oh, sobre esta os frutos são mais doces do que aqueles que estão nos campos, as ervas mais valorizadas e os vinhos mais sãos, segundo Avicena. Isto se toca com a mão quando se diz em fontes d’água. E isto no quarto livro das Sentenças do Mestre Lombardo digníssimo Bispo de Paris. Por isso a quarta coisa pode-se dizer justamente, o que esta escrito em Juízes cap.18: Encontramos ali uma terra rica e fértil: onde em Ezequiel se diz: Em pastos férteis ali pastarei.

Tratou-se já das (primeiras) duas partes, sobre o primeiro e segundo livro (das Sentenças). Falta examinar o terceiro (aspecto), de acordo com o terceiro livro das Sentenças. Este em relação ao esplendor da Rocha iluminadora, purificadora e admirável, segundo a Sentença de Dionísio.

Esta luminosidade, segundo o Beato Anselmo, é tríplice: interior, superior e humana.

O primeiro explendor da Rocha é interior e fecundo de pedras preciosas, ou seja, ela é geradora de boas obras. Isto está nas quinze distinções do terceiro Salmo; estas estão no clarão da Beatíssima Encarnação de Cristo, na qual, segundo Agostinho: A luz brilha na escuridão e a escuridão não a acolheu (João, cap.1). Através desta, o Sol de Justiça fez-se homem, iluminando toda a fraqueza da nossa mortalidade. Segundo esta palavra: Iluminas cada homem que vem neste mundo.

O segundo esplendor da Rocha, segundo os mesmos Anselmo e Isidoro, é aquele exterior ou humano, do qual os homens são iluminados; este é forte nos próprios fundamentos e de longe veem todas as coisas prósperas e adversas. Sobre isto na segunda parte do terceiro livro das Sentenças, que está sobre o clarão de sete formas da Rocha de Cristo, com sete distinções, que são a Paixão, Ressurreição, Glorificação e Ascensão de Cristo, da décima sexta até a décima segunda distinção. Sobre estes argumentos relativos à Paixão, à Glória de Cristo e à Ascensão, disse Bernardo, o Doutor do qual escorre mel, que o Sol de Justiça, Cristo nosso Senhor, surgiu de manhã no natal, mas sofreu ao meio dia, incendiando todo o mundo com a chama da sua Caridade e caiu morrendo de noite. Ele novamente ressuscitou na aurora do terceiro dia, aparecendo às santas mulheres.

O terceiro esplendor da Rocha é aquele superior, que compreende todas as virtudes na apagada felicidade e na alegria eterna. E desta trata-se nas últimas dezoito distinções do terceiro livro das Sentenças, da vigésima terceira distinção até a quadragésima terceira. Este esplendor, que está dentro das virtudes teologais e humanas, através das quais alcançamos as virtudes superiores, segundo Jerônimo, visto que adquiriram aquelas coisas, pelas quais serão premiadas nos Céus; justamente com o terceiro esplendor da Rocha se deve preparar a nossa deificação.

Pode-se dizer sobre a primeira das três luminosidades, aquilo que está escrito sobre a Sabedoria: O quanto uma geração pura junto ao esplendor é bonita. E no livro do Êxodo está escrito: quando os filhos de Israel viam o monte enfumaçado, com o fogo, o rumor, as luzes etc.

Sobre a segunda luminosidade pode-se dizer que: Não recebo glória dos homens. E nos Macabeus: Esplendeu o sol sobre os escudos áureos e brilharam os montes por causa deles, ou seja, as Rochas, visto que as Rochas são montes altíssimos, segundo Isidoro e Bartolomeu, no Livro sobre a natureza das coisas.

Mas sobre a terceira luminosidade escreve: Deu a ele uma glória eterna.

E no Evangelho onde diz-se que o Senhor foi transfigurado sobre o monte Tabor e que a luminosidade de Deus o envolveu de luz.

Então colocando de lado as duas últimas subdivisões, deve-se tratar da luminosidade interior, segundo as quinze luminosidades da Teologia, que de acordo com as quinze primeiras distinções do terceiro livro, compreendem as gerações temporais do Filho de Deus. Então o honrado Senhor Doutor e vós todos, Auditores apaixonadíssimos da sagrada Teologia perguntam: Quanto grande e excelsa é a altura da Santíssima Teologia em relação a nossa pobreza? Oh, quanto é necessária a nossa miséria! Oh, quanto é de amar, desejar, agoniar por parte dos mortais! Mas porque isto? Porque ensina a encontrar nas primeiras quinze distinções do terceiro livro a única Rocha infinita, que tem todas as riquezas, que contém todas as luzes, que possui todas as virtudes, que quando o teria obtido, abandonariam todos os bens, depois de ter distanciado todos os males.

Mas qual é esta luminosa Rocha tão magnífica? Escutais, por favor, sábios, inteligentes, cultos e especialistas. Esta, digo, é a Saudação Angélica, que a Rocha altíssima, larguíssima, luminosa, fecundíssima, que com a sua altura levanta todos às coisas do Céu, que com a sua largura sustenta tudo, que com a sua luminosidade ilumina todas as coisas escondidas, que com a sua fecundidade renova e repara todas as coisas. Oh felicíssima Rocha, junto de ti nos refugiamos e seremos liberados dos males. Estaremos sobre ti e não seremos cansados da confusão, da inconstância e da mutabilidade. Veremos continuamente a ti e em todos os lugares esplenderemos como estrelas da manhã. Em ti repousaremos no aprender, no amar, no agir e abundaremos riqueza da casa de Deus e a nossa companhia não estará na terra, mas no Céu.

As palavras do Angélico Agostinho estão de acordo com esta, no belíssimo Sermão sobre a Saudação Angélica, onde disse: Que direi dos montes, dos quais a Sagrada Página me fala?

1. Sobre o monte Sinai foi dada a lei antiga, mas sobre o monte da Saudação Angélica foi dada a nova lei.

2. Sobre o monte Garizim e Hebal foram dadas as maldições terrenas e sobre a Rocha as bênçãos.

3. Sobre o monte Hor foi sepultado Arão, mas sobre esta Rocha Bendita por Deus, nasceu o filho de Deus.

4. Sobre o monte do Líbano germinam todos os aromas, mas sobre esta Rocha Virgínea estão contidas as coisas celestes e os medicamentos de todo o mundo.

5. Sobre o monte Moriá foi fundado o Templo de Deus, mas sobre esta Rocha Bendita, se realizou pela primeira vez, a humanidade (de Cristo), que acolheu a glória da Trindade. Por que então sobre os outros montes sobre os quais subo com dificuldade, sou vencido principalmente pela fome e sede e sobre estes doente, enfim morro, como Moisés e Arão, ambos mais infinitamente grandes do que eu? Mas sobre esta Rocha Angélica progrido, cansado me recupero, doente sou curado, morto sou ressuscitado, faminto e sedento sou recomposto; e como Jacó que contempla as coisas divinas, através de uma escada, onde permanecerá felizmente pela eternidade, com força e com segurança subo, nunca no futuro sofrerei dano. Estas palavras disse ele. Esta claríssima Rocha da Saudação, ou seja, Mariana possui quinze palavras principais e outras três também significativas junto àquelas, e isto é Convosco, Entre e etc...

Disto é possível compreender que aqui deve ser colocado os quinze Pai Nossos e as cinquenta Ave Marias, que fazem cento e cinquenta, segundo o número dos Salmos do Saltério de Davi.

