A VIDA DE JESUS CRISTO E DE SUA SANTA MÃE

Revelações História

Desde o nascimento de Maria Santíssima até a morte de São José

De acordo com as visões da Ven. Ana Catalina Emmerick

CLEMENS BRENTAN, BERNARD E.OVERBERG Y. WILLIAM WESENER

VISÕES E REVELAÇÕES DA VENERÁVEL

ANA CATARINA EMMERICK

TOMO II

A VIDA DE JESUS CRISTO E DE SUA SANTA MÃE

De acordo com as visões da Ven. Ana Catalina Emmerick

- Editado pela Revista Cristiandad.org -

Introdução

I – Os essênios

II — Ancestrais de Santa Ana

III — São Joaquim e Santa Ana

IV — A Santa e Imaculada Conceição de Maria

V — A visão de Joaquim

VI — Joaquim recebe o mistério da Arca da Aliança

VI — Encontro de Joaquim e Ana

VII — Figuras do mistério da Imaculada Conceição

IX — O futuro Messias é anunciado aos pagãos

X — Imagens da Imaculada Conceição

XI — Mistérios da vida de Maria

XI - Véspera do nascimento de Maria

XII - Orações pela festa da Natividade de Maria

XIV - Nascimento de Maria Santíssima

XV – O nascimento de Maria no Céu, no Limbo e na natureza

XVI – Na Caldeia, no Egito e em outros lugares é anunciado o nascimento de Maria

XVII - A Menina leva o nome de Maria

XVIII - Preparativos para a apresentação no templo

XIX - Partida para o templo de Jerusalém

XX - A cidade de Jerusalém

XXI – Apresentação de Maria no Templo

XXII - Maria no Templo

XXIII - O nascimento de João é anunciado a Zacarias

XXIV - Informações sobre São José

XXV - O casamento da Virgem Maria com São José

XXVI - A aliança de casamento de Maria

XXVII - A Casa de Nazaré

XXVIII - A santa casa de Loreto

XXIX - A Anunciação do Anjo

XXX - Visitação de Maria a Isabel

XXXI – Na casa de Zacarias e Isabel

XXXII – Mistérios do “Magnificat”

XXXII - O retorno de José a Nazaré

XXXIV - Nascimento de João. Maria regressa a Nazaré

XXXV - Preparativos para o nascimento de Jesus

XXXVI - Partida de Maria e José para Belém

XXXVI - Festa do sábado

XXXVIII - Viajantes são rejeitados em diversas casas

XXXIX - Últimas etapas da viagem

XL - Chegada a Belém

XLI – A Sagrada Família refugia-se na gruta

XLI - Descrição da Gruta de Belém

XLIII - José e Maria refugiam-se na gruta de Belém

XLIV - Nascimento de Jesus

XLV - Signos na natureza. Anúncio aos pastores

XLVI - Sinais em Jerusalém, em Roma e em outras cidades

XLVI - Antecedentes dos Três Reis Magos

XLVII – Data de nascimento do Redentor

XLIX - Os pastores vêm com seus presentes

L - A Sagrada Família celebra a festa de sábado

LI - A circuncisão de Jesus

LII- Isabel vai à gruta de Belém

LIII - Os países dos Três Reis Magos

LIV - A comitiva Teokeno

LV - Nomes dos Três Reis Magos

LVI - Chegam, ao país do rei de Causur

LVII - A Santíssima Virgem pressente a chegada dos Reis

LVII - A viagem dos Três Reis Magos

LIX - Chegada de Santa Ana a Belém

LX - Chegada dos Três Reis Magos a Jerusalém

LXI - Os Três Reis Magos Levados ao Palácio de Herodes

LXII - Viagem dos Reis de Jerusalém a Belém

LXIII - A Adoração dos Três Reis Magos

LXIV – A adoração dos servos dos Reis

LXV - Nova visita dos Três Reis Magos

LXVI – O Anjo avisa os Reis sobre os desígnios de Herodes

LXVI – Visita de Zacarias. A Sagrada Família se muda para o túmulo de Mahara

LXVII – Preparativos para a partida da Sagrada Família

LXIX – Apresentação de Jesus no Templo

LXX - Apresentação de Maria no Templo

LXXI - Morte de Simeão

LXXII – Visão da Purificação de Maria

LXXII - A Sagrada Família chega à casa de Santa Ana

LXXIV - A agitação de Herodes em Jerusalém

LXXV - A Sagrada Família em Nazaré

LXXVI - O Anjo aparece a José e ordena-lhe que fuja para o Egito

LXXVI - Descanso sob o carvalho de Abraão

LXXVIII - Santa Isabel foge para o deserto com o menino João

LXXIX - A Sagrada Família pára numa gruta e vê o menino João

LXXX - Na morada dos ladrões

LXXXI – A primeira cidade egípcia. - A fonte milagrosa

LXXXII - O ídolo de Heliópolis

LXXXIII - A Sagrada Família em Heliópolis

LXXXIV - O Massacre dos Inocentes

LXXXV - Santa Isabel foge novamente com o menino João

LXXXVI - A Sagrada Família dirige-se a Matarea

LXXXVII - Santa Isabel retorna pela terceira vez ao deserto com o menino João

LXXXVIII - Morte de Zacarias e Isabel

LXXXIX - Vida da Sagrada Família em Matarea

XC - Origem da fonte Matarea. História de Jó

XCI - Abraão e Sara no Egito. A fonte abandonada

XCII - Um anjo avisa a Sagrada Família para deixar o Egito

XCIII - Retorno do Egito

XCIV - A Sagrada Família em Nazaré

XCV - Festa na casa da Ana

XCVI - Morte de São José

Introdução

Toda reflexão, todo louvor é uma voz mísera ao lado da grandeza solene que emana das contemplações da vida de Maria, a donzela excepcional predestinada desde a eternidade a ser Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A riqueza de detalhes sobre seus antepassados, seu nascimento, sua relação mística com o Todo-poderoso é tal que o espírito fica suspenso.
A vida de Nosso Senhor Jesus Cristo supera, porém, esta maravilha que Deus se dignou revelar-nos através do espírito de Ana Catalina. Os prelúdios e a comoção universal que rodearam o nascimento de Jesus, a sua infância, a sua juventude; os atos, milagres e ensinamentos do Redentor; A sua adorável Paixão e os acontecimentos que precederam e seguiram a sua Ressurreição, incluindo numerosas viagens e prodígios não registados nos Evangelhos, não podem ser imaginados nem mesmo pelos espíritos angélicos: só Deus os poderia revelar aos homens.
O abade de Solesmes, Dom Próspero Gueranguer, quando apareceu a versão francesa destas visões, publicou um artigo no Le Monde, em 1860, onde expressou: “Eu disse que a vida de Jesus me pareceu ainda mais extraordinária do que a amarga A paixão e a vida da Virgem, e não duvido que esta ideia seja partilhada por todos aqueles que pensam na impossibilidade em que se encontraria qualquer escritor se tivesse que narrar, dia após dia, com igual interesse e com o maior verossimilhança, a vida de uma pessoa, mesmo admitindo que ela era extremamente amada e muito estimada.
E se ao mesmo tempo se ocupasse de escrever a topografia mais exata de todas as cidades e lugares por onde passa o seu Herói, se descobrisse todos os costumes, usos e vestimentas em todos os seus detalhes, narrando os pequenos e grandes episódios de tantos personagens ricos e variados das pessoas em cena, durante três anos inteiros e sem notar em tudo isso um vestígio, não digo de invenção, mas nem mesmo de esforço na narração dos acontecimentos?... E o que Diremos se a autora de tal drama é uma simples camponesa do coração da Europa, sem a menor ideia dos costumes do Oriente, que, sem se desviar nem um pouco, ela descreve e pinta, ultrapassando o pincel de um artista e a ciência de um arqueólogo ...E o que pensar, finalmente, se o Herói desta admirável odisseia não é outro senão o próprio Filho de Deus, de quem os principais fatos são conhecidos pelos Evangelhos, que, no entanto, , nos é mostrada aqui nos mínimos detalhes de sua vida oculta, sem poder descobrir uma única discordância que pudesse vir de um narrador fraco, humilde e mortal..."

Os essênios

Os ancestrais de Santa Ana eram essênios. Esses mais piedosos homens descendiam daqueles sacerdotes que nos tempos de Moisés e Arão estavam encarregados de transportar a Arca da Aliança, que receberam, nos tempos de Isaías e Jeremias, certas regras de vida. No início eles não eram numerosos. Mais tarde viveram na Terra Santa reunidos numa área com cerca de 78 quilômetros de comprimento e 38 quilômetros de largura, e só mais tarde se aproximaram das regiões do Jordão. Eles viviam principalmente no Monte Horebe e no Carmelo. Nos primeiros dias, antes de Isaías os reunir, eles viviam dispersos, dedicados à penitência. Usavam sempre as mesmas vestes e não as remendavam, não as trocavam até que se desfizessem devido à velhice. Viviam em estado de casados, mas com grande pureza de costumes. Às vezes, por mútuo acordo, homem e mulher separavam-se e viviam algum tempo dedicados à oração. Quando comiam, os homens eram separados das mulheres; Eles comiam primeiro e quando os homens iam embora, era a vez das mulheres.
Desde então já existiam, entre estes judeus, antepassados de Ana e da Sagrada Família. Os chamados “filhos dos profetas” também derivam deles.
Eles viviam no deserto e ao redor do Monte Horebe. No Egito também vi muitos deles. Por causa das guerras, eles ficaram longe do Monte Horebe por um tempo; mas eles foram apanhados novamente por seus chefes. Os Macabeus também pertenciam a eles. Eles eram grandes adoradores de Moisés: tinham uma peça de sua roupa, que ele havia dado a Arão e que havia ficado em sua posse. Era algo sagrado para eles, e vi que em certa ocasião cerca de quinze morreram lutando para defender esse tesouro sagrado.
Os líderes dos essênios estavam cientes do mistério encerrado na Arca da Aliança. Aqueles que permaneceram celibatários formaram um grupo separado, uma ordem espiritual, e foram testados longamente durante vários anos antes de serem admitidos. Os chefes da ordem os receberam por mais ou menos tempo, dependendo da inspiração que receberam de cima. Os Essênios que viviam em casamento observavam muito rigor entre si e suas esposas e filhos, e mantinham com os verdadeiros Essênios a mesma relação que os Terciários Franciscanos tinham com a Ordem Franciscana. Eles costumavam consultar todos os seus assuntos com o antigo chefe do Monte Horebe. Os essênios celibatários eram de pureza e piedade indescritíveis. Usavam roupas compridas e brancas, que mantinham perfeitamente limpas. Eles estavam encarregados de educar as crianças. Para serem admitidos na ordem deveriam ter pelo menos quatorze anos.
Pessoas de grande piedade eram testadas apenas por um ano; os outros por dois. Viviam em perfeita pureza e não faziam comércio; O que necessitavam para seu sustento era obtido através da troca de seus produtos agrícolas. Se um essênio estivesse errasse gravemente, ele era expulso da ordem, e essa excomunhão era geralmente seguida de punição, como no caso de Pedro com Ananias, ou seja, ele morria. O chefe sabia por revelação divina quem havia cometido um erro grave. Vi que alguns só tiveram que fazer penitência: vestiram um saco muito rígido, com os braços estendidos, que não podiam dobrar, e o interior cheio de pontas afiadas. Eles tinham suas cavernas no Monte Horebe. Numa caverna maior, foi montada uma sala de vime onde às onze horas todos se reuniam para uma refeição comum. Cada um tinha um pequeno pão e um copo à sua frente. O cacique ia de um para outro abençoando os pães. Após a refeição, cada um voltava para sua cela. Naquela sala vi um pequeno altar, e sobre ele cobria pão abençoado, que depois era distribuído aos pobres. Tinham muitas pombas tão mansas que bicavam as mãos. Eles comiam dessas pombas, e eu sabia que faziam algum culto religioso através delas, porque falavam alguma coisa sobre os pássaros e os deixavam voar. Da mesma forma, vi que falavam algo sobre cordeiros, que depois deixavam vagar pelo deserto.

Três vezes por ano iam ao templo em Jerusalém. Tinham entre eles sacerdotes, que cuidavam das vestes sagradas, que purificavam, refaziam e pagavam pelo seu trabalho. Eles estavam envolvidos na agricultura, pecuária e principalmente no cultivo de pomares. O Monte Horebe estava cheio de jardins e árvores frutíferas, entre suas cabanas e habitações. Outros teciam com vime ou tecido, ou bordavam e enfeitavam vestimentas sacerdotais. Eles não usavam a seda para si: levavam-na amarrada ao mercado e trocavam-na por produtos.
Em Jerusalém eles tinham uma vizinhança especial para si e até um lugar reservado no templo. Os judeus comuns não se davam bem com eles. Vi oferendas trazidas ao templo, como uvas grandes, carregadas por dois homens, empaladas numa vara. Eles carregavam cordeiros, que não eram sacrificados, mas podiam correr livremente. Eu não os vi oferecer sacrifícios sangrentos. Antes de partirem para o templo preparavam-se com oração, jejum rigoroso, disciplinas e outras penitências. Quem se aproximava do templo com pecados não satisfeitos penitencialmente temia ser punido com morte súbita, o que às vezes acontecia. Se no caminho para Jerusalém encontrassem uma pessoa doente ou necessitada, não continuavam o caminho até terem ajudado a pessoa desamparada. Vi-os colher ervas medicinais, preparar bebidas e curar os enfermos com estes meios: impunham-lhes as mãos ou deitavam-se com os braços estendidos sobre os enfermos. Eu os vi curar às vezes à distância. Os doentes que não podiam vir enviavam um mensageiro, no qual faziam tudo o que o verdadeiro doente precisava, e ele era curado no mesmo momento.

Os ascendentes de Santa Ana

No tempo dos avós de Ana, o velho Arcos era chefe dos essênios. Este homem teve visões na caverna de Elias no Monte Horebe, a respeito da vinda do Messias. Ele sabia de qual família o Messias deveria nascer. Quando Arcos teve que profetizar sobre os ancestrais de Ana, viu que o momento se aproximava. Ele não sabia, porém, que a ordem às vezes era atrasada e interrompida pelo pecado, e por quanto tempo durava esse atraso. No entanto, ele exortou à penitência e ao sacrifício. O avô de Ana era um essênio chamado Estolano antes do casamento. Em homenagem a sua esposa e seus bens, ele mais tarde foi chamado de Garesha ou Sarziri. A avó de Ana era de Mara, no deserto, e seu nome era Moruni ou Emorun, ou seja, mãe exaltada. Ela se uniu a Estolano a conselho do profeta Arcos, que foi chefe dos essênios durante noventa anos e era um homem santo com quem sempre se consultavam antes de se casar, para ouvir sua palavra e fazer a escolha certa. Fiquei surpreso ao ver que esses homens santos e profetas sempre profetizaram sobre descendentes de mulheres e que os ancestrais de Ana e a própria Ana sempre tiveram filhas do sexo feminino. Parecia que era sua intenção religiosa preparar vasos puros, que deveriam gerar filhos santos, como o Precursor, o Salvador, os apóstolos e os discípulos.

II Ancestrais de Santa Ana

Vi que Emorun, antes do casamento, foi consultar Arcos. Tinha que entrar na sala de reuniões, no Monte Horebe, em local designado e falar, através de uma grade, com o líder supremo, como se usa no confessionário. Então Arcos subiu muitos degraus até o topo do Monte Horebe, onde ficava a caverna de Elias. A entrada era pequena e alguns degraus levavam para baixo. A caverna estava limpa e arrumada e a luz entrava no interior por uma abertura superior. Vi, contra a parede, um pequeno altar de pedra e sobre ele a vara de Arão e um cálice brilhante como se fosse feito de pedra preciosa. Neste cálice foi depositada uma parte do sacramento ou mistério da Arca da Aliança. Os essênios adquiriram este tesouro na ocasião em que a Arca caiu nas mãos dos inimigos.
A vara de Arão foi mantida em uma bainha em forma de árvore com folhas amarelas ao redor. Não sabia dizer se a arvorezinha era real ou apenas uma obra artística, como uma raiz de Jessé. Quando o superior dos essênios orou, por causa de um casamento, ele pegou a vara de Arão nas mãos. Se a união se referia à genealogia da Virgem Maria, a vara produzia um botão e este florescia várias vezes com o sinal da eleição. Os ancestrais de Ana foram escolhidos como brotos desta genealogia, e suas filhas foram escolhidas através desses sinais, que deram outros brotos quando estavam prestes a se casar. Esta pequena árvore com seus galhos retorcidos era como a árvore genealógica, como a raiz de Jessé, através da qual se podia saber a proximidade do nascimento de Maria, dependendo do que havia crescido. Havia outros pequenos arbustos em vasos, no altar, que tinham significado quando brotavam ou murchavam. Ao redor das muralhas havia espaços guardados por grades, onde eram preservados os ossos dos antigos homens santos israelitas que viveram e morreram na montanha e nos arredores, envoltos em seda e lã. Também nas mesmas cavernas dos essênios vi ossos semelhantes diante dos quais rezavam, colocavam flores ou acendiam lâmpadas.
Arcos vestiu-se à maneira dos sacerdotes do templo, quando orou na caverna de Elias. Sua roupa era composta de oito partes. Primeiro, foi colocado sobre o peito uma veste que Moisés usava: uma espécie de escapulário, que tinha uma abertura para o pescoço e caía em igual comprimento sobre o peito e as costas. Por cima vestiu uma alva de seda branca, cingida com um cinto largo e uma estola cruzada sobre o peito que chegava aos joelhos. Depois vestiu uma espécie de casula de seda branca, que chegava ao chão nas costas, com dois sinos na parte inferior. No pescoço usava uma espécie de gravata rígida, fechada na frente com botões. Sua longa barba repousava sobre esta gravata. Por fim, vestiu uma pequena capa de seda branca brilhante, fechada na frente com três ganchos com pedras, nas quais havia letras ou sinais gravados. De ambos os ombros pendiam uma espécie de pedras preciosas em número de seis, algumas também gravadas. No meio das costas havia um escudo com sinais e letras. Franjas, borlas e frutas eram visíveis no manto. No braço ele carregava um manípulo. A mitra era feita de seda branca enrolada como um turbante e terminada em um enfeite de seda que tinha uma placa de ouro com pedras preciosas na testa.

Arcos rezava prostrado ou deitado no chão em frente ao altar. Eu vi que ele teve uma visão na qual viu uma roseira com três ramos saindo de Emorun. Em cada galho havia uma rosa e a rosa do segundo galho estava marcada com uma letra. Ele também viu um anjo escrevendo uma carta na parede. Em seguida, Arcos declarou a Emorun que ela deveria se casar com o sexto pretendente que teria uma filha, com sinal, que seria um vaso de escolha para a promessa próxima. Este sexto pretendente foi Estolanus. Eles não viveram muito tempo em Mara, mas mudaram-se para Efrem.
Também vi as suas filhas Emerência e Isméria consultarem o idoso Arcos, que as aconselhou a casar porque também foram vasos escolhidos para a próxima promessa. A mais velha, Emerência, casou-se com um levita chamado Afras e era mãe de Isabel”, mãe, por sua vez, de João Batista. Outra filha de Estolano chamava-se Enué. Isméria era a segunda filha de Estolano e Emorun. Ao nascer ela teve o sinal que Arcos disse ter visto na segunda rosa em sua visão de Emorun. Isméria casou-se com Eliud, da tribo de Levi. Eles eram de status nobre e ricos em propriedades. Percebi  isso na vasta economia doméstica. Eles tinham muito gado, mas parecia que distribuíam tudo para os pobres e não para eles próprios. Eles moravam em Séforis, a seis folhas de Nazaré, onde possuíam uma propriedade. Eles tinham uma posse no vale de Zebulom, para onde iam nos bons tempos do ano e onde Eliud fixou residência após a morte de sua esposa Isméria. O pai de Joaquim instalou-se no mesmo vale com a família. A educação piedosa que Estolano e Emorun tiveram foi transmitida à sua filha Isméria e Eliud. A primeira filha de Isméria chamava-se Sobe. Mais tarde, ela se casou com Salomão e foi mãe de Maria Salomé, que se casou com Zebedeu, pai dos apóstolos Tiago, o Maior e João. Como Sobe não carregava o sinal falado por Arcos, os pais ficaram muito tristes e foram ao Monte Horebe ver o profeta, que lhes impôs oração e sacrifício, e os consolou.
Durante dezoito anos não tiveram filhos, até o nascimento de Ana.
Então os dois tiveram uma visão noturna. Isméria viu um anjo escrevendo uma carta na parede ao lado de sua cama. Ela contou isso ao marido, que tinha visto a mesma coisa, e os dois viram a carta quando acordaram. Era a letra M, que Ana trouxe ao mundo ao nascer, gravada na parte inferior do abdômen. Os pais amavam Ana de uma forma particular. Já vi a menina Ana: ela não era muito bonita, mas era mais bonita do que outras meninas da sua idade. Ela não era de forma alguma tão bonita quanto Maria; mas ela era muito simples, inocente e piedosa. Foi assim que a vi em todos os momentos, como jovem, como mãe, como velha, de modo que quando vejo uma camponesa realmente simples, penso sempre: “Esta é a Ana”. Ana foi levada ao templo aos cinco anos de idade, assim como Maria mais tarde. Morou lá por doze anos e aos dezessete voltou para casa. Enquanto isso, sua mãe teve uma terceira filha, chamada Maraha, e ao retornar Ana encontrou um filho de sua irmã mais velha, Sobe, chamado Eliud.
Maraha obteve posteriormente a posse da casa paterna, em Séforis, e foi mãe dos discípulos Arastaria e Cocharia. O jovem Eliud foi mais tarde o segundo marido da viúva de Naiam, Maroni. Um ano depois, Isméria adoeceu e morreu. Do leito de dor ele trouxe todos da casa à sua presença, exortou-os e aconselhou-os, e nomeou Ana como dona de casa após sua morte. Então ele falou com Ana e disse-lhe que ela deveria se casar, porque ela era um vaso de escolha e promessa.

III São Joaquim e Santa Ana

Um ano e meio depois, Ana casou-se com Helí ou Joaquim, também devido a um aviso profético do idoso Arco. Ela deveria ter se casado com um levita da tribo de Arão, como o resto de sua tribo; mas pelo motivo mencionado ela se uniu a Joaquim, da tribo de Davi, pois Maria devia ser da tribo de Davi. Ela teve vários pretendentes e não conhecia Joaquim; mas ela preferiu ele aos outros por causa do aviso do alto. Joaquim era pobre em bens e era parente de São José. Ele era pequeno e magro, era um homem de bom caráter e maneiras atraentes. Ele tinha, como Ana, algo inexplicável. Ambos eram israelitas perfeitos e havia algo neles que eles próprios não conheciam: um anseio e saudade do Messias e uma seriedade notável na sua atitude. Raramente os vi rir, embora não fossem melancólicos ou tristes. Tinham um caráter calmo e tranquilo, sempre iguais e mesmo em tenra idade carregavam a maturidade dos mais velhos. Eles se uniram em casamento num lugarzinho onde havia uma pequena escola. Apenas um sacerdote compareceu ao evento. Os casamentos eram muito simples naquela época; os pretendentes eram geralmente tímidos; eles conversavam e não pensavam em mais nada além de que era assim que deveria ser. A noiva dizia “sim” e os pais concordavam; se ela dissesse, em vez disso, “não”, tendo as suas razões, os pais também concordavam. Primeiro eram os pais que resolviam o assunto; a isto seguia-se a conversa na sinagoga. Os sacerdotes rezavam em lugar sagrado com os rolos da lei e os familiares no local habitual. Os noivos conversavam em local separado sobre as condições e as suas intenções, depois apresentavam-se aos pais que falavam com o sacerdote que saía para os ouvir; e alguns dias depois o casamento acontecia.

Joaquim e Ana moravam com Eliud, o pai de Ana. A vida e os costumes rígidos dos essênios reinavam em sua casa. A casa ficava em Séforis, embora um tanto remota, entre um grupo de casas, das quais era a maior e mais notável. Eles viveram lá por cerca de sete anos. Os pais de Ana eram bastante ricos; eles tinham muito gado, lindas tapeçarias, utensílios domésticos notáveis e servos e servas. Não os vi cultivar campos, mas vi-os pastorear o gado. Eram muito piedosos, reservados, caridosos, simples e íntegros. Muitas vezes dividiam o gado em três partes: davam uma parte ao templo, onde eles próprios o levavam e eram recebidos pelos responsáveis do templo. A outra parte era dada aos pobres ou a parentes necessitados, dos quais vi que houve alguns que os levaram para suas casas. A terceira parte era guardada para suas necessidades. Eles viviam muito modestamente e davam com facilidade o que lhes era pedido. É por isso que pensei na minha infância:
"O dar produz riqueza; você recebe o dobro do que dá." Tenho visto que essa terceira parte era sempre aumentada e que muito em breve eles voltavam a ter o que haviam doado, podendo voltar a dividir seus bens entre os demais.
Tinham muitos parentes que costumavam se reunir nas solenidades do ano.
Não vi desperdício ou excesso nessas férias. Eles deram uma parte da comida aos pobres. Não vi banquetes reais entre eles. Quando estavam juntos sentavam-se no chão entre esteiras, em círculo, e conversavam muito sobre Deus com muita esperança. Às vezes não havia pessoas tão boas entre os parentes que desprezavam essas conversas e como dirigiam os olhos para o alto e para o céu. Porém, com esses bandidos, eles foram bons e deram o dobro. Vi que estes maus servos exigiam com tumulto e pretensões o que Joaquim e Ana davam de bom grado. Se houvessem pessoas pobres na sua família, davam-lhes uma ovelha ou, às vezes, várias. Neste local Ana teve a sua primeira filha, a quem também chamou de Maria. Vi Ana cheia de alegria pelo nascimento dessa menina. Ela era uma menina muito gentil, vi-a crescer robusta e forte, mas muito piedosa e mansa. Seus pais a amavam muito. Tinham, porém, uma preocupação que não compreendi bem: parecia-lhes que ela não era a menina prometida (da visão do profeta) que deveriam esperar da sua união. Eles estavam tristes e perturbados como se tivessem cometido algo contra Deus. Fizeram longas penitências, viveram separados e aumentaram as suas obras de caridade. Assim, permaneceram na casa de Eliud por cerca de sete anos, o que pude calcular na idade do primeiro filho, quando terminaram de se separar de seus pais e viver na aposentadoria para recomeçar sua vida e aumentar sua piedade para obter a bênção de Deus.
Eles tomaram essa decisão na casa dos pais e Eliud preparou o necessário para a viagem. O gado foi dividido, separando-se os bois, os burros e as ovelhas; esses animais me pareciam maiores do que os do nosso país. Utensílios, recipientes e roupas foram carregados nos burros e bois. Essas pessoas eram tão habilidosas em carregá-los quanto os animais em receber a carga que lhes era colocada. Não somos tão capazes de carregar mercadorias em carroças quanto eles eram habilidosos em carregar seus animais. Eles tinham lindos utensílios de cozinha: todos os seus utensílios eram melhores e mais artísticos que os nossos. Delicados vasos de formas elegantes, nos quais havia lindas gravuras, foram embalados, cheios de musgo e habilmente embrulhados; Eles eram então presos com uma correia e pendurados nas costas dos animais. Nas costas dos animais colocavam todo tipo de embalagens com roupas com embalagens multicoloridas, mantas e mantas bordadas a ouro. Eliud deu aos divisores um pequeno saco de massa pequeno e pesado, como se fosse um pedaço de metal precioso.
 Quando tudo estava em ordem, servos e servas vieram reforçar a procissão e pastorear os animais.
Eles os carregaram na frente deles em direção à nova casa, que ficava a cinco ou seis horas de distância. A casa estava localizada numa colina entre o vale de Nazaré e Zebulom. Uma avenida de terebintos margeava a estrada de acesso ao local. Na frente da casa havia um pátio fechado cujo piso era formado por uma pedra nua, cercada por um muro baixo, feito de pedra viva; atrás deste muro acima dele havia uma cerca viva.
De um lado do pátio haviam pequenas salas para acomodar passageiros e guardar pertences. Havia um galpão para abrigar o gado e outros animais de carga. Tudo era rodeado de jardins, e no meio deles, perto da casa, havia uma grande árvore de espécie rara; Seus galhos desciam ao solo, criavam raízes e assim brotavam novas árvores, formando uma vegetação densa. Quando os viajantes chegaram à casa encontraram tudo arrumado e tudo em seu lugar, pois os pais já haviam enviado alguns com a tarefa de preparar tudo o que fosse necessário.
Os criados e criadas desamarraram os pacotes e colocaram tudo em seu lugar. Logo tudo foi organizado e tendo deixado os filhos instalados na nova casa, despediram-se de Ana e Joaquim, com beijos e bênçãos, e voltaram levando a pequena Maria, que teve que ficar com os avós. Em todas essas visitas e em outras ocasiões nunca os vi comer excessivamente ou desperdiçar. Eles foram colocados em uma roda, cada um contendo, sobre o tapete, dois pratinhos e dois recipientes. Geralmente falavam em todos os momentos apenas sobre as coisas de Deus e suas esperanças no Messias. A porta da casa grande ficava no meio. Através dela entrava-se numa espécie de antessala, que percorria toda a largura da casa. À direita e à esquerda da sala haviam pequenas salas separadas por telas de junco trançado, que podiam ser removidas ou substituídas à vontade. As refeições mais solenes eram realizadas na sala, como acontecia quando Maria foi enviada ao templo.
Desde então eles começaram uma vida completamente nova. Querendo sacrificar todo o seu passado a Deus e agindo como se estivessem reunidos pela primeira vez, insistiram, a partir daquele momento, através de uma vida agradável a Deus, em fazer descer sobre eles a bênção, que era o único objeto de seu ardente desejo. Eu os vi visitando seus rebanhos e dividindo-os em três partes, seguindo o costume de seus pais: uma para o templo, outra para os pobres e a terceira para eles próprios. Mandaram a melhor parte para o templo; Os pobres receberam um bom terço e reservaram para si a parte menos boa. Como a casa era grande, viviam e dormiam em pequenos quartos separados, onde era possível vê-los muitas vezes em oração, cada um por si, com muita devoção e fervor. Eu os vi viver assim por muito tempo. Deram muitas esmolas e cada vez que distribuíam os seus bens e os seus rebanhos, voltavam a multiplicar-se rapidamente. Viviam modestamente em meio a sacrifícios e renúncias. Já os vi vestidos com roupas de penitencia.
Era tendência quando oravam e várias vezes vi Joaquim, enquanto visitava seus rebanhos em lugares remotos, orar a Deus na campina. Eles perseveraram nesta vida penitente dezenove anos depois do nascimento de sua primeira filha, Maria, desejando ardentemente a bênção prometida e sua tristeza aumentava a cada dia. Também pude ver alguns homens perversos aproximando-se deles e ofendendo-os, dizendo-lhes que deviam ser muito más para não poderem ter filhos; que a menina que voltou para os pais de Ana não era dela; que Ana era estéril e que aquela menina era um engano forjado por ela; Se não fosse assim, eles a teriam ao seu lado e muitas outras coisas. Estas detrações aumentaram o desânimo de Joaquim e Ana. Ela tinha a firme convicção interior de que o advento do Messias se aproximava e de que pertencia à família na qual o Redentor deveria encarnar. Rezou com entusiasmo pelo cumprimento da promessa e continuou a aspirar, como Joaquim, a uma pureza de vida cada vez mais perfeita. A vergonha da sua esterilidade a afligia profundamente, e ela não podia comparecer à sinagoga sem ser ofendida. Joaquim, apesar de pequeno e magro, era de constituição robusta. Ana também não era grande e a sua tez era delicada: a dor consumia-a de tal forma que as suas bochechas ficavam sem pele, embora bastante vermelhas. De vez em quando conduziam os seus rebanhos ao templo ou às casas dos pobres, para lhes dar a sua parte na distribuição, diminuindo cada vez mais a parte que habitualmente reservavam para si.

IV A Santa e Imaculada Conceição de Maria

Quando Joaquim, que estava novamente entre o seu gado, quis voltar ao templo para oferecer sacrifícios, Ana enviou-lhe pombas e outros pássaros em cestos e gaiolas através dos servos para que pudessem ir e levá-los para a campina. Joaquim pegou dois burros e carregou-os com três animais pequenos, brancos e muito alertas, de pescoço comprido, cordeiros ou cabras, encerrados em cestos. Ele próprio carregava uma lanterna em seu cajado: era uma luz em uma abóbora vazia. Subiram ao templo, guardando os jumentos numa hospedaria que ficava perto do mercado. Levaram suas oferendas aos degraus mais altos e passaram pelos aposentos dos servos do templo. Ali os servos de Joaquim se reuniram depois que as ofertas foram retiradas deles. Joaquim entrou na sala onde estava a fonte cheia de água onde as vítimas eram lavadas; Desceu por um longo corredor até outra sala à esquerda do local onde estavam o altar dos perfumes, a mesa dos pães da proposição e o candelabro de cinco braços. Várias pessoas que vieram para o sacrifício estavam reunidas lá.
Joaquim teve que sofrer aqui um castigo muito cruel. Vi um sacerdote, chamado Rubén, que desdenhava as suas oferendas, pois em vez de as colocar ao lado das outras, num lugar aparente, atrás das grades, à direita da sala, colocava-as completamente de lado. Ofendeu publicamente o pobre Joaquim pela esterilidade da esposa e, sem deixá-lo aproximar-se, para piorar a situação, relegou-o a um canto. Então vi Joaquim, cheio de tristeza, sair do templo e, passando por Betânia, chegar aos arredores de Maquero. Ele ficou tão triste e envergonhado que, por algum tempo, não avisou onde estava. A aflição de Ana foi extraordinária quando lhe contaram o que lhe tinha acontecido no templo e quando ela viu que não voltava.
Durante cinco meses, Joaquim permaneceu escondido no Monte Hermon. Vi sua oração e sua angústia. Quando ele foi até onde estavam seus rebanhos e viu seus cordeiros, ficou muito triste e deitou-se no chão, cobrindo o rosto.

Os criados lhe perguntaram por que ele parecia tão angustiado; mas não lhes disse que estava sempre pensando na causa de sua dor: a esterilidade de sua esposa. Também aqui ele dividiu o seu gado em três partes: o melhor ele enviou para o templo; a outra parte foi recebida pelos essênios, e ele manteve a mais inferior.
Ana também teve que sofrer muito pela falta de vergonha de uma criada, que a repreendeu pela sua esterilidade. Ele sofreu por muito tempo até mandá-la embora de casa. Ela havia pedido para ir a uma festa à qual, pela rigidez dos essênios, não podia comparecer. Quando Ana lhe negou a permissão, repreendeu-a duramente por essa recusa, dizendo que merecia ser estéril e ser abandonada pelo marido por ser tão má e tão dura. Então Ana mandou embora a criada, e por meio de duas criadas a mandou para a casa de seus pais, primeiro enchendo-a de presentes e dotes, implorando-lhes que a recebessem novamente, já que ela não podia mais mantê-la consigo. Depois disso, ela retirou-se para seu quarto e chorou amargamente. Na tarde do mesmo dia ele cobriu a cabeça com um grande pano, envolveu-o todo e foi ficar debaixo de uma grande árvore no pátio da casa. Acendeu uma lamparina e se dedicou à oração.
Ana permaneceu ali por muito tempo clamando a Deus e dizendo: “Se queres, Senhor, que eu permaneça estéril, faz com que pelo menos meu piedoso marido volte para o meu lado”. Então um anjo apareceu para ela. Ele veio do alto e ficou diante dela, dizendo-lhe que colocasse paz em seu coração porque o Senhor tinha ouvido sua oração; que na manhã seguinte ela iria com duas criadas a Jerusalém e que entrando no templo, sob a porta de ouro do lado do vale de Josafá, encontraria Joaquim. Ele acrescentou que estava a caminho daquele lugar, que sua oferta seria bem recebida e que sua oração seria ouvida ali. Disse-lhe que também já tinha estado com Joaquim, e ordenou-lhe que trouxesse pombas para o sacrifício, e anunciou que veria o nome da criatura que mais tarde teria escrito.
Ana agradeceu a Deus e voltou para casa feliz. Quando, depois de orar muito em sua cama, ela adormeceu, vi aparecer nela um brilho que a penetrou. Eu a vi, avisada por uma inspiração interior, acordar e sentar-se na cama. Naquele momento vi um rosto luminoso ao lado dela, escrevendo em grandes letras hebraicas à direita de sua cama.
Conheço o conteúdo da frase, palavra por palavra. Em resumo, expressava que ela deveria conceber, que seu fruto seria único e que a fonte dessa concepção era a bênção que Abraão havia recebido. Já a via indecisa, pensando como comunicaria isso a Joaquim; mas ela foi consolado quando o anjo lhe revelou a visão de Joaquim.
Tive então a explicação da Imaculada Conceição de Maria e soube que um sacramento da Encarnação, da Imaculada Conceição, um mistério da Redenção da humanidade caída, estava escondido na Arca da Aliança. Vi Ana ler com admiração e medo as brilhantes letras vermelhas e douradas do escrito, e sua alegria foi tão grande que ela parecia rejuvenescida quando se levantou para ir a Jerusalém. Vi, no momento em que o anjo se aproximou dela, um brilho sob o coração de Ana, e ali, um vidro iluminado. Não posso explicar de outra forma senão dizendo: ali havia como que um berço, um tabernáculo fechado que agora se abria para receber algo de santíssimo. Não consigo expressar quão maravilhosamente vi isso. Vi-o como se fosse o berço de toda a humanidade renascida e redimida; Eu o vi como um vaso sagrado aberto, do qual o véu foi removido. Reconheci isso com bastante naturalidade. Esse conhecimento era natural e celestial. Ana tinha então, creio, quarenta e três anos

V A visão de Joaquim

Também vi a aparição do anjo a Joaquim. O anjo ordenou-lhe que levasse as ofertas ao templo e prometeu que sua oração seria ouvida. Embora lhe tenha dito para ir até a porta dourada do templo, Joaquim teve medo de ir. Mas o anjo lhe disse que os sacerdotes já haviam sido avisados da sua visita. Isso aconteceu na época da Festa dos Tabernáculos. Joaquim construiu a sua cabana com a ajuda dos seus pastores.
No quarto dia da festa ele foi a Jerusalém com grande quantidade de gado para sacrifício e se hospedou no templo. Ana, que também chegou a Jerusalém no mesmo dia, foi ficar com a família de Zacarias no mercado de peixes e encontrou Joaquim no final das festividades. Quando Joaquim chegou à entrada do templo, dois sacerdotes saíram ao seu encontro, que haviam recebido um aviso sobrenatural. Joaquim carregava dois cordeiros e três cabras. Sua oferta foi recebida no local de costume: as vítimas foram decapitadas e queimadas ali mesmo. Uma parte deste sacrifício, porém, foi levada para a direita da antecâmara e ali consumida.” No centro do local ficava a grande cadeira onde se ensinava. À medida que a fumaça da vítima subia, um raio de luz desceu sobre o sacerdote e Joaquim. Houve então um silêncio geral e uma grande admiração. Então vi dois sacerdotes carregando Joaquim pelas câmaras laterais, até o Sancta Sanctorum, diante do altar do incenso. Ali o sacerdote derramava incenso, não em grãos, como era costume, mas uma massa compacta sobre o altar* (era uma mistura de incenso, mirra, cássia, nardo, açafrão, canela, sal fino e outros produtos e pertencia ao cotidiano sacrifício), que foi ativado. Joaquim ficou sozinho diante do altar do incenso, porque os sacerdotes se afastaram.
Vi Joaquim ajoelhado, com os braços levantados, enquanto o incenso era consumido. Ele permaneceu trancado no templo a noite toda, orando com grande devoção. Ele estava em êxtase quando um rosto brilhante se aproximou dele e lhe entregou um pergaminho contendo letras luminosas. Eram os três nomes: Melia, Anna e Miryam' (Várias formas dos nomes Joaquim, Ana e Maria). Ao lado deles estava a figura da Arca da Aliança ou um pequeno tabernáculo. Joaquim colocou este pergaminho escrito sob suas roupas, próximo ao coração. O anjo então falou: "Ana terá uma menina imaculada e dela virá a salvação do mundo. Ana não deve se arrepender de sua esterilidade, que não é para sua desonra, mas para sua glória. O que Ana terá não será dele (Joaquim), mas que através dele será fruto de Deus e cumprimento da bênção dada a Abraão.” Joaquim não conseguiu entender isso, e o anjo o levou para trás da cortina que estava separada apenas o suficiente para que ele permanecesse ali. Vi que o anjo colocou uma bola brilhante como um espelho diante dos olhos de Joaquim: ele teve que soprar e olhar. Pensei que o anjo lhe apresentasse a bola, segundo o costume do nosso país onde, nos casamentos, ela é apresentada ao sacristão. Quando Joaquim soprou na bola, várias figuras apareceram nela, sem se desfocarem nem um pouco. Joaquim assistiu. Entendi que o anjo lhe dizia que assim Ana daria à luz, através dele, sem ser manchada. O anjo pegou a bola e ergueu-a bem alto, permanecendo suspenso. Dentro dela pude ver, como se através de uma abertura, uma série de imagens relacionadas que se estendiam desde a queda do homem até a sua redenção. Havia ali um mundo inteiro, onde as coisas nasciam umas das outras. Eu estava ciente de tudo, mas não posso mais dar detalhes.
No topo estava a Santíssima Trindade; abaixo, de um lado, o Paraíso, Adão e Eva, o pecado original, a promessa da redenção, todas as figuras que a anunciavam antecipadamente, Noé, o dilúvio, a Arca, a bênção de Abraão, a transmissão da bênção ao seu filho Isaque, e dele até Jacó; então, quando foi tirado de Jacó pelo anjo com quem ele lutou; como aconteceu com José no Egito; como isso se manifestou nele e em sua esposa num grau da mais alta dignidade; e como o dom sagrado, onde repousava a bênção, foi retirado do Egito por Moisés com as relíquias de José e transformado no Santo dos Santos da Arca da Aliança, residência do Deus vivo no meio do seu povo . Vi o culto e a vida do povo de Deus nas suas relações com este mistério, os arranjos e combinações para o desenvolvimento da raça santa, a linhagem da Santíssima Virgem, bem como as figuras e símbolos de Maria e do Salvador na história e nos profetas. Vi isso em imagens simbólicas dentro da esfera luminosa. Vi grandes cidades, torres, palácios, tronos, portões, jardins, flores, todas essas imagens maravilhosamente ligadas entre si por pontes de luz. Tudo isso foi atacado por feras e outras aparições temíveis. Estas pinturas mostravam como a raça da Santíssima Virgem, como tudo o que é sagrado, foi conduzida pela graça de Deus, através de combates e assaltos. Lembro-me de ter visto, nesta série de fotos, um jardim cercado por uma cerca densa e espinhosa, através da qual várias serpentes e animais repulsivos semelhantes tentavam em vão passar. Vi também uma torre muito firme, atacada por todos os lados por guerreiros, que depois eram atirados do alto das muralhas. Observei muitas imagens análogas que remetiam à história da Virgem em seus antepassados. As passagens e pontes que ligavam o complexo significaram a vitória obtida sobre obstáculos e interrupções que se opunham à obra de salvação. Era como se uma carne imaculada, um sangue puríssimo, tivesse sido colocada por Deus no meio da humanidade, como num rio de águas turvas, e devesse, através de muitas dores e esforços, reunir os seus elementos dispersos, enquanto o rio tentava atraí-los para ele e manchá-los; mas no final, com a graça de Deus, de inúmeros favores e fiel cooperação por parte dos homens, este deveria, depois de obscurecimentos e purificações, subsistir em um rio que renovava incessantemente suas águas, e nascia do rio sob o forma da Virgem Santa, da qual nasceu o Verbo, feito carne, que viveu entre nós.
Entre as imagens que contemplei na esfera luminosa há muitas que são mencionadas nas litanias da Virgem: vejo-as, comparo-as, compreendo-as e considero-as com profunda veneração quando recito as litanias. Posteriormente desenvolveram-se nestas pinturas até o perfeito cumprimento da obra da Misericórdia divina com a humanidade, caída em divisão e dilaceração infinita. Do lado do globo luminoso oposto ao Paraíso, as imagens alcançavam a Jerusalém celestial”, aos pés do trono de Deus.
Depois de ver tudo, desapareceu o globo luminoso, que nada mais era do que a mesma sucessão de imagens que, partindo de um ponto, voltavam todas a ele depois de terem formado um círculo de luz. Acredito que foi uma revelação feita a Joaquim pelos anjos, em forma de visão, da qual também tive conhecimento. Quando recebo uma comunicação deste tipo, ela sempre me aparece dentro de uma esfera luminosa.

VI Joaquim recebe o mistério da Arca da Aliança

O anjo tirou algo de dentro, sem abrir a porta da Arca. Foi o mistério da Arca da Aliança, o sacramento da Encarnação, da Imaculada Conceição, o cumprimento e o ápice da bênção de Abraão. Vi este mistério da Arca como um corpo luminoso. O anjo ungiu ou abençoou a testa de Joaquim com a ponta do polegar e do indicador; Depois passou o corpo luminoso por baixo da veste de Joaquim, de onde, não sei dizer, penetrou em si mesmo. Ele também lhe deu algo para beber de um copo ou cálice brilhante que ele segurava embaixo com os dois dedos. Este cálice tinha o formato do cálice da Última Ceia, mas sem haste, e Joaquim teve que guardá-lo para si e levá-lo para sua casa. Entendi que o anjo ordenou a Joaquim que preservasse o mistério, e entendi, então, por que Zacarias, pai do Batista, permaneceu mudo depois de ter recebido de Isabel a bênção e a promessa de ter um filho, bênção e promessa que vinha do mistério da Arca da Aliança. Só mais tarde o mistério da Arca foi esquecido pelos sacerdotes do templo. A partir de então eles se desviaram completamente e se tornaram hipócritas. O anjo tirou Joaquim do Sancta Sanctorum e desapareceu. Joaquim permaneceu deitado no chão, rígido e fora de si.
Vi que então os sacerdotes chegaram e, reverentemente, tiraram Joaquim dali e o sentaram numa poltrona, em alguns degraus, que só os sacerdotes usavam. A poltrona era confortável e forrada no assento, semelhante às cadeiras que Madalena usava em seus tempos luxuosos. Os sacerdotes derramaram água em seu rosto e colocaram algo em seu nariz ou lhe deram algo para beber; Em uma palavra, trataram-no como alguém que desmaiou.
Porém, vi que Joaquim permaneceu, depois do que recebeu do anjo, todo luminoso, mais jovem e mais radiante.

VII Encontro de Joaquim e Ana

Joaquim foi guiado pelos sacerdotes até a porta do corredor subterrâneo, que passava por baixo do templo e pela porta direita. Este foi um caminho que era utilizado em alguns casos para purificação, reconciliação ou perdão. Os sacerdotes deixaram Joaquim à porta, diante de um corredor inicialmente estreito, que depois se alargava e descia suavemente.
Haviam colunas cobertas com folhas de árvores e cipós e os ornamentos dourados brilhavam nas paredes iluminadas por uma luz que vinha de cima.
Joaquim já havia percorrido um terço do caminho, quando Ana veio ao seu encontro, no lugar do corredor, sob a porta dourada onde havia uma coluna em forma de palmeira com folhas e frutos caídos. Ana foi conduzida pelos sacerdotes através de uma entrada do outro lado do subsolo. Ela lhes dera junto com sua serva as pombas para o sacrifício, em alguns cestos que ela abrira e apresentara aos sacerdotes, como o anjo lhe ordenara. Ela foi levada para lá na companhia de outras mulheres, entre elas a profetisa Ana. Vi que quando Joaquim e Ana se abraçavam, ficavam em êxtase. Estavam rodeados por numerosos anjos que flutuavam acima deles, sustentando uma torre luminosa e recordando a torre de marfim, a torre de Davi e outros títulos das ladainhas Laurentianas. A torre entre Joaquim e Ana desapareceu: ambos estavam cheios de glória e esplendor. Ao mesmo tempo, o céu se abriu acima deles e vi a alegria dos anjos e da Santíssima Trindade e a relação de tudo isso com a conceição de Maria Santíssima. Quando se abraçaram, rodeados de brilho, entendi que era a conceição de Maria naquele momento, e que Maria foi concebida como a conceição de todos teria sido sem o pecado original.
Joaquim e Ana caminharam assim, louvando a Deus, até a saída. Chegaram a um grande arco, como uma capela onde haviam lâmpadas acesas, e saíram. Ali foram recebidos pelos sacerdotes, que os dispensaram. O templo era aberto e decorado com folhas e frutos. O culto era realizado sob o céu, ao ar livre. Num determinado local haviam oito colunas isoladas decoradas com galhos. Joaquim e Ana chegaram a uma saída aberta na extremidade da Montanha do Templo, de frente para o Vale de Josafá. Não foi possível avançar mais nesse sentido, pois a estrada virava para a direita e para a esquerda. Eles ainda visitaram um sacerdote e então eu os vi com sua gente indo para a casa dele. Ao chegar a Nazaré, Joaquim deu um banquete alegre, serviu muitos pobres e distribuiu grandes esmolas. Vi a alegria e o fervor dos esposos e a sua gratidão a Deus, pensando na sua misericórdia para com eles; Muitas vezes os observei orando juntos, com os olhos banhados em lágrimas.
Foi-me explicado nesta ocasião que os pais da Santíssima Virgem a geraram em perfeita pureza, pelo efeito da obediência. Se não fosse com o propósito de obedecer a Deus, eles teriam mantido a continência perpétua. Compreendi, ao mesmo tempo, como a pureza, a castidade, a reserva dos pais e a sua luta contra os vícios impuros têm uma influência incalculável na santidade dos filhos gerados. Em geral, sempre vi a incontinência e o excesso como raiz da desordem e do pecado. Também vi que muitas pessoas parabenizavam Joaquim por ter recebida sua oferta no templo.
Depois de quatro meses e meio, menos três dias, de Ana ter concebido sob a porta dourada, vi que Maria ficou tão bela pela vontade de Deus. Vi como Deus mostrou aos anjos a beleza daquela alma e como eles sentiram uma alegria inexplicável por causa disso. Vi também, naquele momento, como Maria se moveu sensivelmente pela primeira vez no ventre da mãe. Ana levantou-se imediatamente e contou a Joaquim; Depois saiu para rezar debaixo daquela árvore sob a qual lhe havia sido anunciada a Imaculada Conceição.

VIII Figuras do mistério da Imaculada Conceição

Vi a terra da Palestina seca por falta de chuva e Elias subir o Monte Carmelo com dois servos; a princípio, ao longo da encosta; depois, por degraus, até um terraço, e depois novamente por degraus em uma planície com uma colina que tinha uma caverna à qual ele chegava.
Deixou seus servos na beira da planície para olhar o mar da Galileia, que parecia quase seco, com profundezas, pântanos e buracos cheios de peixes e animais mortos. Elias se inclinou até apoiar a cabeça nos joelhos, cobriu-se e clamou bem alto a Deus. Sete vezes ele chamou seus servos, perguntando-lhes se não viam uma nuvem subindo sobre o mar. Finalmente vi que no meio do mar subia uma pequena nuvem branca, da qual emergia outra nuvem negra, dentro da qual havia uma figura branca; Ampliou-se e no topo abriu-se amplamente. À medida que a nuvem subia, Elias viu dentro dela a figura de uma Virgem luminosa. Sua cabeça estava coroada de raios, os braços erguidos em forma de cruz, em uma das mãos uma coroa de vitória e o vestido longo parecia que estava sob seus pés. Parecia flutuar e espalhar-se pela terra da Palestina.
Elias reconheceu quatro mistérios da Virgem Imaculada que deveria vir na sétima época do mundo e de que linhagem ela deve provir; Ele também viu de um lado do mar uma árvore pequena e larga, e do outro, uma árvore muito grande, que espalhava seus galhos superiores na pequena árvore. Eu assisti a nuvem se dividir. Em certos lugares santificados, onde viviam homens justos que aspiravam à salvação, a nuvem deixava a nuvem como redemoinhos brancos de orvalho, que tinham todas as cores do arco-íris nas bordas, e vi a bênção concentrar-se neles, como se para formar uma pérola dentro de sua concha. Foi-me explicado que se tratava de uma figura profética e que nos lugares abençoados onde a nuvem havia lançado os redemoinhos havia uma cooperação real na manifestação da Santíssima Virgem. Imediatamente tive um sonho profético, no qual, durante a ascensão da nuvem, Elias aprendeu muitos mistérios relacionados com a Santíssima Virgem. Infelizmente, no meio de tantas coisas que me perturbam e distraem, esqueci os detalhes, assim como muitas outras coisas. Elias sabia que Maria deveria nascer na sétima era do mundo; Por isso chamou sete vezes o seu servo. Novamente pude ver Elias ampliando a gruta sobre a qual havia orado e estabelecendo uma organização mais perfeita entre os filhos dos profetas. Alguns deles rezavam regularmente nesta gruta para pedir a vinda da Santíssima Virgem, honrando-a antes do seu nascimento. Esta devoção perpetuou-se ininterruptamente, subsistiu graças aos essênios, quando já se encontrava na terra, e foi posteriormente observada por alguns eremitas, dos quais surgiram finalmente os religiosos do Carmelo.
Elias, através da sua oração, dirigiu as nuvens de água segundo inspirações internas: caso contrário, teria originado uma torrente devastadora em vez de chuva benéfica. Observei enquanto as nuvens enviavam primeiro o orvalho; elas caíam em linhas brancas, formavam redemoinhos com as cores do arco-íris nas bordas e finalmente caíam em gotas de chuva. Reconheci nisso uma relação com o maná do deserto, que pela manhã parecia avermelhado e denso, cobrindo o chão como uma pele que se espalhava. Esses redemoinhos corriam ao longo do Jordão e não caíam em todos os lugares, mas em certos lugares, como Salém, onde João mais tarde iria batizar. Perguntei o que significavam as bordas avermelhadas, e me foi dada a explicação da concha do mar, que também tem essas bordas multicoloridas, que exposta ao sol absorve as cores e, purificada de cores, forma-se madrepérola branca pura. em seu centro. Não consigo explicar tudo isso melhor; mas foi-me dado compreender que aquele orvalho e aquela chuva significavam muito mais do que poderiam ser, considerando-os apenas um refrigério da terra sedenta. Entendi que sem aquele orvalho a vinda de Maria teria sido atrasada cem anos, enquanto os descendentes que se alimentam dos frutos da terra, e são enobrecidos pelo apaziguamento e bênção do solo, mais uma vez engrandeceriam esses descendentes pela recebendo na carne a bênção da propagação pura.
A figura em madrepérola referia-se a Maria e Jesus. Além da aridez da terra por falta de chuva, observei a esterilidade dos homens, e como os raios do orvalho caíam de descendente em descendente, até a substância de Maria. Não posso dizer melhor. Às vezes, uma ou várias pérolas em forma de rosto humano apareciam nas bordas multicoloridas, que pareciam derramar um espírito que depois emergia novamente com as outras.

IX O futuro Messias é anunciado aos pagãos

Vi que pela grande misericórdia de Deus foi anunciado aos piedosos pagãos daquela época que o Messias nasceria de uma Virgem na Judeia. Isto aconteceu na Caldeia, onde havia astrólogos, que tinham visões de uma figura nas estrelas ou no meio do céu; Esses astrólogos então profetizaram tudo o que viram. Também no Egito vi anúncios sobre a salvação futura.
Elias recebeu a ordem de reunir várias famílias piedosas espalhadas pelo Norte, Oriente e Médio Oriente e levá-las para a Judeia. Elias enviou três discípulos dos profetas, que reconheceu como aptos para esse fim, devido a um sinal que o próprio Deus deu a Elias. Precisava de gente muito confiante, pois era uma empresa árdua e arriscada. Um deles foi para o Norte, outro para o Leste e o terceiro para o Sul. Este caminho o levou ao Egito por um caminho perigoso para os israelitas. Vi isso na mesma estrada quando a Sagrada Família fugiu para o Egito e depois para a cidade de Heliópolis. Num vale havia um grande templo, rodeado de muitos edifícios, e ele chegou lá na época em que se adorava um boi vivo. Havia diversas figuras desses animais no templo, junto com outros ídolos. As crianças que nasciam deformadas eram sacrificadas ao ídolo. Ao passar o profeta, prenderam-no e levaram-no à presença dos sacerdotes. Felizmente eles estavam, em geral, muito curiosos com as novidades: caso contrário, o teriam matado. Perguntaram-lhe de onde era e ele respondeu-lhes claramente que nasceria uma Virgem de quem viria a salvação ao mundo; que então todos os seus ídolos cairiam no chão quebrados3. Eles ficaram maravilhados com o que ele lhes contou, ficaram emocionados e o deixaram ir.
Depois reuniram-se em conselho e fizeram com que a figura de uma Virgem, que penduraram no meio do seu templo, se estendesse no ar como se pairasse. A imagem tinha um penteado semelhante ao de seus ídolos, dos quais um grande número estava alinhado. Tinha busto de mulher e o resto parecia um leão.” A imagem da Virgem que os egípcios fizeram trazia na cabeça um copo pequeno e bastante fundo, semelhante ao que usavam para medir as frutas; os braços até o cotovelo eram colados ao longo do corpo, separando-se dele e estendendo-se quando levantados. A imagem tinha algumas espigas de trigo nas mãos; Ela tinha três seios, um maior no centro e outros menores em cada lado. A parte inferior do corpo estava envolta em roupas compridas; Dos pés, pequenos e muito finos, pendiam algo parecido com borlas. De ambos os ombros subiam lindas penas em forma de raios, que pareciam asas e eram como dois favos estreitamente unidos. Tinha outras penas cruzadas na largura dos quadris, dobradas para cima no meio do corpo. O vestido não tinha pregas. Eles honraram esta imagem e ofereceram-lhe sacrifícios, implorando-lhe que não destruísse seu boi Apis ou as outras divindades. Por outro lado, perseveraram em todas as abominações do seu culto idólatra, começando, porém, a partir desse momento, a invocar a Virgem de quem tinham feito a imagem, segundo creio, segundo várias indicações retiradas da história do profeta e tentando reproduzir a figura vista por Elias.
Vi fotos da história de Tobias e do casamento do jovem Tobias, através do anjo, e soube que ali havia uma figura de Santa Ana e sua história. O velho Tobias representava a piedosa raça de judeus que esperavam pelo Messias. Ter ficado cega significava que ela não deveria ter mais filhos e que deveria se dedicar mais à meditação e à oração. O aborrecimento que sua esposa lhe causava com suas queixas resumia as formas vazias dos fariseus e dos doutores da lei. A pomba era uma indicação da primavera que se aproximava e da saúde que estava por vir. A cegueira indicava uma espera ansiosa pela redenção e ignorância do local de seu advento. O anjo falou a verdade quando afirmou ser Azarias, filho de Ananias, pois estas palavras significavam mais ou menos: a ajuda de Deus que vem da nuvem de Deus. O anjo foi o guia dos descendentes e a conservação e direção da misteriosa bênção, até o seu cumprimento na Imaculada Conceição de Maria. As orações dos velhos Tobias e Sara, levadas diante do trono de Deus pelos anjos, tendo sido ouvidas, significaram os clamores e desejos dos piedosos israelitas e das filhas de Sião, pedindo a vinda da redenção, e também o clamor de Joaquim e Ana para obter a filha da promessa. A cegueira de Tobit e as murmurações de sua esposa também indicavam o desprezo demonstrado a Joaquim ao recusar seu sacrifício. Os sete pretendentes mortos de Sara significavam aqueles antepassados de Maria e da salvação, bem como os pretendentes que Ana teve de rejeitar perante Joaquim. O desprezo da criada de Sara indicava o desprezo dos pagãos e dos judeus incrédulos, antes da vinda do Messias, que levava os bons a orar. Expressou também o desprezo da empregada de Ana, que a motivou a orar com mais fervor até que seu pedido fosse atendido. O peixe que pretendia devorar Tobias significava a longa esterilidade de Ana; O corte do fígado, da bile e do coração do peixe expressava mortificação e boas obras. A cabra que a esposa de Tobias trouxe para casa como pagamento pelo seu trabalho foi realmente roubada, e os homens lhe deram porque era boa e pagaram barato. Tobias conhecia essas pessoas e sabia disso, e por isso foi repreendido. Também teve o significado do desprezo que os bons judeus e essênios sofreram por parte dos fariseus, dos judeus estereotipados e de outros dos quais não me lembro. O fel com que o cego Tobias recuperou a visão indicava mortificação e penitência, pelas quais os judeus escolhidos chegariam ao conhecimento da salvação e da redenção. Indicava também a entrada da luz nas trevas, através da amarga paixão de Jesus Cristo, desde a sua infância.

XX Imagens da Imaculada Conceição

Vi uma linda coluna emergir da terra como o caule de uma flor. Como o cálice de uma flor ou a cabeça de uma papoula emergindo de um pedúnculo, uma resplandecente igreja octogonal emergiu da coluna, que permaneceu firme sobre a coluna. Esta elevava-se ao centro da igreja como uma pequena árvore, cujos ramos, regularmente divididos, transportavam as estatuetas da família da Virgem Santa, que, nesta representação da festa, eram objeto de particular veneração. Eles eram como os estames de uma flor. Santa Ana foi colocada entre Joaquim e outro, talvez seu pai. Sob o peito de Santa Ana vi uma cavidade luminosa, como um cálice e nele a figura de uma criança resplandecente que se desfez e cresceu. Suas mãozinhas estavam cruzadas sobre o peito; De sua cabecinha curvada, uma infinidade de raios irradiavam para uma parte do mundo. Parece-me que não era em todas as direções. Nos outros ramos circundantes havia várias figuras voltadas para o centro numa atitude respeitosa. Na igreja vi uma infinidade de santos enfileirados, rodeando-a ou formando coros, que se curvavam para rezar à Santa Mãe. Exprimiu-se o mais doce fervor e notava-se nesta festa uma união íntima, que só se compara à de um canteiro de flores muito variadas, que, agitadas pela suave aura, voltavam-se para o sol, como que para oferecer suas fragrâncias e suas cores à estrela da qual receberam seus próprios dons e sua própria vida. Acima deste quadro simbólico da festa da Imaculada Conceição, erguia-se a pequena árvore luminosa com um rebento novo na ponta, e nesta segunda coroa de ramos pude contemplar a celebração de uma segunda etapa da festa. Aqui estavam Maria e José ajoelhados e um pouco mais abaixo, à frente deles, Santa Ana. Todos adoravam o Menino Jesus, sentado, com o globo do reino na mão, na parte mais alta do caule, rodeado por um brilho. maravilhoso. Em torno desta pintura avistavam-se à distância vários coros: os dos Três Reis Magos, dos pastores, dos apóstolos e dos discípulos, enquanto outros santos formavam círculos um pouco mais afastados do centro. Observei algumas formas mais difusas nas alturas: os coros celestes. Mais acima ainda, o brilho de um meio sol penetrava através da cúpula da igreja. Esta segunda pintura parecia indicar a proximidade da festa da Natividade que se segue à Imaculada Conceição.
Quando a primeira pintura apareceu, eu parecia estar fora da igreja, sob a coluna, numa região circundante; Então me encontrei dentro dela. Vi a pequena Maria crescer no espaço luminoso, sob o coração de Santa Ana senti-me penetrado pela última convicção da absoluta ausência de qualquer mancha original na concepção de Maria. Li isso com muita clareza, como se lê um livro, e então entendi perfeitamente.
Disseram-me que noutros tempos existia neste local uma igreja construída em memória desta graça inestimável concedida por Deus; mas foi entregue à destruição precisamente por causa das muitas disputas e escândalos que surgiram como resultado das controvérsias sobre a Imaculada Conceição de Maria. Também entendi estas palavras: “Em cada visão permanece um mistério até que se torne realidade”. A Igreja triunfante continua a celebrar ali a festa da Imaculada Conceição.

XI Mistérios da vida de Maria

Muitas vezes ouvi Maria contar a algumas mulheres da sua confiança, Joana Chusa e Susana de Jerusalém, diferentes mistérios relativos a Nosso Senhor e a ela mesma, que ela conhecia através da iluminação interior do céu ou do que Santa Ana lhe tinha dito que a ouvi dizer a Susana. e Marta, que durante o tempo em que carregou Jesus no ventre, nunca sentiu o menor sofrimento, mas sim uma alegria contínua e uma felicidade indescritível. Disse que Joaquim e Ana se encontraram sob a Porta Dourada numa hora dourada; que naquele lugar eles receberam a plenitude da graça divina, em virtude da qual somente ela recebeu a existência no ventre de sua mãe como resultado da santa obediência e do puro amor de Deus, sem qualquer mistura de impureza. Ela também as fez compreender que, sem o pecado original, a concepção de todos os homens teria sido igualmente pura.
Imediatamente vi de novo tudo o que estava relacionado com a graça concedida aos pais de Maria, desde o aparecimento do anjo até ao seu encontro sob a Porta Dourada. Debaixo dela vi Joaquim e Ana rodeados por uma multidão de anjos que brilhavam com luz celestial. Eles também eram luminosos e puros, quase como espíritos. Eles estavam no estado sobrenatural em que nenhum casal humano havia estado antes. Acredito que foi sob a Porta Dourada que ocorreram as provas e cerimônias de absolvição das mulheres acusadas de adultério, bem como outras expiações. Sob o templo havia cinco passagens subterrâneas deste tipo e havia também outra sob o local onde viviam as virgens. Essas passagens serviram para certas expiações. Não sei se outras pessoas passaram por esse caminho antes de Joaquim e Ana; mas este foi um caso muito raro. Não me lembro se o usavam para os sacrifícios oferecidos pelas pessoas estéreis; mas sei que nesta circunstância os sacerdotes foram ordenados a organizar as coisas da maneira que ocorreram.

XII Véspera do nascimento de Maria

Que grande alegria há em toda a natureza!... Ouço cantar os passarinhos, vejo os cordeiros e cabritos a saltarem de alegria, e as pombas rondam em bandos de um lado para o outro com uma alegria inusitada, onde outrora ficava a casa de Ana. Agora nada existe: o lugar está todo deserto. Tive uma visão de peregrinos de tempos muito antigos que, reunidos nas roupas, com turbantes na cabeça e longos cajados de viagem, atravessavam esta região para ir ao Monte Carmelo. Eles também notavam essa extraordinária alegria da natureza. Quando manifestaram a sua surpresa e perguntaram às pessoas com quem ficaram o motivo de tal acontecimento, responderam que tamanha felicidade e manifestações de alegria se notavam todas as vésperas, desde o nascimento de Maria e que ali existia a casa de Ana. Depois falavam de um homem santo, desde a antiguidade, que observava esta renovação da natureza, que era a causa da celebração do nascimento de Maria então na Igreja Católica.
Duzentos e cinquenta anos depois da passagem de Maria para o céu, vi um piedoso peregrino atravessar a Terra Santa e visitar e notar todos os lugares onde Jesus esteve na sua peregrinação na terra, para venerá-los e lembrá-los. Este homem desfrutou de uma inspiração sobrenatural que o guiou. Em alguns lugares ele permaneceu por vários dias, experimentando doçura e contentamento especiais, e recebendo revelações enquanto fazia piedosas orações e meditações. Sempre tive a impressão de que de 7 a 8 de setembro havia uma grande alegria na natureza da Terra Santa e naquela época se ouvia cantos harmoniosos de pássaros. Finalmente obtive, depois de muita oração, a revelação de que esta era a data do nascimento de Maria. Tive esta revelação no caminho para o Monte Sinai e a notícia de que havia uma capela murada dedicada a Maria, numa gruta do profeta Elias. Foi-me dito que deveria dizer estas coisas às pessoas solitárias que viviam nas encostas do Monte Sinai, onde o vi chegar. Onde agora estão os monges, já existiam eremitas que viviam isolados: o local era então tão selvagem na encosta do vale como é agora, necessitando de um dispositivo para escalar. Observei que, segundo as suas indicações, a festa do nascimento de Maria era ali celebrada no dia 8 de setembro de 250, e que esta festa foi posteriormente transmitida à Igreja universal. Vi também que os eremitas, juntamente com o peregrino, vasculharam a gruta de Elias em busca da capela murada de Maria. Não foi fácil encontrá-la, pois haviam muitas grutas de antigos eremitas e essênios, entre jardins e pomares silvestres, onde ainda cresciam lindos frutos. A vidente disse para trazer um judeu, e a caverna da qual o judeu foi expulso seria o sinal de que era de Elias. Ela foi informada disso em uma revelação. Ela então teve uma visão de como procuraram um velho judeu e o levaram para a gruta na montanha, e como ele sempre era jogado para fora de uma gruta, que tinha uma porta estreita e murada, apesar de seus esforços para entrar. Por este prodígio reconheceram a gruta de Elias, dentro da qual encontraram uma segunda gruta murada, que fora a capela onde o profeta rezara à futura Mãe do Salvador. Lá dentro encontraram ossos sagrados de profetas e pais antigos, bem como telas tecidas e utensílios que antigamente eram usados para o serviço divino. O local onde ficava o espinheiro é chamado, segundo a língua da região, “Sombra de Deus”, e é visitado por peregrinos, que descansam ali primeiro. A capela de Elias foi feita com lindas pedras coloridas e floridas. Perto está uma montanha de areia avermelhada, ao pé da qual são colhidos lindos frutos.

XIII Orações para a festa da Natividade de Maria

Vi muitas coisas relacionadas com Santa Brígida e tomei conhecimento de diversas comunicações feitas a esta santa sobre a Imaculada Conceição e a Natividade de Maria. Lembro-me que a Santíssima Virgem lhe disse que quando as mulheres grávidas santificam a véspera do seu nascimento, jejuando e recitando devotamente a Ave Maria nove vezes, em homenagem aos nove meses que ela passou no ventre de sua mãe, e quando renovam frequentemente esta Ave Maria, exercício da piedade durante a gravidez e na véspera do nascimento, aproximando-se dos sacramentos com piedade, leva essas orações diante de Deus e obtém-lhes um nascimento feliz, mesmo que as condições sejam difíceis.
Quanto a mim, a Virgem aproximou-se de mim e disse-me, entre outras coisas, que quem hoje, à tarde, recitar devotamente nove vezes a Ave-Maria em honra da sua permanência de nove meses no seio da sua mãe e do seu nascimento, e continuar este exercício de piedade durante nove dias, ela dá todos os dias aos anjos nove flores destinadas a formar um buquê que ela recebe no céu e apresenta à Santíssima Trindade, a fim de obter uma graça para quem fez essas mesmas orações. Mais tarde senti-me transportado para as alturas, entre o céu e a terra. Abaixo estava a terra, escura e desaparecida. No céu, entre os coros dos anjos e dos santos, vi a Santíssima Virgem diante do trono de Deus. Pude ver duas portas ou tronos de honra sendo construídos para ela, com as orações e devoções dos fiéis do mundo, que cresceram para formar igrejas, palácios e cidades inteiras. Fiquei maravilhado ao ver que estes edifícios eram feitos inteiramente de plantas, flores e guirlandas, expressando, nas diversas espécies, a natureza e o mérito das orações, proferidas por indivíduos ou por comunidades. Vi que para conduzi-lo ao céu os anjos e santos tiraram tudo isso das mãos daqueles que faziam tais orações.

XIV Nascimento de Maria Santíssima

Com vários dias de antecedência, Ana anunciou a Joaquim que o seu nascimento se aproximava. Por esta razão ela enviou mensageiros a Séforis, para sua irmã mais nova, Marha; ao vale de Zebulom, à viúva Enue, irmã de Isabel; e Betsaida, sua sobrinha Maria Salomé, chamando-os para o seu lado. Vi Joaquim, na véspera do nascimento de Ana, enviar numerosos criados aos prados onde estavam os seus rebanhos, indo ele próprio ao mais próximo. Entre as novas criadas de Ana, ela só mantinha em casa aquelas cujo serviço era necessário. Vi Maria Helí, a filha mais velha de Ana, ocupada com as tarefas domésticas. Ela tinha então cerca de dezenove anos e, tendo se casado com Cleofas, chefe dos pastores de Joaquim, era mãe de uma menina chamada Maria de Cleofas, na época com cerca de quatro anos. Joaquim orou, escolheu seus mais belos cordeiros, cabras e bois e os enviou ao templo como sacrifício de ação de graças.
Ele não voltou para casa até o anoitecer.
À noite vi seus três parentes chegarem na casa de Ana. Eles a visitaram em seu quarto localizado atrás da lareira e a beijaram. Depois de lhes ter anunciado a proximidade do seu nascimento, Ana, levantando-se, cantou com eles um cântico concebido mais ou menos nestes termos: “Louvado seja Deus, o Senhor, que teve misericórdia do seu povo, que cumpriu a promessa feita. a Adão no paraíso, quando lhe disse que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente...” Não me é possível repetir tudo exatamente. Ana ficou em êxtase, listando em sua música todas as imagens que apresentavam Maria. Ele disse: “O germe dado por Deus a Abraão atingiu a maturidade em mim.” Ela falou então de Isaque, noivo de Sara, e acrescentou: “O florescimento do germe de Arão cumpriu-se em mim.” Vi-a penetrada pela luz no meio do seu quarto, cheia de brilho, onde também aparecia no topo a escada de Jacó. As mulheres, cheias de espanto e alegria, ficaram como que extasiadas e creio que viram a aparição. Após a oração de boas-vindas, foi servida às mulheres uma pequena refeição de frutas e água misturada com bálsamo. Comeram e beberam em pé e dormiram algumas horas para descansar da viagem. Ana ficou acordada e orou. Por volta da meia-noite, ela acordou seus parentes para orarem juntos, com eles a seguindo atrás de uma cortina perto da cama. Ana abriu as portas de um armário embutido na parede, onde foram encontradas diversas relíquias em uma caixa. Vi luzes acesas de cada lado; mas não sei se eram lâmpadas. Ao pé deste pequeno altar havia um escabelo estofado. O relicário continha alguns cabelos de Sara, a quem Ana professava venerar; ossos de José, que Moisés trouxe do Egito; algo de Tobit, talvez uma peça de roupa, e o pequeno copo brilhante em forma de pera que Abraão bebera ao receber a bênção do anjo e que Joaquim recebera junto com a bênção. Agora sei que esta bênção consistia em pão e vinho e era como um alimento sacramental. Ana se ajoelhou em frente ao armário. De cada lado dela estava uma das duas mulheres, e a terceira estava atrás dela. Ele recitou uma canção: Acho que era sobre a sarça ardente de Moisés. Então vi um brilho celestial que encheu a sala e que, movendo-se, condensou-se em torno de Ana. As mulheres caíram como se desmaiassem com os rostos pressionados no chão. A luz ao redor de Ana assumiu a forma de uma sarça que ardia ao lado de Moisés, no monte Horebe, e não me foi mais possível contemplá-la. A chama foi projetada para dentro: de repente vi que Ana recebeu nos braços a luminosa pequena Maria, que envolveu no seu manto, apertou contra o peito e colocou no banco em frente ao relicário. Ele então continuou suas orações. Então ouvi a garota chorando. Vi que Ana tirou alguns lençóis de baixo do grande véu que a cobria e, envolvendo-a, deixou a cabeça, o peito e os braços expostos. A aparência da sarça ardente desapareceu.
As mulheres então se levantaram e em meio à maior admiração receberam a recém-nascida nos braços, derramando lágrimas de alegria.
Todos cantaram juntos uma canção de agradecimento e Ana levantou a menina no ar como se fosse oferecê-la. Então vi que a sala estava novamente cheia de luzes e ouvi os anjos cantando Glória e Aleluia. Pude ouvir tudo o que diziam: sabia que, conforme anunciado, vinte dias depois a menina receberia o nome de Maria. Ana entrou no quarto e deitou-se. As mulheres pegaram a menina, tiraram-lhe o cinto, lavaram-na e, embrulhando-a novamente, levaram-na imediatamente para a mãe, cuja cama estava arrumada de tal forma que um pequeno cesto perfurado pudesse ser fixado contra ela, onde ela tinha a menina um lugar separado ao lado de sua mãe. As mulheres chamaram então Joaquim, que se aproximou da cama de Ana e, ajoelhado, derramou abundantes lágrimas de alegria pela menina. Ele a pegou nos braços e cantou um cântico de louvor, como Zacarias no nascimento do Batista. Ele falou no cântico do germe santo, que Deus colocou em Abraão, foi perpetuado no povo de Deus e na Aliança, cujo selo era a circuncisão e que atingiu o seu maior florescimento com esta menina. Ouvi dizer no cântico que aquelas palavras do profeta: “Um ramo brotará da raiz de Jessé”, se cumpriram perfeitamente neste momento. Disse também, com muito fervor e humildade, que depois disso morreria feliz. Notei que Maria Heli, filha mais velha de Ana, chegou bem tarde para ver a menina. Apesar de ser mãe, durante vários anos antes, ela não assistiu ao nascimento de Maria, talvez porque, de acordo com as leis judaicas, uma filha não deveria estar ao lado da mãe em tais circunstâncias. No dia seguinte vi os criados, as empregadas e muitas pessoas do campo reunidas em volta da casa. Foram obrigados a entrar sucessivamente, e a menina Maria foi mostrada a todos pelas mulheres que a atendiam. Outros vizinhos vieram porque durante a noite apareceu uma luz sobre a casa e porque a maternidade de Ana, depois de tantos anos de esterilidade, foi considerada uma graça especial do céu.

XV O nascimento de Maria no Céu, no Limbo e na natureza

No momento em que a pequena Maria estava nos braços de Santa Ana, vi-a no céu apresentada diante da Santíssima Trindade e saudada com alegria por todos os coros celestes. Entendi que todas as suas alegrias, suas dores e seu destino futuro lhe foram manifestados de forma sobrenatural.
Maria recebeu o conhecimento dos mistérios mais profundos, mantendo, no entanto, a sua inocência e franqueza quando criança. Não podemos compreender a ciência que lhe foi dada, porque a nossa tem origem na árvore fatal do Paraíso terrestre. Ela sabia de tudo isso como a criança conhece o seio da mãe, onde deve buscar o alimento. Quando terminou a contemplação em que vi a criança Maria no céu, instruída pela graça divina, pela primeira vez pude vê-la chorar. Vi o nascimento de Maria anunciado no Limbo aos santos Patriarcas no mesmo momento, cheio de uma alegria inexplicável, porque a promessa feita no Paraíso tinha sido cumprida. Aprendi também que houve progresso no estado de graça dos Patriarcas: a sua morada tornou-se mais clara, mais ampla e eles adquiriram maior influência sobre as coisas que aconteciam no mundo. Foi como se todo o seu trabalho, todas as penitências da sua vida, todas as suas lutas, as suas orações e os seus anseios tivessem atingido, por assim dizer, a sua maturidade completa, produzindo frutos de paz e de graça.
Observei um grande movimento de alegria em toda a natureza pelo nascimento de Maria; nos animais e nos corações dos homens bons; e ouvi cantos harmoniosos por toda parte. Os pecadores sentiram-se angustiados e experimentaram tristeza e aflição. Vi que em Nazaré e nas regiões da Terra Prometida vários endemoninhados agitavam-se em convulsões violentas. Eles correram de um lado para o outro com gritos altos; os demônios rugiam pela boca, gritando: “Temos que sair!... Temos que sair!...”.
Vi em Jerusalém o piedoso sacerdote Simeão, que morava perto do templo, na época do nascimento de Maria, assustado pelos clamores desenfreados de loucos e possuídos, trancado num edifício adjacente à montanha do templo, sobre o qual Simeão tinha direitos. de vigilância.
Eu o vi ir à meia-noite até a praça, em frente à casa do possuído.
Um homem que morava ali perguntou-lhe a causa daqueles gritos, que interromperam o sono de todos. Uma das pessoas possuídas gritou mais alto para ser libertada. Simeão abriu a porta e o possuído gritou, precipitando-se para fora, pela boca de Satanás: “É preciso sair... É preciso sair... Nasceu uma Virgem... São tantos os anjos que nos atormentam na terra, que devemos partir, porque não podemos mais possuir um só homem...! Vi Simeão orando com grande fervor. O infeliz possuído foi violentamente atirado pela praça, de um lado para o outro; e eu vi o demônio finalmente sair de sua boca. Fiquei muito feliz por ter visto o velho Simeão. Também vi as profetisas Ana e Noemi, irmã da mãe de Lázaro, que morava no templo e mais tarde foi professora da menina Maria. Elas foram acordados e souberam, por meio de visões, que havia nascido uma criatura de predileção. Eles se reuniram e contaram uma a outra as coisas que acabavam de aprender. Acho que elas já conheciam Santa Ana.

XVI Na Caldeia, no Egito e em outros lugares é anunciado o nascimento de Maria

No país dos Três Reis Magos, os videntes tiveram visões do nascimento da Santa Virgem. Contaram aos sacerdotes que havia nascido uma Virgem, para saudar a quem muitos espíritos haviam descido do céu; que outros espíritos malignos lamentaram sobre isso. Também os Três Reis Magos, que observavam as estrelas, viram figuras e representações do acontecimento.
No Egito, na mesma noite do nascimento de Maria, um ídolo foi atirado do templo e lançado nas águas do mar. Outro ídolo caiu do pedestal e se despedaçou.
Mais tarde, vários parentes de Joaquim que vieram do vale de Zebulom e alguns servos que estavam longe chegaram à casa de Ana. A menina Maria foi mostrada a todos. Em casa foi preparada uma refeição para os visitantes. Posteriormente, muitas pessoas vieram ver a bebê Maria, então ela foi retirada do berço e colocada em local elevado, como se fosse um cavalete, na parte da frente da casa. Estava sobre lenços coloridos e brancos por cima, envolta com lenços coloridos e brancos transparentes até debaixo dos bracinhos.. Seu cabelo era loiro e cacheado. Mais tarde vi Maria Cleopas, filha de Maria Heli e Cleopas, neta de Ana, que tinha alguns anos, brincando com Maria e beijando-a. Maria Cleofás era uma menina forte e robusta, tinha um vestidinho sem mangas, com bordas vermelhas e enfeites de maçãs vermelhas bordadas. Nos braços nus ela usava pequenas coroas brancas que pareciam seda, lã ou penas. A menina Maria também tinha um véu transparente no pescoço.