Esta então é a digníssima Rocha da Trindade, na qual estão quinze minas de pedras preciosas, segundo os quinze melhores tipos destas.

Visto o que foi dito pela Virgem Maria, que é ornada de todas as pedras preciosas e como no Saltério Angélico, são cento e cinquenta as Ave Maria, assim onde estão três coroas de flores das quais, a primeira é relativa à Divindade, do qual “O Senhor esteja convosco”; a segunda é relativa à Encarnação, quando se diz, “Entre as mulheres”; a terceira coroa de flores refere-se à Paixão, quando se diz, “E Bendito seja o fruto”, aquele que esta crucificado na árvore da Cruz. Estas três coroas de flores tem-se através das três palavras significativas somadas à outras, ditas antes. A primeira palavra: “Convosco” é dita em referencia à Divindade, visto que à ela o Senhor se une. A segunda, isto é, “Entre” refere-se à Encarnação, visto que a ela acrescenta-se o “Bendito o fruto”. Esta benção e frutificação, não foram realizadas completamente, se não na Paixão.

Como se viu que ali estão três grupos de cinquenta orações e em qualquer Ave Maria daquelas cinquenta estão quinze palavras, ou seja, pedras preciosas: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, tu és bendita entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus Cristo. Amém”.

Ali estarão quinze vezes dez, ou seja, cento e cinquenta Rochas Angélicas, que em qualquer Saltério oferecem-se à Mãe de Deus, as quais, colocadas juntas são duas mil e duzentos e cinquenta pedras preciosas.

Tantas são as palavras principais nas cento e cinquenta Saudações Angélicas. Qualquer uma destas pedras preciosas, devotamente oferecida à Virgem Maria, vale mais do que todas as pedras preciosas de todo o mundo. Oh! Senhores excelentíssimos e servos devotos de Maria Virgem, assim como em qualquer Ave Maria existem quinze palavras, nos três grupos de cinco estão cinco pedras94 preciosas. Se qualquer Ave Maria é uma Coroa, composta de quinze pedras preciosas, dedicada à gloriosa Virgem, assim em todo o Saltério é composto de cento e cinquenta Coroas Reais. Qualquer uma destas, até mesmo a menor, vale mais do que todas as coroas dos Reis, dos Imperadores e de qualquer bem, porque os servos da Virgem Maria no seu Saltério são justamente Reis e Rainhas e que cada dia coroam com muitas Coroas a Rainha da Glória.

94 Entendemos que o termo “pides” aproxima-se de “lapides”, como pode-se ver mais adiante na frase.

Então não é grande, oh docíssimo Salmodiantes da Virgem Maria, o louvor da Teologia? Sem dúvida é grandíssima e nos ensina a encontrar uma grande Rocha, na qual estão estendidas as quinze minas de pedras preciosas. Ensina-nos a oferecer a (pedra preciosa) encontrada à Beatíssima Mãe de Deus, e coroar com a (pedra preciosa) oferecida, a mesma Rainha Maria, cento e cinquenta vezes por dia. Ensina-nos a adorná-la depois de tê-la coroada, com duas mil duzentos e cinquenta pedras preciosas: A menor destas pedras, vale mais do que todo o mundo corpóreo. Visto que os atos (de obséquio) diminuem, principalmente aqueles morais, cada uma daquelas quinze palavra à ser pronunciada, deve ser ligada às pedras utilíssimas e sumamente necessárias da Teologia.

Justamente, então, Deus transforma a rocha em lagoas d'água e a rocha em fontes d'água.

PRIMEIRAS cinquenta ORAÇÕES.

Para ser oferecido como presente:

I) o Diamante da Inocência;

II) o Rubi da Sabedoria;

III) a Pérola da Graça;

IV) a Diáspora da Plenitude;

V) a Safira da soberania.

Então o primeiro louvor de todos, oh fervorosos apaixonados e discípulos da Virgem Maria, é a Página Sagrada. Esta na primeira distinção do terceiro livro, sobre a Inocência da necessária Encarnação do Filho de Deus, nos ensina a oferecer à Virgem Maria, Rainha da inocência a primeira pedra preciosa da primeira mineira da Rocha Angélica, ou seja, a Pedra indomável95. Esta é chamada de pedra da inocência e se oferece quando devotamente se diz à Virgem Maria “Ave”. Ave, segundo Agostinho, se diz enquanto sem os problemas96 da maldição, ou seja, da culpa: nisto a inocência de Maria é declarada de forma claríssima.

95 Preferimos traduzir Adamas como Pedra indomável porque o texto dirá posteriormente que alguns chamam esta de diamas, diamante.

96 O Beato Alano anagrama a palavra Ave com “Vae” (Ahi! Guai!) e com “Eva”, para demonstrar o cumprimento em Maria das profecias contidas no capítulo 3 do Gêneses, e ou seja Maria como nova Eva (Ave-Eva) e Maria como a mulher anunciada em Gêneses 3,15, aquele que teria amassado a testa ao serpente, causa de todos os desesperos (Ave-Vae).

Segundo Isidoro: A Pedra indomável, não é quebrada por nenhum material, não é vencida por nada, nem contaminada ou poluída. A inocência é a pedra do máximo amor e capaz de colocar em fuga o demônio. Alguns o chamam de Diamante, como o amor dos dois (esposos), que recolhe e distribui. A amabilíssima gloriosa Virgem Maria, segundo Anselmo, é Aquela que deve esplender de tão grande pureza, dos quais não se pode encontrar uma maior sob Deus. Por isso no Cântico dos Cânticos: A minha amiga é toda linda e em ti não existe mancha. Mas com razão se faz ver que uma grande pedra deva ser honrada devotamente por todos os seres: porque tem em si uma suma inocência, seja manifestada em relação a todos, seja totalmente conservada, seja guia na conservação de todas as coisas, digo, segundo o direito divino, natural e humano: então Maria Virgem é de tal forma: porque, como disse Ambrósio no Sermão da Assunção: Qual louvor daremos à ti, oh Inocente Virgem Maria, pela qual a inocência morta foi recuperada e vivificada? Tu és a árvore da Vida, fora da qual, os ramos são sem fruto e condenados à morte. Ele escreveu estas coisas.

Mas talvez alguns de vós direis: Quanto vale este Diamante dito Ave?

1. Ele vale mais do que todas as pedras preciosas oferecidas no deserto pelos filhos de Israel pelo Tabernáculo, que é tão maravilhoso.

2. Esta pedra, que é imensa, vale mais do que as pedras preciosas de Salomão, oferecidas ao Templo de Jerusalém ou presentes nos seus tesouros.

3. Vale mais do que as pedras preciosas, que possuíram Artur rei dos Bretões, Carlo Magno, Davi, Cisquaso, os três Reis dos Bretões e qualquer outro fiel tenha oferecido aos Templos e Relíquias dos Santos.

Mas novamente perguntais: Quanto é maior este Diamante “Ave” de todas as inumeráveis coisas ditas antes? Por isto sempre respondo que é tanto maior, quanto todo o céu é maior do que uma só estrela, visto que, segundo Agostinho, um mínimo bem celeste é maior do que o máximo bem corpóreo.