XVI A menina recebe o nome de Maria

Hoje vi uma grande festa na casa da Ana. Os móveis foram removidos e guardados nos quartos da frente. As divisórias de junco, que formavam salas separadas, foram removidas para dar lugar a uma grande mesa. Ao redor da sala vi uma mesa larga e baixa, cheia de pratos e travessas para comida. No centro havia um altar coberto com um pano vermelho e branco, sobre o qual havia um presépio também vermelho e branco e uma colcha azul clara. Ao lado do altar havia um púlpito coberto de pergaminhos contendo orações. Diante do altar estavam cinco sacerdotes de Nazaré em vestes cerimoniais.
Joaquim estava com eles. Ao fundo, ao redor do altar, estavam mulheres e homens, parentes de Joaquim, todos em trajes festivos. Lembro-me da irmã de Ana, Maraha de Séforis, e de sua filha mais velha. Santa Ana havia saído da cama; mas não compareceu à cerimônia, ficando na sala atrás da lareira. Enue, irmã de Isabel, trouxe a pequena Maria, colocando-a nos braços de Joaquim. Os sacerdotes ficavam em frente ao altar, perto dos pergaminhos, e recitavam as orações em voz alta. Joaquim entregou a menina ao chefe deles, que, levantou-a no ar, enquanto rezava, como se fosse oferecê-la a Deus, depois a deixou no berço, no altar. Ele então pegou uma tesoura de formato peculiar, com a qual cortou três pequenos fios de cabelo dos dois lados da cabeça e da testa da criatura, queimando-os no braseiro. Ele então pegou uma caixa contendo óleo e ungiu os cinco sentidos da menina, tocando suas orelhas, olhos, nariz, boca e boca do estômago com o polegar. No peito da criatura ele colocou um pergaminho onde estava escrito o nome de Maria. Depois cantavam-se salmos e servia-se comida, que eu não pude ver.
Várias semanas depois do nascimento de Maria, vi Joaquim e Ana indo com a Menina ao templo para oferecer um sacrifício. Apresentaram-na ao templo com vívidos sentimentos de piedade e de agradecimento a Deus de uma forma semelhante ao que a Santíssima Virgem fez mais tarde quando apresentou o Menino Jesus e o resgatou do templo, segundo as prescrições da lei. No dia seguinte eles fizeram sua oferta, prometendo consagrar a menina a Deus no templo dentro de alguns anos. Depois voltaram para Jerusalém.

XVIII Preparativos para a apresentação no Templo

Maria tinha três anos e três meses quando fez o voto de aparecer no templo entre as virgens que ali viviam. Ela tinha uma pele delicada, cabelos claros enrolados um pouco para baixo; Ele já tinha a altura que uma criança de cinco ou seis anos tem hoje no nosso país. A filha de Maria Heli era alguns anos mais velha e mais robusta. Vi na casa de Ana os preparativos de Maria para ser levada ao templo. Foi uma festa muito grande. Estiveram presentes cinco sacerdotes de Nazaré, Séforis e outras regiões, entre eles Zacarias e um filho do irmão do pai de Ana.
Estavam ensaiando uma cerimônia com a menina Maria. Foi uma espécie de teste para ver se ela estava madura para ser recebida no templo. Além dos sacerdotes, estavam presentes a irmã de Ana de Séforis e sua filha, Maria Heli e sua filhinha, além de algumas meninas e parentes.
Os vestidos, parcialmente cortados pelos sacerdotes e arrumados pelas mulheres, foram colocados na menina em vários momentos desta ocasião, enquanto lhe faziam perguntas. Esta cerimônia teve um ar de gravidade e seriedade, mesmo quando algumas perguntas foram feitas pelo velho sacerdote com um sorriso infantil, que foram sempre respondidas pela menina, com admiração dos padres e lágrimas dos pais. Havia três tipos de vestes para Maria, que ela vestiu em três momentos. Isto acontecia num amplo espaço adjacente à sala de jantar, que recebia luz através de uma abertura quadrangular no teto, muitas vezes fechada por cortina.
No chão havia um tapete vermelho e no meio da sala um altar coberto de pano vermelho e branco transparente por cima. Sobre o altar havia uma caixa com pergaminhos escritos e uma cortina que desenhava ou bordava a imagem de Moisés, envolto em seu grande xale de oração e segurando nos braços as tábuas da lei. Sempre vi Moisés com ombros largos, cabeça alta, nariz grande e curvo e na testa grande duas elevações um pouco voltadas uma para a outra, o que lhe conferia uma aparência muito particular. Moisés tinha esses tipos de chifres desde criança, como duas verrugas. A cor de seu rosto escuro e ardente e cabelo loiro. Muitas vezes vi essa espécie de chifres nas testas de antigos profetas e eremitas, e às vezes apenas uma dessas excrescências no meio da testa.
No altar estavam os três vestidos de Maria; Também haviam panos e lençóis doados por parentes para a higiene da menina. Em frente ao altar via-se, em degraus, uma espécie de trono. Joaquim, Ana e os familiares estavam reunidos. As mulheres estavam atrás e as meninas ao lado de Maria. Os sacerdotes entraram descalços.
Eram cinco, mas apenas três deles usavam vestes sacerdotais e participavam da cerimônia. Um sacerdote pegou as diversas peças de roupa do altar, explicou seu significado e as apresentou à irmã de Ana, Maraha de Séforis, que vestiu com elas a criança Maria. Primeiro colocaram-lhe um vestidinho amarelo e por cima, sobre o peito, outra peça de roupa bordada com fitas, que ela colocou no pescoço e prendeu ao corpo. Depois, um manto escuro com aberturas nos braços; Alguns pedaços de tecido pendurados acima. Este manto estava aberto na parte superior e fechado abaixo do peito. Colocaram nela sandálias escuras com sola grossa amarela. Ela tinha cabelos loiros penteados e uma coroa de seda branca com várias penas. Colocaram um véu quadrado cor de cinza sobre a cabeça, que podia ser preso sob os braços para que fiqcassem apoiados como se estivessem em dois nós. Este véu parecia penitência ou oração. Os sacerdotes lhe fizeram todo tipo de perguntas relacionadas ao modo como as jovens viviam no templo. Eles lhe disseram, entre outras coisas: “Seus pais, ao consagrarem você ao templo, juraram que você não beberia vinho ou vinagre, nem comeria uvas ou figos. O que você quer acrescentar a esta votação? Pense nisso durante a refeição. Os judeus, especialmente as jovens judias, gostam muito de vinagre, e Maria também gostava de bebê-lo. Eles fizeram outras perguntas e lhe deram um segundo tipo de vestido. Este consistia em um azul claro, com manto branco-azulado, e um enfeite no peito e um véu de seda branca transparente com pregas atrás, como usam as freiras. Na cabeça dela colocaram uma coroa de cera decorada com flores e botões de folhas verdes. Os sacerdotes colocaram outro véu em seu rosto: por cima parecia um boné, com três fechos em distâncias diferentes, para que um terço, metade ou todo o véu pudesse ser levantado sobre sua cabeça. Ela foi orientada sobre o uso do véu: como pegá-lo para comer e abaixá-lo quando solicitado.
Com este vestido Maria apareceu com os outros à mesa: colocaram-na entre os dois sacerdotes e um na frente. As mulheres com outros filhos sentavam-se numa extremidade da mesa, separadas dos homens. Durante a refeição, os sacerdotes testaram a menina Maria ao usar o véu. Houve perguntas e respostas. Ela também foi instruída sobre outros costumes que deveria observar. Eles disseram que ela poderia comer qualquer coisa por enquanto, dando-lhe vários alimentos para tentá-la. Maria deixou todos maravilhados com a sua forma de proceder e com as respostas que lhes dera. Ela comia muito pouco e respondia com uma sabedoria infantil que todos admiravam. Vi os anjos ao seu redor o tempo todo, sugerindo-a e guiando-a em todos os casos.
Após a refeição ela foi levada para a outra sala, em frente ao altar, onde tiraram seus vestidos de segunda classe para vestir os de terceira classe. A irmã de Santa Ana e um padre vestiram-na com os novos trajes festivos. Era um vestido violeta com decoração de tecido bordado no peito. Era amarrado lateralmente com o pano de trás, formava cachos e terminava em ponta na parte inferior. Colocaram sobre ele um manto violeta maior e mais festivo, arredondado nas costas, que parecia uma casula de massa. Tinha mangas largas e cinco linhas de ornamentos dourados. O do meio foi dividido e recolhido e fechado com botões. O manto também foi bordado nas pontas. Então foi colocado sobre ela um grande véu: uma parte caía branca e a outra branca violeta sobre seus olhos. Em cima desta, colocaram uma coroa fechada, com cinco colchetes, que consistia num círculo dourado, mais largo na parte superior, com pontas e botões. Esta coroa era revestida de seda por fora, com rosas e cinco pérolas como decoração; Os cinco arcos terminais eram de seda e possuíam botão. O escapulário de peito foi preso atrás; Na frente havia fitas. A capa foi presa na frente do peito.
Vestida desta forma estava a criança que Maria carregava nos degraus do altar. As meninas cercaram o altar dos dois lados. Maria disse que não planejava comer carne ou peixe nem beber leite; que ele só bebia uma bebida feita de água e medula de junco, que os pobres usavam, e que às vezes colocava um pouco de suco de terebinto na água. Esta bebida é como um óleo branco, expande-se e é muito refrescante, embora não tão fina como um bálsamo. Ela prometeu não gostar de temperos e não comer outras frutas além das frutas amarelas que crescem como uvas. Eu conheço essas frutas: crianças e pessoas pobres as comem. Ele também disse que queria descansar no chão e levantar três vezes durante a noite para orar. As pessoas piedosas, Ana e Joaquim, choraram ao ouvir essas coisas. O velho Joaquim, abraçando a filha, disse-lhe: "Ah, filha! Isso é muito difícil de observar. Se você quer viver nessa penitência, acho que não poderei mais te ver, por causa da minha idade avançada ." Foi uma cena muito comovente. Os sacerdotes disseram-lhe que se levantasse apenas uma vez, como os outros, e deram outras sugestões para mitigar a sua abstinência. Obrigaram-na a comer outros alimentos, como peixe, nas grandes festividades.
Havia em Jerusalém, na parte baixa da cidade, um grande mercado de peixes, que recebia água do tanque de Betseda. Um dia, quando faltou água, Herodes, o Grande, quis construir ali um aqueduto, vendendo vestes sacerdotais e vasos sagrados do templo para ganhar dinheiro. Por esta razão houve uma tentativa de revolta, pois os essênios, encarregados de inspecionar as vestes sacerdotais, vieram de todas as partes do país para Jerusalém e se opuseram firmemente. Lembrei-me dessas coisas neste momento. Por fim, os sacerdotes disseram: “Muitas das outras meninas que vão ao templo sem pagar o sustento e as roupas, comprometem-se, com o consentimento dos pais, a lavar as roupas dos sacerdotes manchadas com o sangue das vítimas e outras roupas grosseiras. panos, trabalho muito duro que machuca as mãos. Você não precisa fazer isso, porque seus pais pagam pelo seu sustento." Maria respondeu rapidamente que queria fazer isso também, se fosse considerada digna de fazê-lo. Enquanto isso, cerimônias estavam acontecendo, vi que Maria, em várias ocasiões, havia crescido tanto que os ultrapassava em altura. Era um sinal de sua graça e sabedoria. Os sacerdotes estavam sérios, com agradável admiração.
Por fim, a menina Maria foi abençoada pelo sacerdote. Eu a vi de pé no trono brilhante. Dois sacerdotes estavam ao seu lado; outro, à frente. Os sacerdotes tinham pergaminhos nas mãos e oravam sobre eles com as mãos estendidas. Tive uma visão admirável de Maria. Pareceu-me que por causa da bênção ela se tornou transparente. Vi uma glória de esplendor indescritível e dentro dela o mistério da Arca da Aliança como se estivesse num vaso de vidro brilhante. Depois vi o coração de Maria que se abria em dois como uma pequena porta no templo, e o sacramental. o mistério da Arca da Aliança penetrou no seu coração. Em torno deste mistério ele formou um tabernáculo de pedras preciosas variadas e muito significativas. Entrou no coração, como a Arca no Santo dos Santos, como o Ostensório no tabernáculo.
Vi a menina Maria como que transformada, flutuando no ar. Com a entrada do sacramento no coração de Maria, então fechado, o que era uma figura tornou-se uma realidade e uma posse, e vi que a menina estava a partir de então como que penetrada por uma ardente concentração interior. Também vi, durante esta visão, que Zacarias recebeu uma persuasão interna ou revelação celestial de que Maria era o vaso escolhido do mistério ou sacramento. Ele recebeu um raio de luz que vi vindo de Maria.
Depois disso, os sacerdotes conduziram a menina até onde estavam seus pais. Ana ergueu bem alto a filha e, segurando-a contra o peito, beijou-a com doçura e carinho internos, misturados com veneração. Joaquim, muito emocionado, apertou-lhe a mão, cheio de admiração e veneração. A irmã mais velha de Maria Santíssima, Maria de Heli, abraçou a menina com mais vivacidade do que Santa Ana, que era uma mulher muito reservada, moderada e muito comedida em todas as suas ações. A sobrinha, Maria Cleofás, colocou os braços em volta do pescoço dela, como fazem as crianças. Então os sacerdotes pegaram a menina novamente, tiraram suas roupas simbólicas e a vestiram com suas roupas habituais. Ainda os vi parados, bebendo um pouco de líquido de um recipiente e depois saindo.

XIX Partida para o templo de Jerusalém

Vi Joaquim, Ana e a filha mais velha, Maria Heli, ocupados a noite toda preparando pacotes e utensílios. Uma lâmpada com vários pavios queimava. Vi Maria Heli com uma luz indo de um lugar para outro. Poucos dias antes, Joaquim ordenara aos seus servos que escolhessem cinco animais de sacrifício de cada espécie, entre os melhores, e os enviara ao templo: esses animais formavam um lindo rebanho. Então ele pegou dois animais de carga e os carregou com todos os tipos de pacotes: vestidos para a menina e presentes para o templo. Nas costas do animal colocou um assento largo para que ela pudesse sentar-se confortavelmente. Os objetos carregados foram embalados e amarrados, fáceis de transportar. Vi cestos de vários formatos presos aos flancos do animal. Num deles havia pássaros do tamanho de perdizes; Outras cestas, semelhantes às cestas de uva, continham frutas de todos os tipos. Quando o burro estava totalmente carregado, eles espalharam um grande cobertor por cima com borlas grossas penduradas nele.
Ainda restavam dois sacerdotes. Um deles era muito velho, usava um capuz pontudo na testa e duas peças de roupa, a de cima mais curta que a de baixo. Este sacerdote é quem esteve ocupado examinando Maria no dia anterior, e eu o vi dar outras instruções à menina. Tinha uma espécie de estola pendurada. O outro sacerdote era mais jovem.
Maria tinha naquela época pouco mais de três anos: era linda e delicada e tão avançada quanto uma criança de cinco anos em nosso país.
Seus cabelos lisos, cacheados nas pontas, eram loiros dourados e mais compridos que os de Maria Cleopas, de sete anos, cujos cabelos loiros eram curtos e cacheados. Quase todos os idosos usavam roupas compridas de lã sem tingir.
Não havia notado a presença de duas crianças que não eram deste mundo: estavam ali de forma espiritual e figurativa, como profetas; Eles não pertenciam à família e não conversavam com ninguém. Parecia que ninguém notara suas presenças.
Eles eram lindos e gentis; Eles tinham longos cabelos loiros e cacheados. Olhando de um lado para o outro, eles se dirigiram a mim. Eles carregavam livros, provavelmente para instrução. A pequena Maria não possuía livros, embora soubesse ler. Os livros não eram como os nossos, mas longas tiras de cerca de meio metro de largura, enroladas em uma vara, cujas pontas se projetavam de cada lado. A mais alta das duas crianças se aproximou de mim com um dos pergaminhos aberto na mão e leu alguma coisa, depois me explicou. Eram letras douradas, totalmente desconhecidas para mim, escritas ao contrário e cada uma delas parecia representar uma palavra inteira. A língua também era completamente desconhecida para mim, mas eu a entendia perfeitamente. Pena que esqueci a explicação. Era um texto de Moisés sobre a sarça ardente. Ele me declarou: “Assim como a sarça queimou e não queimou, assim arde o fogo do Espírito Santo na menina Maria, e na sua humildade é como se ela nada soubesse sobre isso. Significa também a divindade e a humanidade de Jesus e como o fogo de Deus se une à menina Maria". A retirada dos sapatos foi explicada como a lei foi cumprida, a casca caiu e a substância chegou. A bandeirinha que a ponta do bastão carregava significava que Maria. iniciou sua jornada, sua missão de ser Mãe do Redentor. A outra criança brincava inocentemente com seu pergaminho, representando assim a candura infantil de Maria, sobre quem repousava uma promessa muito grande, que, apesar de um destino tão elevado, agora brincava como. uma criança. Essas crianças me explicaram sete passagens de seus rolos, mas pelo estado em que me encontro, desapareceu da minha memória. ao mesmo tempo, que simples e claro ..
Ao amanhecer, vi que eles estavam partindo para Jerusalém. A pequena Maria queria muito chegar ao templo e saiu apressadamente de casa aproximando-se da besta de carga. As crianças profetas me mostraram alguns textos de seus pergaminhos. Um deles disse que o templo era magnífico, mas que a menina Maria continha algo ainda mais admirável. Havia dois animais de carga. Um dos burros, o mais carregado, era conduzido por um criado e devia ir sempre à frente dos viajantes. O outro, que estava na frente da casa, carregado com mais pacotes, preparou um assento e Maria foi colocada nele.
Joaquim conduzia o burro. Ele carregava um longo bastão com uma ponta redonda e grossa: parecia um bastão de peregrino. Um pouco mais à frente estava Ana com a pequena Maria Cleofás e uma empregada que a acompanharia durante todo o caminho. No início da viagem juntaram-se a eles algumas mulheres e meninas: eram familiares que nos vários cruzamentos do caminho se separaram da procissão para regressar às suas casas. Um dos sacerdotes acompanhou a procissão durante algum tempo. Vi cerca de seis parentes do sexo feminino, com seus filhos e alguns homens. Levavam uma lanterna, e vi que a luz desaparecia completamente diante daquela outra claridade que o povo santo lançava na estrada em sua jornada noturna, sem, aparentemente, que os demais percebessem. A princípio pareceu-me que o sacerdote estava atrás da pequena Maria com os filhos dos profetas. Mais tarde, quando ela desceu do burro para continuar a pé, eu estava ao seu lado. Mais de uma vez ouvi meus jovens companheiros cantando o Salmo 44: Eructavit cor meum, e 49: Deus deorum Dominus locutus est. Aprendi com eles que esses salmos seriam cantados em coro duplo quando a Menina fosse admitida no templo. Ouvi isso quando eles chegarem ao templo. A princípio vi que a estrada descia uma colina e depois subia novamente. Sendo cedo, e tendo bom tempo, a procissão parou perto de uma nascente de onde nascia um riacho. Havia ali uma campina e os caminhantes descansavam sentados ao lado de uma cerca de bálsamos. Debaixo destes frágeis arbustos colocavam-se copos e recipientes de pedra para recolher o bálsamo que caía gota a gota. Os viajantes beberam bálsamo e despejaram um pouco na água, enchendo pequenos recipientes. Comiam frutas de certas plantas que ali havia, com rolinhos que traziam nos alforjes.
Naquele momento, as duas crianças profetas desapareceram. Um deles era Elias; O outro me pareceu ser Moisés. A pequena Maria os tinha visto; mas ele não falou sobre isso com ninguém. Acontece então que às vezes vemos crianças santas na nossa infância e numa idade mais madura jovens santos ou meninos, e calamos essas visões sem comunicá-las aos outros porque tal momento é um instante de alegria e reflexão celestiais. Mais tarde vi os viajantes entrarem numa casa isolada, onde foram bem recebidos e levaram mantimentos, pois os habitantes pareciam ser da família. Naquele local se despediram da menina Cleofás, que teve que voltar para casa. Durante o dia avistei o percurso da estrada, que costuma ser bastante difícil, pois há muitas subidas e descidas. Nos vales há frequentemente neblina e orvalho; Mesmo assim, vi alguns lugares mais bem situados, onde brotavam flores. Antes de chegarem ao local onde passariam a noite, encontraram um pequeno riacho. Eles ficaram em uma pousada no sopé de uma montanha de onde podiam ver uma cidade. Infelizmente não me lembro o nome daquela cidade, pois já a vi em outras viagens à Sagrada Família, por isso confundo os nomes.
O que posso dizer é que seguiram o caminho que Jesus percorreu no mês de setembro, quando tinha trinta anos e foi de Nazaré para Betânia e depois para o batismo de João e mesmo isto digo sem total certeza. A Sagrada Família fez posteriormente este caminho no momento da fuga para o Egito. A primeira etapa foi Nazara, um pequeno local entre Massaloth e outra cidade situada em altura, mais próxima desta última. Vejo tantas cidades por toda parte, cujos nomes ouço pronunciados, que depois confundo uns com os outros. A cidade cobre a encosta de uma montanha e é dividida em várias partes, se é que todas formam a mesma cidade. Falta água e é preciso fazê-la subir da planície com a ajuda de cordas. Vejo lá torres antigas em ruínas. No cume da montanha existe uma torre que parece um observatório com um dispositivo de alvenaria que possui vigas e cordas para fazer subir algo da cidade. A quantidade dessas cordas é tão grande que tudo parece mastros de navio. Deve ser cerca de uma hora de caminhada desde a base até ao topo da montanha, de onde se pode desfrutar de uma vista muito extensa e esplêndida. Os caminhantes entraram em uma pousada localizada na planície. Numa parte da cidade havia pagãos, considerados escravos pelos judeus, que tinham de passar por trabalhos duros no templo e em outros edifícios.
Esta noite vi a pequena Maria chegando com seus pais a uma cidade localizada a cerca de seis léguas de Jerusalém, na direção noroeste. Esta cidade se chama Bet-Horon e está localizada no sopé de uma montanha. Durante a viagem cruzaram um pequeno rio que deságua no mar ao redor de Jope, onde São Pedro ensinou após a vinda do Espírito Santo. Grandes batalhas aconteceram perto de Bet-Horon que eu vi e esqueci. Faltavam ainda duas léguas para chegar a um ponto da estrada de onde se avistava Jerusalém; Ouvi o nome deste lugar, que não posso especificar agora. Bet-Horom é uma cidade de levitas de certa importância: produz lindas uvas e grande quantidade de frutas. A santa procissão entrou na casa de alguns amigos, que estava muito bem localizada. Seu dono era professor numa escola levita e lá havia algumas crianças. Fiquei surpreso ao ver ali vários parentes de Ana, com suas filhas pequenas, que pensei terem voltado para suas casas no início da viagem: agora noto que chegaram mais cedo, tomando algum atalho, talvez para anunciar a chegada do santa procissão.
Os parentes de Nazaré, Séforis e Zebulom, que haviam assistido ao exame de Maria, estavam lá com suas filhas: vi, por exemplo, a irmã mais velha de Maria com sua filha Maria de Cléofas, e a irmã de Ana vindo de Séforis com suas filhas. Por ocasião da chegada da pequena Maria houve grandes festas.
Maria foi levada na companhia de outras meninas para uma grande sala, e colocada num assento alto, semelhante a um trono, preparado para ela. A professora e outras pessoas fizeram todo tipo de perguntas a Maria e colocaram guirlandas em sua cabeça. Todos ficaram maravilhados com a sabedoria manifestada em suas respostas. Nesta ocasião ouvi falar do julgamento e da prudência de outra menina que havia passado por ali pouco antes, voltando da escola do templo para a casa dos pais. Esta menina chamava-se Susana e mais tarde esteve entre as santas mulheres que seguiram Jesus. (Numa outra ocasião Ana Catalina disse que esta menina era parente de Maria).
Maria ocupou seu cargo vago no templo, pois havia um número fixo de vagas para essas jovens. Susana tinha quinze anos quando saiu do templo, ou seja, cerca de onze anos mais velha que a menina Maria. Santa Ana também foi educada lá aos cinco anos. A pequena Maria ficou cheia de alegria por estar tão perto do templo. Vi Joaquim segurando-a nos braços, chorando e dizendo-lhe: “Minha filha, nunca mais te verei”. Tinham preparado comida e enquanto estavam à mesa, vi Maria passar de um lado para o outro, apertando-se contra a mãe, cheia de graça, ou, parando atrás dela, jogando os bracinhos em volta do pescoço.
Esta manhã, bem cedo, vi os viajantes saindo de Bet-Horom com destino a Jerusalém. Todos os parentes com seus filhos se juntaram a eles e os donos da casa também. Trouxeram presentes para a menina, compostos por roupas e frutas. Acho que vi uma festa em Jerusalém. Fiquei sabendo que Maria tinha três anos e três meses naquela época. Na viagem não foram para Ussen Sheera ou Gofna, apesar de terem amigos lá; Eles apenas passaram pelos arredores. Vi que o professor dos levitas e sua família os acompanharam até Jerusalém. Quanto mais se aproximavam da cidade, mais feliz e ansiosa Maria parecia. Ele costumava correr na frente dos pais.

XX A cidade de Jerusalém

Hoje ao meio-dia vi a delegação que acompanhava Maria chegar ao templo de Jerusalém. Jerusalém é uma cidade estranha. Não devemos pensar que é como uma das nossas cidades, com tantas pessoas nas ruas. Muitas ruas baixas e altas contornam as muralhas da cidade e não têm saída nem portas. As casas nas alturas, atrás das muralhas, estão orientadas para o outro lado, pois foram construídos diferentes bairros e formaram-se novas cristas de morros e ali permaneceram as antigas muralhas. Muitas vezes você vê as ruas dos vales reconstruídas com sólidas abóbadas. As casas têm pátios e quartos voltados para o interior; em direção à rua existem apenas portas e terraços nas paredes. Geralmente as casas estão fechadas. Quando as pessoas não vão às praças, aos mercados ou ao templo, geralmente ficam entretidas dentro de suas casas. Há silêncio nas ruas, fora dos mercados ou de certos palácios, onde soldados e viajantes podem ser vistos indo e vindo. Em certos dias, quando quase todo mundo está no templo, as ruas parecem mortas. Por causa das ruas solitárias, dos vales profundos e do hábito das pessoas ficarem em suas casas, Jesus podia ir e vir com seus discípulos sem ser incomodado. Geralmente faltava água na cidade: muitas vezes vi prédios altos para onde ela era levada e torres para onde a água era bombeada. No templo tomava-se muito cuidado com a água porque muitos vasos deviam ser purificados e as roupas sacerdotais deviam ser lavadas. Grandes máquinas e dispositivos eram vistos bombeando água para lugares altos. Havia muitos comerciantes e vendedores na cidade: quase sempre estavam nos mercados ou em locais abertos, sob tendas. Vi, por exemplo, não muito longe da Porta das Ovelhas, muita gente negociando com joias, ouro, objetos brilhantes e pedras preciosas. As casinhas onde moravam eram muito claras, mas sólidas, de cor marrom, como se estivessem cobertas de piche ou betume. Lá dentro eles faziam seus negócios; Entre uma tenda e outra estavam estendidas lonas, sob as quais expunham suas mercadorias. Havia, no entanto, outros pontos da cidade onde hania maior movimento e se viam pessoas entrando e saindo perto de determinados palácios.
Comparada à Roma antiga, que vi, Jerusalém era muito mais movimentada nas ruas; Parecia melhor e não era tão irregular ou íngreme. A montanha onde se situava o templo era rodeada, no lado onde a encosta era mais suave, por casas que formavam várias ruas atrás de grossos muros. Estas casas eram construídas em terraços colocados uns sobre os outros. Lá moravam os sacerdotes e servos juniores do templo, que faziam trabalhos mais duros, como limpar as fossas, onde eram despejados os resíduos dos sacrifícios de animais. Creio que havia um lado norte onde a montanha do templo era muito íngreme. No topo, à volta do cume, existia uma área verde composta por pequenos jardins pertencentes aos sacerdotes. Mesmo na época de Jesus Cristo, o trabalho sempre era feito em alguma parte do templo. Este trabalho nunca parou. Havia muito mineral na montanha do templo, que era extraído e utilizado na construção do próprio edifício.
Sob o templo existiam poços e locais onde o metal era derretido. Não consegui encontrar um lugar neste grande templo onde pudesse orar com tranquilidade. Todo o edifício era admiravelmente maciço, alto e sólido. Os numerosos pátios eram estreitos e sombrios, cheios de andaimes e assentos. Quando havia muita gente era assustador ficar espremido entre paredes espessas e grossas colunas.
Também não gostei dos sacrifícios contínuos e do sangue derramado em abundância, mesmo que isso fosse feito com ordem e limpeza incríveis. Já fazia muito tempo que não via os edifícios, as estradas e as passagens tão claramente como hoje. Mas há tantas coisas aqui que é impossível descrevê-las em detalhes.
Os viajantes chegaram com a pequena Maria, do norte, a Jerusalém: porém, não entraram por aquele lado, mas contornaram a cidade até a muralha oriental, seguindo uma parte do vale de Josafá. Saindo do Monte das Oliveiras e do caminho para Betânia à sua esquerda, entraram na cidade pela Porta das Ovelhas, que dava acesso ao mercado dos animais. Não muito longe deste portão existia um lago onde as ovelhas destinadas ao sacrifício eram lavadas pela primeira vez. Este não era o tanque de Betseda.
O cortejo, depois de ter entrado na cidade, virou novamente à direita e entrou noutro bairro seguindo um longo vale interno dominado de um lado pelos altos muros de uma zona mais alta da cidade, atingindo a parte poente nas imediações do mercado do peixe. , onde ficava a casa paterna de Zacarias de Hebron. Estava lá um homem idoso: acho que era irmão do pai dele. Zacarias costumava voltar para casa depois de terminar o serviço no templo. Naqueles dias ele estava na cidade e, tendo terminado o seu tempo de serviço, quis ficar apenas alguns dias em Jerusalém para assistir à entrada de Maria no templo. Quando a delegação chegou, Zacarias não estava. Outros parentes da região de Belém e Hebron estavam presentes na casa, incluindo duas filhas da irmã de Isabel. Isabel também não estava lá naquele momento. Essas pessoas avançaram para receber os caminhantes até um quarto de légua ao longo da estrada do vale. Várias jovens os acompanharam carregando guirlandas e galhos de árvores. Os caminhantes foram recebidos com demonstrações de alegria e conduzidos à casa de Zacarias, onde foi comemorada sua chegada. Ofereceram-lhes refrescos e todos se prepararam para levá-los a uma pousada próxima ao templo, onde estranhos se hospedavam em dias de festa. Os animais que Joaquim havia destinado ao sacrifício já haviam sido conduzidos da área ao redor da praça do gado até os estábulos localizados perto desta casa. Zacarias também veio guiar a procissão da casa de seu pai até a pousada. Colocaram a pequena Maria em seu segundo vestido cerimonial com peplum azul claro.
Todos partiram, formando uma procissão ordenada. Zacarias estava na frente com Joaquim e Ana; depois a menina Maria rodeada de quatro meninas vestidas de branco, e as outras meninas com os pais vinham na retaguarda. Caminharam por várias ruas e passaram em frente ao palácio de Herodes e à casa onde Pilatos morou mais tarde. Seguiram em direção ao canto nordeste do templo, deixando para trás a fortaleza Antônia, um edifício muito alto, localizado a noroeste. Subiram alguns degraus abertos num muro alto. A pequena Maria subiu sozinha, com pressa alegre, sem deixar que ninguém a ajudasse. Todos olharam para ela com espanto. A casa onde se hospedaram era uma pousada de férias localizada a pouca distância do mercado de gado. Havia várias dessas pousadas ao redor do templo, e Zacarias havia alugado uma. Era um grande edifício com quatro galerias em torno de um grande pátio. Nas galerias ficavam os quartos, além de mesas compridas e muito baixas. Havia uma espaçosa sala de estar e uma lareira para a cozinha. O pátio dos animais enviados por Zacarias ficava muito próximo. Em ambos os lados do edifício viviam os servos do templo que cuidavam dos sacrifícios. Quando os estrangeiros entravam, seus pés eram lavados, como acontecia com os viajantes; as dos homens foram lavadas pelos homens; e as mulheres faziam esse serviço com as mulheres. Entraram então numa sala no meio da qual estava suspensa uma grande lâmpada com vários braços sobre um tanque de bronze cheio de água, onde lavavam o rosto e as mãos. Depois de descarregarem o burro de Joaquim, um criado levou-o ao estábulo. Joaquim havia dito que sacrificaria e acompanhou os servos do templo até o local onde estavam os animais, que eles examinaram.
Joaquim e Ana foram então com Maria para a sala dos sacerdotes, localizada mais acima. Ali a criança Maria, como que elevada pelo espírito interior, subiu os degraus com muita leveza e com um impulso extraordinário. Os dois sacerdotes que estavam na casa os receberam com grandes sinais de amizade: um era idoso e o outro mais jovem. Os dois haviam comparecido ao exame da menina em Nazaré e aguardavam sua chegada. Depois de conversarem sobre a viagem e a próxima cerimônia de apresentação, chamaram uma das mulheres do Templo. Esta era uma viúva idosa que tinha que cuidar da menina. Ela morava na vizinhança com outras pessoas da mesma condição, fazendo todo tipo de trabalho feminino e educando meninas. O seu quarto ficava mais afastado do templo do que os quartos adjacentes, onde haviam sido montados pequenos oratórios para mulheres e meninas consagradas ao serviço do Templo, de onde podiam ver o santuário sem serem vistas por outras pessoas. A matrona que acabara de chegar estava tão bem enrolada em suas vestes que mal se via seu rosto. Os sacerdotes e os pais de Maria apresentaram-na a eles, confiando-a aos seus cuidados. Ela era dignamente afetuosa, sem perder a seriedade. A menina Maria era humilde e respeitosa. Eles a instruíram em tudo relacionado à menina e sua entrada solene no templo.
Aquela mulher desceu com eles até a pousada, pegou o enxoval que era da menina e levou consigo para preparar tudo no quarto que lhe era destinado. As pessoas que acompanharam a procissão desde a casa de Zacarias voltaram para casa, deixando apenas os familiares na pousada. As mulheres instalaram-se ali e prepararam a festa que aconteceria no dia seguinte.
Joaquim e alguns homens levaram as vítimas ao Templo de madrugada e os sacerdotes as examinaram novamente. Alguns animais foram descartados e levados imediatamente para a praça de pecuária. Os aceitos eram levados ao pátio onde seriam sacrificados. Vi muitas coisas ali que não é mais possível dizer em ordem. Lembro que antes de imolar, Joaquim colocou a mão na cabeça da vítima, devendo receber o sangue em um copo e também algumas partes do animal. Havia diversas colunas, mesas e copos. Tudo foi cortado, distribuído e organizado. A espuma foi retirada do sangue e a gordura, o fígado, o baço foram postos de lado, salgando tudo isso. Os intestinos dos cordeiros eram limpos, recheados com alguma coisa e recolocados no corpo, para que o animal aparecesse inteiro, e as pernas amarradas em forma de cruz. Depois, grande parte da carne era levada para o pátio onde as jovens do Templo tinham que fazer algo com ela: talvez prepará-la como alimento para os sacerdotes ou para elas mesmas. Tudo isso foi feito com uma ordem incrível. Os sacerdotes e levitas iam e vinham, sempre dois a dois. Esse trabalho complicado e doloroso foi feito com facilidade, como se fosse feito sozinho. As peças destinadas ao sacrifício eram embebidas em sal até o dia seguinte, quando seriam oferecidas no altar.
Houve naquele dia uma grande festa na pousada, seguida de uma refeição solene.
Havia cerca de cem pessoas, incluindo crianças. Estavam presentes cerca de vinte e quatro meninas de várias idades, entre elas Serapia, que depois da morte de Jesus se chamava Verônica: era bastante alta, tinha cerca de dez ou doze anos. Coroas e guirlandas de flores foram tecidas para Maria e suas companheiras, e também foram decorados sete candelabros em forma de cetro sem pedestal. Quanto à chama que brilhava na sua extremidade, não sei se era alimentada com óleo, cera ou outra matéria. Durante a festa, numerosos sacerdotes e levitas iam e vinham. Participaram no banquete e, ao manifestarem o seu espanto pelo grande número de vítimas oferecidas em sacrifício, Joaquim disse-lhes que, eram em memória da afronta recebida no templo, quando o seu sacrifício foi rejeitado, e pela misericórdia de Deus que ele tinha ouvido em sua oração, ele queria mostrar sua gratidão de acordo com seus meios. Pude ver a pequena Maria caminhando com as outras jovens pela sua casa. Outros detalhes esqueci completamente.

XXI Apresentação de Maria no Templo

Esta manhã foram ao Templo: Zacarias, Joaquim e outros homens. Mais tarde, Maria foi carregada pela mãe em meio a um acompanhamento solene. Ana e sua filha Maria Heli, com a pequena Maria Cleofás, marcharam na frente; Em seguida veio a santa menina Maria com seu vestidinho e seu manto azul claro, os braços e o pescoço adornados com guirlandas: trazia na mão uma vela cingida de flores. Três meninas caminhavam ao lado dele com velas semelhantes. Tinham vestidos brancos, bordados com peplums dourados e azuis claros, como os de Maria, e eram rodeados de guirlandas de flores; Eles usavam outras pequenas guirlandas em volta do pescoço e dos braços. As outras jovens e meninas vieram em seguida, vestidas para a festa, embora não uniformemente. Todos usavam pequenas capas. As outras mulheres fechavam a procissão. Como não podiam ir em linha reta da pousada ao Templo, tiveram que contornar várias ruas. Todos ficaram maravilhados ao ver a bela procissão e nas portas de diversas casas prestaram homenagens. Havia algo de santo e comovente em Maria. Ao chegar a procissão vi vários servos do Templo tentando abrir com muito esforço uma porta muito alta e muito pesada, que brilhava como ouro e que tinha gravadas diversas figuras: cabeças, cachos de uvas e feixes de trigo. Era a Porta Dourada. A procissão entrou por aquela porta. Para chegar até lá foi preciso subir cinquenta degraus; Acho que houve algumas rupturas entre eles. Queriam pegar Maria pela mão; mas ela não permitiu: subiu os degraus rapidamente, sem tropeçar, cheia de entusiasmo alegre. Todos ficaram profundamente comovidos.
Sob a Porta Dourada, Maria foi recebida por Zacarias, Joaquim e alguns sacerdotes que a levaram para a direita, sob o amplo arco da porta, até às salas altas onde tinha sido preparada uma refeição em homenagem a alguém. Aqui o povo da procissão se separou. A maioria das mulheres e meninas foi para o local do Templo que estava reservado para orarem. Joaquim e Zacarias foram ao local do sacrifício. Os padres ainda fizeram algumas perguntas a Maria em uma sala e quando saíram, estavam maravilhados com a sabedoria da menina, Ana vestiu a filha com o terceiro vestido festivo, que era azul violeta, e colocou sobre ela o manto, o véu e a coroa já descritos por mim ao relatar a cerimônia que ocorreu na casa de Ana.
Enquanto isso, Joaquim foi ao sacrifício com os sacerdotes. Depois de receber fogo retirado de determinado lugar, ele se colocou entre dois sacerdotes perto do altar. Estou muito doente e distraída para explicar o sacrifício na ordem necessária. Lembro-me do seguinte: só se podia chegar ao altar por três lados. As peças preparadas para o holocausto não estavam todas no mesmo lugar, mas colocadas ao redor, em lugares diferentes.

Nas quatro extremidades do altar haviam quatro colunas ocas de metal, sobre as quais repousavam coisas que pareciam canos de chaminé. Eram largos funis de cobre que terminavam em tubos em forma de chifres, para que a fumaça pudesse escapar por cima das cabeças dos sacerdotes que ofereciam o sacrifício. Enquanto se consumia a oferta de Joaquim no altar, Ana dirigiu-se, com Maria e as jovens que a acompanhavam, ao vestíbulo reservado às mulheres. Este local era separado do altar do sacrifício por um muro que terminava no topo em uma cerca. No meio desta parede havia uma porta. O átrio feminino, a partir do muro de separação, foi elevado para que pelo menos as que estavam mais distantes pudessem ver até certo ponto o altar do sacrifício. Quando a porta na parede estava aberta, algumas mulheres puderam ver o altar. Maria e as outras jovens estavam diante de Ana, e os outros parentes estavam a uma curta distância da porta. Num local separado havia um grupo de crianças do Templo, vestidas de branco, tocando flautas e harpas.
Após o sacrifício, foi preparado um altar portátil coberto sob a porta de separação, com alguns degraus para subir. Zacarias e Joaquim foram com um sacerdote do pátio até este altar, diante do qual estavam outro sacerdote e dois levitas com pergaminhos e tudo o que era necessário para escrever. Um pouco atrás estavam as donzelas que acompanhavam Maria. Maria ajoelhou-se nos degraus; Joaquim e Ana estenderam as mãos acima da cabeça. O sacerdote cortou um pouco do cabelo dela e depois queimou-o num braseiro.
Os pais falaram algumas palavras, oferecendo a filha, e os levitas as escreveram. Enquanto isso, as meninas cantavam o Salmo 44: Eructavit cor meum verbum bonum, e os sacerdotes cantavam o Salmo 49: Deus deorum Dominus locutus est, enquanto os meninos tocavam seus instrumentos. Observei então que dois sacerdotes pegaram Maria pela mão e a conduziram por alguns degraus até um lugar alto no muro, que separava o vestíbulo do Santuário. Colocaram a menina numa espécie de nicho no centro daquela parede, para que ela pudesse ver o local onde estavam enfileirados vários homens que me pareciam consagrados ao Templo. Dois sacerdotes estavam ao seu lado; Havia outros dois nos degraus, recitando em voz alta orações escritas em pergaminhos. Do outro lado do muro estava um velho príncipe dos sacerdotes, perto do altar, num lugar alto o suficiente para que seu busto pudesse ser visto. Eu o vi apresentando o incenso, cuja fumaça se espalhou ao redor de Maria.
Durante esta cerimônia vi uma pintura simbólica em torno de Maria que logo encheu o Templo e o escureceu. Vi uma glória luminosa sob o coração de Maria e compreendi que ela continha a promessa da bênção sacrossanta de Deus. Esta glória apareceu rodeada pela arca de Noé, de modo que a cabeça de Maria foi elevada e a arca, por sua vez, tomou a forma da Arca da Aliança, vendo-a mais tarde como se estivesse encerrada no Templo. Depois vi que todas essas formas desapareciam enquanto o cálice da Santa Ceia se mostrava fora da glória, diante do peito de Maria, e mais acima, diante da boca da Virgem, aparecia um pão marcado com uma cruz. Nas laterais brilhavam raios de cujas extremidades emergiam figuras com símbolos místicos da Santíssima Virgem, como todos os nomes da Ladainha que a Igreja lhe dirige. Dois ramos de oliveira e cipreste, ou cedro e cipreste, cruzados sobre os ombros, erguiam-se acima de uma bela palmeira junto com um pequeno galho que vi aparecer atrás dela. Nos espaços dos ramos pude ver todos os instrumentos da paixão de Jesus Cristo. O Espírito Santo, representado por uma figura alada que mais parecia uma forma humana do que uma pomba, estava suspenso acima da pintura, acima da qual vi o céu aberto, o centro da Jerusalém celestial, a cidade de Deus, com todos os seus palácios, jardins e lugares de futuros santos.
Tudo estava cheio de anjos, e a glória que agora cercava a Santíssima Virgem estava cheia das cabeças desses espíritos. Ah, quem poderia descrever essas coisas com palavras humanas!... Tudo foi visto em formas tão diversas e multiformes, derivando umas das outras em transformação tão contínua, que esqueci a maior parte delas. Tudo o que se relaciona com a Virgem Santa na antiga e na nova Aliança e até na eternidade, estava ali representado. Só posso comparar esta visão com uma visão menor que tive recentemente, na qual vi em toda a sua magnificência o significado do Santo Rosário. Muitas pessoas, que se consideram sábias, compreendem isto menos do que os pobres e humildes que o recitam com simplicidade, pois estes aumentam o esplendor com a sua obediência, a sua piedade e a sua simples confiança na Igreja, que recomenda esta oração. Quando vi tudo isto, a beleza e a magnificência do Templo, com as suas paredes elegantemente decoradas, pareceram-me opacas e enegrecidas atrás da Santíssima Virgem. O próprio Templo parecia desvanecer-se e desaparecer: só Maria e a glória que a rodeava preenchiam tudo. Enquanto essas visões passavam diante dos meus olhos, deixei de ver a Santíssima Virgem em forma de menina: ela então me pareceu grande e como que suspensa no ar. No entanto, também vi, através de Maria, dos sacerdotes, o sacrifício do incenso e tudo o mais na cerimônia. Parecia que o sacerdote estava atrás dela, anunciando o futuro e convidando o povo a agradecer e rezar a Deus, porque algo muito grande sairia daquela menina. Todos aqueles que estavam no Templo, embora não tenham visto o que eu vi, ficaram recolhidos e profundamente comovidos. Esta imagem desapareceu gradualmente da mesma forma que eu a vi aparecer. No final, apenas a glória permaneceu sob o coração de Maria e a bênção da promessa brilhando dentro dela. Depois ela também desapareceu e só vi a menina Maria enfeitada entre os sacerdotes.
Os sacerdotes pegaram as guirlandas que envolviam os braços dela e a tocha que ela carregava na mão e as entregaram aos companheiros. Colocaram-lhe um véu castanho na cabeça e fizeram-na descer os degraus, levando-a para uma sala vizinha, onde seis virgens mais velhas do Templo saíram ao seu encontro, atirando-lhe flores. Atrás dele estavam seus professores, Noemi, irmã da mãe de Lázaro, a profetisa Ana e outra mulher. Os sacerdotes receberam a pequena Maria e depois se retiraram. Os pais da menina, assim como seus parentes mais próximos, estavam presentes. Terminadas as canções sagradas, Maria despediu-se dos pais. Joaquim, profundamente comovido, tomou Maria nos braços e, apertando-a contra o coração, disse entre lágrimas: “Lembra-te da minha alma diante de Deus”. Maria foi então com as professoras e várias outras jovens para os quartos das mulheres, para irem a Norte do Templo. Estes viviam em salas abertas nas espessas paredes do Templo e podiam, através de passagens e escadas, subir aos pequenos oratórios situados perto do Santuário e os familiares do Santo dos Santos regressavam ao quarto ao lado da Porta Dourada, onde anteriormente haviam parado para comer na companhia dos sacerdotes. As mulheres comiam em uma sala separada.
Esqueci, entre muitas outras coisas, por que a festa foi tão alegre e solene. Contudo, sei que foi o resultado de uma revelação da vontade de Deus. Os pais de Maria eram pessoas abastadas e se viviam mal era por espírito de mortificação e para poder dar mais esmola aos pobres. Foi assim que Ana, não sei por quanto tempo, só comia comidas frias. Apesar disso, tratavam os servos com generosidade e forneciam-lhes recursos.
Vi muitas pessoas orando no Templo. Outros seguiram a procissão até a porta. Alguns dos presentes devem ter tido uma certa premonição do destino da Menina, pois lembro-me de algumas palavras que Santa Ana, num momento de alegre entusiasmo, dirigiu às mulheres, cujo significado era: “Eis a Arca da Aliança, o vaso da Promessa, que agora entra no Templo”. Os pais de Maria e outros parentes retornaram hoje a Bete-Horom.

XXII Maria no Templo

Vi uma festa nas salas das virgens do Templo. Maria perguntou aos professores e a cada empregada em particular se queriam admiti-la entre eles, pois esse era o costume praticado. Houve uma refeição e uma festinha em que algumas meninas tocaram instrumentos musicais. À noite vi Noemi, uma das professoras, conduzindo a menina Maria até a pequena sala que lhe estava reservada e de onde ela podia ver o interior do Templo. Havia uma mesinha, um banquinho e algumas prateleiras nos cantos. Na frente deste cômodo havia espaço para o quarto, guarda-roupa e quarto de Noemi. Maria falou com Noemi sobre seu desejo de se levantar várias vezes durante a noite, mas Noemi não permitiu. As mulheres do Templo usavam vestes brancas, compridas e largas, apertadas com faixas e mangas muito largas, que reuniam para trabalhar. Elas estavam velados.
Não me lembro de ter visto Herodes reconstruir todo o Templo novamente. Só vi que durante o seu reinado foram feitas várias mudanças. Quando Maria entrou no Templo, onze anos antes do nascimento do Salvador, nenhum trabalho real foi realizado; mas, como sempre, foram feitas obras nas construções exteriores: isso nunca deixou de ser feito.
Hoje vi o quarto de Maria no Templo. No lado norte, em frente ao Santuário, existiam várias salas na parte superior que comunicavam com os quartos das mulheres. O quarto de Maria era um dos mais isolados, voltado para o Santo dos Santos. Do corredor, levantando uma cortina, entrava-se num cômodo anterior separado do quarto por uma divisória convexa ou angular. Nos cantos direito e esquerdo ficavam as divisórias para guardar roupas e objetos de uso; Diante da porta aberta desta divisória, alguns degraus conduziam a uma abertura, diante da qual havia uma tapeçaria, de onde se avistava o interior do Templo. À esquerda, encostado na parede do quarto, havia um tapete enrolado, que ao ser estendido formava a cama onde descansava a criança Maria. Uma lâmpada foi colocada em um nicho na parede, perto da qual vi a garota parada em um banquinho, lendo orações em um rolo de pergaminho. Ela usava um vestido de listras brancas e azuis, salpicado de flores amarelas. Havia uma mesa redonda baixa na sala. Vi a profetisa Ana entrar na sala e colocar sobre a mesa uma travessa com frutas da espessura de um feijão e uma ânfora. Maria tinha uma habilidade superior à sua idade: desde então eu a vi trabalhando em pequenos pedaços de tecido branco para o serviço do Templo. As paredes de seu quarto eram revestidas de pedras triangulares de diversas cores. Muitas vezes ouvi a menina dizer a Ana: “Ah, logo nascerá o Menino prometido! Ah, se eu pudesse ver o filho Redentor!”...
Ana respondeu a ela; “Já estou velha e devia esperar muito tempo por este Menino. Você, por outro lado, é tão pequena!”... Maria chorava muitas vezes pelo desejo de ver o filho Redentor. As meninas que eram educadas em. o Templo cuidavam de bordar, enfeitar, lavar e arrumar as vestes sacerdotais e limpar os utensílios sagrados do Templo.
Nos seus quartos, de onde podiam ver o Templo, rezavam e meditavam.
Elas foram consagradas ao Senhor através da dedicação que seus pais fizeram no Templo. Quando atingiram a idade apropriada, casaram-se, pois havia uma esperança silenciosa entre os piedosos israelitas de que o Messias deveria nascer de uma dessas virgens consagradas ao Senhor.
O quão cegos e duros eram os fariseus e os sacerdotes do Templo pode ser conhecido pelo pouco interesse e ignorância que demonstraram para com o povo santo com quem lidavam. Primeiro, rejeitaram o sacrifício de Joaquim sem razão. Só depois de alguns meses, por ordem de Deus, o sacrifício de Joaquim e Ana foi aceito. Joaquim chegou perto do Santuário e encontrou Ana, sem saber de antemão, conduzida pelas passagens sob o Templo pelos mesmos sacerdotes. Ali os dois cônjuges se encontram e Maria foi concebida. Outros sacerdotes esperaram por eles na saída do Templo. Tudo isso aconteceu por ordem e inspiração de Deus. Algumas vezes tenho visto que os estéreis foram levados para lá por ordem de Deus. Maria chegou ao Templo com pouco menos de quatro anos: ao longo da sua apresentação há sinais extraordinários e inusitados. A irmã da mãe de Lázaro tornou-se mestra de Maria, que apareceu no Templo com sinais tão inusitados que alguns sacerdotes idosos escreveram em grandes livros sobre esta menina extraordinária. Acredito que esses escritos ainda existam entre outros escritos, escondidos por enquanto. Mais tarde aconteceram outras maravilhas, como o florescimento da vara no casamento com José. Depois a estranha história da vinda dos três Reis Magos, dos pastores, através do chamado dos anjos. Depois, na apresentação de Jesus no Templo, o testemunho de Simeão e Ana; e o admirável feito de Jesus entre os doutores do Templo aos doze anos. Todas essas coisas extraordinárias os fariseus desprezavam e negligenciavam. Suas cabeças estavam cheias de outras ideias e assuntos seculares e governamentais. Porque a Sagrada Família vivia na pobreza voluntária, foi relegada ao esquecimento, como as pessoas comuns. Os poucos iluminados, como Simeão, Ana e outros, tiveram que permanecer em silêncio e reservar-se diante deles.
Quando Jesus iniciou a sua vida pública e João lhe deu testemunho, contradisseram-no com tal obstinação nos seus ensinamentos que os fatos extraordinários da sua juventude, se é que não os tivessem escutado, não tinham interesse em torná-los conhecidos dos outros. O governo de Herodes e o jugo dos romanos, sob o qual eles caíram, os enredaram tanto em intrigas palacianas e assuntos humanos, que todo espírito fugiu deles. Eles desconsideraram o testemunho de João e esqueceram o homem decapitado. Eles desprezavam os milagres e a pregação de Jesus. Eles tinham ideias erradas sobre o Messias e os profetas: assim puderam maltratá-lo tão barbaramente, matá-lo e depois negarem a sua ressurreição e os sinais milagrosos que ocorreram, bem como o cumprimento das profecias na destruição de "Jerusalém". A cegueira era grande naquela época, não reconhecendo os sinais da vinda do Messias, maior era a sua obstinação depois de o ver fazer milagres e ouvirem a sua pregação. Se a sua obstinação não fosse tão extraordinária, como poderia esta cegueira continuar até hoje?
Quando caminho pelas ruas da atual Jerusalém para fazer a Via Sacra, muitas vezes vejo, sob um edifício em ruínas, um grande arco que está parcialmente demolido e parcialmente cheio de água. A água chega agora ao tampo da mesa, no meio da qual se ergue uma coluna, em torno da qual estão penduradas caixas cheias de pergaminhos escritos. Debaixo da mesa também há pergaminhos na água. Estes subterrâneos devem ser sepulcros: estendem-se até ao Monte Calvário. Acho que é a casa onde Pilatos morava. Esse tesouro de escritos será descoberto no devido tempo.
Vi a Santíssima Virgem no Templo, às vezes no quarto das mulheres com as outras meninas, outras vezes no seu pequeno quarto, crescendo no meio do estudo, da oração e do trabalho, enquanto fiava e tecia para o serviço do templo. Maria lavava as roupas e limpava os vasos sagrados. Como todos os santos, ele só comia para seu próprio sustento, nunca provando outros alimentos além daqueles aos quais havia prometido se limitar. Muitas vezes pude vê-la dedicada à oração e à meditação. Além das orações vocais prescritas no Templo, a vida de Maria foi uma aspiração incessante à redenção, uma oração interior contínua. Fez tudo isso com grande serenidade e em segredo, levantando-se da cama e invocando o Senhor quando todos dormiam. Às vezes eu a via chorando, brilhando, durante a oração. Maria rezava com o rosto velado. Ela também se cobria quando falava com os sacerdotes ou descia a uma sala vizinha para receber seu trabalho ou entregar o que havia terminado. Em três lados do Templo ficavam essas salas, que pareciam semelhantes às nossas sacristias. Nelas ficavam guardados os objetos que as responsáveis tinham que cuidar ou confeccionar.
Vi Maria em estado de êxtase contínuo e de oração interior. Sua alma não parecia estar na terra e muitas vezes recebia consolações celestiais.
Suspirava continuamente pelo cumprimento da promessa e na sua humildade mal conseguia formular o desejo de ser a última entre as servas da Mãe do Redentor.
A professora que cuidava dela era Noemi, irmã da mãe de Lázaro. Ela tinha cinquenta anos e pertencia à sociedade dos essênios, assim como às mulheres acrescentadas ao serviço do Templo. Maria aprendeu a trabalhar ao seu lado, acompanhando-a na limpeza das roupas e vasos manchados com o sangue dos sacrifícios; Distribuiu e preparou porções da carne das vítimas reservadas aos sacerdotes e às mulheres. Mais tarde, ela passou a cuidar mais ativamente das tarefas domésticas. Quando Zacarias estava de serviço no Templo, ele a visitava com frequência; Simeão também a conhecia. Os destinos para os quais Maria foi chamada não podiam ser totalmente desconhecidos dos sacerdotes. Seu jeito de ser, seu porte,
sua infinita graça, sua extraordinária sabedoria, eram tão notáveis que nem mesmo sua extrema humildade conseguia esconder.

XXIII O nascimento de João é anunciado a Zacarias

Vi Zacarias conversando com Isabel, confidenciando-lhe a dor que lhe causou ter que ir cumprir o seu serviço no Templo de Jerusalém, devido ao desprezo com que foi tratado devido à esterilidade do seu casamento.
Zacarias estava de serviço duas vezes por ano: eles não moravam em Hebron, mas a uma légua de distância, em Juta. Entre Juta e Hebron permaneceram muitas muralhas antigas; talvez em outros tempos esses dois lugares tivessem sido unidos. Do outro lado de Hebron havia muitos edifícios espalhados, como restos da antiga cidade que já havia sido tão grande quanto Jerusalém. Os sacerdotes que viviam em Hebron eram menos elevados em dignidade do que os que viviam em Juta. Zacarias era, portanto, o líder deste último e gozava, como Isabel, do maior respeito por causa de sua virtude e da pureza de sua linhagem de Aarão, seu ancestral. Vi Zacarias visitar, com vários sacerdotes do país, uma pequena propriedade sua perto de Juta. Era um pomar com árvores frutíferas e uma pequena casa. Zacarias orou ali com seus companheiros, dando-lhes então instruções e preparando-os para o serviço do Templo que iria acontecer com eles. Também o ouvi falar de sua aflição e do pressentimento de algo que lhe aconteceria. Zacarias marchou com aqueles sacerdotes para Jerusalém, onde esperou quatro dias até chegar a sua vez de oferecer sacrifícios. Durante esse tempo ele orou continuamente no Templo. Quando chegou a sua vez de apresentar o incenso, vi-o entrar no Santuário, onde ficava o altar dos perfumes em frente à entrada do Santo dos Santos. Acima dele o telhado estava aberto, de modo que o céu podia ser visto. O sacerdote não era visível do lado de fora. Ao entrar, outro sacerdote lhe disse algo, saindo imediatamente.
Quando Zacarias ficou sozinho, vi-o levantar uma cortina e entrar num lugar escuro. Ele pegou algo e colocou no altar, acendendo o incenso.
Naquele momento pude ver, à direita do altar, uma luz descendo em sua direção e uma forma brilhante se aproximando. Assustado, tomado de êxtase, vi-o cair em direção ao altar. O anjo o pegou, falou muito com ele e Zacarias respondeu. Acima de sua cabeça o céu estava aberto e dois anjos subiam e desciam como se estivessem em uma escada. O cinto de Zacarias foi retirado, deixando suas roupas entreabertas; Vi que um dos anjos parecia retirar algo de seu corpo enquanto o outro colocava um objeto luminoso ao seu lado. Tudo isto se assemelha ao que aconteceu quando Joaquim recebeu a bênção do anjo para a concepção da Santíssima Virgem.
Era costume dos sacerdotes sair do Santuário imediatamente após acenderem o incenso. Como Zacarias demorou muito para sair, o povo, que estava orando lá fora, esperando, começou a ficar inquieto; Mas Zacarias, quando saiu, estava mudo e vi que ele escreveu algo numa tabuinha. Quando ele saiu para o saguão, muitas pessoas se reuniram ao seu redor perguntando o motivo do atraso; mas ele não conseguia falar e, fazendo sinais com a mão, mostrava a boca. A tabuinha escrita, que enviou imediatamente à Juta para casa de Isabel, anunciando que Deus lhe tinha feito uma promessa e ao mesmo tempo dizia-lhe que tinha perdido o uso da fala. Depois de algum tempo ele voltou para casa. Isabel também recebeu uma revelação, da qual não me lembro agora. Zacarias era um homem de alta estatura, grande e de porte majestoso.

XXIV Detalhes sobre São José

José, cujo pai se chamava Jacó, era o terceiro entre seis irmãos. Seus pais moravam em um grande prédio localizado pouco antes de chegar a Belém, que já fora a casa paterna de Davi, cujo pai, Jessé, era o proprietário. No tempo de José, quase nada restava, exceto as largas paredes daquela antiga construção. Acho que conheci esta casa melhor do que a nossa aldeia de Flamske. Na frente da casa havia um pátio frontal cercado por galerias abertas como a fachada das casas da Roma antiga. Em suas galerias pude ver figuras semelhantes a cabeças de personagens antigos. De um lado do pátio havia uma fonte sob uma pequena construção de pedra, de onde a água saía da boca dos animais. A casa não tinha janelas no térreo, mas tinha aberturas redondas no andar superior. Eu vi uma porta de entrada.
Uma ampla galeria circundava a casa, em cujos cantos havia quatro torreões semelhantes a grossas colunas, cada uma terminando numa espécie de cúpula, onde se destacavam pequenas flâmulas. Pelas aberturas daquelas pequenas cúpulas, às quais se chegava por escadas abertas nas torres, via-se ao longe, sem ser visto. Havia pequenas torres como estas no palácio de Davi em Jerusalém; Era da cúpula de um deles que ele pôde olhar para Bersabéia enquanto ela tomava banho. No topo da casa, a galeria circundava um piso baixo, cujo telhado plano sustentava uma construção terminada numa outra pequena torre. José e os seus irmãos viviam na parte superior com um velho judeu, seu tutor.
Dormiam em torno de um quarto colocado no centro, que dominava a galeria. Suas camas consistiam em colchas enroladas contra a parede durante o dia, separadas umas das outras por esteiras móveis. Eu os vi brincando no quarto deles. Vi também os pais, que tinham pouco relacionamento com os filhos. Eles não pareciam nem bons nem ruins para mim. José tinha oito anos ou mais. De natureza muito diferente dos irmãos, era muito inteligente, e aprendia tudo com muita facilidade, apesar de ser simples, pacífico, piedoso e sem ambições. Seus irmãos o tornavam vítima de todo tipo de pegadinha e às vezes o maltratavam.
Aqueles meninos tinham pequenos jardins divididos em compartimentos: neles vi muitas plantas e arbustos. Vi que os irmãos de José muitas vezes iam secretamente e causavam destruição em seus campos, fazendo-o sofrer muito. Muitas vezes o vi sob a galeria do pátio, de joelhos, rezando com os braços estendidos. Acontecia então de seus irmãos se aproximarem sorrateiramente por trás dele lhe batessem. Enquanto estava de joelhos, um deles bateu-lhe pelas costas e, como José não pareceu notar, voltou a bater-lhe com tanta insistência que o pobre José caiu para a frente no chão. Com isso entendi que José deve ter ficado em êxtase durante a oração. Ao acordar, não deu sinais de ficar chateado, nem pensou em se vingar: procurou outro canto isolado para continuar sua oração.
Os pais também não lhe demonstravam muito carinho. Eles gostariam que ele usasse seu talento para conquistar uma posição no mundo; mas José não aspirava a nada disso. Os pais achavam José muito simples e rotineiro; Parecia-lhes errado que ele gostasse tanto da oração e do trabalho manual.
Em outra época, quando deveria ter doze anos, muitas vezes o vi fugir dos aborrecimentos dos irmãos, indo para o outro lado de Belém, não muito longe do que mais tarde se tornou a gruta da manjedoura, e parando ali por algum tempo próximo a algumas mulheres piedosas pertencentes à comunidade dos essênios. Essas mulheres viviam perto de uma pedreira aberta na colina acima da qual ficava Belém, em cavernas escavadas na mesma rocha. Eles cultivavam pequenos jardins adjacentes e ensinavam outras crianças dos essênios. Muitas vezes vi o pequeno José, enquanto recitavam orações escritas num pergaminho à luz da lâmpada suspensa na rocha, buscar refúgio perto delas para escapar das perseguições de seus irmãos. Também o vi parar nas grutas, uma das quais mais tarde seria o berço do Redentor. Ele orava sozinho ali ou se ocupava em fazer pequenos objetos de madeira. Um velho carpinteiro tinha a sua oficina nas proximidades dos essênios. José ia lá com frequência e aos poucos aprendeu esse ofício, no qual progrediu com facilidade por ter estudado um pouco de geometria e desenho com seu tutor. Por fim, os aborrecimentos dos irmãos impossibilitaram que ele morasse junto na casa do pai. Um amigo que morava perto de Belém, numa casa separada da dos pais por um pequeno riacho, deu-lhe roupas com as quais ele pudesse se disfarçar e sair da casa dos pais à noite para ganhar a vida em outro lugar. Ele teria então entre dezoito e vinte anos. Vi-o pela primeira vez a trabalhar na casa de um carpinteiro na Libona, onde se pode dizer que aprendeu o ofício. A casa do seu patrono foi construída contra muros que conduziam a um castelo em ruínas, ao longo do cume de uma montanha. Muitas pessoas pobres da região construíram suas casas naquele muro. Ali vi José trabalhando longos pedaços de madeira, encerrados entre grandes paredes, onde a luz penetrava pelas aberturas superiores. Essas peças formavam molduras nas quais deveriam caber divisórias de pau-a-pique. Seu empregador era um homem pobre que não fazia nada além de trabalhos rústicos e de baixo valor. José era piedoso, simples e bom; todos o queriam. Sempre o vi, com perfeita humildade, prestar todo tipo de serviço ao patrão, recolhendo aparas, juntando pedaços de madeira e carregando-os nos ombros. Mais tarde, certa vez, ele passou por esses lugares na companhia de uma liária e creio que visitou com ela sua antiga oficina.
Enquanto isso, seus pais acreditavam que José havia sido assaltado por bandidos.
Então vi que seus irmãos descobriram onde ele estava e o repreenderam fortemente, porque tinham muita vergonha da condição baixa em que ele se colocara. José quis ficar naquela condição, por humildade; Mas ele deixou aquele lugar e foi trabalhar em Taanac, perto de Megido, à beira de um pequeno rio, o Quisom, que deságua no mar. Este lugar não fica longe de Afeké, cidade natal do apóstolo São Tomé. Lá ele morava na casa de um patrono bastante rico, onde eram feitos trabalhos mais delicados. Mais tarde, vi-o trabalhar em Tiberíades para outro empregador, vivendo sozinho numa casa à beira do lago. Ele teria cerca de trinta anos então. Seus pais morreram em Belém, onde ainda moravam dois de seus irmãos. Os outros se dispersaram. A casa paterna deixou de ser propriedade da família, ficando completamente arruinada. José era muito piedoso e orava pela breve vinda do Messias. Enquanto um dia estava ocupado organizando um oratório perto de seu quarto, para poder rezar em completa solidão, um anjo lhe apareceu, ordenando-lhe que suspendesse os trabalhos: assim como em outros tempos Deus havia confiado ao patriarca José a administração dos celeiros do Egito, agora o celeiro que continha a colheita da Salvação deveria ser confiado à sua guarda paterna. José, na sua humildade, não compreendeu estas palavras e continuou a rezar com grande fervor até que lhe foi ordenado ir ao Templo de Jerusalém para se tornar, por força de uma ordem do alto, esposo da Santíssima Virgem. Antes nunca o tinha visto casado, pois vivia muito retraído e evitava a companhia de mulheres.

XXV Casamento da Virgem Maria com São José

Enquanto isso, Maria vivia no Templo com muitas outras jovens sob a custódia das piedosas matronas, ocupadas com bordados, tecelagem e trabalho para as cortinas do Templo e paramentos sacerdotais. Também limpavam roupas e outros objetos destinados ao culto divino.
Quando atingiam a maioridade, elas se casavam. Os seus pais tinham-nas entregado completamente a Deus e entre os israelitas mais piedosos havia uma premonição de que um desses casamentos produziria o advento do Messias. Quando Maria tinha quatorze anos e logo teve que deixar o Templo para se casar, junto com outras sete jovens, vi Santa Ana visitá-la no Templo. Quando anunciaram a Maria que ela deveria sair do Templo para se casar, vi-a profundamente emocionada, declarando ao sacerdote que não desejava sair do Templo, pois havia se consagrado apenas a Deus e não tinha inclinação para o casamento. A tudo isso lhe foi respondido que deveria aceitar um marido.” “Mais tarde eu a vi em seu oratório, orando a Deus com grande fervor. Lembro-me que, com muita sede, ela desceu com o seu pequeno jarro para ir buscar água a uma fonte ou reservatório, e que ali, sem aparência visível, ouviu uma voz que a consolou, fazendo-a saber ao mesmo tempo que era necessário aceitar este casamento. Esta não foi a Anunciação, que pude ver mais tarde em Nazaré. Pensei, porém, que desta vez tinha visto o aparecimento de um anjo. Na minha juventude, às vezes confundi este acontecimento com a Anunciação, acreditando que tinha acontecido no Templo.
Vi um sacerdote muito velho, que não conseguia andar: devia ser o Sumo Pontífice. Foi levado por outros sacerdotes ao Santo dos Santos e enquanto acendia um sacrifício de incenso leu as orações num rolo de pergaminho colocado numa espécie de púlpito. Apanhado em êxtase, teve uma aparição e seu dedo foi levado sobre o pergaminho ao seguinte trecho de Isaías: "Um broto surgirá da raiz de Jessé e uma flor crescerá dessa raiz." Quando o velho voltou a si, ele leu esta passagem e teve conhecimento de algo sobre isso.
Então foram enviados mensageiros a todas as regiões do país convocando todos os homens da raça de Davi que não eram casados ao Templo.
Quando vários deles estavam reunidos no Templo, em trajes festivos, Maria lhes foi apresentada. Entre eles vi um jovem muito piedoso de Belém, que tinha pedido a Deus, com grande fervor, o cumprimento da promessa: no seu coração vi um grande desejo de ser escolhido como esposo de Maria.
Quanto a esta, voltou para a cela e derramou muitas lágrimas, sem sequer poder imaginar que permaneceria sempre virgem.
Depois disso vi o Sumo Sacerdote, obedecendo a um impulso interior, apresentar alguns ramos aos presentes, ordenando a cada um que marcasse um com seu nome e o segurasse na mão durante a oração e o sacrifício. Depois de fazerem isso, os ramos foram novamente tirados de suas mãos e colocados num altar diante do Santo dos Santos, e foi-lhes anunciado que aquele entre eles cujo ramo florescesse seria aquele designado pelo Senhor para ser o marido de Maria de Nazaré. Enquanto os ramos estavam em frente ao Santo dos Santos, o sacrifício continuou e a oração continuou. Durante este tempo vi o jovem, cujo nome vocês devem lembrar, invocar a Deus numa sala do Templo, com os braços estendidos, e derramar lágrimas quentes, quando depois da hora marcada os ramos lhes foram devolvidos "anunciando-lhes que nenhum deles havia sido designado por Deus para ser esposo daquela Virgem. Os homens voltaram para suas casas e o jovem retirou-se para o Monte Carmelo, junto com os sacerdotes que ali viviam desde o tempo de Elias, ficando com eles e orando continuamente. para o cumprimento da promessa.
Então vi os sacerdotes do Templo pesquisando novamente os registros familiares para ver se havia algum descendente da família de Davi que não tivesse sido chamado!12 Encontraram a indicação de seis irmãos que moravam em Belém, sendo um deles desconhecido e ausente há muito tempo. Procuraram a casa de José, descobrindo-a a pouca distância de Samaria, num lugar perto de um riacho. Ele morava na margem do rio e trabalhava sob as ordens de um carpinteiro. Obedecendo às ordens do Sumo Sacerdote, José foi a Jerusalém e apareceu no Templo. Enquanto oravam e ofereciam sacrifícios, colocaram também um bastão em suas mãos, e no momento em que ele se preparava para colocá-lo no altar, em frente ao Santo dos Santos, brotou uma flor branca, semelhante a um lírio; e pude ver uma aparição luminosa descer sobre ele: era como se naquele momento José tivesse recebido o Espírito Santo. Assim se soube que este era o homem designado por Deus para ser desposado com Maria Santíssima, e os sacerdotes o apresentaram a Maria, na presença de sua mãe. Maria, resignada com a vontade de Deus, aceitou-a humildemente, sabendo que Deus tudo poderia fazer, pois havia recebido o voto dela de pertencer somente a Ele. As bodas de Maria e José, que duraram de seis a sete dias, foram celebradas em Jerusalém. numa casa localizada perto do Monte Sião, que muitas vezes era alugada para essas ocasiões. Além dos professores de Maria e colegas da escola do Templo, compareceram muitos parentes de Joaquim e Ana, entre outros um casal de Gofna com duas filhas. Os casamentos eram solenes e suntuosos, e muitos cordeiros eram oferecidos e sacrificados no Templo.
Pude ver Maria muito bem em seu vestido de noiva. Ela usava uma túnica bem larga, aberta na frente, com mangas largas. Tinha fundo azul, com grandes rosas vermelhas, brancas e amarelas, misturadas com folhas verdes, como as ricas casulas dos tempos antigos. A borda inferior foi decorada com franjas e borlas. Por cima do terno ela usava um peplum azul claro semelhante a um pano grande. Além desse manto, as mulheres judias costumavam usar algo parecido com um casaco de luto com mangas em certas ocasiões. O manto de Maria caia sobre seus ombros, virando-se para a frente em ambos os lados e terminando em cauda. Na mão esquerda ela carregava uma pequena coroa de rosas de seda brancas e vermelhas; À direita ele tinha, como um cetro, um lindo castiçal de ouro sem pés, com uma pequena bandeja em cima, na qual ardia algo que produzia uma chama esbranquiçada.
As jovens do Templo arrumaram os cabelos de Maria, terminando o cocar em muito pouco tempo. Ana trouxera o vestido de noiva e Maria, na sua humildade, não quis vesti-lo depois do noivado. Seu cabelo estava preso em volta da cabeça, de onde pendia um véu branco que caía abaixo dos ombros. Uma coroa foi colocada sobre este véu. Os cabelos de Maria eram abundantes, loiros dourados, com sobrancelhas altas e pretas, olhos grandes com pálpebras geralmente entrecerradas com longos cílios pretos, um nariz lindo e levemente alongado, uma boca nobre e graciosa e um queixo fino. Sua altura era média. Vestida com seu lindo vestido, seu andar era cheio de graça, decência e seriedade. Ele então se vestiu para o casamento com outro traje menos ornamentado, do qual tenho um pequeno pedaço que guardo entre minhas relíquias. Ela usou este traje listado em Caná e em outras ocasiões solenes. Às vezes ela vestia novamente o vestido de noiva quando ia ao Templo.
Pessoas ricas trocavam de vestido três ou quatro vezes em casamentos. Naquele vestido de gala, Maria fez-me lembrar algumas mulheres ilustres de outros tempos, por exemplo Santa Helena e Santa Cunegunda, embora delas se distinguisse pelo manto com que se envolviam as mulheres judias, mais semelhante ao das damas romanas. Havia em Sião, nas proximidades do Cenáculo, algumas mulheres que preparavam lindos tecidos de todos os tipos, como vi nas suas roupas. José vestia um terno azul longo e muito espaçoso, com mangas largas presas nas laterais por cadarços.
Em volta do pescoço ele usava uma capa marrom, ou melhor, uma estola larga, e duas tiras brancas penduradas no peito.
Vi todos os detalhes do noivado de Maria e José: a refeição nupcial e as outras solenidades; mas vi muitas outras coisas ao mesmo tempo. Sinto-me tão mal, tão perturbado de mil maneiras diferentes, que não me atrevo a dizer mais nada para não introduzir confusão nestas histórias.

XXVI A aliança de casamento de Maria

Vi que a aliança de casamento de Maria não era de ouro, nem de prata, nem de qualquer outro metal. Era de uma cor escura com reflexos mutáveis. Também não era um círculo pequeno e fino, mas bastante grosso, com a largura de um dedo. Vi tudo liso, embora estivesse embutido com pequenos triângulos regulares nos quais havia letras. Vi que estava bem guardado sob muitas fechaduras em uma bela igreja. Haviam pessoas piedosas que, antes de celebrarem o seu casamento, tocaram esta preciosa relíquia com as suas alianças.
Nos últimos dias aprendi muitos detalhes relativos à história da aliança de casamento de Maria; mas não consigo relatá-lo na ordem correta.
Eu vi uma festa em uma cidade da Itália onde este anel era guardado. Estava exposto numa espécie de viril, acima do tabernáculo. Havia um grande altar embelezado com ornamentos de prata. Muitas pessoas traziam seus anéis para fazê-los tocar na ostensório. Durante esta festa, vi Maria e José aparecerem em ambos os lados do altar circular com suas roupas de casamento.
Pareceu-me que José colocou o anel no dedo de Maria. Naquele momento vi o anel todo luminoso, como se estivesse em movimento. À esquerda e à direita do altar, vi outros dois altares, que provavelmente não ficavam na mesma igreja; mas eles me foram mostrados lá nesta visão13. No altar direito havia uma imagem do Ecce Homo, que um piedoso magistrado romano, amigo de São Pedro, havia milagrosamente recebido. No altar esquerdo estava uma das mortalhas de Nosso Senhor.
Terminadas as bodas, Ana voltou para Nazaré, e Maria também partiu na companhia de várias virgens que haviam deixado o Templo ao mesmo tempo que ela. Não sei até onde acompanharam Maria: só me lembro que o primeiro lugar onde pararam para pernoitar foi na escola dos levitas de Bete-Horom. Maria fez a viagem a pé. Depois do casamento, José tinha ido a Belém para resolver alguns assuntos familiares. Mais tarde mudou-se para Nazaré.

XXVII A casa de Nazaré

Vi uma festa na casa de Santa Ana. Vi seis convidados lá, sem contar os parentes da casa e algumas crianças reunidas com José e Maria em torno de uma mesa, sobre a qual havia copos. A Virgem tinha um manto com flores vermelhas, azuis e brancas, como se vê nas antigas casulas. Ela usava um véu transparente e um preto por cima. Parecia uma continuação da festa de casamento. O meu guia levou-me à casa de Santa Ana, que reconheci imediatamente com todos os seus detalhes. Não encontrei José nem Maria lá. Vi que Santa Ana se preparava para ir para Nazaré, onde agora vivia a Sagrada Família. Ele carregava um pacote para Maria debaixo do braço. Para ir a Nazaré teve que atravessar uma planície e depois um bosque, em frente a uma colina. Eu segui o mesmo caminho. A casa de José não ficava longe dos portões da cidade e não era tão grande quanto a de Santa Ana.
No bairro havia um poço quadrangular ao qual se descia por alguns terraços em frente à casa havia um pequeno pátio quadrado; Vi Ana visitando Maria e entregando-lhe o que ela havia trazido para ela, voltando depois para sua casa. Maria chorou muito e acompanhou sua santa mãe durante parte do caminho. Vi São José na frente de casa, num lugar um tanto isolado.
A casinha de Nazaré, que Ana havia preparado para Maria e José, pertencia a Santa Ana. Ela podia chegar lá de sua casa sem ser observada, por estradas perdidas, em meia hora de caminhada. A casinha não ficava longe do portão da cidade. Havia um pequeno pátio em frente a ela. Ficava num pequeno morro, não construído nem escavado, mas separado do morro dos fundos, e ao qual conduzia um caminho estreito escavado na mesma rocha. Nas traseiras tinha uma abertura no topo, em forma de janela, que dava para o topo do morro. Estava bastante escuro atrás da casa. A parte de trás da casa era triangular e mais alta que a anterior.
A parte inferior foi escavada na pedra; A parte superior era feita de materiais leves. Ao fundo ficava o quarto de Maria: ali aconteceu a Anunciação do Anjo. Esta peça tinha formato semicircular devido às divisórias de junco grosseiramente tecidas, que cobriam as paredes traseiras em vez das telas de luz que eram utilizadas. As divisórias que cobriam as paredes tinham desenhos de diversos formatos e cores. A cama de Maria ficava do lado direito; atrás de uma divisória tecida. Do lado esquerdo ficava o armário e a mesinha com escabelo: era o lugar de oração de Maria. A parte de trás da casa era separada das restantes pela lareira, que era uma parede no meio da qual subia uma chaminé até ao telhado. A chaminé saía pela abertura do telhado, terminando num pequeno telhado. Mais tarde vi dois sininhos pendurados no final desta chaminé. À direita e à esquerda havia duas portas com três degraus que davam para o quarto de Maria. Nas paredes da lareira haviam vários espaços abertos com utensílios domésticos e outros objetos que ainda vejo na casa de Loreto. Atrás da lareira havia um suporte de cedro, ao qual estava fixada a parede da lareira com a chaminé. Deste suporte plantado verticalmente saía outro pelo meio da parede posterior, onde outros foram inseridos em ambos os lados. A cor dessas madeiras era azulada com decorações amarelas. Através deles dava para ver o telhado, coberto por dentro com folhas e esteiras; Nos cantos haviam decorações de estrelas. A estrela no canto central era grande e parecia representar a estrela da manhã. Mais tarde vi mais estrelas lá. O candeeiro pendia do suporte horizontal que saía da lareira e ia até à parede posterior através de uma abertura exterior. Debaixo da chaminé havia outro suporte.
A cobertura exterior não era pontiaguda, mas sim plana, para que se pudesse caminhar sobre ela, pois estava protegida por um parapeito à volta daquela cobertura.
Quando a Santíssima Virgem, após a morte de São José, deixou a casinha de Nazaré e foi morar perto de Cafarnaum, a casa começou a ser decorada, preservando-a como local sagrado de oração. Maria peregrinava frequentemente desde Cafarnaum para visitar o lugar da Encarnação e dedicar-se à oração.
Pedro e João, quando iam para a Palestina, costumavam visitar a casinha para consagrar ali, pois havia sido instalado um altar no local onde ficava a casa. O pequeno armário que Maria usou foi colocado na mesa do altar como tabernáculo.