Oh, vós todos, filhos devotos da Virgem Maria escutais e respondais a minha pergunta: Talvez se eu vos desse, um dia, cento e cinquenta Diamantes, vós sereis bem dispostos a realizar os meus pedidos? Amareis me ainda mais, abandonando cada ação danosa e externando com todas as forças, a vossa benevolência? Se isto é assim, claramente consegue que, a Virgem Maria, por qualquer Saltério devotamente oferecido dará coisas maiores. Este é o Diamante da amizade, que expulsa todas as forças do demônio, fragmentado pelo Sangue de cristo Cordeiro Imaculado, da espada da Paixão que atravessou a sua alma. Sem dúvidas, do menor ao maior, ocorre aceitar como verdadeiro, o que foi escrito: Dais e vos será dado. Segundo Orígenes: Nas coisas mundanas se dará o cêntuplo, no corpo mil vezes a mais, na alma dez mil vezes, no momento da morte cem mil vezes a mais e depois da morte um milhão de vezes mais. Vós que quereis enriquecer e em breve recebeis a Inocência: placar Maria e realizar o vosso Reino precioso, neste mundo através da graça e naquele futuro através da glória. Aproximai-vos a esta Rocha da Saudação Angélica, oferecendo à Virgem gloriosa num dia qualquer, cento e cinquenta mil vezes o Diamante da Inocência, ou seja, a Ave. Porque oferecendo assim, saudareis a Imperatriz de todo o mundo, que ama muito mais qualquer pecador e aqueles que a cumprimentam dignamente, do que as Imperatrizes ou Rainhas, que nunca tenham amado um ser mortal vivente ou que ame naturalmente. Visto que a Caridade da Virgem gloriosa, segundo Agostinho, supera o amor natural de todo o mundo: não somente corpóreo, mas também Angélico. Então do menor ao maior, para que não tenhais desespero, ofereçais muito mais frequentemente à Maria o Diamante dito anteriormente. Justamente então Deus transforma a rocha em lagoas de água, pela virtude destas pedras preciosas.

O segundo louvor da Pagina Sagrada: O amabilíssimo filho pertence à Maria Virgem, isto que (se encontra) na segunda distinção do terceiro livro da Sabedoria, que considera o gênero de união entre a natureza humana e aquela divina: ensina-nos muito sabiamente, a oferecer à Maria Virgem, Imperatriz da Sabedoria, a segunda pedra preciosa da segunda mineira da Rocha da Saudação Angélica, ou seja, um Rubi, quando se diz “Maria”. Porque alcançamos a Sabedoria e obtemos o esplendor da gloriosa Virgem, mais (com este Rubi) do que se a oferecemos toda a sabedoria temporal. Visto que a menor parte de uma oração devota, segundo Bernardo, Secretário Beatíssimo de Maria, é maior do que a sabedoria dos Filósofos de todo o mundo, e será recompensada com um prêmio maior. A razão desta oferta é: visto que Maria, segundo Remigio e Jerônimo, é chamada Iluminadora, ou seja, iluminada, porque pertence à sabedoria, segundo os mesmos.

Então um rubi deste tipo, queima nas águas e durante a noite, como um carvão em chamas, esplende: distanciando os terrores dos fantasmas, conferindo um discernimento sobre as coisas a serem feitas e conduzindo a certeza à mente duvidosa, ao menos segundo a ordem pré-estabelecida, de acordo com Isidoro e o Lapidário.

Por isso esta pedra é de incomparável valor para os Reis. E Maria Virgem gloriosa possui plenamente estas condições. Porque, como atesta Bernardo, ela gerou a eterna sabedoria e deu a luminosidade da sabedoria celeste ao mundo cego, muito mais imensamente do que a sábia Abigail, mulher de Nabal do Carmelo. Mas por uma evidente razão se manifesta a todo o mundo, para que essa possa ser saudada no Saltério Angélico. Do momento que todos os homens possuem a grandíssima capacidade de oferecer, observar e guiar, de todos deve ser honrado, como aparece no testemunho de Sêneca. E a Santíssima Virgem Maria, como atesta Bernardo, é o que se diz dela no Eclesiástico, cap. 24: Sou a mãe do puro amor, do temor (de Deus), da ciência e da santa esperança. Se então quereis ter a Sabedoria capaz de iluminar, mais frequentemente saudais Maria. Visto que, como atesta Ambrósio, Esta estrela brilha mais luminosa do Sol nas mentes dos fiéis: e recebereis o cêntuplo do presente. Visto que a menor parte da devota oração, segundo Anselmo, vale mais do que toda a luminosidade corpórea do mundo, e da prudência humana.

Mas por acaso entre vós dites: quanto vale o Rubi Maria? Respondo que esse vale mais do que oferecer à Virgem gloriosa, Rubis tão grandes e numerosos quanto as estrelas do firmamento, como atesta Agostinho, quando disse: a mínima parte da luz da graça é maior do que toda a luz corpórea do mundo. O Rubi Maria supera todos os outros rubis, assim como todo o mundo supera o menor rubi do mundo. Então, oh benditos filhos de Maria, tornais dentro de vós e respondeis a mim: Porque, se um dia, um de vós presenteardes cento e cinquenta rubis a qualquer Rainha, que os ame como um filho incomparável; com certeza esperareis sempre e a todo o momento, encontrar benevolência e amor junto esta. Então visto que a Virgem gloriosa ama mais vós do que a ofereceis tais coisas, do que se todas as criaturas do mundo fossem Rainhas amorosas, que vos amasse afetuosamente. Visto que segundo Alberto Magno, a menor Caridade de Maria é maior do que toda a caridade do mundo, assim como sua infinita amizade natural. Sem dúvida, deveis crer que vós recebereis coisas maiores e obtereis a graça da sabedoria, desta Virgem muito sábia. Porque se aquele que ama menos, segundo Boécio, concede tantas coisas boas, sem dúvidas, aquele que ama mais, concedera coisas maiores. Então, sereis cento e cinquenta vezes coroado no presente, assim como também no futuro com a coroa da sabedoria dos Rubis; no Saltério Angélico saudareis Maria a cada dia. Por isso por mérito da virtude destas quinze pedras preciosas, Deus transforma a rocha em lagunas de águas.

O terceiro louvor da Teologia, oh claríssimos Reitores e Doutores dessa alma faculdade e estrela resplendente, está na terceira distinção do terceiro livro, que dá a santificação através da graça de Maria Virgem e de Cristo, ensina todo o mundo a oferecer à Virgem cheia de graça, a terceira pedra da terceira mineira, da Rocha da Saudação Angélica.

Coincide com uma preciosa Pérola, quando se diz: “Graça”. Segundo Isidoro, a razão disto é que a Pérola é uma pedra cândida em uma concha marinha, gerada do orvalho celeste, sem a mistura de qualquer semente desaparecida: esta é potente contra as numerosas enfermidades e se opõe a fulmines e a raios. A concha quando é atingida pelo raio, sofre um aborto ou quando é agredida por trovões, gera uma pedra imperfeita, segundo Bartolomeu no Livro da Natureza. Assim é a Gloriosíssima Virgem Maria.

Visto que, segundo Jerônimo, ela é a concha marinha deste mundo, que gerou a pérola Cristo, não do sêmen masculino, mas do místico Espírito da glória celeste. Cristo curou as nossas enfermidades, nos defende, contra os trovões das tentações e contra os fulmines de todas das tribulações, segundo Bernardo. Visto que verdadeiramente Maria deve ser louvada por todos com a oferta devota da pérola Graça. Em primeiro lugar, porque tem em si uma graça imensa, capaz de expandir-se em todo o mundo, que protege e que faz avançar, segundo Alberto. Em segundo lugar, porque assim qualquer fiel receberá o cêntuplo do que ofereceu, e assim cada dia se enriquecerá ao infinito. Em terceiro lugar, porque preparará para si o Reino dos Céus com todas as pedras preciosas e cada uma destas será maior do que um inteiro Reino: como testemunha a vida do Beato Tomas Apóstolo.