XXVIII A santa casa de Loreto

Muitas vezes tive a visão da transferência da santa casa para Loreto. Eu não conseguia acreditar, apesar de ter visto isso repetidamente em visões.
Eu a vi carregada por sete anjos, que flutuaram com ela sobre o mar. Não tinha chão, mas em vez do chão havia uma base de luz e clareza.
Tinha alças em ambos os lados. Três anjos a seguravam de lado; outros três do outro, carregando-a pelo ar. Um dos anjos voava à frente, lançando um grande rastro de luz e brilho. Lembro-me de ver a parte de trás da casa sendo levada para a Europa, com a lareira e a chaminé, com o altar do apóstolo e a janelinha. Parece-me, quando penso nisso, que as outras partes da casa estavam ligadas a esta parte e que ficaram quase em estado de cair sozinhas. Vi também em Loreto a cruz que Maria usou em Éfeso: era feita de vários tipos de madeira. Mais tarde, os apóstolos a possuíram. Muitas maravilhas foram realizadas através desta cruz. As paredes da santa casa de Loreto eram absolutamente iguais às de Nazaré. Os suportes que estavam sob a lareira são os mesmos. A imagem milagrosa de Maria está agora no altar dos apóstolos.

XXIX A Anunciação do Anjo

Tive uma visão da Anunciação de Maria no dia daquela festa. Vi a Santíssima Virgem logo após o seu casamento, na casa de São José, em Nazaré. José tinha saído com dois burros para trazer algo que havia herdado ou para procurar as ferramentas de seu ofício. Pareceu-me que ele ainda estava a caminho. Além da Virgem e de duas jovens da sua idade que tinham sido, creio, suas companheiras no Templo, vi Santa Ana em casa com aquele parente viúvo que estava ao seu serviço e que mais tarde a acompanhou a Belém depois do nascimento de Jesus. Santa Ana havia reformado tudo na casa. Vi as quatro mulheres entrando e saindo, passeando juntas no pátio. Ao entardecer, vi-os entrar e rezar em volta de uma pequena mesa redonda; Depois comeram legumes e se separaram. Santa Ana ainda andava de um lugar para outro da casa, como uma mãe de família ocupada com os afazeres domésticos. Maria e as duas jovens retiraram-se para quartos separados. A frente do quarto, em direção à porta, era redonda, e nesta parte circular, separada por uma divisória da altura de um homem, estava enrolada a cama de Maria.
Fui levada até aquela sala pelo jovem resplandecente que sempre me acompanhou, e vi ali o que vou contar da maneira que uma pessoa tão miserável como eu poderia fazer.
Quando a Santíssima Virgem entrou, atrás do biombo da cama, vestiu um longo vestido de lã branca com cinto largo e cobriu a cabeça com um véu branco-amarelado. O criado entrou com luz, acendeu uma luminária de vários braços pendurada no teto e saiu. A Virgem pegou uma mesa baixa encostada na parede e colocou-a no centro da sala. A mesa estava coberta com uma pasta vermelha e azul, no meio da qual havia uma figura bordada: não sei se era uma carta ou simplesmente um enfeite. Sobre a mesa havia um rolo de pergaminho escrito. A Virgem, tendo-o colocado entre a sua cama e a porta, num local onde o chão era coberto por um tapete, colocou à sua frente uma pequena almofada redonda, sobre a qual se ajoelhou, apoiando-se na mesa com as duas mãos. Maria cobriu o rosto e juntou as mãos na frente do peito, sem cruzar os dedos. Durante muito tempo vi-a rezar com ardor, com o rosto voltado para o céu, invocando a Redenção, a vinda do Rei prometido a Israel, e pedindo fervorosamente que lhe fosse permitido participar naquela missão.
Ela ficou muito tempo ajoelhada, transportada em êxtase; então ela abaixou a cabeça sobre o peito.
Então, do teto da sala, do lado direito, numa linha um tanto oblíqua, desceu um raio de luz tão grande que fui obrigada a voltar os olhos para a porta do pátio. Vi, no meio daquela massa de luz, um jovem resplandecente, de cabelos louros esvoaçantes, que havia descido diante de Maria, pelos ares. Era o Arcanjo Gabriel. Quando ele falou, vi as palavras saindo de sua boca como se fossem letras de fogo: li e entendi. Maria inclinou a cabeça velada um pouco para a direita. Contudo, em sua modéstia, ele não olhou para o anjo. O Arcanjo continuou falando. Maria então virou o rosto para ele, como se obedecesse a uma ordem, levantou um pouco o véu e respondeu. O anjo disse mais algumas palavras. Maria levantou completamente o véu, olhou para o anjo e pronunciou as sagradas palavras: “Eis que sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”...
Maria estava em profundo êxtase. A sala estava brilhando e eu não conseguia mais ver a luminária do teto ou o próprio teto. O céu apareceu aberto e meu olhar seguiu um caminho luminoso acima do anjo. No extremo daquele rio de luz erguia-se uma figura da Santíssima Trindade: era como um brilho triangular, cujos raios se penetravam. Reconheci ali Aquilo que só pode ser adorado sem nunca entendê-lo: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e ainda um Deus Todo-poderoso.
Quando a Santíssima Virgem disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, vi uma aparência alada do Espírito Santo, que não se parecia com a representação habitual em forma de pomba: a cabeça lembrava um rosto humano ; a luz se derramava para os lados em forma de asas. Vi três eflúvios luminosos dali para o lado direito da Virgem, onde se encontraram novamente. Quando esta luz penetrou em seu lado direito, a própria Virgem Santa tornou-se luminosa e. como se fosse transparente: Parecia que tudo o que havia de opaco nela desaparecia sob aquela luz, como na noite anterior ao dia esplêndido. Estava tão penetrada pela luz que não havia nada de opaco ou escuro nela. Brilhava como se tivesse sido completamente. iluminada.
Depois disso vi que o anjo desapareceu e que a faixa luminosa da qual ele veio desapareceu. Parecia que o céu sugava e devolvia para si a luz que deixara cair. Ao ver todas essas coisas no quarto de Maria tive uma impressão pessoal de natureza singular. Eu estava em constante angústia, como se me esperassem emboscadas perigosas, e vi uma serpente horrível rastejando pela casa e subindo os degraus da porta, onde havia parado quando a luz penetrou na Santíssima Virgem. O monstro já havia alcançado o terceiro degrau. Aquela cobra era do tamanho de uma criança, com cabeça larga e achatada, e na altura do peito tinha duas pernas curtas e membranosas, com garras nas pontas, sobre as quais repousava, parecendo asas de morcego. Tinha manchas de cores diferentes, de aparência repugnante; Parecia a serpente do Paraíso  Terrenal, mas de aparência mais deformada e assustadora. Quando o anjo desapareceu da presença da Virgem, ela pisou na cabeça do monstro que estava em frente à porta, que soltou um grito tão horrível que me fez estremecer. Depois vi três espíritos aparecerem e espancarem o odioso réptil, expulsando-o de casa.
Sem o anjo, vi Maria extasiada em profundo êxtase, em absoluta lembrança. Pude perceber que ele já conhecia e adorava em si mesmo a Encarnação do Redentor, onde se encontrava como um pequeno corpo humano luminoso, completamente formado e dotado de todos os seus membros.
Aqui, em Nazaré, não é o mesmo que em Jerusalém, onde as mulheres devem permanecer no átrio, não podendo entrar no Templo, porque só os sacerdotes têm acesso ao Santuário. Em Nazaré, a própria Virgem era o Templo: o Santo dos Santos estava nela, assim como o Sumo Sacerdote, e Ela estava sozinha com Ele. Como tudo isso é comovente e ao mesmo tempo natural e simples! Cumpriram-se as palavras do Salmo 45: “O Altíssimo santificou o seu tabernáculo; Deus está no meio dele e não será abalado”.
Era por volta da meia-noite quando presenciei todo esse espetáculo.
Depois de algum tempo Ana entrou no quarto de Maria com as outras mulheres. Um movimento admirável da natureza os despertou: uma luz maravilhosa apareceu acima da casa. Quando viram Maria de joelhos, sob a lâmpada, arrebatada pelo êxtase da sua oração, afastaram-se respeitosamente.
Depois de algum tempo vi a Virgem levantar-se e aproximar-se do pequeno altar na parede; Ele acendeu a lamparina e orou em pé. Na frente dela, em um púlpito alto, estavam escritos pergaminhos. Só de madrugada a vi descansando.
O guia me conduziu para fora da sala; mas quando estava no pequeno corredor da casa fui tomado por um grande medo. Aquela cobra horrível, que ali estava à espreita, correu em minha direção e tentou se esconder entre as dobras do meu vestido. Encontrei-me no meio de uma angústia horrível; mas meu guia me tirou dali e pude ver que os três espíritos reapareceram e atingiram novamente o monstro. Seu grito horrível ainda ressoa em mim e sua memória me assusta.
Contemplando o mistério da Encarnação esta noite, compreendi muitas outras coisas. Ana recebeu um conhecimento interior do que estava acontecendo. Também sabia por que o Redentor teve que permanecer nove meses no ventre de sua Mãe e nascer em forma de criança; Por que ele não quis aparecer na forma de um homem perfeito como nosso primeiro pai, Adão, saindo das mãos de Deus: tudo isso me foi explicado, mas não consigo mais explicar com clareza. O que posso dizer é que Ele quis santificar novamente o ato da concepção e o nascimento dos homens, degradados pelo pecado original. Se Maria se tornou Mãe e Ele não veio antes ao mundo, foi porque Ela era o que nenhuma criatura foi antes ou será depois: o puro vaso de graça que Deus havia prometido aos homens e no qual Ele se tornaria homem. .para pagar as dívidas da humanidade, através dos méritos abundantes da sua paixão.
A Santíssima Virgem foi a flor perfeitamente pura do gênero humano, aberta na plenitude dos tempos. Todos os filhos de Deus entre os homens, todos, mesmo aqueles que desde o início trabalharam na obra de santificação, contribuíram para a sua vinda. Ela era o único ouro puro da terra; Só ela foi a porção imaculada da carne e do sangue de toda a humanidade, que foi preparada, purificada, recolhida e consagrada através de todas as gerações dos seus antepassados; guiada, protegida e fortalecida sob o regime da lei de Moisés, realizou-se finalmente como plenitude da graça. Predestinada na eternidade, ela emergiu no tempo como Mãe do Verbo eterno.
A Virgem Maria tinha pouco mais de quatorze anos quando ocorreu a Encarnação de Jesus Cristo. Jesus chegou à idade de trinta e três anos e três vezes seis semanas. Digo três vezes seis, porque neste exato momento estou vendo o número seis repetido três vezes.

XXX Visitação de Maria a Isabel

Poucos dias depois da Anunciação do Anjo a Maria, José regressou a Nazaré e tomou algumas providências na casa para que pudesse exercer o seu ofício e permanecer, pois até então ali só tinha permanecido dois dias.
Ele nada sabia do mistério da Encarnação do Verbo em Maria. Ela era a Mãe de Deus e era a serva do Senhor, e humildemente guardou o segredo. Quando a Virgem sentiu que o Verbo se encarnava nela, teve um grande desejo de ir a Juta, perto de Hebron, visitar a sua prima Isabel, que, segundo as palavras do anjo, estava grávida há seis meses.
À medida que se aproximava o tempo em que José iria a Jerusalém para a festa da Páscoa, ela quis acompanhá-lo para ajudar Isabel durante a gravidez. José, na companhia da Santíssima Virgem, partiu para Juta.
A estrada seguia na direção ao sul. Eles tinham um burro no qual Maria montava de vez em quando. Este burro tinha uma bolsa pertencente a José amarrada no pescoço, dentro da qual havia um longo vestido marrom com uma espécie de capuz. Maria usava esta roupa para ir ao Templo ou à sinagoga. Durante a viagem ela usou uma túnica de lã marrom, um vestido cinza com uma faixa por cima e um boné amarelo cobrindo a cabeça. Eles estavam viajando muito rapidamente. Depois de terem atravessado a planície de Esdraelon, vi-os subir a uma colina e entrar na cidade de Dotã, até à casa de um amigo do pai de José. Este era um homem bastante abastado, originário de Belém. O pai de José o chamava de irmão, embora ele não fosse: ele era descendente de Davi através de um ancestral que também era rei, creio eu, chamado Elá, ou Eldoa ou Eldad'*, já que não me lembro bem do nome dele.
Dotan era uma cidade de comércio ativo. Então eu os vi passando a noite debaixo de um galpão. Ainda a doze léguas da casa de Zacarias pude avistá-los outra noite no meio de um bosque, sob uma cabana de galhos toda coberta de folhas verdes com lindas flores brancas. Era frequente naquele país ver à beira das estradas aqueles gazebos feitos de ramos e folhas e algumas construções mais sólidas onde os viajantes podiam pernoitar ou refrescar-se, temperar e cozinhar os alimentos que transportam consigo. Uma família do bairro se encarregava de vigiar vários desses locais e fornecer o necessário mediante o pagamento de uma pequena taxa. Eles não foram diretamente de Jerusalém para Juta. Para viajar na maior solidão fizeram um passeio pelas terras orientais, passando junto a uma pequena cidade, a duas léguas de Emaús e tomando as estradas por onde Jesus caminhou durante os seus anos de pregação. Mais tarde tiveram que atravessar duas montanhas, entre as quais uma vez os vi descansar, comendo pão, misturando na água um pouco do bálsamo que haviam recolhido durante a viagem. Naquela região o país era muito montanhoso.
Passaram por algumas pedras, mais largas no topo do que na base; naqueles locais existiam grandes cavernas, dentro das quais se avistavam todo tipo de pedras curiosas. Os vales eram muito férteis. Esse caminho os conduzia através de florestas e charnecas, prados e campos. Num local bem perto do final da viagem notei particularmente uma planta que tinha lindas pequenas folhas verdes e cachos de flores formados por nove sinos fechados de cor rosa. Eu tinha algo ali com o qual precisava me ocupar; mas esqueci do que se tratava! A casa de Zacarias ficava numa colina, ao redor da qual havia um conjunto de casas. Um riacho caudaloso desce a colina. Pareceu-me que era o momento em que Zacarias voltava de Jerusalém para casa, depois das férias da Páscoa. Vi Isabel caminhando, muito longe de sua casa, no caminho de Jerusalém, levada por uma saudade inquieta e indefinível. Lá a encontrou Zacarias, que ficou chocado ao vê-la tão longe de casa no estado em que se encontrava. Ela disse que estava muito agitada, pois era assombrada pela ideia de que sua prima Maria de Nazaré estava vindo visitá-la. Zacarias tentou fazê-la compreender que deveria rejeitar tal ideia e, por meio de sinais e da escrita numa tabuinha, disse-lhe quão improvável era que um recém-casado empreendesse uma viagem tão longa naquela época. Juntos eles voltaram para casa. Isabel não podia descartar aquela ideia fixa, tendo sabido num sonho que uma mulher do seu próprio sangue se tornara Mãe do Verbo eterno, do Messias prometido. Pensando em Maria, teve um desejo muito grande de vê-la, e a viu, de fato, em espírito vindo em sua direção. Em sua casa, à direita da entrada, preparou uma salinha com assentos e ali esperou no dia seguinte, na expectativa, olhando para a estrada caso Maria chegasse. Logo ele se levantasse e saísse para encontrá-la na estrada.
Isabel era uma mulher alta, de certa idade: tinha rosto pequeno e traços lindos; Sua cabeça estava velada. Só conhecia Maria por causa de suas vozes e de sua fama. Maria, ao vê-la de longe, soube que era Isabel e correu ao seu encontro, ultrapassando José, que permanecia discretamente à distância. Logo Maria estava entre as primeiras casas do bairro, cujos moradores, impressionados pela sua extraordinária beleza e movidos por uma certa dignidade sobrenatural que irradiava de toda a sua pessoa, retiraram-se respeitosamente no momento do encontro com Isabel. Elas se cumprimentaram amigavelmente com um aperto de mão. Naquele momento vi um ponto luminoso sobre a Santíssima Virgem e como um raio de luz que partia daí em direção a Isabel, que recebeu uma impressão maravilhosa. Não pararam na presença dos homens, mas, de braços dados, dirigiram-se para a casa pelo pátio interior. Na soleira da porta, Isabel acolheu novamente Maria e então entraram na casa.
José chegou ao pátio trazendo o burro, que entregou a um servo e foi procurar Zacarias num quarto aberto ao lado da casa. Saudou com grande humildade o velho sacerdote, que o abraçou cordialmente e falou com ele através da tábua em que escrevia, pois estava mudo desde que o anjo lhe apareceu no Templo. Maria e Isabel, assim que entraram, encontraram-se numa sala que parecia servir de cozinha. Lá elas deram os braços. Maria cumprimentou Isabel muito cordialmente e as duas tocaram o rosto. Vi então que algo luminoso irradiava de Maria para o interior de Isabel, deixando-a completamente iluminada e profundamente comovida, com o coração agitado pela santa alegria. Isabel recuou um pouco, levantando a mão e, cheia de humildade, alegria e entusiasmo, exclamou: “Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Mas onde consegui tanto favor que a Mãe do meu Senhor venha me visitar?... Porque eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criança que carrego estremeceu de alegria dentro de mim. Oh, abençoada é você, que acreditou; O que o Senhor lhe disse será cumprido!” Depois destas palavras conduziu Maria ao quartinho preparado, para que ela pudesse sentar-se e descansar do cansaço da viagem. Você só precisava dar alguns passos para chegar lá. Maria deixou o braço de Isabel, cruzou as mãos sobre o peito e começou o cântico do Magnificat: “A minha alma glorifica ao Senhor; e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador.
Porque ele olhou para a humildade do sua serva; pois eis que doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada. Pois o Todo-poderoso fez grandes coisas por mim; e santo é seu nome. E a sua misericórdia é de geração em geração para aqueles que o temem. Ele fez coisas corajosas com o braço; Ele dispersou os orgulhosos nos pensamentos de seus corações. Ele tirou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos vazios. Ele ajudou Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia. Como falou a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.”
Isabel repetiu o Magnificat em voz baixa, com o mesmo impulso de inspiração de Maria. Depois sentaram-se em cadeiras muito baixas, numa mesa baixa. Em cima havia um pequeno copo.
Como me senti feliz, porque repeti todas as orações com elas, sentada bem perto de Maria! Quão grande foi minha felicidade então!

XXXI Na casa de Zacarias e Isabel

José e Zacarias estiveram conversando juntos sobre o Messias, sua próxima vinda e o cumprimento das profecias. Zacarias era um homem idoso, de alta estatura e bonito quando vestido de sacerdote. Agora ele sempre respondia por meio de sinais ou escrevendo em sua tabuinha. Vi-os ao lado da casa, numa sala aberta para o jardim. Maria e Isabel estavam sentadas num tapete do jardim, debaixo de uma grande árvore, atrás da qual existia uma fonte por onde a água escapava quando o portão era retirado. Ao redor vi um prado coberto de grama, flores e árvores com pequenas ameixas amarelas. Elas estavam juntas comendo frutas e pães tirados do alforje de José. Que simplicidade e comovente frugalidade! Na casa havia dois criados e duas criadas: vi-os indo e vindo, preparando comida sobre uma mesa, debaixo de uma árvore, Zacarias e José chegaram e também comeram alguma coisa.
José quis voltar imediatamente para Nazaré; mas ele terá que ficar lá por oito dias. Ele ainda não sabia nada sobre a gravidez de Maria. Isabel e Maria mantiveram silêncio sobre isso, mantendo entre elas uma harmonia secreta e profunda, que as unia intimamente. Várias vezes ao dia, principalmente antes das refeições, quando todos estavam reunidos, as santas mulheres recitavam uma espécie de Ladainha. José orou com elas. Pude ver uma cruz que apareceu entre as duas mulheres, apesar de a cruz ainda não existir: era como se duas cruzes se tivessem visitado. Um dia antes à tarde reuniram-se todos para comer, ficando até meia-noite sentados à luz de um candeeiro, debaixo da árvore do jardim. Depois vi José e Zacarias sozinhos no seu oratório, e Maria e Isabel no seu quartinho, frente a frente, de pé, absortas e em êxtase, recitando juntas o cântico do Magnificat.
Além das roupas mencionadas, a Virgem usava algo semelhante a um véu preto transparente, que baixava sobre o rosto quando tinha que falar com homens. Neste dia Zacarias conduziu José para outro jardim longe de sua casa. Zacarias era um homem muito organizado em todas as suas coisas. Neste pomar existiam muitas árvores com lindos frutos de todos os tipos: estava muito bem cuidado, atravessado por um longo caramanchão, sob o qual havia sombra; No final havia um mirante escondido cuja porta se abria lateralmente. No topo desta casa podiam-se ver aberturas fechadas com molduras; No interior existia uma cama de descanso, feita de esteiras, musgos ou outras gramíneas. Vi ali duas estátuas brancas do tamanho de uma criança: não sei como estavam ali nem o que representavam. Achei-as parecidas com Zacarias e Isabel, de quando seriam mais jovens.
Esta tarde vi Maria e Isabel ocupadas em casa. A Virgem participava das tarefas domésticas e preparava todo tipo de roupa para o filho esperado. Eu as vi trabalhando juntos: teciam uma grande colcha para a cama de Isabel, para quando ela desse à luz. As mulheres judias usavam colchas desse tipo, que tinham uma espécie de bolso no centro, disposto de forma que a mãe pudesse envolver-se completamente e ao filho. Trancada lá dentro e apoiada em travesseiros, ela podia sentar-se ou deitar-se como quisesse. Na borda da colcha havia flores bordadas e algumas frases. Isabel e Maria também prepararam todo tipo de objetos para dar aos pobres quando a criança nascesse. Vi Santa Ana, durante a ausência de Maria e José, mandar muitas vezes a sua empregada à casa de Nazaré para ver se ali ainda estava tudo em ordem.
Uma vez eu a vi ir para lá sozinha.
Zacarias foi com José dar um passeio pelo campo. A casa ficava num morro e era a melhor de toda aquela região; Vi outras casinhas espalhadas. Maria estava sozinha, um tanto cansada, em casa com Isabel.
Vi Zacarias e José passarem a noite no jardim localizado a alguma distância da casa. Às vezes eu os via dormindo no gazebo, outras vezes rezando ao ar livre. Eles voltaram ao amanhecer. Vi Isabel e Maria dentro de casa. Todas as manhãs e todas as noites repetiam o Magnificat, inspirado a Maria pelo Espírito Santo, após a saudação de Isabel. A saudação do anjo foi como uma consagração que o templo de Maria Santíssima fez a Deus. Quando ela pronunciou estas palavras: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”, penetrou nela a Palavra divina, saudada pela Igreja e saudada pela sua serva. A partir de então, Deus estava no seu templo e Maria era o templo e a Arca da Aliança do Novo Testamento. A saudação de Isabel e a alegria de João no ventre materno foram o primeiro culto prestado diante daquele Santuário. Quando a Virgem entoou o Magnificat, a Igreja da Nova Aliança, do novo matrimônio, celebrou pela primeira vez o cumprimento das promessas divinas da Antiga Aliança, do antigo matrimônio, recitando, em ação de graças, um Te Deum laudamus. Quem poderia expressar dignamente a emoção desta homenagem prestada pela Igreja ao seu Salvador, ainda antes do seu nascimento!
Naquela noite, enquanto observava a oração das santas mulheres, tive várias intuições e explicações sobre o Magnificat e a abordagem do Santíssimo Sacramento na situação atual da Santíssima Virgem. Meu estado de sofrimento e meus inúmeros desconfortos me fizeram esquecer quase tudo que pude ver. No momento da passagem do canto: '"Ele fez coisas corajosas com o braço", vi diferentes imagens figurativas do Santíssimo Sacramento do Altar no Antigo Testamento. Havia ali, entre outras, uma imagem de Abraão sacrificando Isaque, e de Isaías anunciando a um rei ímpio algo de que ele zombou e que esqueci. Vi muitas coisas, desde Abraão até Isaías, e dele até Maria Santíssima. Eu sempre via o Santíssimo Sacramento aproximando-se da Igreja de Jesus Cristo, que ainda descansava no ventre de sua Mãe. Fazia muito calor onde Maria estava na terra prometida. Todos iam para o jardim onde ficava a casinha. Primeiro Zacarias e José, depois Isabel e Maria. Eles estenderam um toldo debaixo de uma árvore como se quisessem fazer uma tenda. De um lado vi bancos muito baixos e com encostos.
No dia anterior à noite vi Isabel e Maria indo ao jardim um pouco longe da casa de Zacarias. Levavam frutas e pãezinhos em alguns cestos e parecia que queriam passar a noite naquele lugar. Mais tarde, quando José e Zacarias voltaram, vi Maria saindo ao seu encontro. Zacarias estava com sua tábua, mas a luz não era suficiente para ele escrever e vi que Maria, inspirada pelo Espírito Santo, lhe anunciou que naquela mesma noite voltaria a falar e que poderia deixar sua tábua, pois em breve poderia conversar com José e orar com ele. Isso me surpreendeu tanto que, balançando a cabeça, não quis admitir; mas meu Anjo da Guarda, ou meu guia espiritual, que sempre me acompanha, me disse, fazendo sinal para que eu olhasse para outro lado: "Não, você quer acreditar nisso? Bom, olha o que aconteceu ali." olhando para o lado que ele me indicou vi um quadro totalmente diferente, de um período muito posterior. Vi o santo eremita Goar em um lugar onde o trigo havia sido cortado. Ele estava conversando com os mensageiros de um bispo que estava mal disposto. ele e aqueles homens ainda não tinham carinho por ele. Quando ele os acompanhou até sua casa, eu o vi procurando algum gancho para pendurar seu manto. Ao ver um raio de sol entrando pela abertura da parede, na simplicidade de sua fé pendurou seu manto naquele raio que ficou suspenso ali no ar. Fiquei tão maravilhada com este prodígio que já não me surpreendi ao ouvir Zacarias falar, pois aquela graça lhe veio por intenção de Maria Santíssima, em quem o próprio Deus habitava. Meu guia então me contou sobre o que é chamado de milagre. Entre outras coisas, lembro-me dele me dizendo: “A confiança total em Deus, com a simplicidade de uma criança, dá vida e substância a todas as coisas”. Estas palavras me esclareceram sobre todos os milagres, embora não consiga explicar isso com clareza.
Vi os quatro personagens sagrados passarem a noite no jardim: sentarem-se e comerem algumas coisas. Então os vi caminhar dois a dois, rezar juntos e entrar alternadamente no mirante para descansar nele. Também aprendi que depois do sábado, José retornou a Nazaré e que Zacarias o acompanhou por alguma distância. Havia um lindo luar e o céu estava muito puro.

XXXII Mistérios do "Magnificat"

Durante a oração das duas santas mulheres vi uma parte do mistério relacionada com o Magnificat. Verei tudo isso de novo no sábado, véspera da oitava da fesa e então poderei dizer mais alguma coisa. Agora só posso comunicar o seguinte: o Magnificat é o canto de ação de graças pelo cumprimento da bênção misteriosa da Antiga Aliança.
Durante a oração de Maria vi todos os seus antepassados sucessivamente.
Ao longo dos séculos existiram três vezes catorze casais de maridos que se sucederam, sendo o pai sempre filho do casamento anterior. De cada um destes casais vi sair um raio de luz dirigido a Maria enquanto ela orava. Todo o quadro cresceu diante dos meus olhos como uma árvore de ramos luminosos, que se tornou cada vez mais belo, e finalmente, num determinado lugar desta árvore de luz, vi a puríssima e imaculada carne e sangue de Maria, com a qual Deus teve que formar a sua Humanidade, mostrando-se no meio de um brilho cada vez mais vívido. Rezei então, cheio de alegria e esperança, como uma criança vendo a árvore de Natal crescer à sua frente. Tudo isto foi imagem da proximidade de Jesus Cristo encarnado e do seu Santíssimo Sacramento. Foi como se eu tivesse visto o trigo amadurecer para formar o pão da vida de que eu tinha fome. Tudo isso era inefável. Não posso dizer como foi formada a carne na qual o próprio Verbo se encarnou. Como isso é possível para uma criatura humana que ainda está dentro daquela carne, da qual o Filho de Deus e Maria disse que é inútil e que só o espírito dá vida?... Disse também que aqueles que se alimentam da sua carne e sangue desfrutarão da vida eterna e serão ressuscitados por ele no último dia. Somente Sua carne e sangue são o verdadeiro alimento e somente aqueles que comem esse alimento vivem Nele, e Ele neles.
Não consigo expressar como vi, desde o início, a aproximação sucessiva da Encarnação de Deus e com ela a proximidade do Santíssimo Sacramento do Altar, manifestando-se de geração em geração; depois, uma nova série de patriarcas representando o Deus vivo que reside entre os homens como vítima e alimento até seu segundo advento no último dia, na instituição do sacerdócio que o Homem-Deus, o novo Adão, encarregou de expiar o pecado do primeiro, ele transmitiu aos seus apóstolos e estes aos novos sacerdotes, através da imposição de mãos, para assim formar uma sucessão semelhante de sacerdotes ininterrupta de geração em geração. Tudo isto me ensinou que a recitação da genealogia de Nosso Senhor diante do Santíssimo Sacramento na festa de Corpus Christi contém um mistério muito grande e muito profundo. Com ele também aprendi que assim como entre os antepassados de Jesus Cristo haviam alguns que não eram santos e outros que eram pecadores, sem deixar de constituir degraus da escada de Jacó, através da qual Deus desceu à Humanidade, assim também os bispos indignos também estão habilitados a consagrar o Santíssimo Sacramento e a conceder o sacerdócio a outros com todos os poderes que lhe são inerentes. Quando você vê essas coisas, você entende por que os antigos livros alemães chamam o Antigo Testamento de Antiga Aliança ou casamento antigo, e o Novo Testamento de Nova Aliança ou novo casamento. A flor suprema do antigo casamento era a Virgem das virgens, a noiva do Espírito Santo, a castíssima Mãe do Salvador; o vaso espiritual, o vaso honroso, o distinto vaso de devoção onde o Verbo se fez carne. Com este mistério começa o novo casamento, a Nova Aliança. Esta Aliança é virginal no sacerdócio e em todos aqueles que seguem o Cordeiro, e nela o Matrimônio é um grande sacramento: a união de Jesus Cristo com a sua noiva, a Igreja.
Para poder exprimir, tanto quanto me seja possível, como me foi explicada a proximidade da Encarnação do Verbo e ao mesmo tempo a aproximação do Santíssimo Sacramento do Altar, só posso repetir, mais uma vez, que tudo isso apareceu diante dos meus olhos numa série de pinturas simbólicas, sem poder, pelo estado em que me encontro, dar conta dos detalhes de forma inteligível. Só posso falar em termos gerais. Vi pela primeira vez a bênção da promessa que Deus fez aos nossos primeiros pais no Paraíso e um raio que saiu desta bênção para a Virgem Santa, que recitava o Magnificat com Isabel. Vi Abraão, que tinha recebido aquela bênção de Deus, e um raio que vinha dele para a Santíssima Virgem. Vi os outros patriarcas que carregaram e possuíram aquela coisa sagrada e sempre aquele raio que ia de cada um deles até Maria. Mais tarde vi a transmissão daquela bênção a Joaquim, que, satisfeito com a mais alta bênção vinda do Santo dos Santos do Templo, pôde portanto tornar-se pai da Santíssima Virgem concebida sem pecado. E, finalmente, é nela que, através da intervenção do Espírito Santo, o Verbo, Ele se fez carne. Nela, como na Arca da Aliança do Novo Testamento, o Verbo viveu entre nós durante nove meses, escondido de todos os olhos, até que, tendo nascido de Maria na plenitude dos tempos, pudemos ver a sua glória, como a glória do Filho, único do Pai, cheio de graça e de verdade.
Esta noite vi a Santíssima Virgem dormindo em seu quartinho, com o corpo deitado de lado e a cabeça apoiada no braço. Ela estava enrolada em um pedaço de pano branco, da cabeça aos pés. Sob seu coração vi brilhar uma glória luminosa em forma de pera cercada por uma pequena chama de brilho indescritível. Em Isabel também brilhou uma glória, menos brilhante, embora maior, de formato circular; A luz que emitia era menos vívida.
Ontem, sexta-feira à noite, já começando o novo dia, pude ver num quarto da casa de Zacarias, que ainda não conhecia, uma lâmpada acesa para celebrar o sábado. Zacarias, José e seis outros homens, provavelmente residentes locais, oraram em pé sob a lâmpada, ao redor de um baú onde havia pergaminhos escritos. Eles usavam panos na cabeça; mas quando oravam não faziam as contorções que os judeus modernos fazem. Muitas vezes abaixavam a cabeça e levantavam os braços no ar. Maria, Isabel e outras duas mulheres estavam isoladas, atrás de uma divisória de grades, num lugar onde podiam ver o oratório: usavam xales de oração e estavam veladas da cabeça aos pés. Depois do jantar de sábado, vi a Santíssima Virgem em seu quartinho recitando o Magnificat com Isabel.
Elas estavam encostadas na parede, uma de frente para a outra, com as mãos juntas no peito e os véus pretos cobrindo o rosto, rezando, uma após a outra, como as freiras do coro. Recitei com elas o Magnificat e durante a segunda parte do canto pude ver, uns distantes e outros próximos, alguns dos antepassados de Maria, dos quais partiam como linhas luminosas que se dirigiam para ela. Vi aqueles raios de luz saindo da boca dos seus antepassados masculinos e dos corações do outro sexo, para concluir na glória que havia em Maria. Acredito que Abraão, ao receber a bênção que preparou o advento da Virgem, morava próximo ao local onde Maria recitou o Magnificat, pois os raios que dele vinham atingiram Maria de um ponto muito próximo, enquanto os que vinham de pessoas muito mais próximos com o tempo, pareciam vir de muito longe, de pontos mais distantes. Quando terminaram o Magnificat, que recitavam todos os dias de manhã e à noite, desde a Visitação, Isabel retirou-se e vi a Virgem entregar-se ao descanso. Terminada a festa no sábado, vi-os comendo novamente no domingo à noite. Todos comiam juntos no jardim perto da casa. Comiam folhas verdes que embebiam em molho. Sobre a mesa havia pratos com pequenas frutas e outros recipientes contendo, creio, mel, que levavam com espátulas de chifre.

XXXIII O retorno de José a Nazaré

Mais tarde, sob o luar, e a noite estrelada e clara, José partiu em viagem acompanhado de Zacarias. Ele carregava um pequeno pacote com pão, uma jarra e um bastão de alça curva. Ambos usavam casacos de viagem com capuz. As mulheres os acompanharam por uma curta distância, voltando sozinhas no meio de uma bela noite. Os dois foram diretamente para o quarto de Maria, onde uma lâmpada estava acesa, como era habitual quando ela orava e se preparava para descansar. Os dois ficaram de pé, frente a frente, e recitaram o Magnificat.
Esta noite vi Maria e Isabel. A única coisa que me lembro é que passaram a noite inteira em oração, embora não saiba o motivo disso. Durante o dia via Maria ocupada com vários trabalhos, como trançar colchas.
Vi Zacarias e José, que ainda estavam a caminho: passaram a noite num barracão. Fizeram grandes desvios e visitaram, pareceu-me, várias famílias. Acho que faltavam três dias para o final da viagem. Não me lembro de outros detalhes.
Ontem vi José em sua casa em Nazaré. Acho que ele foi diretamente até ela, sem parar em Jerusalém. A empregada de Ana era responsável pelos cuidados domésticos, indo de uma casa para outra. Além dela não havia mais ninguém na casa de José, ele estava completamente sozinho. Também vi Zacarias em sua casa. Vi Maria e Isabel recitando o Magnificat e ocupando-se com vários trabalhos. Ao cair da tarde caminharam pelo jardim, onde havia uma fonte, algo pouco comum no país. À noite, depois do calor, iam passear pelos arredores, já que a casa de Zacarias era isolada e rodeada de campinas. Geralmente iam para a cama por volta das nove horas, levantando-se sempre antes do nascer do sol.
Vi uma imagem indescritível da Igreja. A Igreja apareceu-me sob a forma de um fruto octogonal muito delicado que brotava de um caule cujas raízes tocavam uma fonte ondulante na terra. O caule não era mais alto do que o necessário para poder ver entre a igreja e o solo. Em frente à igreja havia uma porta, sobre a própria fonte, que ondulava, jogando para os dois lados algo branco como areia, e ao redor tudo era verde e frutífero. Na parte frontal da Igreja não havia raízes que chegassem ao chão. Dentro da igreja e no meio dela havia, como a cápsula da semente da maçã, um recipiente feito de filamentos brancos muito tenros, em cujos interstícios se viam como as sementes de uma maçã. No piso interno da igreja havia uma abertura através da qual se podia olhar para a fonte ondulante abaixo. Enquanto olhava para isto, vi alguns grãos secos e murchos caindo na fonte. Esse tipo de flor estava se tornando cada vez mais parecido com uma igreja e a cápsula no meio estava se tornando uma estrutura artística semelhante a um lindo buquê.
Dentro deste artifício vi a Santíssima Virgem e Santa Isabel, que por sua vez pareciam dois santuários ou Sancta Sanctorum. Vi que as duas se cumprimentaram, virando-se uma para a outra. Naquele momento  apareceram duas faces delas: Jesus e João. Vi João curvado dentro do colo de sua mãe. Vi Jesus como costumo vê-lo no Santíssimo Sacramento: na semelhança de um pequeno Menino luminoso que se dirigia para onde João estava. Ele estava de pé, como se estivesse flutuando, e estendendo a mão para João ele o levou embora como uma névoa. O pequeno João estava agora com o rosto caído no chão. A névoa caiu no poço pela referida abertura e foi absorvida e desapareceu na fonte abaixo. Então Jesus ergueu o pequeno João no ar e o abraçou. Depois disso, vi ambas retornarem ao ventre materno, enquanto Maria e Isabel cantavam o Magnificat. Sob este cântico, vi José e Zacarias avançarem de ambos os lados da Igreja, e atrás deles muitos outros até que a igreja se enchesse, o que terminou com uma grande festa realizada no seu interior. À volta da igreja uma vinha crescia com tanto vigor que foi necessário podá-la em vários locais.
A igreja finalmente se estabeleceu; Nela apareceu um altar e um batistério foi formado na abertura que dava acesso ao poço. Muitas pessoas entraram na igreja pela porta. Todas essas transformações ocorreram lentamente, como se estivessem brotando e crescendo. É difícil para mim explicar tudo isso como o vi. Mais tarde, na festa de São João, tive outra visão. A igreja octogonal agora era transparente como cristal, ou melhor, como se fossem raios de água cristalina. No meio havia uma fonte de água, debaixo de uma torrinha, onde vi João batizando. De repente a imagem mudou e um caule parecido com uma flor brotou da fonte do meio. Ao seu redor havia oito colunas com uma coroa piramidal nas quais estavam os ancestrais de Ana, Isabel e Joaquim, com Maria e José e os ancestrais de Zacarias e José um tanto afastados do ramo principal. João estava em um galho do meio. Parecia que saía uma voz dele, e então vi muita gente, reis e príncipes entrarem na igreja e um bispo que distribuía o Santíssimo Sacramento. Ouvi João falando sobre a grande felicidade das pessoas que haviam entrado na igreja.