Mas talvez não compreendendo isto, silenciosamente pede: quanto vale esta pérola Graça? Respondo diante de todo o mundo: que vale mais do que o paraíso terrestre, assim como o paraíso vale mais do que a maçã roubada por Eva. E isto é assim, porque, segundo Basílio, a mínima parte do Reino de Cristo é maior do que todo o paraíso terrestre, porque o Reino de Deus conduz ao Céu, enquanto que o paraíso terrestre conduz ao Inferno. Acham que, oh caríssimos, a Virgem gloriosa não se alegrará por tão grande oferta de dons? Do mesmo modo que, se ao lobo, ao leão ou ao urso déssemos cada dia um pouco de comida: certamente, segundo Jerônimo, este se afeiçoaria a nós. Quanto nos amará a Virgem Maria, pela oferta do Saltério? Ela ama qualquer salmodiante com o seu Saltério, mais do que os pais e as mães, que tenham apenas um filho, (que é sempre) muito amado por ambos os genitores; mais do que uma mãe tenha amado de amor natural o próprio filho. Olhais então com atenção estas coisas, e louvais Maria no Saltério. Porque aqueles que assim a louvam, serão salvos do menor até o maior, como testemunha a vida da Santa Catarina Mártir.

O quarto louvor da sagrada Teologia, oh docíssimos servos de Maria Virgem, é aquele que está na quarta distinção do terceiro livro das Sentenças, ou seja, aquele que se refere à explicação mais completa da perfeita Encarnação de Jesus Cristo, o qual sêmen é o Espírito Santo. (Este louvor) explica que todo o mundo encontra a quarta mina preciosa na Rocha da Saudação Angélica, a qual nos ensina a oferecer a pedra Jaspe à Virgem Maria, invocada através da palavra Cheia. Esta é a razão: porque o Jaspe, segundo Isidoro, é uma pedra de cor verde, que consola a vista através da sua beleza, cheia de tantas virtudes, assim como as vírgulas e sinais que marcam a pontuação.

Consegue distanciar todos os humores ruins do corpo, a dar alegria, quando alguém procura amabilidade e tranquilidade, segundo Alberto Magno e isto de forma ordinária. Assim a Beatíssima e Plena, cheia de Graça, Virgem Maria agradou aos olhos da altíssima Trindade e de todos os Anjos. Ela foi o espelho de todas as belezas no corpo, a mais bonita das mulheres, muito mais do que Judite, do que Ester ou Sara, segundo Alberto. Teve tantas virtudes, potencialidades e obras quanto tiveram os santos. Ela removeu todas as malvadezas necessárias do mundo, segundo Bernardo, e levou a eterna alegria aos filhos da condenação, segundo Agostinho. Justamente então é cheia, como o Jaspe, da graça da beleza, não somente espiritual, mas também corporal. E se concluiu que, por esta razão, deve ser louvada dignamente no Saltério por todos: em primeiro lugar porque, segundo Sêneca, as coisas belíssimas são louvadas; em segundo lugar, porque as coisas que dão suma beleza, devem ser amadas e louvadas por todos, segundo Agostinho. De tal modo está a Virgem Maria, segundo o mesmo (Agostinho), num Sermão sobre o nascimento da Virgem Maria; em terceiro lugar, porque mulheres belíssimas como Ester, Sara e Rebeca, são louvadas na Página Sagrada, então muito mais se deve louvar a Virgem Maria, porque, segundo Agostinho, aquilo que as outras mulheres juntas tiveram de beleza, ela tem e teve, sozinha, na inteira beleza.

Mas talvez observando com admiração e alegrando-se, perguntes.

Quanto vale este Jaspe do Plena, quando se quer oferecê-lo devotamente?

Por isso com segurança diante de toda a Igreja, respondo que vale mais do que todas as obras naturais de Deus feitas nos sete dias. Igualmente, vale mais do que todas as nove ordens dos Anjos, e de todo este mundo material. Visto que este Jaspe do Plena, é digno do Deus da glória, não se referem à Ela as coisas ditas pelo Mestre, no Segundo Livro das Sentenças?

Escutais, pelo amor do Céu, as coisas que eu disse! Se isto é assim, porque sois preguiçosos e não quereis vos enriquecer de tantos bens? Não será visto como um insensato aquele que viverá assim relaxado? Tem mais, prestais atenção! Se desse um só ducado por dia a um turco, ou a um sultão: certamente ele me trataria bem; mas dou à Virgem Maria infinitamente mais quando no seu Saltério ofereço o Jaspe do Plena. Sendo assim pergunto se Ela seria injusta ou mais cruel do que um turco. Dizer isto dela é loucura, visto que a Igreja canta no Salve Rainha que Ela me dará a sua graça, porque ama mais um seu Salmodiante, do que o possam amar irmão e irmãs: mesmo que alguém o amasse tanto quanto Tamar amou seu irmão Absalão, o qual a vingou por causa do amor incestuoso.

Visto que, segundo Gregório Nazianzeno, o menor bem da glória de Deus nos Santos, é maior do que o maior bem da natureza nas coisas criadas.

Esta é a razão, pela quais aqueles são dignos de glória, segundo o Santo Doutor, mas este, porém, é digno da existência natural. Visto que então a razão, o sentido, a ciência, os exemplo, os sinais, a lei, a experiência e o desejo do bem os encorajam a louvar Maria, porque já não a saúda sempre no Saltério, por ter cada plenitude de glória?

O quinto louvor da Teologia, oh eméritos amantes da Sabedoria, filhos da nobilíssima benigna mãe de todo o mundo, Maria Virgem: é aquilo que na quinta distinção do terceiro livro das Sentenças sobre a necessidade da Santíssima União em Cristo, nos ensina a encontrar a quinta mina da Rocha teológica, ou seja, da Saudação Angélica. Desta (mina) nos exorta a oferecer à tão grande Soberana Maria a quinta pedra, que é a pedra da nobreza e da soberania, a pedra que é dita Safira e se tem quando se diz “o Senhor esteja convosco”. Visto que a Safira, segundo Alberto, Bartolomeu e o Lapidário, é uma pedra de cor celeste, a ser colocada sobre os anéis dos Reis, diante da qual se davam os responsos por parte dos deuses, esse revelavam as coisas ocultas: segundo o Lapidário, capaz de levar coragem e de gerar audácia. Todas estas coisas distinguem a nobreza que Maria Virgem teve por suma excelência segundo Ambrósio. Visto que é a Mãe do Senhor dos senhores. Por isso deve ser tida por todos os fiéis de Cristo, como a Senhora do mundo. Ela foi colocada no anel da fé cristã e intercedendo, continuará a assegurar a Redenção do mundo; e através dela, são reveladas numerosas coisas sobre o futuro. Essa sozinha, segundo Agostinho, torna as almas dos homens seguras, audazes e poderosas, não temendo a ninguém. Assim então justamente, como nobilíssima Soberana de todo o mundo, se deve oferecer a Ela este Safira “o Senhor esteja convosco”. A verdadeira razão é esta: Em primeiro lugar, porque é a Mãe do Senhor dos Senhores, e do Rei dos Reis. Em segundo lugar porque, com todo o direito, somos servos dela. Em terceiro lugar, porque as Soberanas do mundo, com toda a razão, devem ser honradas pelos seus servos: por isso a nobilíssima Soberana Maria deve ser honrada por nós, porque é Senhora, Mãe de nobreza, segundo Alberto, em relação à Encarnação.

Mas por acaso, raptado pelo êxtase da maravilha, ficando silencioso, perguntas: quanto vale a Safira, O Senhor esteja convosco? A isto respondo sem hesitar. Valendo e agradando muito, (esta pedra preciosa) é da Virgem Maria, e em si, é principalmente nobre e vantajosa a toda a Igreja militante ou triunfante. É mais adequada à inteira Trindade, do que, se tu desse muitas minas de safiras à Maria Virgem gloriosa, grandes como a cidade de Paris, e as muitas pequenas pedras de todos os tipos. É mais importante, oferecer este Safira à Virgem Maria, do que oferecer a Arca de Noé, e salvar nesta a natureza dos seres vivos: porque a Arca foi destruída com aqueles que entraram nela, mas a Safira da soberania nunca se corrompe, ao contrário, através deste os servos da Maria Virgem, vivendo, exercitam a soberania. Por quê? Porque dá à Maria Virgem em um dia a nobreza por cento e cinquenta vezes. Estes receberão o cêntuplo no modo que disse Gregório: Servir a Deus é reinar com Ele. Dê e te será dado. E a manifesta claramente, porque a nobilíssima Maria ama mais o pequeno servo do seu Saltério, do que qualquer nobre duquesa, condessa ou baronesa tenha amado um servo seu, ou o amará até a morte.

No mais, imaginando que tantas senhoras, quantas as folhas de todas as ervas e de todas as árvores, fossem transformadas pelo poder divino em Senhoras e tuas amantes, te amassem com toda a energia; este tão grande amor não seria explêndido, como o amor da Virgem Maria, com o qual ela ama a ti, que a serve no seu Saltério. Por que este é assim?

1. Porque não amas Aquela que te ama com tão grande amor, tu que às vezes és pego com tão grande amor em relação a uma mísera mulherzinha? E de novo.

2. Porque não confias em tão grande Senhora, tu que te confiarias com muita confiança ao poder de uma das Soberanas ditas acima?

3. Porque se somente destes uma pedra preciosa a um assassino, a qualquer juiz ou dos servos, tu poderias estar seguro, porque se fostes pego por estes, serias libertado, preservado de todos os ultrajes e de qualquer um que faça resistência. Visto que então a Virgem Mãe de Deus é infinitamente mais amiga e mais grata pelos benefícios, certamente podes esperar a salvação através da Angélica Saudação. Se por acaso não te persuadistes (isto não aconteça!) que Ela é mais ingrata do que os assassinos, Ela que é a cheia de Graça (Lucas cap.1) e ama os pecadores, segundo Bernardo, mais do que esses amam a si mesmos, porque Ela é capaz de um maior amor, segundo o Doutor Santo.

II. GRUPO DE cinquenta ORAÇÕES.

(Para ser oferecido) como presente:

I. o Calcedônio da misericórdia;

II. a esmeralda do matrimônio;

III. a Sardônica da honestidade;

IV. a Sardônica da felicidade;

V. o Crisólito da nutrição.

Oh felicíssimos servos da felicíssima Virgem Maria Rainha da misericórdia, o sexto louvor da Teologia, aquela que está na sexta distinção do terceiro livro da Encarnação sobre a consideração dos males e a justa aprovação, e sobre a misericórdia da asserção da santa fé da Encarnação, nos ensina a procurar a sexta mina desta Rocha da Saudação Angélica, e a oferecer em sua vantagem o Calcedônio da misericórdia, ou seja, a “Bendita”. Para receber o cêntuplo no presente e no futuro, em troca de qualquer dom do Saltério.

E esta é a razão: visto que o Calcedônio é uma pedra semelhante ao Cristal, luminoso como uma lâmpada; que atira a si as correções de cobre, que faz vencer os desafios e coloca em fuga os demônios, que libera aqueles que são possuídos por uma força adversa, segundo Alberto Magno e o Lapidário. A Virgem Maria, segundo Agostinho, é a Aurora, por intercessão dela o Sol da Justiça nos ilumina, e atrai a si os pecadores, fazendo suas as nossas enfermidades; Ela faz de forma que os pecadores comovam a Justiça divina, os liberando do poder dos demônios e os restituindo o próprio valor, segundo Bernardo. Por isso, justamente se deve oferecer à mesma o Calcedônio da Misericórdia, ou seja, a “Bendita”. Visto que, segundo Anselmo, devoto discípulo da Virgem Maria, a Virgem Mãe de Deus não só é bendita, mas também Bendita: ela, de fato, levou a todo o mundo a benção da misericórdia, aos enfermos a cura, aos mortos a vida, aos pecadores a justiça, aos prisioneiros a redenção, a Igreja a paz, aos céus a glória, em modo que não exista, quem se esconde do seu calor. E quase todas as mesmas palavras sobre a Beatíssima são de Bernardo.

Mas para uma maior compreensão, com a simples mente, perguntais: quanto vale um Calcedônio, a “Bendita”?

2. A isto respondo com audácia e fielmente. Vale mais do que muitos castelos de Calcedônias, tantas quantas são as gotas do mar, serão como qualquer coisa que seja tanto grande, quanto a cidade de Roma. Ao invés ainda é maior do que todas estas coisas, quanto qualquer castelo é maior da sua pequena pedra. Oh amados, pergunto, talvez se eu doasse a cada pecador do mundo um castelo similar, ele não me amaria e obedeceria também nas situações mais difíceis?

Evidentemente, se desse qualquer dia, uma tão notável gratificação: assim é sem dúvida. No mais: quando a Rainha da Misericórdia, fonte e raiz da clemência, fundamento e princípio da piedade íntima, será endurecida como um pequeno ramo ou de um ramo, os quais são ligados à mesma (raiz) por pouco tempo? Dever-se-á desconfiar da clemência de tão grande Virgem? Não, porque quem participa, não é maior do que quem se tornou participante; nem o que está feito, (é maior) do que o (seu) princípio ou a sua origem, segundo Dionísio o Areopagita e Boécio. Certamente então terias a clemência da Virgem, se a ofereceis esta pequeníssima Saudação do Saltério. Mas para que isto se reforce, Ela ama mais um só salmodiante neste Saltério, do que possam amar tantas mulheres, quantas são as centelhas do fogo. Mesmo que uma ame tanto, quanto Herodíades tenha amado Herodes (o sepulcro destes dois amantes se diz que seja em Lion na França), ainda mais do que esta Maria ama o seu Salmodiante. Visto que, segundo Crisóstomo, (comentando o Evangelho de) Mateus: a mínima graça de Deus é maior do que todas as naturezas, aumentadas infinitas vezes. Vós que então quereis enriquecer e receber a misericórdia no presente e a glória no futuro, com cura ofereceis a Virgem Maria cada dia este Saltério.