XXXIV Nascimento de João. Maria retorna a Nazaré

Vi a Santíssima Virgem depois do seu regresso de Juta a Nazaré, passando alguns dias na casa dos pais do discípulo Parmenas, que naquela época ainda não tinha nascido. Acho que vi isso na mesma época do ano em que aconteceu. Tenho a sensação de que foi assim. Segundo isto, o nascimento de João teria ocorrido no final de maio ou início de junho. Maria ficou três meses na casa de Santa Isabel, até o nascimento de João. No momento da circuncisão da criança ela não estava mais lá.
Quando Maria partiu para Nazaré, José veio ao seu encontro no meio do caminho. Quando José voltou para Nazaré com a Santíssima Virgem, percebeu que ela estava grávida, e todo tipo de dúvidas e preocupações o assaltaram, pois desconhecia o aparecimento do anjo e sua revelação a Maria. Depois do casamento, José foi para Belém para tratar de assuntos familiares, e Maria, entretanto, para Nazaré, com os pais ou alguns companheiros. A saudação angélica ocorreu antes do regresso de José, e Maria, na sua tímida humildade, guardou silêncio sobre o segredo de Deus. José, perturbado e inquieto, não demonstrava nada exteriormente; mas ele lutava silenciosamente "contra suas dúvidas". A Virgem, que previra isto, permaneceu séria e pensativa, o que aumentou a angústia de José. Ao chegarem a Nazaré, a Virgem não foi imediatamente para casa com São José, mas permaneceu dois dias na casa de uma família parente dela, onde moravam os pais do discípulo Parmenas, ainda não nascido, que nasceu mais tarde. um dos sete diáconos da primeira comunidade de cristãos de Jerusalém. Essas pessoas estavam ligadas à Sagrada Família, sendo a mãe irmã do terceiro marido de Maria de Cléofas, que era pai de Simeão, bispo de Jerusalém. Eles tinham uma casa e um jardim em Nazaré. Eles também eram parentes de Maria Santíssima através de Isabel. Vi a Virgem ficar algum tempo naquela casa, antes de voltar para a casa de José. Entretanto, a inquietação de José aumentou a tal ponto que, quando Maria voltou para o seu lado, José decidiu deixá-la, fugindo secretamente de casa e do lado dela.
Enquanto ele pensava nessas coisas, um anjo lhe apareceu e lhe disse palavras que acalmaram seu espírito.

XXXV Preparativos para o nascimento de Jesus

Durante vários dias que vi Maria na casa de Ana, sua mãe, cuja casa ficava a cerca de uma légua de Nazaré, no vale de Zebulon. A empregada de Ana permaneceu em Nazaré quando Maria estava ausente e servia José. Vi que enquanto Ana vivia quase não tiveram casa independente, pois sempre recebiam dela tudo o que precisavam para seu sustento. Nos últimos quinze dias vi Maria ocupada se preparando para o nascimento de Jesus: costurando colchas, tiras e fraldas. Seu pai, Joaquim, não estava mais vivo. Na casa havia uma menina de cerca de sete anos que estava frequentemente com a Virgem e recebia lições de Maria. Acredito que ela fosse filha de Maria de Cleofas e que o nome dela também era Maria. José não estava em Nazaré, mas devia chegar muito em breve. Ele retornou de Jerusalém, onde levara os animais para o sacrifício. Vi a Santíssima Virgem em casa, trabalhando, sentada numa sala com outras mulheres. Preparavam roupas e colchas para o nascimento do Menino.
Ana possuía bens consideráveis em rebanhos e campos e fornecia abundantemente tudo o que Maria, que estava em estado avançado de gravidez, precisava.
Como acreditava que Maria daria à luz em sua casa e que todos os seus familiares viriam vê-la, ela fez ali todos os preparativos para o nascimento do Filho da Promessa, arranjando, entre outras coisas, lindas colchas e preciosos tapetes. Quando o João nasceu pude ver uma dessas colchas na casa da Isabel. Tinha figuras simbólicas e frases feitas com bordado. Vi até alguns fios de ouro e prata misturados no trabalho da agulha. Todas estas vestimentas não eram apenas para uso da futura mãe: havia muitas destinadas aos pobres, sempre pensadas nessas ocasiões tão solenes. Vi a Virgem e outras mulheres sentadas no chão ao redor de um baú, trabalhando em uma grande colcha colocada sobre o baú. Eles usaram pauzinhos com fios enrolados de cores diferentes. Ana estava muito ocupada, e ia de um lugar para outro levando lã, distribuindo e dando trabalho para cada um deles.
José devia retornar a Nazaré neste dia. Ele estava em Jerusalém, onde tinha ido levar animais para o sacrifício, deixando-os numa pequena pousada administrada por um casal sem filhos, localizada a um quarto de légua da cidade, no lado de Belém. Eram pessoas piedosas, em cuja casa se podia viver com confiança. Dali José foi para Belém; mas não visitou seus parentes, querendo apenas levar relatórios relativos a um registro ou cobrança de impostos que exigiam a presença de cada cidadão em sua cidade natal.
No entanto, ainda não se tinha inscrito, pois tinha a intenção, uma vez realizada a purificação de Maria, de ir com Ela de Nazaré ao Templo de Jerusalém, e daí a Belém, onde pretendia estabelecer-se. Não sei exatamente quais vantagens ele encontrou nisso, mas não gostando da estadia em Nazaré, aproveitou a oportunidade para ir a Belém. Levou informações sobre pedras e madeira para construção, pois teve a ideia de construir uma casa. Ele então voltou para a pousada próxima a Jerusalém, levou as vítimas ao Templo e voltou para casa.
Neste dia, atravessando a planície de Kimki, a seis léguas de Nazaré, um anjo apareceu-lhe, dizendo-lhe que partisse com Maria para Belém, pois era ali onde o Menino iria nascer. Disse a ele que ela deveria trazer poucas coisas e nenhuma colcha bordada. Além do burro que Maria iria montar, era necessário que ele levasse consigo uma burrinha de um ano, que ainda não tinha tido cria. Tinha que deixá-la correr livremente, sempre seguindo o caminho que o animal fizesse.
Naquela noite Ana foi para Nazaré com a Virgem Maria, pois sabiam que José deveria chegar. Não parecia, porém, que estivessem cientes da viagem que Maria faria com José até Belém. Elas acreditavam que Maria daria à luz em sua casa de Nazaré, pois viam que ali eram trazidos muitos objetos preparados, embrulhados em grandes esteiras. À noite, José chegou a Nazaré. Neste dia vi a Virgem com sua mãe Ana na casa de Nazaré, onde José lhes informou o que o anjo lhe havia ordenado na noite anterior. Eles voltaram para a casa de Ana, onde os vi fazendo os preparativos para uma próxima viagem. Ana ficou muito triste. A Virgem sabia de antemão que o Menino deveria nascer em Belém; mas por humildade ele não falou. Ela sabia tudo desde as profecias sobre o nascimento do Messias que guardava consigo em Nazaré. Esses escritos foram dados a ela e explicados por seus professores no Templo. Muitas vezes lia estas profecias e rezava pelo seu cumprimento, invocando sempre, com desejo ardente, a vinda daquele Messias. Ela chamou de abençoada aquela que deveria dar à luz e desejou ser apenas o último de seus servos. Em sua humildade, ela não achava que essa honra deveria caber a ela. Sabendo pelos textos que o Messias deveria nascer em Belém, ela aceitou com alegria a vontade de Deus, preparando-se para uma viagem que lhe seria muito dolorosa, no seu estado atual e naquela estação, já que o frio costumava ser muito intenso. nos vales entre cadeias de montanhas.

XXXVI Partida de Maria e José em direção a Belém

Naquela noite vi José e Maria, acompanhados por Ana, Maria de Cleofas e alguns servos, deixarem a casa de Ana para a viagem. Maria estava sentada na sela do burro, também carregado de bagagem, José o conduzia. Havia outro burro no qual Ana teve que voltar.
Naquela manhã vi os santos viajantes a cerca de seis léguas de Nazaré, chegando à planície de Kimki, que era o lugar onde o anjo havia aparecido a José dois dias antes. Ana possuía um campo naquele local e os servos tinham que levar para lá o burro de um ano que José queria levar, que corria e saltava na frente ou ao lado dos viajantes. Ana e Maria de Cleofas despediram-se e voltaram para junto dos seus servos. Vi a Sagrada Família caminhando por um caminho que subia até o topo do Gelboé. Eles não passaram pelas cidades e seguiram o filhote, que tomou atalhos. Pude avistá-los numa propriedade de Lázaro, a pouca distância da cidade de Ginim16, do lado de Samaria. O caseiro os recebeu amigavelmente, já os tendo conhecido em viagem anterior. Sua família era parente da de Lázaro. Vi ali muitos belos jardins e avenidas. A casa era alta; Do terraço era possível avistar uma grande área da região. Lázaro herdara esta propriedade de seu pai. Vi que Nosso Senhor parou frequentemente durante a sua vida pública neste local e ensinou nas redondezas. O zelador e sua esposa trataram Maria com muita simpatia. Ficaram admirados por ele ter realizado tal viagem no estado em que se encontrava, visto que poderia ter ficado tranquilo na casa de Ana.
Vi a Sagrada Família a várias léguas do local anterior, caminhando no meio da noite em direção a uma montanha ao longo de um vale muito frio, onde havia caído geada. A Virgem Maria, que sofria muito com o frio, disse a José: “É preciso parar aqui, porque não posso continuar”. Assim que ele disse essas palavras, o burrinho parou sob um grande terebinto, ao lado do qual havia uma fonte. Pararam e José preparou um assento com as colchas para a Virgem, que ajudou a desmontar do burro. Maria sentou-se debaixo da árvore e José pendurou sua lanterna na árvore. Muitas vezes vi pessoas que viajavam por esses lugares fazerem a mesma coisa. A Virgem pediu ajuda a Deus contra o frio. Ela então sentiu um alívio tão grande e um fluxo de calor tão grande que estendeu as mãos para José para que ele pudesse aquecer suas mãos que estavam um pouco geladas. Comeram alguns pãezinhos e frutas e beberam água da fonte próxima, misturando-a com gotas do bálsamo que José levava no jarro. José confortou e animou Maria. Ele foi muito bom e sofreu muito naquela viagem que foi tão dolorosa para ela. Ele falou sobre a boa acomodação que planejava conseguir em Belém. eram boas pessoas e ele planejava ficar lá com certos confortos. Enquanto caminhavam, ele elogiou Belém, lembrando a Maria todas as coisas que poderiam consolá-la e animá-la. Isso me causou pena, pois sabia de tudo que iria sofrer: tudo iria acontecer de forma diferente. Neste ponto já tinham atravessado dois pequenos riachos, um deles sobre uma ponte alta, enquanto os dois burros atravessavam-no a nado. O burrinho que estava livre tinha atitudes curiosas. Quando a estrada era reta e bem traçada, sem perigo de se perder, como entre duas montanhas, ela corria na frente ou atrás dos viajantes. Quando a estrada se dividia, ele esperava e seguia pelo caminho reto. Quando tinham que parar, ele parava como fez sob o terebinto. Não sei se passaram a noite debaixo desta árvore ou procuraram outro alojamento. Este velho terebinto era uma árvore sagrada, que fazia parte da floresta de Moré, perto de Siquém. Abraão, vindo de Canaã, viu aparecer ali o Senhor, que lhe havia prometido aquela terra para sua posteridade, e o Patriarca ergueu um altar sob o carvalho. Jacó, antes de ir a Betel para oferecer sacrifício ao Senhor, enterrou os ídolos de Labão e as joias de sua família debaixo da árvore. Josué construiu o tabernáculo onde estava a Arca da Aliança e, quando a população se reuniu, exigiu que renunciassem aos ídolos. Neste mesmo lugar Abimeleque, filho de Gedeão, foi proclamado rei pelos Siquemitas.
Neste dia vi a Sagrada Família chegar a uma fazenda, duas léguas ao sul do terebinto. O dono da fazenda estava ausente e o homem não quis receber José, dizendo-lhe que poderia ir mais longe. Um pouco mais adiante viram o burrinho entrar na cabana de um pastor e entraram também.
Os pastores que ali estavam, esvaziando a cabana, receberam-nos com benevolência: deram-lhes palha e feixes de juncos e ramos para acenderem uma fogueira. Dirigiram-se então à fazenda onde a Sagrada Família havia sido rejeitada, e elogiaram José e a beleza e santidade de Maria, diante da dona da casa, que repreendeu o marido por ter rejeitado pessoas tão boas. Então vi esta mulher ir até onde Maria estava; mas não se atreveu a entrar por timidez e voltou para casa em busca de comida. A cabana ficava no lado oeste de uma montanha, mais ou menos entre Samaria e Tebez. A leste, além do Jordão, ficava Sucot. Ainón situava-se um pouco mais a sul, do outro lado do rio. Salim estava mais perto. Dali seriam cerca de doze léguas até Nazaré. A mulher voltou na companhia de dois filhos para visitar a Sagrada Família, trazendo mantimentos. Ela se desculpou graciosamente e pareceu muito emocionada com a situação dos caminhantes. Depois de terem comido e descansado, o marido da mulher apareceu e pediu perdão a São José por tê-lo rejeitado. Aconselhou-o a subir mais uma légua até ao topo da montanha, que ali encontraria um bom refúgio antes de iniciar as festividades de sábado, onde poderia passar o dia de descanso festivo.
Partiram e depois de caminharem uma légua chegaram a uma pousada com vários edifícios, rodeada de árvores e jardins. Vi alguns arbustos de onde retiram o bálsamo, plantadas em treliças. A pousada ficava na parte norte da montanha. A Santíssima Virgem desmontou e José conduzia o burro. Aproximaram-se da casa e José pediu alojamento; mas o proprietário pediu desculpas, dizendo que estava cheio de viajantes. Neste momento a mulher chegou e quando a Virgem lhe pediu alojamento com a mais comovente humildade, sentiu uma profunda emoção. O proprietário não resistiu e providenciou para eles um abrigo confortável no celeiro próximo e levou o burro para o estábulo. O burrinho correu livremente pelos arredores. Ele estava sempre longe deles quando não precisava apontar o caminho.

XXXVII A Festa do Sábado

José preparou a sua lâmpada e começou a rezar na companhia da Santíssima Virgem, guardando a observância do sábado com comovente piedade.
Comeram alguma coisa e descansaram em esteiras estendidas no chão.
Vi a Sagrada Família ficar lá o dia todo. Maria e José oraram juntos. Vi a esposa do dono da pousada passar o dia ao lado de Maria com seus três filhos. Aquela mulher que os acolheu no dia anterior também veio, com dois dos seus filhos. Sentaram-se amigavelmente ao lado de Maria, ficando muito impressionados com a modéstia e sabedoria da Virgem, que também conversou com as crianças, dando-lhes algumas instruções úteis. As crianças tinham pequenos rolos de pergaminho. Maria os fez ler e falou com eles de uma maneira tão gentil que as criaturas não tiraram os olhos dela nem por um momento. Foi muito emocionante ver essa atenção das crianças e ouvir os ensinamentos de Maria. Ao cair da tarde vi José caminhando com o dono da pousada pela região, olhando os campos e jardins e tratando-se com familiaridade. Foi assim que vi o povo piedoso do país no dia santo do sábado. Os santos viajantes permaneceram naquele lugar na noite seguinte. Os bons casais da pousada gostaram muito de Maria e pediram-lhe que ficasse com eles até o nascimento do Menino.
Mostraram-lhe um quarto muito confortável e a mulher ofereceu-se para servi-los de todo o coração e com gentil insistência; mas os viajantes retomaram a viagem bem cedo pela manhã e desceram para sudoeste da montanha, em direção a um belo vale. Eles se afastaram de Samaria. Ao descerem, puderam avistar o templo do Monte Garizim, que podia ser visto de muito longe. No telhado havia figuras de leões ou outros animais semelhantes, que brilhavam aos raios do sol.
Hoje os vi percorrer cerca de seis léguas. Ao anoitecer, eles estavam em uma planície a uma légua a sudeste de Siquém. Eles entraram em uma casa de pastores bastante grande, onde foram bem recebidos. O dono da casa ficava encarregado de cuidar dos campos e jardins, propriedade de uma cidade vizinha. A casa não ficava na planície, mas numa encosta. Tudo era fértil nesta região e em melhores condições do que o país anteriormente reconhecido; pois aqui estavam de frente para o sol, o que na Terra Prometida se deve a uma diferença notável nesta época do ano. Deste local até Belém existem muitas destas casas pastoris espalhadas pelos vales. Algumas linhagens de pastores, que viviam nestas localidades, casaram-se posteriormente com homens que se pareciam com os Três Reis Magos, e instalaram-se na região. De um desses casamentos nasceu um filho, que foi curado por Nosso Senhor, nesta mesma casa, a pedido de Maria, no dia 31 de julho do seu segundo ano de pregação, então seu diálogo com uma mulher samaritana.
Jesus escolheu então este jovem e outros dois para acompanhá-lo durante a viagem que fez pela Arábia após a morte de Lázaro. Este jovem foi mais tarde um discípulo do Senhor. Vi que Jesus parava aqui frequentemente para pregar e ensinar. Agora José abençoava algumas crianças que encontrou na casa.

XXXVIII Os viajantes são rejeitados em diversas casas

Neste dia os vi seguir um caminho mais uniforme. A Virgem desmontava algumas vezes, seguindo alguns trechos a pé. Muitas vezes paravam em locais apropriados para levar comida. Levavam panquecas e uma bebida que refrescava e fortalecia, em recipientes muito elegantes, com duas alças que pareciam bronze pelo brilho. Essa bebida era o bálsamo que bebiam misturado com água. Eles coletavam bagas e frutos de árvores e arbustos em locais mais expostos ao sol. A sela de Maria tinha saliências à direita e à esquerda nas quais ela apoiava os pés: assim não ficavam no ar, como vejo as pessoas do nosso país. Os movimentos de Maria eram sempre calmos, singularmente modestos. Ele sentava-se alternadamente à direita e à esquerda. A primeira tarefa de José, quando chegaram a um local, foi encontrar um lugar onde Maria pudesse sentar-se e descansar confortavelmente. Ambos lavavam os pés com frequência.
Já era noite quando chegaram a uma casa isolada. José chamou e pediu hospitalidade; mas o dono da casa não quis abrir. José explicou a situação de Maria, dizendo que ela não tinha condições de continuar o seu caminho e acrescentou que não pedia alojamento gratuito. Tudo foi inútil: aquele homem rude e grosseiro respondeu que sua casa não era uma pousada, que deveriam deixá-lo em paz, que não deveriam bater na porta. Ele nem abriu a porta para falar, mas em vez disso deu sua resposta de dentro. Os viajantes continuaram seu caminho e logo entraram em um barracão perto do qual tinham visto o burrinho parar. José acendeu uma luz e preparou uma cama para Maria, que o ajudou em tudo isso. Ele trouxe o burro e deu-lhe forragem. Eles oraram, comeram e dormiram por algumas horas. Da última estalagem até aqui seriam cerca de seis léguas. Eram agora cerca de vinte e seis de Nazaré e cerca de dez de Jerusalém. Até aquela estrada não tinham seguido o caminho principal, mas atravessavam outras vias de comunicação que iam da Jordânia à Samaria, tocando as antigas rotas que vão da Síria ao Egito. Os atalhos eram muito estreitos e nas montanhas muitas vezes eram tão apertados que era necessário tomar muitos cuidados para poder caminhar sem tropeçar ou cair. Os burros avançaram com passo muito seguro. O abrigo ficava em terreno plano. Antes do amanhecer eles partiram e pegaram um caminho que subia novamente.
Pareceu-me que chegaram ao caminho que ia de Gabara a Jerusalém, que neste local era a fronteira entre Samaria e Judeia. Em outra casa, onde pediram hospitalidade, foram igualmente rejeitados com grosseria. Várias léguas a nordeste de Betânia, Maria sentia-se muito cansada e queria descansar e comer. José desviou-se uma légua da estrada em busca de uma grande figueira que costumava estar carregada de figos, em torno da qual havia assentos para descansar à sua sombra. José conheceu o local em uma de suas viagens anteriores.
Ao chegar à figueira não encontrou nela um único fruto, o que o deixou muito triste. Lembro-me vagamente que Jesus encontrou mais tarde esta figueira coberta de folhas verdes, mas sem frutos. Acredito que o Senhor a amaldiçoou quando ele saiu de Jerusalém e a árvore secou completamente. Mais tarde, aproximaram-se de uma casa cujo dono tratou com severidade José, que humildemente pedira hospitalidade. Ele então olhou para a Santíssima Virgem, à luz de uma lanterna, e zombou de José porque carregava uma mulher tão jovem. Em vez disso, a dona da casa se aproximou e teve pena de Maria: ofereceu-lhe um quarto num prédio vizinho e trouxe-lhes pão para comer. O marido arrependeu-se de ter sido rude e mais tarde mostrou-se mais prestativo aos santos viajantes. Mais tarde chegaram a outra casa habitada por um jovem casal. Embora tenham sido recebidos, não o fizeram com cortesia e quase nenhuma atenção lhes foi dada. Essas pessoas não eram simples pastores, mas, como camponeses ricos, pessoas ocupadas com negócios. Mais tarde, Jesus visitou uma dessas casas, após o seu batismo. A sala onde a Sagrada Família pernoitou foi convertida em oratório. Não me lembro se foi mesmo a casa cujo dono zombou de José. Lembro-me vagamente de que o arranjo foi feito depois dos milagres que se seguiram ao nascimento de Jesus.

XXXIX Últimas etapas do trajeto

Nas últimas etapas José parou diversas vezes, pois Maria estava cada vez mais cansada. Seguindo o caminho indicado pelo burrinho, fizeram um desvio de um dia e meio para o leste de Jerusalém. O pai de José era dono de algumas pastagens naquela região e conhecia bem a região. Se tivessem continuado diretamente pelo deserto que fica ao sul, atrás de Betânia, poderiam ter chegado a Belém em seis horas; mas a estrada era acidentada e muito desconfortável naquela temporada.
Eles seguiram o burrinho pelos vales e chegaram um pouco perto do Jordão.
Neste dia vi os santos ambulantes entrando na casa de um grande pastor em plena luz do dia. Ficava a três léguas de um lugar onde João mais tarde batizou no Jordão e a sete léguas de Belém. Era a mesma casa onde Jesus, trinta anos depois, esteve na noite de 11 de outubro, véspera do dia em que, pela primeira vez, após o seu batismo, passou diante de João Batista.
Ao lado da casa, e um pouco afastada dela, existia uma quinta onde guardavam os instrumentos agrícolas e os utilizados pelos pastores. O pátio possuía uma fonte rodeada de banhos que dele recebiam as águas através de condutas especiais. O proprietário parecia ter propriedades extensas e um tráfego considerável ali. Vi vários empregados indo e vindo que comiam naquela propriedade. O proprietário recebeu os viajantes com muita simpatia, foi muito prestativo e os conduziu até um quarto confortável, enquanto alguns criados cuidavam do burro. Um servo lavou os pés de José numa fonte e lhe deu outras roupas enquanto ele limpava os seus, cobertos de poeira. Uma mulher prestou os mesmos serviços a Maria. Nesta casa eles comeram e dormiram. A dona da casa tinha um caráter um tanto estranho: havia se trancado em casa e observava Maria secretamente, e como era jovem e vaidosa, a beleza admirável da Virgem a deixava incomodada. Ela também temia que Maria recorresse a ela para lhe pedir que a deixasse ficar até dar à luz o seu filho. Teve a descortesia de nem aparecer e procurou meios para os viajantes partirem no dia seguinte. Esta era a mulher que Jesus encontrou ali, trinta anos depois, cega e curvada, e que ele sanou e curou depois de alertá-la por um tempo sobre sua falta de caridade e sua vaidade. Eu vi algumas crianças. A Sagrada Família passou a noite neste lugar.
No dia seguinte ao meio-dia vi a Sagrada Família sair da fazenda onde estavam hospedados. Alguns membros da casa os acompanharam por alguma distância. Depois de cerca de duas léguas de viagem, chegaram ao anoitecer a um local atravessado por um grande caminho, em cujos lados se erguia uma fileira de casas com pátios e jardins. José tinha parentes lá. Pareceu-me que eram filhos do segundo casamento do padrasto ou da madrasta. A casa tinha uma aparência muito boa; porém, eles passaram por este lugar sem parar. Depois de meia légua, viraram à direita, em direção a Jerusalém, e chegaram a uma grande estalagem em cujo pátio havia uma fonte com canos de água. Eles encontraram muitas pessoas reunidas celebrando um funeral. O interior da casa, no centro da qual se encontrava a lareira com abertura para fumos, foi transformado numa grande sala, eliminando as divisórias móveis que normalmente separavam as várias divisões. Atrás da lareira havia cortinas pretas e na frente dela algo parecido com um caixão coberto com um pano preto. Vários homens estavam orando. Eles usavam roupas pretas compridas e outros vestidos brancos mais curtos por cima. Alguns usavam uma espécie de manipulo preto, com franjas, pendurado nos braços. Em outra sala estavam as mulheres completamente embrulhadas em suas roupas, chorando, sentadas sobre baús muito baixos. Os donos da casa, ocupados com a cerimônia fúnebre, contentaram-se em fazer sinal para que entrassem; mas os servos os receberam com muita cortesia e cuidaram deles. Prepararam um alojamento separado com esteiras suspensas, o que lhe dava a aparência de uma tenda.
Mais tarde vi os donos da casa visitando a Sagrada Família, em conversa amigável com eles. Eles não usavam mais roupas brancas. José e Maria comeram, oraram juntos e descansaram.
No dia seguinte, ao meio-dia, Maria e José partiram para Belém, de onde estavam a apenas três léguas de distância. O dono da casa insistiu para que ficassem, pensando que Maria daria à luz a qualquer momento. Maria, baixando o véu, respondeu que deveria esperar mais trinta e seis horas. Acho até que ela disse trinta e oito. Aquela mulher os teria hospedado com prazer, não em sua casa, mas em outro prédio próximo. Na hora da partida vi que José, conversando sobre seus burros com o dono da casa, elogiou seus animais, e disse que carregava o burro para penhorar em caso de necessidade. Os convidados falaram sobre como seria difícil encontrar acomodação em Belém, e José disse que tinha vários amigos lá e tinha certeza de que seria bem recebido. Entristeceu-me ouvi-lo falar com tanta convicção da boa recepção que receberia. Ele ainda conversou sobre a mesma coisa com Maria no caminho. Vemos, então, que até os santos podem estar errados.

XL Chegada em Belém

Do último alojamento, Belém ficava a cerca de três léguas de distância. Fizeram um desvio para o norte da cidade, aproximando-se pelo oeste. Pararam debaixo de uma árvore, fora do caminho, e Maria desceu do burro, arrumando as roupas. José foi com Maria a um grande edifício rodeado de pequenas construções e pátios, a poucos minutos de Belém.
Havia muitas árvores ali. Muitas pessoas armaram suas tendas naquele lugar. Esta era a antiga casa paterna da família de Davi, que pertencia ao pai de São José. Parentes ou pessoas relacionadas a José moravam lá; mas não quiseram reconhecê-lo e trataram-no como um estranho. Naquela casa eram então recolhidos impostos para o governo romano. José entrou acompanhado de Maria, conduzindo o burro pelo cabresto, pois todos tinham que se dar a conhecer ao chegar, e ali receberam permissão para entrar em Belém.
O burrinho não estava com eles: está correndo pela cidade, em direção ao Sul, onde havia um pequeno vale. José entrou no grande edifício. Maria estava acompanhada de várias mulheres numa pequena casa com vista para o pátio. Essas mulheres eram bastante benevolentes e a alimentavam, pois cozinhavam para os soldados da guarnição. Eram soldados romanos, tinham tiras que pendem da cintura. A temperatura não era fria: era agradável; O sol aparecia acima da montanha, entre Jerusalém e Betânia.
Deste local era possível avistar uma paisagem muito bonita. José estava num quarto espaçoso, que não ficava no térreo. Perguntam-lhe quem era e consultaram grandes pergaminhos escritos, alguns suspensos nas paredes; Eles os desdobraram e leram sua genealogia, bem como a de Maria. José parecia não saber que Maria, através de Joaquim, também descendia em linha direta de Davi.
O homem perguntou onde estava sua esposa. Já se passavam cerca de sete anos desde que regularizaram o imposto para a população do país, devido a alguma confusão e desordem. Este imposto estava em vigor há dois meses: fora pago nos sete anos anteriores, mas sem regularidade. Agora era preciso pagar duas vezes. José chegou um pouco atrasado para pagar, mas apesar disso o trataram com cortesia. Ele ainda não pagou. Eles lhe perguntam qual era o seu sustento; Ele respondeu que não possuía imóveis, que vivia do trabalho e que também recebia ajuda da sogra.
Havia um grande número de escreventes e funcionários na casa. Acima estavam os romanos e os soldados. Vi fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos, vários escribas e outras autoridades romanas e judaicas. Não existia outro comitê desse tipo em Jerusalém; Mas há outros lugares do país, como Magdala, perto do Lago Genesaré, onde o povo da Galileia e de Sidon iam pagar, creio eu. Somente aqueles que não possuíssem bens imóveis, sobre os quais incidia o imposto correspondente, deviam comparecer ao local de nascimento. Esse imposto seria dividido dentro de três meses em três partes, cada uma com uma destinação diferente. Uma parte ficava para o imperador Augusto, para Herodes e para outro príncipe que morava perto do Egito. Tendo participado numa guerra e tendo direitos sobre uma parte do país, era necessário dar-lhe alguma coisa. A segunda parte destinava-se à construção do Templo: pareceu-me que deveria servir para pagar uma dívida contraída. A terceira deveria ser para as viúvas e os pobres, que há muito tempo não recebiam nada; mas como quase sempre acontece, mesmo no nosso tempo, esse dinheiro quase nunca chegava aonde deveria chegar. Estas boas razões eram dadas para exigir o imposto, mas quase tudo permanecia nas mãos dos poderosos.
Quando o caso de José foi resolvido, eles levaram Maria aos escribas, mas eles não pediram documentos. Eles disseram a José que não era necessário trazer sua esposa com ele. Acrescentaram algumas piadas por causa da juventude de Maria, deixando o pobre José confuso.

XLI A Sagrada Família se refugia na gruta

Eles entraram em Belém. As casas pareciam muito distantes umas das outras. Eles entraram através dos escombros, como se fosse uma porta desabada. Maria permanecia calma, ao lado do burro, no início de uma rua, enquanto José procurava em vão alojamento entre as primeiras casas. Havia muitos estrangeiros e muitas pessoas podiam ser vistas indo de um lugar para outro. José voltou para junto de Maria, dizendo-lhe que não era possível encontrar alojamento; que eles teriam que penetrar ainda mais na cidade. Eles caminharam puxando o burro de José pelo cabresto e Maria estava ao seu lado. Ao chegarem à entrada de outra rua, Maria permanecia junto ao jumento, enquanto José ia de casa em casa; mas ele não encontrou nenhum lugar onde quisessem recebê-los. Voltou cheio de tristeza para o lado de Maria. Isso se repetiu várias vezes e Maria teve que esperar muito tempo. Por toda parte diziam que o lugar já estava ocupado e, tendo-o rejeitado em todos os lugares, José disse a Maria que era necessário ir para outro lugar onde, sem dúvida, encontrariam um lugar. Retomaram a direção oposta à que haviam tomado ao entrar e seguiram em direção ao Sul. Seguiram por um beco que mais parecia um caminho de campo, já que as casas eram isoladas, em pequenos morros. As tentativas também não tiveram sucesso lá. Chegando ao outro lado de Belém, onde as casas estavam ainda mais dispersas, encontraram um grande espaço vazio, como um campo deserto na cidade. Nele havia uma espécie de barracão e a pouca distância uma grande árvore, semelhante a uma tília, de tronco liso, com galhos estendidos, formando um telhado ao seu redor. José conduziu Maria para debaixo desta árvore, e arrumou-lhe um assento com os embrulhos aos pés, para que ela pudesse descansar, enquanto ele voltava em busca de melhor refúgio nas casas vizinhas. O burro ficou ali com a cabeça encostada na árvore. Maria, a princípio, permaneceu de pé, encostada no tronco da árvore. Seu vestido de lã branca, sem cinto, caía em dobras ao seu redor. Sua cabeça estava coberta por um véu branco. As pessoas que passavam olhavam para ela, sem saber que o seu Salvador, o seu Messias, estava tão perto delas. Como Maria era paciente, humilde e resignada! Ele teve que esperar muito tempo. Por fim sentou-se nas colchas, juntando as mãos sobre o peito, com a cabeça baixa. José voltou cheio de tristeza, pois não conseguiu encontrar pousada ou refúgio. Os amigos sobre os quais ele contou a Maria mal o reconheceram. José chorou e Maria o confortou com palavras doces. Ele foi mais uma vez, de casa em casa, representando a condição de sua esposa, para tornar o pedido mais efetivo; mas também foi rejeitado precisamente por esse motivo. O lugar era solitário. Porém, algumas pessoas deixaram de olhar para ela de longe com curiosidade, como acontece quando você vê alguém que fica muito tempo no mesmo lugar ao anoitecer. Acho que alguns falaram com Maria, perguntando quem ela era. Finalmente José regressou, tão perturbado que mal ousou aproximar-se de Maria. Ele lhe disse que havia procurado em vão; mas que conhecia um lugar, fora da cidade, onde os pastores se reuniam quando iam a Belém com os seus rebanhos: que ali podiam encontrar até abrigo. José conhecia aquele lugar desde a juventude. Quando seus irmãos o incomodavam, ele frequentemente se retirava para orar fora do alcance de seus perseguidores. José disse que se os pastores voltassem, ele facilmente faria as pazes com eles; eles raramente vinham naquela época do ano. Acrescentou que quando ela estivesse tranquila naquele local, ele sairia novamente em busca de acomodações mais adequadas. Então saíram de Belém para o leste, seguindo um caminho deserto que virava para a esquerda. Era um caminho semelhante ao das paredes em ruínas dos fossos das fortificações demolidas de uma pequena cidade: primeiro subia um pouco, depois descia pela encosta de uma pequena colina. e ele os conduziu em poucos minutos para o leste de Belém, em frente ao lugar que procuravam, perto de uma colina ou muro antigo que tinha algumas árvores na frente: terebintos ou cedros com folhas verdes; outros tinham folhas pequenas como as do buxo.

XLII Descrição da Gruta de Belém

No extremo sul da colina, em torno da qual serpenteava o caminho que leva ao vale dos pastores, ficava a gruta onde José procurava refúgio para Maria. Havia outras cavernas abertas na mesma rocha. A entrada ficava a oeste e uma passagem estreita conduzia a uma sala arredondada de um lado, triangular do outro, no lado leste da colina. A gruta era natural; mas no lado sul, voltado para a estrada que conduz ao vale dos pastores, foram feitas algumas reparações de alvenaria tosca. No lado virado ao Sul existia outra entrada, geralmente murada. José a abriu novamente para maior comodidade. Saindo para a esquerda, havia outra abertura mais larga, que conduzia a uma caverna estreita e incômoda, de maior profundidade, que terminava abaixo da gruta da manjedoura. A entrada comum da gruta da manjedoura ficava voltada para o oeste. Do local era possível ver os telhados de algumas casas de Belém. Saindo dali e virando à direita, chegava-se a uma caverna mais profunda e escura, onde Maria devia ter se escondido outrora. Em frente à entrada, a poente, havia um pequeno telhado de junco apoiado em estacas, que se estendia para sul e cobria a entrada desse lado, para que se pudesse ficar à sombra diante da gruta. Na parte sul a gruta tinha três aberturas, com grades no topo, por onde entravam ar e luz. Havia uma abertura semelhante na abóbada da mesma rocha: estava coberta de grama e era a extremidade da altura sobre a qual fora construída a cidade de Belém. Indo do corredor, que era mais alto, até a gruta, formada pela própria natureza, era preciso descer mais. O piso ao redor da gruta era elevado, de modo que a própria gruta era cercada por um banco de pedra de larguras variadas.
As paredes da gruta, embora não totalmente lisas, eram bastante uniformes e limpas, até agradáveis à vista. Ao norte do corredor havia uma entrada para outra gruta lateral menor. Passando em frente a esta entrada ficava o lugar onde José costumava acender uma fogueira; Em seguida, a parede virava para nordeste em direção a outra caverna maior, localizada em uma altitude mais elevada. Lá mais tarde vi o burro de José. Atrás deste local havia um canto bastante grande, onde o burro cabia com forragem suficiente.
Esta gruta, em frente à entrada, era onde estava a Santíssima Virgem quando dela nasceu a Luz do mundo. Na parte que se estende para Sul foi colocada a manjedoura onde se adorava o Menino Jesus. A manjedoura nada mais era do que um cesto escavado na própria pedra, destinado a dar de beber aos animais. Acima dele havia um cocho, de ampla abertura, feito de treliça de madeira e erguido sobre quatro patas, para que os animais pudessem alcançar confortavelmente o feno ou a grama ali colocados. Para beber bastavam inclinar a cabeça para o bebedouro de pedra que havia abaixo. Em frente à manjedoura, a leste desta parte da gruta, a Virgem estava sentada com o Menino Jesus quando os três Reis Magos vieram oferecer-lhe os seus presentes. Saindo da manjedoura e virando para oeste no corredor em frente à gruta, passava-se em frente à referida entrada sul e chegava-se ao local onde José posteriormente fez o seu quarto, separando-o do resto com divisórias de pau-a-pique. Desse lado havia uma cavidade onde ele colocou vários objetos. No exterior, na parte sul da gruta, passava o caminho que conduzia ao vale dos pastores. Espalhadas pelas colinas haviam pequenas casas e, na planície, barracões com telhados de junco, sustentados por estacas. Em frente à caverna, a colina descia para um vale sem saída, fechado ao norte, com cerca de meio quarto de légua de largura. Havia amoreiras, árvores e jardins ali.
Atravessando um belo prado, onde havia uma fonte, e passando por baixo das árvores simétricas, chegava-se ao leste do vale, onde havia uma colina proeminente e nela a gruta do túmulo de Maraha, a enfermeira de Abraão . Também é chamada de Gruta do Leite. A Santíssima Virgem refugiou-se ali com o Menino Jesus repetidamente. Acima desta gruta havia uma grande árvore, em torno da qual havia alguns assentos. Daqui era possível ver Belém melhor do que da entrada da gruta da manjedoura.
Conheci muitas coisas sobre a gruta da manjedoura, que aconteceram nos tempos antigos. Lembro-me, entre outros, que Set, o filho da promessa, foi concebido e nascido nesta gruta por Eva, após um período de penitência de sete anos. Foi lá que um anjo lhe disse que Deus lhe deu Sete em vez de Abel. Ali Set foi escondido e alimentado, e na gruta de Maraha, porque seus irmãos queriam tirar-lhe a vida, como os filhos de Jacó tentaram fazer com José. Num tempo muito distante, onde vi que os homens viviam em cavernas, muitas vezes pude vê-los fazendo escavações na pedra para que nelas pudessem viver e dormir confortavelmente com os filhos, sobre peles de animais ou sobre colchões de erva. A escavação feita sob a gruta da manjedoura pode ter servido de cama para Set e posteriores habitantes. Não tenho mais certeza dessas coisas. Lembro-me também de ter visto nas minhas visões da pregação de Jesus que no dia 6 de outubro o Senhor, depois do seu batismo, celebrou a festa do sábado na gruta da manjedoura, que os pastores transformaram em oratório.
Abraão tinha uma ama chamada Maraha, que foi muito honrada por ele e que viveu até a velhice. Esta ama seguia Abraão por toda parte em um camelo e viveu com ele em Sucot por muito tempo. Nos seus últimos dias seguiu-o também até ao vale dos pastores, onde Abraão tinha montado as suas tendas ao redor da caverna. Passados os cem anos e vendo aproximar-se a sua última hora, ela pediu a Abraão que a enterrasse naquela gruta, sobre a qual fez algumas previsões, e que chamou de Gruta do Leite ou Gruta da Ama. Ali houve um acontecimento milagroso, que esqueci, e uma fonte jorrou do solo. A gruta era então um corredor estreito e alto, aberto numa pedra branca, não muito dura. De um lado havia uma camada dessa matéria que não chegava à abóbada. Escalando essa camada de matéria você poderia chegar à entrada de outra caverna, mais alta.
A gruta foi posteriormente alargada, uma vez que Abraão teve que escavar sua lateral para o túmulo de Maraha. Sobre um grande bloco de pedra havia uma espécie de gamela, também de pedra, sustentada por pernas curtas e grossas. Fiquei muito surpresa ao não ver nada disso na época de Jesus Cristo. Esta gruta do túmulo da ama tinha uma relação profética com a Mãe do Salvador, alimentando o seu Filho ali escondido, a quem perseguiam; pois na história da juventude de Abraão houve também uma perseguição figurativa deste, e sua ama salvou sua vida escondendo-o na gruta.
Desde o tempo de Abraão, esta gruta era um lugar de devoção, especialmente para mães e amas: nisso havia algo de profético, pois na ama de Abraão era venerada, em figura, a Santa Virgem, tal como Elias a tinha visto naquela nuvem. que trouxe a chuva e lhe dedicou um oratório no Monte Carmelo. Maraha cooperou de certa forma com o advento do Messias, tendo alimentado com seu leite uma ancestral de Maria. Não consigo expressar isso bem; mas tudo era como um poço profundo que ia até a fonte da vida universal e do qual sempre aproveitavam, até que Maria emergiu como única fonte de água limpa e imaculada.
A árvore que espalhava sua sombra sobre a gruta parecia de longe uma grande tília; Era largae na parte inferior e terminava em ponta: era um terebinto. Abraão conheceu Melquisedeque debaixo desta árvore, não me lembro agora em que ocasião. Esta frondosa árvore tinha algo de sagrado para os pastores e para as gentes circundantes: gostavam de descansar à sua sombra e rezar. Não me lembro bem da sua história, mas acho que o próprio Abraão a plantou. Ao lado havia uma fonte onde os pastores iam em certas ocasiões buscar água e lhe atribuíam virtudes singulares. Em ambos os lados da árvore construíram cabanas abertas para descansar, e tudo isso cercado por uma cerca protetora. Mais tarde vi que Santa Helena mandou construir ali uma igreja, onde se celebrava a Santa Missa.