O sétimo louvor da Página Sagrada, oh Professores gloriosíssimos pela sabedoria, é aquele que, na sétima distinção do terceiro livro das Sentenças, sobre o ser e se tornar de Cristo dentro da Virgem Maria, Esposa de Deus Pai, nos ensina a oferecer à mesma Rainha do Santo Matrimônio, a sétima pedra preciosa da sétima mina desta Rocha da Saudação Angélica, ou seja, a Esmeralda, quando se diz: “Tu”. A razão desta coisa é assim: visto que a Esmeralda, segundo Isidoro e Dióscoro e Alberto, tem o primado das pedras preciosas verdes, e tem um corpo espetacular e gera um raio que colore de verde todas as coisas próximas, e é suscetível de reprodução, tanto que uma vez o Imperador olhava os lutadores numa Esmeralda. E no mais, provoca a exultação, com o colocar em fuga a tristeza, e se dava a Esposa Real, uma vez, sobre o anel do Matrimônio. Todas estas coisas muito perfeitamente se adaptam à Virgem Maria. De fato esta é o Tu, que é um pronome posto próximo ao verbo da segunda pessoa. Visto que, segundo Alberto, a Virgem Maria deu à luz o filho de Deus, que antes foi invisível, agora é visível, remetendo agora à ela, tanto quanto a uma Advogada, as nossas necessidades. Além disso, foi colorida com a cor verde de todas as virtudes, na qual, como em um espelho, reflete toda a Trindade, segundo Bernardo, e com a razão do seu Filho, o Nosso Senhor Jesus Cristo, através da fé, no Batismo, colore todo o mundo, o vestindo de uma roupa nupcial, distanciando a tristeza, através da alegria do Espírito Santo, que Ela teve, quando se casou com o Pai, o sumo Rei dos Reis, dos quais gerou Cristo Jesus, para Redenção do mundo.

Mas talvez, de bom coração, perguntes: quanto vale esta Esmeralda do Matrimônio, o “Tu”? A isto respondo: Vale mais do que todos os montes do mundo, mesmo se fossem de ouro; aliás vale muito mais do que todos os montes juntos. E mais ainda, visto que segundo o Doutor Santo, os méritos da graça superam o bem de toda a natureza. Oh então vós, que amais as riquezas: por que não vens aqui, na imensa abundância dos bens?

Vós que amais a dignidade, por que não vos aproximais à tão nobre Maria, Princesa de todas as dignidades? Vós que desejais a liberdade, por que permaneceis parados, no momento que os perigos vos ameaçam? Vês ou não, a morte que balança uma haste acima de vós? Fugíeis então o mais rápido na direção do Saltério do Matrimônio, ou seja, a Saudação Angélica.

Peço-vos de não desconfiar nunca da salvação, porque se dessem doações ao Anticristo, ele responderia aos doadores segundo os seus desejos.

Confiais então em Maria, porque se um malvado faz o bem àqueles que dão a ele, segundo Agostinho, Maria dará bens maiores àqueles que a oferecem dons. E assim tereis uma coroa (de glória) aumentada infinitas vezes pelas Esmeraldas Angélicas.

O oitavo louvor da Teologia, honradíssimos Senhores, é aquele que na oitava distinção do terceiro livro das Sentenças, relativo ao Nascimento Virginal do Filho de Deus de uma mulher, a Virgem Maria, nos ensina a oferecer à mesma Rainha das Virgens, a oitava pedra da oitava mina da Rocha da Saudação Angélica, que é a pedra Sardônica, ou seja, da honestidade, quando se diz, “Entre as mulheres”. Visto que, segundo Isidoro e Alberto, a Sardônica é uma tríplice cor, ou seja, negro, vermelho e branco: lembrando a cera, quando com este se fazem os sigilos, e se coloca em fuga a luxúria, para se tornar o homem humilde e pudico, honesto e muito grato. E todas as coisas, segundo Agostinho, devem unir-se às mulheres, e claramente às Virgens, das quais a Virgem Maria é Imperatriz e Rainha, a qual foi de três cores, preto na Humildade, vermelho na Paixão de Cristo; e branco na Graça e na Glória: e é o sigilo da Trindade, com os quais, segundo Bernardo, os pecadores, marcados com o sigilo, entram no Reino dos Céus, tendo a letra do sigilo sobre a remissão de cada ofensa; e Ela defende, segundo Agostinho, aquele que a servem, castos, humildes, pudicos, honestos diante de Deus e do mundo, visto que não é possível estar sempre perto do fogo e não esquentar-se, perto de uma fonte de água e não se banhar, ou na horta dos aromas e não espirrar por causa dos odores.

Mas talvez perguntes. Quanto vale este Sardônica da honestidade, ou seja, “Entre as mulheres”? A isto respondo imediatamente. Vale mais da oferta de Abraão, Isaque e Jacó, que agradaram muito à Deus. Visto que com esta Saudação Angélica, no mundo iniciou a Redenção, ao invés com a própria oferta, os Santos Pais adquiriram alguns benefícios, segundo o Doutor Santo. Direi que vale mais do que a escada de Jacó. Ela introduzirá quanto (se nos fossem!) tantas escadas de ouro e de prata, quantas são no mundo os fios de palha, para que, merecidamente, por esta escada, melhor do que pela escada de Jacó, se suba ao Céu, visto que aquela foi uma figura: esta Angélica, ao invés, é cheia de verdade.

Então, oh Honradíssimos Senhores, então voltamos a ver o quanto é grande a insensatez dos homens, estes que tem tantos bens consigo, assim tanto cômodos e úteis, que desprezam o sumo perigo. Quem se visse um lobo ou um inimigo aproximar-se ou um rio que inunda, não ia querer subir uma escada? Porque, então, não sobes esta escada da honestidade, confiando Nela? A partir do momento que, se doasse somente uma pedra em um ano qualquer, numa homenagem ao diabo, frequentemente viria em ajuda aos vossos desejos, e quanto mais largamente vos (a) deste, tanto mais facilmente, mais prontamente e abundantemente vos viria em ajuda: como é evidente nas artes mágicas, para vos ter ao final consigo. Por que então a Virgem Maria (que é a Rainha da bondade), não nos viria ajudar nas orações no presente, e vos conduziria consigo no futuro, com coisas infinitamente maiores, como ela manifestou, se nós a oferecemos os dons deste Saltério? Ao menos que não disséssemos por acaso, que o diabo seria mais benigno da Virgem Maria, afirmação que é retida por toda a Igreja como herética. E não tem o porquê maravilhar-se, oh caríssimos: porque ela ama mais qualquer salmodiante, do que todos os demônios do Inferno, os tendo como exemplos, amem qualquer coisa agradável do mundo, e até se, de nenhuma forma, estas quisessem se privar de uma coisa tão agradável. Então ainda mais a Virgem Maria não poderá se privar do seu salmodiante e o concederá a salvação. Este explicitamente, o Pai (da Igreja) Agostinho (afirma) nos ditos, visto que a menor parte do Reino dos Céus, é maior do que todo o Reino do Inferno. Oh vós todos então, se quereis enriquecer de Sardônicas ao infinito, e serem coroados por aqueles, para ter a graça da honestidade, saudais a Virgem Maria neste Saltério, visto que é Rainha de suma honestidade, possuindo em si mesma a honestidade, e é capaz de difundi-la, dirigir e conservar em toda a Igreja.

O nonagésimo louvor da Teologia é aquele que na nona distinção do terceiro livro das Sentenças é relativo à bendita adoração ao filho de Deus; aprendemos a oferecer à Rainha da honra e da glória, a nonagésima pedra da benção e de toda a prosperidade, da nonagésima mina desta benigna Rocha da Angélica Saudação, que é dita: Sardônica, e se toca quando se diz: “E Bendito”, porque a Sardônica, segundo Isidoro e Alberto Magno sobre a natureza das pedras, é de cor vermelha ou sanguinolenta, como uma terra vermelha, que impede a malícia da cor do ônix, removendo o medo, a melancolia e a tristeza, levando exultação, alegria e coragem, restituindo a calma das ilusões, e dando prosperidade contras as adversidades iminentes, segundo o Lapidário, e este constantemente. Do mesmo modo, se estende a Benção próspera de Deus, que a Virgem Maria teve sobre si. Visto que a mesma estava de vermelho na Paixão, segundo a profecia de Simeão. E impediu a malícia da cor do ônix, ou seja, do diabo, que coloca dentro do homem os terrores e os medos do desespero, segundo Orígenes; e leva alegria, exultação e coragem aos seus combatentes, segundo Bernardo, os reforçando alegremente como leite da consolação.

Promete também aos seus a segurança contra as ilusões dos erros, contra a heresia e contra o engano do mundo, que é cheio, segundo Crisóstomo, de ilusões.

Nem sem mérito, visto que esta Virgem gerou o filho Bendito de Deus, o Senhor de cada prosperidade. Por esta razão, a mesma Virgem Maria é Rainha da prosperidade, segundo Anselmo, distribuindo a adversidade ou a prosperidade como quer. O argumento pelo qual deve ser tão honrada é, que Ela é a Imperatriz da prosperidade, a qual naturalmente todos desejam, segundo Sêneca e Tuliano, e honram segundo as forças, como se manifesta nos poderes, nas artes e nas ciências, etc...

Mas talvez queiram saber: quanto vale a pedra Sardônica? Respondo isto. Vale mais do que o Tabernáculo de Moisés, realizado no deserto. Ele o supera mais do que este Tabernáculo superava a menor pele de cabra, que velava o Tabernáculo. E além: visto que, segundo o Doutor Santo, as coisas que são divinas superam desproporcionalmente as coisas corpóreas. Por direito a Virgem deve ser louvada por todos. E o dom recebido não será mal cuidado, visto que Deus não descuidou do Tabernáculo. Nem um tirano cruel, nem um ferocíssimo Daciano, ou mesmo com semelhantes deuses, esqueceriam daqueles, que cada dia oferecessem à eles tais Tabernáculos. A tão amável Virgem Mãe de Deus não se esquecerá, então, deste tão grande dom recebido. Porque Ela ama qualquer um dos seus salmodiantes, mais do que qualquer professora tenha amado um seu discípulo. Se todas as mulheres do mundo fossem tuas professoras, te amando de forma singular, por quanto a sibila amou qualquer discípulo, o que seria grande coisa, ainda mais do que esta, a clementíssima Maria te ama, que recites assim à ela o Salmo no seu Saltério. Mais do que as coisas, colocadas todas juntas, são mais do que uma só: visto que, segundo Alberto Magno em relação ao primeiro livro das Sentenças: O amor da natureza não ultrapassa a natureza; uma mínima doçura, ao invés, da glória, toca a essência divina, que é infinita. E é o mesmo raciocínio do Santo Doutor. Mas nenhuma destas professoras gostaria que tu sofresses desgraças, ao contrário gostaria que tu tivestes prosperidade: então do menor ao maior certamente, muito mais, todas as coisas prósperas e saudáveis, a Virgem gloriosa obterá seguramente ao seu salmodiante com o seu Saltério. Tenha confiança então, oh salmodiante da Virgem Maria, visto que a doutrina, a ciência, a inteligência, a experiência, a fé, a esperança, a caridade e a justiça, por ti combaterão e obterão a vitória; para que tu tenhas, se fores perseverante, todas as coisas saudáveis e prósperas; intercedendo sempre pela Virgem Maria, à qual serves na Saudação Angélica.

O décimo exímio louvor da Teologia, oh caríssimos louvantes e oradores da Virgem Maria Rainha do Céu, é aquele que na décima distinção do terceiro livro, é relativo à fecunda personalidade, aos afilhados e o desenho preestabelecido pelo fruto da Virgem e nos ensina à oferecer a décima pedra preciosa, da décima mina desta altíssima Rocha da saudação Angélica, a mesma Virgem, gloriosa nutridora universal de todo o mundo, para que nos nutramos de todos os frutos através dela, e esta pedra se diz Crisólito, e se toca quando se diz “Fruto”. E desta é clara esta exposição.

Visto que, segundo Isidoro e Dióscuro e outros importantes especialistas de pedras, O Crisólito é luminoso de dia como o ouro, emana centelhas de noite.

Por isso, se diz “Chrysis”, porque é ouro.

Também distância os demônios, expulsa os temores noturnos, afasta a melancolia, torna audaz e forte nas adversidades; e consola a mente, mudando os pensamentos ruins em coisas melhores, porque todas as coisas implicam certa nutrição do homem, e uma consolação, porque acontece através do fruto. Porque com razão se chama crisólito o fruto da Virgem Maria, visto que essa de dia brilha como o ouro pela sabedoria que ela gerou para o mundo, segundo Agostinho, e de noite emite centelhas de fogo, inflamando os pecadores com as profundidades do seu amor, segundo Bernardo, distanciando os demônios e afastando os temores noturnos e a melancolia, visto que esmagou a cabeça da serpente e a potência dela, segundo Jerônimo. E conforta a mente, propagando a ciência humana e divina, e a fé individual, segundo Agostinho, levando aos fiéis, como uma ótima nutridora, o seu fruto, ou seja, o Senhor e filho Jesus Cristo, colocando sobre a mesa da Igreja, o pão do Corpo do seu Filho em alimento, e o sangue dele em bebida, com os quais se alimenta, e enfim se conduz ao convívio dos Anjos. Quem quer ter cem vezes à mais tais topázios, e alcançar o fruto eterno e restaurar a mente e o corpo em todos os benefícios de Deus, cada dia oferece à Virgem Maria este Crisólito da Trindade, ou seja o Fruto.

Mas talvez quereis saber de qual valor é a pedra Crisólito oferecida à Virgem Maria, quando a diz “Fruto”? A isto respondo com a máxima segurança. Vale mais do que todo o Reino e Templo de Salomão, como um inteiro reino é maior do que pedrinha, ou trave daquele reino, e mais: visto que, segundo Orígenes em um sermão a menor parte da graça de Deus, é superior à maior coisa deste mundo efêmero. A qual razão foi suficientemente descrita acima. Justamente então, assim se deve louvar a gloriosa Virgem Maria. Porque como nutridora natural, moral e divina, deve justamente ser louvada com todo direito, pelos seus nutridos. Porque se a Virgem Maria for louvada com a oferta desta pedra, não será ingrata.

Se a morte tivesse tantos dons naturais por parte dos vivos, quantos oferecemos à Virgem Maria, quando dizemos “Fruto”, a morte não levaria mais nenhum homem. Pensais que a Virgem Maria é mais cruel do que a morte, coisa que não se pode dizer, ou prefere conduzir à vida os seus Salmodiantes? A qual prova é evidentíssima: visto que, segundo Bernardo, ao infinito ama mais do que cada um de nós, tanto quanto cada vivente ama mais de si mesmo, uma mulher muito predileta. Mas ninguém quer o mal a si mesmo, ao contrário quer todo o bem: então, enquanto superior, a Virgem doa à nós os frutos e todos os bens, afastando todos os males.