XLIII José e Maria refugiam-se na gruta de Belém

Já era bastante tarde quando José e Maria chegaram à entrada da gruta. O burrinho, que havia desaparecido na entrada da Sagrada Família na casa paterna de José, e corria pela cidade, depois correu-lhes ao encontro e começou a pular feliz perto deles.
Vendo isso, a Virgem disse a José: “Veja, certamente é a vontade de Deus que entremos aqui”. José conduziu o burro sob o beiral, em frente à gruta; preparou um assento para Maria, que se sentou; enquanto ele fazia um  pouco de luz e penetrava na gruta. A entrada estava um tanto obstruída por feixes de palha e esteiras encostadas nas paredes. Também dentro da gruta havia vários objetos que dificultavam a passagem. José a limpou, preparando um lugar confortável para Maria, no lado oriental. Pendurou uma lâmpada acesa na parede e trouxe Maria para dentro, que se deitou na cama que José havia preparado para ela com colchas e panos. José pediu humildemente perdão por não ter conseguido encontrar algo melhor do que aquele refúgio inadequado; mas Maria, por dentro, sentia-se feliz, cheia de santa alegria.
Instalada Maria, José saiu com uma bota de couro e foi para trás do morro, até a campina, onde corria uma fonte, e enchendo-a de água voltou à gruta.
Mais tarde foi para a cidade, onde conseguiu pequenos contentores e algum carvão. À medida que se aproximava a festa de sábado e muitos estranhos entravam na cidade, foram montadas mesas nas esquinas de algumas ruas com os alimentos mais essenciais à venda.
Acho que havia pessoas que não eram judias. José voltou trazendo brasas em uma caixa gradeada; Colocou-as na entrada da gruta e acendeu o fogo com um pequeno punhado de gravetos; Ele preparou a refeição, que consistia em pãezinhos e frutas cozidas. Depois de comer e rezar, José preparou uma cama para Maria Santíssima. Sobre uma camada de junco estendeu uma colcha parecida com as que eu tinha visto na casa da Ana e colocou outra enrolada para a cabeceira da cama. Depois trouxe o burro e amarrou-o num lugar onde não pudesse causar desconforto; Ele cobriu as aberturas da abóbada por onde o ar entrava e arranjou um pequeno lugar na entrada para seu próprio descanso.
Quando o sábado começou, José aproximou-se de Maria, sob a lâmpada, e recitou com ela as orações correspondentes; então ele saiu para a cidade. Maria se envolveu em suas roupas para descansar. Durante a ausência de José vi-a rezando de joelhos. Então ela deitou-se para dormir, deitada de lado. Sua cabeça repousava sobre um braço, em cima do travesseiro. José voltou tarde. Rezou mais uma vez e deitou-se humildemente na cama à entrada da gruta.
Maria passou a festa do sábado rezando na gruta, meditando com grande concentração. José saiu várias vezes: provavelmente foi à sinagoga de Belém. Eu os vi comendo comida preparada dias antes e orando juntos.
À tarde, quando os judeus costumam fazer a caminhada do sábado, José levou Maria à gruta de Maraha, a ama de Abraão. Eles ficaram lá por algum tempo. Esta gruta era mais espaçosa que a da manjedoura e José arranjou ali outro assento. Ele também ficou debaixo de uma árvore próxima, orando e meditando, até o fim do sábado. José a levou novamente, porque Maria lhe disse que o nascimento aconteceria naquele mesmo dia à meia-noite, quando já haviam se passado nove meses desde a saudação do anjo do Senhor. Maria pediu-lhe que tivesse tudo preparado, para que pudessem honrar da melhor forma possível a entrada no mundo do Menino prometido por Deus e concebido de forma sobrenatural. Ela também pediu a José que rezasse com ela pelas pessoas que, por causa da dureza de seus corações, não quiseram dar-lhes hospitalidade. José se ofereceu para trazer duas mulheres piedosas que ele conhecia de Belém; mas Maria disse-lhe que não precisava da ajuda de ninguém. Assim que o sol se pôs, antes do final do sábado, José voltou a Belém, onde comprou os objetos mais necessários: uma tigela, uma mesa baixa, frutas secas e passas, voltando com tudo isso para a gruta. Ele foi até a gruta de Maraha e levou Maria até a manjedoura, onde Maria sentou-se em suas colchas, enquanto José preparava a comida.
Eles comeram e oraram juntos. José fez uma separação entre o dormitório e o resto da gruta, utilizando alguns postes nos quais pendurou algumas esteiras que ali estavam. Ele alimentou o burro que estava amarrado na parede à esquerda da entrada. Encheu o cocho da manjedoura com junco, grama e musgo e estendeu uma colcha por cima. Quando a Virgem lhe indicou que a hora se aproximava, instando-o a rezar, José pendurou várias lâmpadas acesas no teto e saiu da gruta, pois ouvira um barulho na entrada. Encontrou o filhote que até então vagava livremente pelo vale dos pastores e agora voltava, saltando e brincando, cheio de alegria, ao redor de José. Ele o amarrou sob o beiral, em frente à caverna, e deu-lhe a forragem. Ao retornar à gruta, antes de entrar nela, viu a Virgem rezando de joelhos em sua cama, de costas voltadas para o Oriente. Pareceu-lhe que toda a gruta estava em chamas e que Maria estava rodeada de uma luz sobrenatural. José olhou para tudo isso como Moisés para a sarça ardente. Então, cheio de santo temor, ele entrou em sua cela e prostrou-se no chão em oração.

XLIV Nascimento de Jesus

Vi que a luz que rodeava a Virgem tornava-se cada vez mais ofuscante, de modo que a luz das lâmpadas acesas por José já não era visível. Maria, com seu vestido largo e solto, estava ajoelhada na cama, com o rosto voltado para o leste. Quando chegou a meia-noite, vi-a levada em êxtase, suspensa no ar, a uma certa altura acima da terra. Ele estava com as mãos cruzadas sobre o peito. O brilho ao seu redor crescia a cada momento. Toda a natureza parecia sentir uma emoção de alegria, até mesmo os seres inanimados. A rocha que compunha o chão e o átrio parecia pulsar sob a luz intensa que os rodeava. Depois não vi mais o baú. Um rastro luminoso, que aumentava constantemente de clareza, ia de Maria aos mais altos céus. Lá em cima houve um movimento maravilhoso de glórias celestiais aproximando-se da terra, e seis coros de anjos celestiais apareceram claramente. A Virgem Santa, elevada da terra em meio ao êxtase, rezou e baixou o olhar para o seu Deus, de quem ela se tornou Mãe. O Verbo eterno, um Menino débil, estava deitado no chão diante de Maria.
Vi Nosso Senhor na forma de uma criança pequena e totalmente luminosa, cujo brilho eclipsava a radiância circundante, deitado sobre um pequeno tapete diante dos joelhos de Maria. Parecia-me muito pequeno e crescia diante dos meus olhos; mas tudo isso era a irradiação de uma luz tão poderosa e deslumbrante que não consigo explicar como consegui olhar para ela. A Virgem permaneceu em êxtase por algum tempo; Depois cobriu o Menino com um pano, sem tocá-lo nem mesmo tomá-lo nos braços. Pouco tempo depois vi o Menino se mexendo e ouvi-o chorar. Foi nesse momento que Maria pareceu voltar a si e, pegando o Menino, envolveu-o no pano com que o cobrira e segurou-o nos braços, abraçando-o contra o peito. Ela sentou-se, escondendo-se e ao Menino sob o seu amplo véu, e creio que o amamentou. Então vi os anjos ao redor, em forma humana, ajoelhados diante do Menino recém-nascido, para adorá-Lo.
Passada uma hora do nascimento do Menino Jesus, Maria chamou José, que ainda rezava com o rosto encostado no chão.
Aproximou-se prostrando-se, cheio de alegria, humildade e fervor. Somente quando Maria lhe pediu que pressionasse em seu coração o sagrado Dom do Altíssimo, José se levantou, recebeu o Menino nos braços e, derramando lágrimas de pura alegria, agradeceu a Deus pelo Dom recebido do céu.
Maria embrulhou o Menino: ele só tinha quatro fraldas. Mais tarde vi-o, Maria e José sentados no chão, um ao lado do outro: não falavam, pareciam absortos numa contemplação muda. Diante de Maria, enfaixada como uma criança comum, estava Jesus recém-nascido, lindo e brilhante como um raio. “Ah, eu disse, este lugar contém a salvação do mundo inteiro e ninguém suspeita disso!”
Vi que o Menino foi colocado na manjedoura, arranjado por José com palhas, lindas plantas e uma colcha por cima. A manjedoura ficava no cesto escavado na rocha, à direita da entrada da gruta, que ali se alargava para o sul.
Depois de colocarem o Menino na manjedoura, os dois ficaram um de cada lado, derramando lágrimas de alegria e cantando canções de louvor.
José trouxe o assento e a cama de descanso de Maria para a manjedoura. Vi a Virgem, antes e depois do nascimento de Jesus, envolta num vestido branco, que a envolvia completamente. Pude vê-la ali nos primeiros dias sentada, ajoelhada, em pé, deitada ou dormindo; mas nunca a vi doente ou cansada.

XLV Sinais na natureza. Anúncio aos pastores

Vi em muitos lugares, mesmo nos lugares mais distantes, uma liga incomum, um movimento extraordinário naquela noite. Vi os corações de muitos homens de boa vontade reavivados por um desejo cheio de alegria e, por outro lado, os corações dos ímpios cheios de medo. Até mesmo em animais vi a alegria manifestar-se em seus movimentos e saltos. As flores erguiam suas corolas, as plantas e as árvores ganhavam novo vigor e verdor, e espalhavam suas fragrâncias e perfumes. Vi fontes de água brotando da terra. No exato momento do nascimento de Jesus, uma fonte abundante jorrou na gruta da Colina Norte. Quando José percebeu isso no dia seguinte, imediatamente preparou um rego para ela. O céu era vermelho escuro sobre Belém, enquanto um vapor fraco e brilhante era visto sobre a Gruta da Manjedoura, o Vale da Gruta do Emaranhado e o Vale dos Pastores.
A cerca de légua e meia da gruta de Belém, no vale dos pastores, havia um monte onde começava uma série de vinhas que se estendiam até Gaza. Nas encostas do morro ficavam as cabanas de três pastores, chefes das famílias dos demais pastores das redondezas. Ao dobro da distância da gruta da manjedoura ficava o que chamavam de torre dos pastores. Era um grande andaime piramidal, de madeira, assentado em enormes blocos da mesma rocha: rodeado de árvores verdes e situado numa colina isolada no meio de uma planície. Estava cercado por escadas; tinha galerias e torreões, todos cobertos com esteiras. Tinha certa semelhança com as torres de madeira que vi no país dos Três Reis Magos, de onde observavam as estrelas. À distância dava a impressão de um grande navio com muitos mastros e velas. Desta torre tinha-se uma vista esplêndida de toda a região. Jerusalém e a montanha da tentação eram vistas no deserto de Jericó. Os pastores tinham ali homens que observavam o progresso dos rebanhos e avisavam os outros, tocando trompas de caça, caso houvesse incursões de ladrões ou homens de guerra. As famílias dos pastores viviam naqueles locais num raio de cerca de duas léguas. Tinham fazendas isoladas, com jardins e prados. Reuniram-se junto à torre, onde guardavam os utensílios que tinham em comum. Ao longo da colina da torre ficavam as cabanas, e um pouco afastadas destas havia um grande barracão com divisões onde viviam as mulheres dos pastores guardiões: ali preparavam a comida. Vi que nesta noite parte dos rebanhos estava perto da torre, parte no campo e o restante debaixo de um barracão perto do monte dos pastores.
No nascimento de Jesus Cristo vi estes três pastores muito impressionados com o aparecimento daquela noite maravilhosa; É por isso que eles ficavam em suas cabanas olhando por toda parte. Então viram com admiração a luz extraordinária sobre a gruta da manjedoura. Vi que os pastores que estavam junto à torre ficaram agitados e subiram ao seu miradouro, dirigindo o olhar para a gruta. Enquanto os três pastores olhavam para aquele lado do céu, vi uma nuvem luminosa descer sobre eles, dentro da qual notei movimento à medida que se aproximava. Primeiro vi que se desenhavam formas vagas, depois rostos, finalmente ouvi cânticos muito harmoniosos, muito alegres, cada vez mais claros. Como no princípio os pastores se assustaram, apareceu um anjo diante deles, que lhes disse: "Não temais, pois venho anunciar-vos uma grande alegria para todo o povo de Israel. Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo, o Senhor. Por sinal vos dou isto: encontrareis o menino envolto em panos, lançado numa manjedoura". Enquanto o anjo dizia estas palavras, o resplendor se tornava cada vez mais intenso ao seu redor. Vi cinco ou sete grandes figuras de anjos muito bonitos e luminosos. Levavam nas mãos uma espécie de bandeirola longa, onde se viam letras do tamanho de um palmo e ouvi que louvavam a Deus cantando: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra para os homens de boa vontade".
Mais tarde os pastores que estavam junto à torre tiveram a mesma aparência. Alguns anjos também apareceram a outro grupo de pastores, perto de uma fonte, a leste da torre, a cerca de três léguas de Belém. Não vi os pastores irem imediatamente para a manjedoura, porque alguns estavam a uma légua e meia de distância e outros a três: vi-os, em vez disso, consultando-se sobre o que levariam ao recém-nascido e preparando os presentes com toda pressa. Chegaram à gruta da manjedoura ao amanhecer.

XLVI Sinais em Jerusalém, em Roma e em outras cidades

Esta noite vi no Templo Noemi, a mestra de Maria, a profetisa Ana e o ancião Simeão. Vi, em Nazaré, Ana, e em Juta, Santa Isabel. Todos tiveram visões e revelações do nascimento do Salvador.
Vi o pequeno João Batista, perto de sua mãe, manifestando uma alegria muito grande. Viram e reconheceram Maria no meio daquelas visões, embora não soubessem onde tinha ocorrido o acontecimento. Isabel também não sabia. Só Ana sabia que tinha lugar em Belém. Naquela noite vi no Templo um acontecimento admirável e estranho: todos os rolos de escrituras dos saduceus saltavam para fora dos armários onde eles estavam trancados, espalhando-os18. Este acontecimento causou muito espanto em todos, mas os saduceus atribuíram-no a efeitos de feitiçaria, e repartiram dinheiro aos que o sabiam para que mantivessem o segredo.
Eu vi muitas coisas em Roma naquela noite. Quando Jesus nasceu vi um bairro da cidade, onde viviam muitos judeus: ali brotar uma fonte de óleo que causava maravilha a todos os que a viram. Uma estátua magnífica de Júpiter caiu de seu pedestal em pedaços, porque a abóbada do templo caiu.
Os pagãos se encheram de terror, fizeram sacrifícios e perguntaram a outro ídolo, o de Vênus, creio eu, o que aquilo significava. O demônio respondeu, por meio da estátua: "isto aconteceu porque uma virgem concebeu um filho sem deixar de ser virgem; e este menino acaba de nascer". Este ídolo falou também da fonte de óleo. No local onde brotou a fonte ergueu-se uma igreja dedicada à Virgem Maria, Mãe de Deus. Os sacerdotes pagãos estavam consternados e faziam averiguações".
Setenta anos antes destes fatos vivia em Roma uma boa e piedosa mulher. Não me lembro agora se era judia. Chamava-se algo como Serena ou Cyrena e possuía alguns bens de fortuna. Naquela época, o ídolo de Júpiter havia sido revestido de ouro e pedras preciosas e sacrifícios solenes eram oferecidos a ele.
A mulher teve visões, e em consequência delas fez várias profecias, dizendo publicamente aos pagãos que não deviam prestar honras ao ídolo de Júpiter nem lhe faria sacrifícios, pois viria um dia em que o veriam cair em pedaços. Os sacerdotes fizeram-na comparecer e perguntaram-lhe quando deviam acontecer estas coisas. Como não pôde determinar o tempo, foi trancada na prisão e maltratada, até que Deus a fez saber que isso aconteceria quando uma virgem puríssima desse à luz uma criança. Quando ela deu essa resposta, eles zombaram dela e a libertaram, chamando-a de louca. Somente quando o templo desmoronou, despedaçando o ídolo, eles reconheceram que ela havia dito a verdade, maravilhando-se da época marcada e do não saberem que a Santíssima Virgem tinha sido a mãe e ignorando o nascimento do Salvador. Vi que os magistrados de Roma se informaram destes fatos, como da fonte que haviam brotado. Um deles foi um tal Lentulo, avô de Moisés, sacerdote e mártir, e daquele outro Lentulo, que foi amigo de São Pedro em Roma.
Relacionado com o imperador Augusto vi algo que agora não me lembro bem. Vi o imperador com outras pessoas sobre uma colina de Roma, em um de cujos lados estava o templo, cujo telhado havia desmoronado. Por umas escadas chegava-se até o cume da colina onde havia uma porta dourada. Era um lugar onde assuntos de interesse eram divulgados. Quando o imperador desceu da colina, viu à direita, acima dela, uma aparição no céu. Era uma virgem sobre um arco-íris, com uma criança no ar, que parecia sair dela. Eu acho que, o imperador foi o único que viu essa aparição. Para saber o seu significado, fez consultar um oráculo que tinha emudecido, o qual, naquela ocasião, falava de um menino recém-nascido, a quem todos eles deveriam adorar e prestar homenagem. O imperador mandou erguer um altar no local da colina onde tinha visto a aparição, e depois de ter oferecido sacrifícios, dedicou-o ao Primogênito de Deus. Esqueci-me de outros pormenores deste fato.
Eu vi no Egito um fato que anunciava o nascimento de Jesus Cristo. Muito além de Mataréia, de Heliópolis e de Mênfis havia um grande ídolo que pronunciava habitualmente toda classe de oráculos, e que de repente emudeceu. O Faraó mandou fazer sacrifícios em todo o país, a fim de saber por que motivo havia calado. O ídolo foi obrigado por Deus a responder que guardava silêncio e devia desaparecer, porque tinha nascido o Filho da Virgem e que naquele mesmo local seria erguido um templo em honra da Virgem. O Faraó mandou erguer ali um templo perto do que havia antes em honra do ídolo. Não me lembro de tudo o que aconteceu; só sei que o ídolo foi retirado e que se ergueu um templo à anunciada Virgem e ao seu menino, sendo honrados à maneira deles.
Ao tempo do nascimento de Jesus Cristo vi uma maravilhosa aparição que se apresentou aos Reis Magos em seu país. Estes Magos eram observadores dos astros e tinham sobre uma montanha uma torre em forma de pirâmide, onde sempre se encontrava um deles com os sacerdotes observando o curso dos astros e das estrelas. Eles escreviam suas observações e as comunicavam uns aos outros. Naquela noite, creio ter visto dois dos Reis Magos sobre a torre piramidal. O terceiro, que habitava a leste do Mar Cáspio, não estava lá. Observavam uma determinada constelação na qual viam de vez em quando variantes, com diversas aparições. Naquela noite vi a imagem que lhes era apresentada. Não a viram numa estrela, mas numa figura composta de várias delas, entre as quais parecia haver um movimento. Eles viram um lindo arco-íris sobre a lua e sobre o arco-íris sentada a Virgem. Tinha o joelho esquerdo ligeiramente levantado e a perna direita mais alongada, descansando o pé na lua. À esquerda da Virgem, acima do arco-íris, aparecia uma estirpe de videira, e à direita, um feixe de espigas de trigo. Diante da Virgem vi elevar-se como um cálice semelhante ao da Última Ceia. Do cálice vi sair o menino, e por cima dele, um disco luminoso parecido com uma custódia vazia, da qual partiam raios semelhantes a espigas. Por isso pensei no Santíssimo Sacramento.
Do lado direito da criança saiu um ramo, em cuja extremidade apareceu, à semelhança de uma flor, uma Igreja octogonal com uma grande porta dourada e duas pequenas laterais. A Virgem fez entrar o cálice, o menino e a hóstia na igreja, cujo interior pude ver, e que naquele momento me pareceu muito grande. No fundo havia uma manifestação da Santíssima Trindade.
A igreja foi então transformada em uma cidade brilhante, que me pareceu a Jerusalém celestial. Neste quadro vi muitas coisas que se sucediam e pareciam nascer umas das outras, enquanto eu olhava o interior da Igreja. Já não me lembro de como se foram sucedendo. Também não me lembro de como os Reis Magos souberam que Jesus havia nascido na Judéia. O terceiro dos Reis, que vivia muito distante, viu a aparição ao mesmo tempo que os outros. Os reis sentiram uma alegria muito grande, reuniram seus dons e presentes e se prepararam para a viagem. Eles se encontraram depois de vários dias no caminho. Nos dias que precederam o nascimento de Jesus, os via sobre o seu observatório onde tiveram várias visões.

XLVII Antecedentes dos Reis Magos

Quinhentos anos antes do nascimento do Messias, Os antepassados dos Três Reis Magos eram poderosos e eles tinham mais riquezas do que seus descendentes, pois suas posses eram extensas e sua herança menos dividida. Viviam então em tendas, com exceção do antepassado do rei que vivia a leste do Mar Cáspio, cuja cidade vejo neste momento.
Esta cidade tinha construções subterrâneas de pedra, no alto das quais se erguiam pavilhões, pois estava perto do mar, que transbordava com frequência. Vi ali montanhas muito altas e dois mares, um à minha direita e outro à minha esquerda. Aqueles chefes de raça foram, segundo as suas tradições, observadores e adoradores dos astros, e existia no país um culto abominável que consistia em sacrificar os velhos, os homens deformados e às vezes também as crianças. O mais horrível era que essas crianças eram vestidas de branco e depois jogadas em caldeiras onde morriam fervidas. Toda essa abominação foi abolida. A estes cegos pagãos Deus anunciou com muita antecipação o nascimento do Salvador.
Esses príncipes tinham três filhas versadas no conhecimento dos astros. As três receberam o espírito de profecia e souberam, por meio de uma visão, que uma estrela sairia de Jacó e que uma virgem daria à luz o Salvador do mundo. Vestidas de longos mantos percorriam o país pregando a reforma dos costumes e anunciando que os enviados do Salvador viriam um dia ao país trazendo o culto do Deus verdadeiro. Prediziam muitas coisas mais relativas à nossa época e a épocas ainda mais distantes. Na sequência destas predições, os pais destas jovens elevaram um templo à futura mãe de Deus para o Meio-dia do mar, no mesmo local dos limites de seus países e ali ofereciam sacrifícios. A predição das três virgens se referia especialmente a uma constelação e a várias mudanças que deveriam ocorrer. Desde então começaram a observar aquela constelação do alto de uma colina próxima ao templo da futura mãe de Deus, e de acordo com essas observações mudavam algumas coisas nos templos, no culto religioso e nos ornamentos. Assim vi que o Pavilhão do templo era algumas vezes azul, outras vermelho, outras amarelo, e outras cores. Fiquei impressionada que eles passassem o dia de festa para o sábado, enquanto antes celebravam a sexta-feira. Ainda me lembro do nome que deram a este dia: Tanna ou Tanneda.

XLVIII Data do nascimento do Redentor

Jesus Cristo nasceu antes do ano 3997 do mundo. Mais tarde foram esquecidos os quatro anos, menos um pouco, transcorridos desde o seu nascimento até o fim do 4000. Depois começou a nossa era quatro anos mais tarde. Um dos cônsules de Roma, chamado Lentulo, foi ancestral do sacerdote e mártir Moisés, do qual tenho uma relíquia. Viveu nos tempos de São Cipriano. Dele desce aquele outro Lentulo que foi amigo de São Pedro em Roma. Herodes reinou quarenta anos. Durante sete anos não foi independente; mas desde aquele tempo oprimia o país e cometia atos de crueldade. Ele morreu, creio eu, no sexto ano da vida de Jesus; sua morte foi mantida em segredo por algum tempo. Herodes sempre foi sanguinário e até nos seus últimos dias fez muito mal. Eu o vi rastejando no meio de uma espaçosa sala acolchoada, com uma lança ao lado dele, querendo ferir as pessoas que se aproximavam dele. Jesus nasceu mais ou menos no trigésimo quarto ano de seu reinado.
Cerca de dois anos antes da entrada de Maria no templo, Herodes mandou fazer algumas construções lá. Ele não fez o templo novamente, mas algumas reformas e melhorias. A fuga Para o Egito ocorreu quando Jesus tinha nove meses, e a matança dos inocentes ocorreu durante o segundo ano da idade de Jesus. O nascimento de Jesus ocorreu em um ano judaico de treze meses, que era um arranjo semelhante aos nossos anos bissextos. Eu também acredito que os judeus tinham meses de vinte dias duas vezes por ano e um de vinte e dois dias. Pude ouvir algo disso a propósito dos dias de festa; mas agora só me resta uma lembrança confusa. Eu vi que mudanças no calendário foram feitas várias vezes. Isso aconteceu ao sair de um cativeiro, enquanto se trabalhava na reconstrução do Templo. Vi o homem que mudou o calendário e soube também o seu nome.

XLIX Os pastores vêm com seus presentes

Ao cair da tarde os três pastores chefes dirigiram-se à gruta da manjedoura com os presentes, consistiam de animais parecidos com veados. Se eram cabritos, eram muito diferentes dos do nosso país, pois tinham pescoços longos, olhos bonitos muito brilhantes, eram muito graciosos e leves ao correr, os pastores os levavam amarrados com finos cordéis. Traziam sobre os ombros aves que haviam matado, e debaixo do braço outras vivas de maior tamanho. Ao chegarem, bateram timidamente à porta da gruta e São José saiu ao encontro deles. Eles repetiram o que os anjos lhes haviam anunciado e disseram que desejavam prestar homenagem ao Menino da Promessa e oferecer-lhe seus pobres presentes. José aceitou seus presentes com humilde gratidão e os levou junto à Virgem, que se achava sentada perto da manjedoura, com o Menino Jesus sobre suas joelhos. Os três pastores curvaram-se com toda a humildade, permanecendo muito tempo em silêncio, como absorvidos numa alegria indizível. Cantaram então o cântico que tinham ouvido aos anjos e um salmo que não me lembro. Quando estavam prestes a partir, Maria deu-lhes o menino, que eles tomaram em seus braços, um após o outro, e chorando de emoção o devolveram a Maria, e eles se retiraram.
À noite vieram da torre dos pastores, a quatro léguas da manjedoura, outros pastores com suas mulheres e seus filhos. Traziam pássaros, ovos, mel, meadas de fios de diversas cores, pequenos atados que pareciam de seda crua e ramos de uma planta parecida com o junco. Esta planta tinha espigas cheias de sementes grossas. Depois de entregarem estes presentes a São José, aproximaram-se humildemente da manjedoura, ao lado da qual Maria estava sentada. Saudaram a mãe e o menino; depois, de joelhos, cantaram belos salmos, o Gloria In excelsis dos Anjos e alguns outros muito breves.
Eu cantava com eles. Cantavam a várias vozes e eu fiz uma vez a voz alta.
Lembro-me mais ou menos do seguinte: "Ó menino, vermelho como a rosa, pareces semelhante a um mensageiro de paz!" Quando se despediram, inclinaram-se diante da manjedoura como se beijassem a criança.
Neste dia voltei a ver os três pastores, ajudando São José, um após o outro, a dispor de tudo com maior conforto na gruta do presépio e nas cavernas laterais. Vi também junto à Virgem várias piedosas mulheres que a ajudavam em diversos serviços. Eram essênias que habitavam não muito longe da gruta em uma angostura situada a leste. Estas mulheres viviam em algumas espécies de casas abertas na rocha a uma altura considerável da colina.
Eles tinham jardins perto de suas casas e se ocupavam-se em instruir as crianças dos essênios. São José as tinha feito vir porque desde a infância conhecia esta associação. Quando fugia de seus irmãos, havia se refugiado várias vezes com essas piedosas mulheres na gruta do presépio. Estas aproximavam-se uma após a outra de Maria, trazendo provisões, e atendiam aos afazeres da Sagrada Família.
Hoje vi uma cena muito tocante: José e Maria encontravam-se junto à manjedoura, contemplando com profunda ternura o Menino Jesus. De repente, o jumento deitou-se também de joelhos e abaixou a cabeça até a terra em ato de adoração. Maria e José choravam emocionados. À noite veio uma mensagem de Santa Ana. Um ancião veio de Nazaré com uma viúva parenta de Ana, a quem servia. Traziam vários objetos para Maria. Ao ver o menino, ficaram extraordinariamente comovidos: o velho derramou lágrimas de alegria.
Ele retornou ao caminho levando notícias do que foi visto a Ana, enquanto a viúva ficou para servir a Maria.
Hoje vi que a Virgem com o Menino Jesus, acompanhada da criada de Ana, saíram da gruta da manjedoura durante algumas horas. Maria refugiou-se na gruta lateral, onde a fonte havia brotado após o nascimento de Jesus Cristo. Passou cerca de quatro horas naquela gruta, na qual deveria estar mais tarde, dois dias inteiros. José estava arrumando - a desde a manhã para que ela pudesse estar lá com mais conforto. Refugiaram-se naquela gruta, por inspiração interior, pois tinham vindo pessoas de Belém para ver a gruta da manjedoura, e parece-me que eram emissários de Herodes. Após as conversas dos pastores, espalhou-se a notícia de que algo milagroso havia acontecido ali no nascimento da criança. Vi aqueles homens conversando um pouco com José, a quem acharam com os pastores diante da gruta da manjedoura, e logo se foram, rindo e zombando, quando viram a pobreza do lugar e a simplicidade das pessoas. Maria, depois de ter ficado quatro horas escondida na gruta lateral, voltou à do presépio com o Menino Jesus.
Na gruta da manjedoura reinava uma amável tranquilidade, pois ninguém ia até aquele lugar e só os pastores estavam em comunicação com ela. Na cidade de Belém ninguém se ocupava do que acontecia na gruta, pois havia muita gente, agitação e movimento por causa dos forasteiros. Muitos animais eram vendidos e mortos porque alguns forasteiros pagavam seus impostos com gado.
Vi que havia também pagãos como criados e servidores.
Pela manhã, o dono da última pousada onde José e Maria passaram a noite enviou um criado à gruta da manjedoura com vários presentes. Ele próprio chegou mais tarde para prestar homenagem ao Menino Jesus.
A notícia do aparecimento do anjo aos pastores do vale no momento do nascimento de Jesus fez com que todos os pastores e o povo do vale ouvissem sobre o maravilhoso Filho da Promessa. Todos eles vieram homenageá-lo.
Neste dia vários pastores e outras pessoas de bem vieram à gruta da Manjedoura e honraram o Menino com grande devoção. Usavam trajes festivos porque iam a Belém para a solenidade do sábado. Entre estes visitantes vi aquela mulher que no dia 20 de novembro compensou a grosseria do marido para com a Sagrada Família, oferecendo-lhe hospitalidade. Poderia ter ido mais facilmente a Jerusalém, porque é mais perto, para a festa do sábado, mas quis fazer um desvio mais longo para ir a Belém e ver o santo Menino e os seus pais. Depois ficou muito feliz por ter lhes oferecido esta prova de seu carinho. À tarde vi um parente de José, perto de cuja casa a Sagrada Família havia passado a noite de 22 de novembro: agora ele veio à manjedoura para ver e saudar o Menino. Este homem era o pai de Jonadabe, que, no momento da crucificação, trouxe para Jesus um pano para se cobrir. Soube que José havia passado perto de sua casa e tinha ouvido falar dos acontecimentos maravilhosos que aconteceram no nascimento do Menino, e tendo que ir a Belém no sábado, veio à gruta trazendo alguns presentes. Saudou Maria e prestou homenagem ao Menino. José recebeu-o amigavelmente, mas não quis aceitar nada dele, apenas lhe pediu algum dinheiro emprestado, dando-lhe o burro como garantia com a condição de o recuperar devolvendo o dinheiro. José precisava desse dinheiro para usar nos presentes que daria na cerimônia de circuncisão e na comida que ofereceria.

L A Sagrada Família celebra a festa do sábado

Enquanto me encontrava meditando na história da burrinho empenhado agora para cobrir as despesas da circuncisão, e pensando que o próximo Domingo, dia em que a cerimônia teria lugar, seria lido o Evangelho do Domingo de Ramos, que relata a entrada de Jesus montado sobre um jumento, vi um quadro do qual não posso explicar bem o sentido nem sei onde se realizava. Sob uma palmeira havia dois cartazes segurados por anjos. Sobre um deles estavam representados diversos instrumentos de martírio; no centro havia uma coluna e sobre ela um morteiro com duas asas. No outro cartaz havia umas letras: creio que eram cifras indicando anos e épocas da história da Igreja. Acima da Palmeira estava ajoelhada uma virgem que parecia sair do caule e cujo traje flutuava no ar.
Tinha em suas mãos, debaixo do peito, um copo da mesma forma que o cálice da Última Ceia, do qual saía a figura de um menino luminoso. Vi o Pai Eterno, na forma que sempre o vejo, aproximar-se da palmeira por cima de umas nuvens, retirar um grosso ramo que tinha a forma de uma cruz e colocá-la sobre a criança. Depois vi o menino amarrado a essa cruz de palma e a Virgem Santíssima apresentando a Deus Pai o ramo com o menino crucificado, enquanto ela levava na outra mão o cálice vazio, que parecia também o seu próprio coração. Quando me preparava para ler as letras do cartaz, sob a palmeira, a chegada de uma visita me tirou dessa visão. Não saberia dizer se este quadro o vi na gruta do presépio ou em outro lugar.
Quando o povo tinha ido à sinagoga de Belém, José preparou na gruta a lâmpada do sábado com as sete mechas; acendeu-a e colocou debaixo dela uma pequena mesa com os rolos que continham as orações. Sob esta lâmpada celebrou o sábado com a Virgem Santíssima e a criada de Ana.
Estavam ali dois pastores um pouco para trás na gruta e algumas mulheres essênias. Neste dia, antes da festa de sábado, essas mulheres e a empregada prepararam a comida. Eu Vi que eles assaram pássaros em um espeto colocado em cima do fogo. Envolviam-nos numa espécie de farinha feita de sementes de espigas de umas plantas semelhantes a canas, que se encontravam em estado selvagem em locais pantanosos da região. Vi-as cultivadas em diversos lugares; em Belém e em Hebrom crescendo sem serem cultivadas. Não as vi perto de Nazaré. Os pastores da torre trouxeram algumas para José.
Eu vi que as mulheres com essas sementes faziam uma espécie de creme branco bastante espessas e amassavam bolos com farinha. A Sagrada Família guardou para seu uso uma quantidade muito pequena das abundantes provisões que os pastores haviam trazido em suas visitas; o restante foi dado aos pobres.
Hoje eu vi várias pessoas que vieram para a gruta da manjedoura, e à noite, após a conclusão das festas de Sábado, vi que as mulheres essênias e a criada de Ana preparavam comida numa cabana construída de ramos verdes, que José, com a ajuda dos pastores, tinha levantado na entrada da gruta. Tinha desocupado o quarto à entrada da gruta, colocado colchas no chão e arranjado tudo como para uma festa, conforme lhe permitia a sua pobreza. Assim dispôs todas as coisas antes do começo do sábado, pois o dia seguinte era o oitavo depois do nascimento de Jesus, quando devia ser circuncidado de acordo com o preceito divino. Ao cair da tarde José foi a Belém e trouxe consigo três sacerdotes, um ancião, uma mulher e uma cuidadora para esta cerimônia. Tinha um assento, do qual era servido em ocasiões semelhantes e uma pedra octogonal chata e muito grossa, que continha os objetos necessários. Tudo isto foi colocado sobre esteiras onde devia ter lugar a circuncisão, isto é, na entrada da gruta, entre o canto que ocupava José e o lar. O assento era uma espécie de baú com gavetas, as quais, postas a seguir às outras, formavam como um leito de repouso com um apoio a um lado; estava-se um ali recostado mais do que sentado. A pedra octogonal tinha mais de dois pés de diâmetro. No centro havia uma cavidade octogonal também coberta por uma placa de metal, onde se encontravam três caixas e uma faca de pedra em compartimentos separados. Esta pedra foi colocada ao lado do assento, sobre um pequeno escabelo de três pernas que até aquele momento havia ficado sob uma cobertura, no lugar onde nasceu o Salvador.
Terminados estes arranjos, os sacerdotes saudaram Maria e o Menino Jesus, e conversaram amistosamente com a Virgem Santíssima tomaram o menino em seus braços, e ficaram comovidos. Depois teve lugar a refeição no miradouro. Muitos pobres que haviam seguido os sacerdotes, como costumavam fazer em tais ocasiões, rodeavam a mesa e durante a refeição recebiam os presentes de José e dos sacerdotes, de modo que logo ficou tudo distribuído. Ao pôr do sol, parecia-me que o seu disco era maior do que no nosso país. Vi-o descer no horizonte; seus raios penetravam pela porta aberta para o interior da gruta.

LI A circuncisão de Jesus

Várias lâmpadas estavam acesas na gruta. Durante a noite eles oraram longamente e cantaram canções. A cerimônia de circuncisão ocorreu ao amanhecer. Maria estava preocupada e inquieta. Ela mesma havia preparado os panos destinados a receber o sangue e a curar a ferida, e os tinha diante de si, numa dobra de seu manto. A pedra octogonal era coberta pelos sacerdotes com dois panos, vermelhos e brancos, este por cima, com orações e cerimônias diversas. Então um dos sacerdotes apoiou-se no assento e a Virgem, que permanecera enrolada no fundo da gruta com o Menino Jesus nos braços, entregou-o à criada com os panos preparados. José recebeu-o da mulher e deu-o à mulher que tinha vindo com os sacerdotes. Esta mulher colocou o Menino, coberto com um véu, sobre o revestimento da pedra octogonal. Eles recitaram novas orações. A mulher tirou os panos do Menino e colocou-o sobre os joelhos do sacerdote que estava sentado. José inclinou-se sobre os ombros do sacerdote e segurou o Menino pela parte superior do corpo. Dois sacerdotes ajoelharam-se à direita e à esquerda, cada um segurando um dos pezinhos, enquanto aquele que realizou a operação se ajoelhou diante do Menino. Descobriram a pedra octogonal e ergueram a placa de metal para terem à mão as três caixas de unguento; Havia água ali para as feridas. Tanto o cabo quanto a lâmina da faca eram feitos de pedra. O cabo era marrom e polido; tinha uma fenda por onde passava a lâmina, de cor amarelada, que não me pareceu muito afiada. A incisão foi feita com a ponta curva da faca. O padre também fez uso da unha afiada do dedo. Ele espremeu o sangue do ferimento e colocou em cima a pomada e outros ingredientes que tirou das caixas. A cuidadora pegou a criança e depois de fazer o curativo, envolveu-a novamente em seus panos. Desta vez, seus braços antes livres foram enrolados e o véu que antes a cobria foi colocado em volta de sua cabeça.
Depois disso, o Menino foi colocado novamente na pedra octogonal e outras orações foram recitadas.
O anjo havia dito a José que o Menino deveria se chamar Jesus; mas o sacerdote a princípio não aceitou esse nome e por isso começou a rezar. Então vi um anjo aparecer-lhe e mostrar-lhe o nome de Jesus num sinal semelhante ao que mais tarde estava na cruz do Calvário. Não sei bem se o anjo foi visto por ele ou por outro sacerdote: a verdade é que o vi muito entusiasmado escrevendo aquele nome num pergaminho, como que movido por uma inspiração vinda do alto. O Menino Jesus chorou muito após a cerimônia da circuncisão. Vi que José o pegou e o colocou nos braços de Maria, que havia permanecido no fundo da gruta com outras duas mulheres. Maria pegou o Menino, chorando, retirou-se para o fundo onde estava a manjedoura, sentou-se coberta com o véu e acalmou o Menino amamentando. José deu-lhe as fraldas tingidas de sangue. As orações foram novamente recitadas e os salmos cantados. A lâmpada ardia, embora já tivesse amanhecido totalmente. Pouco depois, a Virgem aproximou-se com o Menino e colocou-o sobre a pedra octogonal. Os sacerdotes curvaram-se diante dela com as mãos cruzadas sobre a cabeça do Menino, e depois Maria com o Menino Jesus retirou-se. Antes de partir, os sacerdotes comeram algo na companhia de José e de dois pastores sob o caramanchão. Mais tarde, soube que todos os que compareceram à cerimônia eram boas pessoas e que os sacerdotes se converteram e abraçaram a doutrina do Salvador. Entretanto, durante toda a manhã foram distribuídos presentes aos pobres que chegavam à porta da gruta. Enquanto durou a cerimônia o burro permaneceu amarrado em local separado.
Hoje passaram pela porta alguns mendigos sujos e esfarrapados, carregando embrulhos, vindos do vale dos pastores: parecia que iam a Jerusalém para alguma festa. Pediam esmola com muita insolência, proferindo maldições e insultos perto da manjedoura, dizendo que José não lhes dava o suficiente.
Eu não sabia quem eles eram, mas fiquei muito descontente com o comportamento deles. Na noite seguinte vi o Menino muitas vezes acordado por causa das dores e chorando muito. Maria e José o pegaram nos braços, um após o outro, e o levaram pela gruta tentando acalmá-lo.