III. GRUPO DE CINQUENTA ORAÇÕES

A oferecer em doação:

I. O Berilo da maternidade de Deus;

II. O Topázio para acumular riquezas;

III. o Crisópraso da Salvação;

IV. o Jacinto da Medicina;

V. a Ametista da Verdade.

O décimo primeiro digníssimo louvor da Teologia, oh louváveis discípulos da Virgem Maria, é aquele que está na décima primeira distinção do terceiro livro, relativo à geração de Cristo, segundo a natureza assunta no Ventre Virginal da Mãe de Deus; (este louvor) muito louvavelmente nos ensina o dever de oferecer a ela a décima primeira preciosa pedra, da décima primeira mina desta felicíssima Rocha da Angélica Saudação, que se chama Berilo, e se alcança quando as oferecemos “Ventre”.

A qual razão logo se manifestou, visto que, segundo Alberto, Bartolomeu e Avicena, o Berilo é uma pedra cor índigo e verde, que somente em base à forma dos seus ângulos, brilha da luz do sol. Tendo dez princípios: tem eficácia contra os perigos dos inimigos, torna invencível contra os litígios, inflama a mão de quem a leva quando colocada sob o sol, magnifica o homem e privilegia o amor conjugal, dando uma capacidade fértil. E todas estas são contidas de forma excelente com o nome “Seio” na gloriosa Virgem Maria. Visto que a Virgem Maria é a pedra índigo do Oriente; visto que foi toda de Deus, segundo Ambrósio. É verde, porque todas as suas obras, sem a morte do pecado, são eternas, segundo Agostinho. Brilha segundo a forma dos seis ângulos, porque na mesma foram recebidas coisas admiráveis, ou seja, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a carne e a alma de Cristo, junto com a graça e a glória infinita: das quais a Virgem Maria teve o esplendor imenso, infinito, segundo o Doutor Santo: protege também contra os perigos dos inimigos, tanto visíveis, quanto invisíveis, visto que, segundo Agostinho esta é Senhora das guerras.

E torna invencível nas batalhas, levando a verdadeira paciência aos ultrajados, segundo Bernardo. Inflama também a mão de quem a leva, porque torna todas as nossas obras em chamas, segundo o cluniense Santo Odilon. E esta foi magnificada na Concepção (de Jesus), acima de todas as criaturas, segundo o Doutor Santo. De modo que Deus não pudesse fazer com que uma criatura natural fosse maior do que a Mãe de Deus, e amou o amor conjugal, não carnal, mas divino, visto que foi a Esposa de Deus Pai, do qual recebeu uma fecundidade infinita, com a qual pode gerar o infinito Filho de Deus, e assim foi Mãe de Deus. Merecidamente então a Ela se deve oferecer o berilo da Maternidade de Deus, porque do “Ventre”. E de todos justamente deve ser sempre tão honrada. A razão é breve, porque a Mãe do Rei dos Reis é digníssima, com todo o direito, de ser honrada por todos, como atesta Bernardo.

Mas talvez duvides. Quanto vale este Berilo do “Ventre”? Respondo.

Cabe a ti, mais do que se um dia fosse te dado o Império Romano e de nenhuma forma quisesses abandoná-lo. Não deverias, portanto, abandonar o Reino e o Império do Saltério da Virgem Maria. Visto que, segundo Agostinho, a menor parte das coisas invisíveis, não se pode comparar com a maior das coisas visíveis. Louva então a louvadíssima Maria através do seu Saltério e ela não te será ingrata. Se a terra, irracional, recebendo uma só semente, restitui o cêntuplo, da mesma forma restitui a Virgem Maria.

Porque como a mesma Virgem Maria, nossa Senhora, revelou tantas vezes: ama qualquer pecador que a serve. Ela, naquilo que depende dela, queria abandonar a sua glória até o final do mundo, e pelo mesmo fazer penitência neste século presente, antes que ele se condene.

Isto é maravilhoso de se dizer, e está de acordo com a fé, porque ama tanto a honra de Deus, que queria impedir o pecado de todos os modos, no que depende dela, visto que é em oposição à reverência de Deus: como pode ser manifesto pela regra contrária. Se então quereis a ter como mãe e gozar por direito da herança dos filhos, ofereceis o berilo da Maternidade à divina Maria, salmodiando cada dia com o seu Saltério.

O décimo segundo admirável louvor da Teologia, oh maravilhosos zeladores teológicos, está na décima segunda distinção do terceiro livro, relativo aos quatro limites humanos que teve Cristo; (este louvor) ensina a oferecer à Virgem Maria, guardiã do tesouro de todas as riquezas da Trindade divina, a décima segunda pedra preciosa da décima segunda mina desta diviníssima Rocha da Saudação Angélica. Esta pedra é o Topázio, pedra para acumular riquezas, que se usa para oferecer à Mãe de Deus, o “Vosso”: a qual luminosíssima razão é evidente: visto que segundo Isidoro, o Topázio é uma pedra áurea e de cor celeste, diferente nas formas e nas aparências, do qual nada de mais excelente foi conservado nos tesouros dos Reis, e segue o curso da lua no que concerne as (fases da) luminosidade e da obscuridade: tem influência sobre as dores de cabeça, é potente contra a suscetibilidade volúvel, e impede a morte repentina. Para que justamente, através do pronome possessivo “Vosso” seja dado a entender um tão grande bem, o qual sumamente se adapta à Mãe de Deus.

Esta foi da cor do Céu, visto que foi celestial para o tipo de vida, segundo Bernardo, e áurea pelo exemplo do viver bem, como atesta Jerônimo. Esta possuiu na Arca nobilíssima do seu Ventre virginal todos os tesouros, (ou seja) o Filho de Deus Pai, no qual foram escondidos todos os tesouros de sabedoria e de ciência, segundo o Apostolo. Segue o curso da lua, parecendo, aquele que reproduz a imperfeita Igreja militante, adaptando-se a esta, fazendo próprias as coisas boas e as misérias desta em presença de Deus, próprio como uma amável advogada, segundo Bernardo. Ela domina os humores, pondo um freio a luxúria e à gula: porque é o espelho de cada abstinência e de cada continência, segundo Ambrósio; distancia a suscetibilidade volúvel porque deste, grosseiro e simples, segundo Bernardo, sabe fazer sábios e dotados; impede a morte repentina: porque libera da malvada morte, porque é a Rainha da vida, segundo Fulgêncio.

Merecidamente, então, todos devem louvar uma tão grande guardiã do tesouro com esta pedra, o Topázio, “Teu”. A qual razão é brevíssima. Visto que toda a guardiã de tesouros, capaz de dividir infinitamente e de distribuir os bens dela e dos seus, deve ser honrada como excelsa por todos, porque dela se recebem os maiores bens. E cada um, em um dia qualquer, por cento e cinquenta vezes, da Virgem Maria recebe bens divinos, e isto nas cinco potências interiores, que são: sentido comum, imaginação, fantasia, avaliação, memória; e nas cinco potências superiores: intelecto, vontade, desejo concupiscível, irritação e poder móvel. A Virgem Maria dirige cada uma dessas potências, segundo os Dez Mandamentos de Deus, e no que depende dela os bens são multiplicados por quinze vezes dez, ou seja, por cento e cinquenta.

Mas talvez desejes saber quanto vale o Topázio para acumular riquezas “Vosso”? A este respondo. Vale mais, do que os sábios de todo o mundo possam saber, pensar ou dizer. De fato todas as memórias do mundo, comparadas a pedra Topázio, não são nada, apenas lama. Visto que segundo Jerônimo, as coisas que aqui são muito preciosas, comparadas com as coisas celestes, são desprezáveis e abomináveis. Se, então, tu queres te tornar rico, tanto nos bens mundanos quanto naqueles divinos, por que não compras tod