LII Isabel vai à gruta de Belém

Esta noite vi Isabel montada num jumento, conduzido por um velho criado a caminho de Juta para a gruta de Belém. José a recebeu afetuosamente e Maria a abraçou com um sentimento de indizível alegria. Isabel apertou o menino contra o peito, derramando lágrimas de júbilo. Prepararam-lhe um leito perto do lugar onde Jesus nascera. Diante dele havia um banco alto como o de serrador, sobre o qual havia uma pequena arca onde costumavam colocar o Menino Jesus. Devia ser um costume que usavam com as crianças, pois já tinha visto na casa de Ana a Maria em sua primeira infância repousando em um banco semelhante.
Ontem à noite e durante o dia de hoje vi Maria e Isabel sentadas juntas em afetuosa conversa. Eu me achava tão perto delas que escutava suas palavras com sentimento de viva alegria. A Virgem contou a sua prima tudo o que tinha acontecido até então e quando falou do que tinha sofrido Procurando um albergue em Belém, Isabel chorou muito comovida. Ele disse muitas coisas sobre o nascimento de Jesus. Explicou-lhe que, no momento da Anunciação, seu espírito havia sido arrebatado por dez minutos, tendo a sensação de que seu coração se duplicava e que um bem-estar indizível entrava nela enchendo-a por completo. No momento do nascimento, sentiu-se também arrebatada com a sensação de que os anjos a levavam ajoelhada pelos ares e lhe parecia que seu coração se dividia em duas partes e que uma metade se separava da outra. Durante dez minutos, ela perdeu o uso dos sentidos. Logo sentiu um vazio interior e um imenso desejo da felicidade infinita que até aquele momento havia habitado nela e que já não estava mais. Tinha visto diante de si uma luz deslumbrante, no meio da qual seu menino parecia crescer diante de seus olhos.
Naquele momento, ela o viu se mexer e o ouviu chorar. Voltando a si, levantou-o da colcha e apertou-o contra o peito, pois a princípio tinha acreditado estar sonhando e não se atrevera a tocar a criança cercada de tanta luz. Ela disse não ter percebido o momento em que o menino havia se separado dela. Isabel respondeu-lhe: "em vosso parto gozastes favores que não tiveram as demais mulheres. O nascimento de meu João foi também cheio de doçura, mas tudo se realizou de forma muito diversa". É o que me lembro de suas conversas.
Ao cair da tarde Maria escondeu-se novamente com o menino, acompanhada de Isabel, na caverna lateral, vizinha à gruta da manjedoura; pareceu-me que permaneceram ali a noite toda. Maria procedeu assim porque muitas pessoas de distinção iam de Belém à manjedoura por pura curiosidade, e não queria mostrar-se a elas. Hoje vi Maria saindo com o menino da gruta da manjedoura, indo para outra que está à direita. A entrada era estreita e cerca de quatorze degraus inclinados levavam primeiro a uma pequena caverna e depois a uma sala subterrânea mais ampla que a gruta do presépio. José separou-a em duas partes por meio de uma colcha que suspendeu do telhado.
A parte adjacente à entrada era semicircular e a outra quadrada. A luz não vinha de cima, mas de aberturas laterais que atravessavam uma rocha muito larga. Alguns dias antes tinha visto um homem tirar daquela gruta feixes de lenha e de palha e pacotes de canas como os que José usava para fazer fogo. Foi um pastor que fez este serviço. Esta gruta era mais ampla e clara do que a do presépio. O burro não estava nela. Eu via o Menino Jesus deitado em uma gamela aberta na rocha. Nos dias anteriores vi Maria muitas vezes ao lado de alguns visitantes mostrando-lhes o menino coberto com um véu e tendo apenas um pano ao redor do corpo. Outras vezes, via-o completamente desnudado. Vi que a cuidadora que tinha assistido à circuncisão vinha frequentemente visitar o menino. Maria dava-lhe quase tudo o que os visitantes traziam para que ela o distribuísse entre os pobres do lugar e de Belém.

LIII Os países dos Reis Magos

Vi o nascimento de Jesus Cristo anunciado aos Reis Magos. Vi Mensor e Sair: estavam no país do primeiro e observavam os astros, depois de terem feito os preparativos da viagem. Observavam a estrela de Jacó do alto de uma torre piramidal. Esta estrela tinha uma cauda que se dilatava diante de seus olhos, e eles viram uma virgem brilhante, diante da qual, no meio do ar, um menino era visto brilhante. Ao lado direito do Menino brotava um ramo, em cuja extremidade aparecia, como uma flor, uma pequena torre com várias entradas que acabavam por transformar-se em Cidade. Imediatamente após esta aparição os dois reis se puseram em marcha.
Teokeno, o terceiro dos Reis, que vivia mais para o oriente, a dois dias de viagem, teve a mesma aparição, à mesma hora, e partiu em seguida apressadamente para reunir-se com seus dois amigos, que encontraram no caminho.
Adormeci com grande desejo de me encontrar na gruta da manjedoura, perto da mãe de Deus, com o desejo de que ela me desse o Menino Jesus para tê-lo em meus braços por algum tempo e apertá-lo contra o meu coração. Aproximei-me da gruta da manjedoura. Era noite. José dormia apoiado no braço direito, em seu aposento, perto da entrada. Maria estava acordada, sentada em seu lugar de costume, perto da manjedoura, tendo o pequeno Jesus ao seu peito, coberta com um véu. Ajoelhei-me ali e adorei-o, sentindo um grande desejo de ver o enino. Ah, Maria bem sabia! Ela sabe tudo e acolhe tudo o que lhe é pedido com bondade muito tocante, sempre que se reza com fé sincera! Mas agora estava silenciosa, em recolhimento; adorava respeitosamente aquele de quem era mãe. Ele não me deu a criança, porque eu acho que ele estava amamentando. Em vez disso, eu teria feito o mesmo. Minha ânsia crescia mais e se confundia com a de todas as almas que suspiravam pelo menino Jesus. Mas esta minha ânsia não era tão pura, tão inocente nem tão sincera como a do coração dos bons Reis Magos do Oriente, que o tinham esperado desde séculos nas pessoas de seus antepassados, acreditando, esperando e amando. Foi assim que meu desejo se voltou para eles. Quando terminei de rezar, deslizei respeitosamente para fora da gruta e fui levada por um longo caminho até o cortejo dos Reis Magos.
Através pelo caminho vi muitos países, moradas e povos com seus trajes, seus costumes e seu culto; mas quase tudo se foi da minha memória.
Fui levada para o Oriente, para uma região onde nunca tinha estado, quase toda estéril e arenosa. Perto de algumas colinas habitavam em cabanas, sob enramadas, pequenos grupos de homens. Eram famílias isoladas de cinco a oito pessoas. O telhado de galhos repousava na colina onde os quartos haviam sido cavados. Esta região não produzia quase nada; apenas brotavam arbustos e algumas árvores com botões de algodão branco. Em outras árvores maiores colocavam seus ídolos. Esses homens ainda viviam em estado selvagem.
Pareceu-me que se alimentavam de carne crua, especialmente de pássaros e se dedicavam ao latrocínio. Eram de cor acobreada e tinham os cabelos vermelhos como o cabelo de raposa. Eles eram baixos, maciços, mais gordos do que magros; eles eram muito hábeis, ativos e ágeis. Em seus quartos não havia animais domésticos ou rebanhos. Eles faziam uma espécie de colchas de algodão que recolhiam de suas pequenas árvores. Eles giravam longas cordas da espessura de um dedo que depois trançavam para fazer largas tiras de tecido.
Quando tinham preparado uma certa quantidade, colocavam sobre suas cabeças grandes amarrados em colchas e levavam para vendê-los para a cidade. Também vi seus ídolos em vários lugares, sob árvores frondosas: tinham cabeça de touro com chifres e boca grande; no corpo buracos uma abertura larga onde acendiam fogo para queimar as ofertas colocadas em outras aberturas menores. Ao redor de cada árvore, sob as quais havia ídolos, viam-se outras figuras de animais sobre pequenas colunas de pedra. Eram pássaros, dragões e uma figura que tinha três cabeças de cachorro e uma cauda de serpente enrolada sobre si mesma.
No início da viagem, tive a ideia de que havia muita água à minha direita e que me afastava cada vez mais dela. Passado esta região, o caminho subia sempre. Atravessei o cume de uma montanha de areia branca onde havia grande quantidade de pedrinhas negras quebradas semelhantes a fragmentos de vasos e escudelas. Do outro lado, desci para uma região coberta de árvores que pareciam alinhadas em perfeita ordem. Algumas dessas árvores tinham o tronco coberto de escamas; as folhas eram extraordinariamente grandes. Outras eram de forma piramidal, com flores grandes e bonitas. Estes últimos tinham folhas de um verde amarelado e ramos com botões florais. Já vi outras árvores com folhas muito lisas, em forma de coração.
Cheguei depois a um país de pradarias que se estendia até onde a vista alcançava em meio a alturas. Havia ali inúmeros rebanhos. Os vinhedos cresciam ao redor das colinas. Havia fileiras de cepas em terraços com pequenas cercas de galhos para protegê-las. Os donos dos rebanhos habitavam em tendas, cuja entrada era fechada por meio de acácia leve.
Aquelas Tendas eram feitas com tecido de lã branca fabricado pelos povos mais selvagens que eu já tinha visto antes. No centro havia uma grande tenda cercada por muitas outras pequenas. Os rebanhos, separados em classes, vagavam por extensos prados divididos por sebes de arbustos. Havia diferentes tipos de rebanhos: carneiros cuja lã pendia em longas tranças, com grandes caudas lanosas; outros animais muito ágeis, com chifres, como os bodes, grandes como bezerros; outros eram do tamanho dos cavalos que corriam livremente em nossas pradarias. Havia também manadas de camelos e animais da mesma espécie, mas com duas corcovas. Num recinto fechado vi elefantes brancos e alguns manchados: eram domesticados e serviam para os trabalhos ordinários. Esta visão foi interrompida três vezes por diversas circunstâncias, mas voltei sempre a ela. Esses rebanhos e pastagens pertenciam, creio eu, a um dos Reis Magos que estava então em viagem; pareceu-me que eram do Rei Mensor e seus parentes. Eles haviam sido colocados sob os cuidados de outros pastores subalternos que usavam casacos longos até os joelhos, mais ou menos da forma dos de nossos camponeses, mas mais estreitas. Acho que por ter partido o chefe para uma longa viagem todos os rebanhos foram verificados por inspetores, e os pastores subalternos tiveram que dizer a quantidade exata, pois pude ver certas pessoas, cobertas de grandes casacos, vir de vez em quando para tomar nota de tudo. Instalavam-se na grande tenda principal e central e desfilavam todos os rebanhos entre esta tenda e as mais pequenas. Era assim que tudo era examinado e contado. Os que nasciam,  eram anotados nas mãos numa espécie de tabuinha, não sei de que matéria, sobre a qual escreviam. Vendo isto, dizia-me: "Oxalá pudessem os nossos bispos examinarem com o mesmo cuidado os rebanhos confiados aos pastores subalternos! "Quando depois da última interrupção desta visão voltei a estas pradarias, já era noite.
A maioria dos pastores descansava sob pequenas tendas. Apenas alguns velavam andando de um lado para o outro em torno dos bovinos, encerrados, segundo a sua espécie, em grandes recintos separados. Eu olhava com afeto estes rebanhos que dormiam em paz pensando que pertenciam a homens, os quais haviam abandonado a contemplação dos azuis prados do céu, semeados de estrelas, e partiram seguindo o chamado de seu Criador Todo-poderoso, como fiéis rebanhos, para segui-lo com mais obediência do que os cordeiros desta terra seguem seus pastores terrestres. Via os pastores que olhavam mais frequentemente as estrelas do céu do que os seus rebanhos da terra. Eu pensava: "têm razão em levantar os olhos espantados e agradecidos até o céu olhando para onde seus antepassados, há séculos, perseverando na espera e na oração, não cessaram de levantar os seus olhares".
O bom pastor que procura a ovelha perdida, não descansa até tê-la encontrado e trazido de volta. O mesmo acabara de fazer o Pai que está nos céus, o verdadeiro pastor dos inúmeros rebanhos de estrelas espalhados na imensidão. Pecando o homem, a quem Deus havia submetido toda a terra, Deus a amaldiçoou em castigo de seu crime; foi buscar o homem caído na Terra, sua residência, como a uma ovelha perdida; Enviou do alto do céu seu filho único para que se fizesse homem, guiasse aquela ovelha desencaminhada, tomasse sobre ele todos os seus pecados como Cordeiro de Deus, e, morrendo, desse satisfação à justiça divina. E este advento do Redentor tinha ocorrido. Os reis daquele país, guiados por uma estrela, tinham partido na noite anterior para prestar homenagem ao Salvador recém-nascido. Por causa disto, os que vigiavam sobre os rebanhos, olhavam com emoção os prados celestiais e oravam; pois o Pastor dos pastores acabara de desceu dos céus, e foi aos pastores, antes de mais ninguém, a quem tinha anunciado a sua vinda.

LIV A comitiva Teokeno

Enquanto contemplava a imensa planície, o silêncio da noite foi interrompido pelo barulho produzido por um grupo de homens que chegava apressadamente em camelos. A procissão, passando pelos rebanhos em repouso, dirigia-se rapidamente para a tenda central. Alguns camelos acordaram aqui e ali e inclinaram seus longos pescoços na direção da procissão que passava. Ouvia-se o balido dos cordeiros, interrompido durante o sono. Alguns dos recém-chegados desmontaram das montarias e acordaram os pastores adormecidos. Os vigias mais próximos juntaram-se à procissão. Logo todos estavam de pé e contornando os viajantes. As pessoas conversavam, olhavam para o céu e apontavam para as estrelas. Referiam-se a uma estrela ou a uma aparência celestial que não podia mais ser percebida, pois eu mesmo não conseguia mais vê-la. Era a procissão de Teokeno, o terceiro dos Três Reis Magos que morava mais longe. Ele tinha visto em sua terra natal a mesma aparição no céu que seus companheiros viram e imediatamente partiu. Agora ele perguntou a que distância Mensor e Sair estavam à sua frente na estrada e se a estrela que ele tomara como guia ainda podia ser vista.
Depois de receber as informações necessárias, ele continuou sua jornada sem parar muito. Este era o local onde os três Reis Magos, que viviam muito longe uns dos outros, se reuniam para observar as estrelas e perto ficava a torre piramidal no topo da qual faziam observações. Teokeno era quem morava mais longe entre os três. Ele viveu fora do país onde Abraão residiu pela primeira vez e se estabeleceu naquela região.
Nos intervalos entre as visões que tive três vezes durante este dia, relativas ao que estava acontecendo na grande planície dos rebanhos, várias coisas me foram mostradas sobre os países onde Abraão viveu: esqueci a maioria delas. Certa vez vi, a uma grande distância, o lugar onde Abraão sacrificaria seu filho Isaque. A primeira morada de Abraão estava localizada em uma altitude elevada, e os países dos três Reis Magos eram mais baixos e ficavam ao redor daquele lugar de Abraão. Mais uma vez vi, com muita clareza, apesar de ter ocorrido muito longe, o incidente de Hagar e Ismael no deserto. Eu relato o que pude ver disso. De um lado do monte de Abraão, no fundo do vale, vi Hagar e seu filho vagando entre os arbustos. Ela parecia fora de si. A criança ainda era muito pequena e usava uma veste longa. Ela estava envolta em uma longa capa que cobria sua cabeça e por baixo ela usava uma veste curto com corpete justo. Ela colocou o menino debaixo de uma árvore perto de uma colina e fez marcas na testa, no braço direito, no peito e no braço esquerdo. Não vi a marca na testa; mas as outras, feitas no vestido, permaneciam visíveis e pareciam desenhadas em vermelho. Tinham o formato de uma cruz, não comum, mas semelhante a uma maltesa que tinha um círculo no centro, de onde começavam os quatro triângulos que formavam a cruz. Em cada um dos triângulos Hagar escreveu alguns sinais ou letras em forma de gancho, cujo significado não consegui compreender. No círculo central traçou duas ou três letras. Ela fez todo o desenho muito rapidamente com uma cor vermelha que parecia estar em sua mão e que poderia ser sangue. Saiu dali, erguendo os olhos para o céu, sem olhar para o local onde deixou o filho, e foi sentar-se à sombra de uma árvore perto de um tiro de fuzil. Enquanto ali ouviu uma voz vinda de cima; Afastou-se ainda mais do primeiro lugar e, ao ouvir a voz pela segunda vez, encontrou uma fonte de água escondida entre a folhagem. Encheu o odre de água e, voltando novamente para o lado do filho, deu-lhe de beber; Depois levou-o consigo até a fonte e, por cima da veste que tinha as marcas feitas, colocou-lhe outra roupa. Acho que vi Hagar novamente no deserto antes do nascimento de Ismael.
Ao amanhecer, o acompanhamento de Teokeno conseguiu juntar-se ao de Mensor e Sair perto de uma cidade em ruínas. Haviam longas fileiras de colunas, isoladas umas das outras, e portas coroadas por pequenas torres quadradas, todas meio demolidas. Ainda havia algumas estátuas grandes e belas, não tão rígidas como as do Egito, mas em atitudes graciosas, como se estivessem vivas. No geral o país era arenoso e cheio de pedras. Vi que pessoas que mais pareciam bandidos e vagabundos se instalaram nas ruínas da cidade; A única roupa que usavam eram peles de animais jogadas sobre o corpo e eles tinham armas como flechas e lanças. Embora fossem baixos e robustos, eram extremamente ágeis; Eles tinham a pele bronzeada.
Pensei ter reconhecido este lugar por já ter estado antes, por ocasião de minhas viagens à montanha dos profetas e ao país do Ganges. Quando os três Reis Magos se reuniram, deixaram o local bem cedo pela manhã, com a intenção de continuar a viagem às pressas. Observei que muitos habitantes pobres seguiam os Reis, pela liberalidade com que os tratavam. Depois de mais meio dia de viagem, eles pararam. Após a morte de Jesus Cristo, o apóstolo São João enviou dois de seus discípulos, Saturnino e Jonadabe (meio-irmão de São Pedro) para anunciar o Evangelho aos habitantes da cidade em ruínas.

LV Nomes dos Reis Magos

Quando os Três Reis Magos estiveram juntos, vi que o último, Teokeno, tinha a pele amarelada: reconheci-o porque ele era o mesmo que cerca de trinta e dois anos mais tarde estava em sua tenda doente quando Jesus visitou estes reis em sua residência, perto da terra prometida.
Cada um dos Reis Magos levava consigo quatro parentes próximos ou amigos mais íntimos, de modo que no cortejo havia como umas quinze pessoas de alto escalão sem contar a multidão de cameleiros e de outros criados. Eleazar, que mais tarde foi mártir, foi reconhecido entre os jovens que acompanhavam os reis. Estavam sem roupa até a cintura e podiam correr e saltar com maior agilidade. Tenho uma relíquia deste santo.
Mensor, o dos cabelos negros, foi batizado mais tarde por Santo Tomás e recebeu o nome de Leandro. Teokeno, o de pele amarela, que estava doente quando Jesus passou pela Arábia, também foi batizado por São Tomás com o nome de Leão. O mais moreno dos três, que já havia morrido quando Jesus visitou suas terras, chamava-se Sair ou Seir. Morreu com o batismo de desejo. Estes nomes têm relação com os, de Gaspar, Melchor e Baltasar, e estão em relação com o caráter pessoal deles, pois estas palavras significam: o primeiro, vai com amor; o segundo, vagueia em torno acariciando, aproximando-se docemente; o terceiro, recebe velozmente com a vontade, une-se rapidamente o seu querer à vontade de Deus.
Parece - me ter encontrado reunido pela primeira vez o cortejo dos Três Reis a uma distância como de Meio dia de viagem, passando pela cidade em ruínas, onde eu tinha visto tantas colunas e estátuas de pedra. O ponto de encontro era uma região fértil. Viam-se casas de pastores espalhadas, construídas com pedras brancas e pretas. Eles chegaram a uma planície, no meio da qual havia um poço e amplos galpões: três no centro e vários ao redor. Parecia um lugar preparado para descanso dos caminhantes. Cada acompanhamento era composto por três grupos de homens. Cada um compreendia cinco personagens de distinção, entre eles o rei, ou chefe, que ordenava, organizava e distribuía tudo como um pai de família. Os homens de cada grupo tinham tez de cor diferente. Os homens da tribo de Mensor eram de uma cor morena agradável; os de Sair eram muito mais morenos, e os de Teokeno eram de tez mais clara e amarelado. Com exceção de alguns escravos, não havia ali nenhum de pele totalmente negra. As pessoas de distinção estavam sentadas em suas cavalgadas, em invólucros cobertos de tapetes, e na mão carregavam bengalas. A estes seguiam outros animais do tamanho dos nossos cavalos, montados por criados e escravos que carregavam as bagagens. Quando chegaram, desmontaram, descarregaram os animais, deram-lhes de beber da água do poço, rodeado por um pequeno aterro, sobre o qual havia uma parede com três entradas abertas. Nesse recinto estava o poço de água no local mais baixo. A água saía por três condutas que se fechavam por meio de cavilhas, e o reservatório, por sua vez, era fechado com uma tampa que era aberta por um dos homens daquela cidade em ruínas, adicionado ao cortejo. Eles carregavam odres de couro divididos em quatro compartimentos, de modo que, quando cheios, podiam beber quatro camelos ao mesmo tempo. Eram tão cuidadosos com a água, que não deixavam perder nem uma gota. Depois de terem bebido, os animais foram instalados em recintos sem teto, perto do poço, onde cada um tinha seu compartimento.
Puseram as animais diante dos comedouros de pedra onde lhes foi dada a forragem que haviam trazido. Davam-lhes de comer umas sementes do tamanho de bolotas, talvez favas. Traziam como bagagem jaulões pendurados de ambos os lados dos animais, nos quais tinham pássaros como pombas ou galinhas, dos quais se alimentavam durante a viagem. Em uns recipientes de ferro traziam pães como tábuas apertadas umas contra as outras do mesmo tamanho.
Eles carregavam copos valiosos de metal amarelo, com ornamentos e pedras preciosas.
Eles tinham a forma de nossos vasos sagrados, cálices e patenas. Neles eles apresentavam alimentos ou bebiam. As bordas desses vasos eram adornadas com pedras de cor vermelha. As vestes desses homens não eram iguais. Os homens de Teokeno e os de Mensor usavam sobre a cabeça uma espécie de gorro alto, Com tira de gênero branco enrolado; suas túnicas baixavam na altura das panturrilhas e eram simples com leves adornos sobre o peito. Eles tinham casacos leves, muito longos e largos, que arrastavam ao caminhar. Sair e os seus usavam capotas com cofias redondas bordadas de cores diferentes e pequeno rodete branco. Seus casacos eram mais curtos e suas túnicas, cheias de laços, com botões e ornamentos brilhantes, desciam até os joelhos. De um lado do peito, usavam como ornamento uma placa estrelada e brilhante. Todos usavam solas presas por cordões ao redor dos tornozelos. As pessoas principais tinham na cintura sabres curtos ou grandes facas; também levavam sacos e caixinhas. Havia entre eles homens de cinquenta anos, de quarenta, de vinte; uns usavam a barba longa, outros curta. Os servidores e cameleiros vestiam-se com tanta escassez, que muitos deles só usavam um pedaço de gênero ou algum velho manto.
Quando houve deram de beber aos animais e os prenderam, beberam os homens e fizeram um grande fogo no centro do galpão onde se haviam refugiado. Eles usaram para o fogo pedaços de madeira de mais ou menos dois pés e meio de comprimento que os pobres do país trouxeram em feixes preparados com antecedência para os viajantes. Eles fizeram uma fogueira de forma triangular, deixando uma abertura para o ar. Eles fizeram tudo isso com muita habilidade. Não sei como conseguiram fazer fogo; mas vi que puseram um pedaço de madeira dentro de outro perfurado e o rodaram algum tempo, retirando-o então aceso. Assim fizeram fogo. Eles assaram alguns pássaros que haviam matado. Os reis e os mais velhos faziam cada um na sua tribo o que faz um pai de família: repartiam as rações e davam a cada um a sua; colocavam os pássaros assados, cortados em pedaços, sobre pequenos pratos, e os faziam circular. Enchiam as taças e davam de beber a cada um. Os servos subalternos, incluindo alguns negros, estavam sentados em tapetes no chão. Aguardavam com paciência a sua vez e recebiam a sua porção. Pareceram-me escravos. Quão admiráveis eram a bondade e a simplicidade inocente desses excelentes Reis!... As pessoas que estavam com eles recebiam de tudo o que tinham e até os faziam beber em seus copos de ouro, levando-os aos lábios como se fossem crianças.
Hoje sei muitas coisas sobre os Reis Magos, especialmente o nome de seus países e cidades; mas eu esqueci quase tudo. Ainda me lembro do seguinte: Mensor, o moreno, era da Caldéia e sua cidade tinha um nome como Acaiaia22: estava erguida sobre uma colina rodeada de um rio. Mensor habitava geralmente na planície perto de seus rebanhos. Sair, o mais moreno, o da tez pálida, já estava com ele preparado para partir na noite do nascimento. Lembro-me de sua pátria ter um nome como Parthermo. Ao Norte do país havia um lago. Sair e sua tribo eram de cor mais escura e tinham lábios vermelhos. Os outros eram mais brancos. Havia apenas uma cidade mais ou menos do tamanho de Munique. Teokeno, o branco, vinha da média, região situada em um lugar alto, entre dois mares. Habitava numa cidade feita de tendas, erguidas sobre bases de pedras: esqueci-me do nome. Parece-me que Teokeno, que era o mais poderoso dos três e o mais rico, teria podido ir a Belém por um caminho mais direto e que só por se reunir com os outros tinha feito um longo rodeio. Pareceu-me que ele teve que atravessar a Babilônia para alcançá-los. Sair vivia a três dias de viagem do lugar de Mensor, calculando o dia de doze léguas de caminho. Teokeno estava a cinco dias de viagem.
Mensor e Sair já estavam reunidos na casa do primeiro, quando viram a estrela do nascimento de Jesus e eles partiram no dia seguinte. Teokeno viu a mesma aparição de sua residência e partiu rapidamente para reunir os dois reis, encontrando-se na população em ruínas. A estrela que os guiava era como um globo redondo e a luz saía como de uma boca. Parecia que o balão estava suspenso por um raio luminoso dirigido por uma mão. Durante o dia eu via diante deles um corpo luminoso cuja claridade ultrapassava a luz do sol me surpreendeu a rapidez com que fizeram a viagem, considerando a grande distância que os separava de Belém.
Os animais tinham um passo tão rápido e uniforme que sua marcha parecia tão ordenada, rápida e assim como o voo de um bando de pássaros de passagem.
As regiões onde habitavam os Três Reis Magos formavam em conjunto um triângulo. A caravana permaneceu até a noite no local onde os tinha visto parar. As pessoas que foram adicionadas a eles ajudaram a carregar os animais novamente e levaram as coisas que os viajantes deixaram para lá. Quando se puseram a caminho, já era noite, e se via a estrela, com uma luz um tanto avermelhada como a lua quando há muito vento. Por um tempo, eles marcharam ao lado de seus animais, com a cabeça descoberta, recitando suas orações. O caminho estava muito ruim e não se podia ir depressa; Só mais tarde, quando o caminho se fez plano, subiram às suas cavalgadas. Às vezes faziam a marcha mais lenta e entoavam uns cantos muito expressivos e comoventes no meio da solidão da noite.
Na noite de 29 a 30 encontrei-me novamente muito próximo do cortejo dos Reis. Estes avançavam sempre no meio da noite em busca da estrela, que às vezes parecia tocar a terra com sua longa cauda luminosa. Os reis olhavam para a estrela com calma alegria. Às vezes eles desciam de suas cavalgadas para conversar entre si. Outras vezes, com melodia lenta, simples e expressiva, cantavam alternadamente frases curtas, sentenças curtas, com notas muito altas ou muito baixas. Havia algo de extraordinariamente tocante nesses cantos, que interrompia o silêncio noturno, e eu senti profundamente seu significado. Eles observavam uma ordem muito bonita enquanto avançam em seu caminho. Adiante marchava um grande camelo que carregava de cada lado baús, sobre os quais havia amplos tapetes e em cima estava sentado um chefe com seu venablo na mão e um saco ao seu lado. Ele era seguido por alguns animais menores, como cavalos ou jumentos, e acima da bagagem, os homens que dependiam desse chefe. Vinham depois outro chefe sobre outro camelo e assim por diante. Os animais andavam rapidamente, em grandes trancos, embora punham as patas no chão com cautela; seus corpos pareciam imóveis enquanto suas patas estavam em movimento. Os homens eram muito calmos, como se não tivessem, preocupações. Tudo prosseguia com tanta calma e doçura que parecia um sonho. Estas boas pessoas ainda não conheciam o Senhor e iam para ele com tanta ordem, com tanta paz e boa vontade, enquanto nós, a quem ele salvou e cheios de benefícios com suas bondades, somos muito desordenados e pouco reverentes em nossas santas procissões. Eles pararam novamente em uma planície perto de um poço. Um homem que saiu de uma cabana da vizinhança abriu o poço e deram de beber aos animais, parando apenas um pouco sem descarregá-los.
Estamos já no dia 30. Voltei a ver o cortejo subindo um alto patamar. À direita viam-se montanhas, e pareceu-me que se aproximavam de uma região com populações, fontes e árvores. Parecia-me o país que eu tinha visto no ano passado, e ainda recentemente, fiação e tecelagem de algodão, onde eles adoravam ídolos na forma de touros. Voltaram a dar com muita generosidade alimento aos numerosos viajantes que seguiam a comitiva; mas não utilizaram os pratos e bandejas; o que causou-me alguma surpresa. Era um sábado, primeiro dia do mês.

LVI Chegam ao país do rei de Causur

Voltei a ver os reis nas imediações de uma cidade, cujo nome me soou como Causur. Esta população era composta por tendas erguidas sobre bases de pedra. Eles pararam na casa do chefe ou rei do país, cujo quarto estava localizado a alguma distância. Desde que se tinham reunido na povoação em ruínas até aqui, tinham andado cinquenta e três ou sessenta e três horas de caminho. Contaram ao rei do lugar tudo o que tinham observado nas estrelas e este rei ficou muito admirado com a história. Olhou para o astro que lhes servia de guia e viu, de fato, um Menino nele com uma cruz. Pediu aos reis que voltassem a contar-lhe o que viessem, porque ele também desejava levantar altares ao menino e oferecer-lhe sacrifícios. Estava curiosa para ver se ele cumpriria sua palavra. Era domingo, dia 2.
Ouvi que falavam ao rei de suas observações astrais, e dessa conversa recordo o seguinte: os antepassados dos Reis eram da linhagem de Jó, que antigamente habitava perto do Cáucaso, embora tivessem posses em regiões muito distantes. Mais ou menos 1500 anos antes de Cristo aquela raça não se compunha senão de uma tribo. “O profeta Balaão era de seu país e um de seus discípulos havia dado a conhecer ali sua profecia:" uma estrela há de nascer de Jacó; " dando as instruções a respeito. Sua doutrina havia se espalhado muito entre eles. Eles ergueram uma torre alta em uma montanha e vários astrólogos se revezaram nela alternadamente. Vi aquela torre, parecida com uma montanha, muito larga na sua base e terminada em Ponta. Tudo o que observavam era anotado e depois passava de boca em boca.
Essas observações sofreram repetidas interrupções devido a várias causas. Práticas execráveis, como o sacrifício de crianças, foram introduzidas mais tarde, embora mantivessem a crença de que a criança prometida chegaria em breve. Cerca de cinco séculos antes de Cristo cessaram essas observações e aqueles homens se dividiram em três ramos diferentes, formados por três irmãos que viveram separados com suas famílias. Tinham três filhas a quem Deus havia concedido o dom de profecia, as quais percorreram o país vestidas de longos mantos, fazendo conhecer as predições relativas à estrela e ao menino que devia sair de Jacó.
Dedicaram-se desde então novamente a observar os astros e a expectativa tornou-se muito intensa nas três tribos. Estes três reis descendiam daqueles três irmãos através de quinze gerações que se sucederam em linha reta durante quinhentos anos. Com a mistura de umas raças com outras tinha variado também a tez destes três reis, e na cor diferenciavam-se uns dos outros. Desde esses cinco séculos, os reis não tinham deixado de se reunir de vez em quando para observar os astros. Todos os fatos notáveis relacionados com o nascimento de Jesus e o advento do Messias lhes haviam sido indicados pelos sinais maravilhosos dos astros. Eu vi alguns desses sinais, embora eu não possa descrevê-los claramente. Desde a concepção de Maria Santíssima, isto é, desde quinze anos atrás, estes sinais indicavam com mais clareza que a vinda do menino estava próxima. Os reis tinham observado coisas que tinham relação com a paixão do Senhor. Puderam calcular com exatidão a época em que sairia a estrela de Jacó, anunciada por Balaão, porque tinham visto a escada de Jacó, e, segundo o número de degraus e a sucessão dos quadros que ali se encontravam, era possível calcular o advento do Messias, como sobre um calendário, porque a extremidade da escala chegava até a estrela ou então a própria estrela era a última imagem aparecida. Na época da concepção de Maria, eles tinham visto a Virgem com um cetro e uma balança, em cujos pratos havia espigas de trigo e uvas. Um pouco mais tarde viram a Virgem com o menino. Belém apareceu-lhes como um belo Palácio, uma casa cheia de abundantes bênçãos. Viram também ali dentro a Jerusalém celestial, e entre as duas moradas estendia-se um caminho cheio de sombras, de espinhos, de combate e de sangue. Eles acreditaram que isto devia ser tomado ao pé da letra: pensaram que o rei esperado devia ter nascido no meio de grande pompa e que todos os os povos lhe prestariam homenagem, e por isso iam com grande acompanhamento honrá-lo e oferecer-lhe os seus dons. A visão da Jerusalém celestial foi tomada por seu reino na terra e eles pensaram em ir para aquela cidade. Quanto ao caminho cheio de sombras e espinhos, pensaram que significava a viagem que faziam cheia de dificuldades ou alguma guerra que ameaçava o novo rei. Ignoravam que isto era o símbolo da Via dolorosa de sua paixão. Mais abaixo, na escala de Jacó, viram, e eu também a vi, uma torre artisticamente construída, muito semelhante às torres que vejo sobre o monte dos Profetas, e onde a Virgem se refugiou uma vez durante uma tempestade. Não me lembro mais o que isso significava; mas poderia ser a fuga para o Egito. Acima da escada de Jacó havia uma série de quadros, símbolos figurativos da Virgem, alguns dos quais são encontrados nas ladainhas, e além disso, "a fonte selada", o jardim fechado, como também algumas figuras de reis entre os quais um tinha um cetro e os outros ramos de árvores. Estes quadros os viam nas estrelas continuamente durante as últimas três noites. Foi então que o chefe enviou mensagens aos outros; e vendo alguns reis que ofereciam ofertas ao Menino recém-nascido, puseram-se em marcha para não serem os últimos a prestar homenagem. Todas as tribos dos adoradores de astros tinham visto a estrela; mas só estes Reis Magos decidiram segui-la. A estrela que os guiava não era um cometa, mas um meteoro brilhante, conduzido por um anjo.
Essas visões fizeram com que partissem com a esperança de encontrar grandes coisas, ficando depois muito surpresos ao não encontrar nada do que pensavam. Admiraram-se da recepção de Herodes e de que todo o mundo ignorasse o acontecimento. Chegando a Belém e vendo uma pobre gruta no lugar do palácio que haviam contemplado na estrela, ficaram tentados por muitas dúvidas; no entanto, conservaram sua fé, e já diante do Menino Jesus, reconheceram que o que tinham visto na estrela estava se realizando.
Enquanto observavam as estrelas, faziam jejum, orações, cerimônias e todo tipo de abstinências e purificações. O culto dos astros exercia nas pessoas más toda classe de influências perniciosas por sua relação com os espíritos malignos. Nos momentos de suas visões eram presas de convulsões violentas, e como consequência destas agitações ocorriam os sacrifícios sangrentos de crianças. Outras pessoas boas, como os Magos, viam todas essas coisas com clareza serena e com emoção agradável, e se tornavam melhores e mais crentes.
Quando os reis deixaram Causur, vi que se juntou a eles uma caravana de viajantes ilustres que seguia o mesmo caminho. Nos dias 3 e 4 do mês, vi que eles atravessavam uma planície extensa e, no dia 5, pararam perto de um poço de água. Ali deram de beber aos seus animais, sem descarregá-los, e prepararam alguns alimentos. Eu cantava com esses reis. Eles o faziam agradavelmente, com palavras como estas:"Queremos passar as montanhas e ajoelhar-nos diante do novo rei". Eles improvisavam e cantavam versos alternadamente. Um deles começava e os outros repetiam; depois outro dizia uma nova estrofe, e assim prosseguiam, enquanto cavalgavam, cantando suas melodias doces e tocantes.
No centro da estrela ou, melhor, dentro do globo luminoso, que lhes indicava o caminho, vi aparecer um menino com a cruz. Quando os reis viram a aparição da Virgem nas estrelas, O globo luminoso se pôs sobre esta imagem, pondo-se prontamente em movimento.

VI A Virgem Santíssima pressente à chegada dos Reis

Maria tinha tido uma visão da vinda dos Reis, quando estes se detiveram com o rei de Causur, e viu também que este rei queria levantar um altar para honrar o Menino. Comunicou-o a José e Isabel, dizendo-lhes que seria necessário esvaziar o máximo possível a gruta do Presépio e preparar a recepção dos Reis. Maria havia se retirado da gruta no dia anterior por causa de alguns visitantes curiosos, que vieram muito mais nos últimos dias. Hoje Isabel voltou para Juta na companhia de um criado.
Nestes dois últimos dias houve mais tranquilidade na gruta do Presépio e na Sagrada Família que ficou sozinha a maior parte do tempo. Uma criada de Maria, mulher de uns trinta anos, séria e humilde, era a única pessoa que os acompanhava. Esta mulher, viúva, sem filhos, era parenta de Ana, que lhe tinha dado asilo em sua casa. Ela havia sofrido muito com seu marido, homem duro, porque sendo ela piedosa e boa, ia frequentemente ver os essênios na esperança do Salvador de Israel. O homem se irritava com isso, como fazem os homens perversos de nossos dias, a quem parece que suas mulheres vão demais à Igreja. Depois de ter abandonado a mulher, morreu pouco tempo depois. Os vagabundos que, mendigando, tinham proferido injúrias e maldições perto da gruta de Belém, e iam a Jerusalém para a festa da Dedicação do Templo, instituída pelos Macabeus, não voltaram por caminhos diferentes. José celebrou o sábado sob a lâmpada da manjedoura com Maria e a criada. Nesta noite começava a festa da dedicação do Templo e reinava grande tranquilidade. Os visitantes, bastante numerosos, eram pessoas que iam à festa. Ana frequentemente enviava mensageiros para trazer presentes e saber notícias. Como as mães judias não amamentavam suas crianças por muito tempo, mas lhes davam outros alimentos, assim o Menino Jesus tomava também, depois dos primeiros dias, um mingau feito com a medula de uma espécie de cana. Era um alimento doce, leve e nutritivo. José acendeu sua lâmpada à noite e pela manhã para celebrar a festa da Dedicação. Desde que começou a festa em Jerusalém, Ali estavam muito tranquilos.
Chegou hoje um criado enviado por Santa Ana trazendo, além de vários objetos, todo o necessário para trabalhar em um cesteiro e um cesto cheio de lindas frutas cobertas de rosas. As flores colocadas sobre os frutos conservavam toda a sua frescura. O cesto era alto e fino, e as rosas não eram da mesma cor que as nossas, mas de um tom pálido e cor de carne, entre outras amarelas e brancas e alguns botões. Pareceu-me que Maria gostou deste cesto e colocou-o ao seu lado.
Entretanto, eu via várias vezes os reis em sua viagem. Iam por um caminho montanhoso, atravessando aquelas montanhas onde havia pedras parecidas com fragmentos de cerâmica. Eu gostaria de ter alguns delas, pois elas eram bonitas e polidas.
Haviam algumas montanhas com pedras transparentes, semelhantes a ovos de pássaros, e muita areia branca. Mais tarde, vi os reis na região onde se estabeleceram posteriormente e onde Jesus os visitou no terceiro ano de sua pregação. Pareceu-me que José, desejando permanecer em Belém, pensava habitar ali depois da purificação de Maria e que tinha tomado já informações a respeito.
Havia três dias que vieram algumas pessoas ricas de Belém à gruta. Agora aceitariam de muito boa vontade a Sagrada Família em suas casas; Mas Maria se escondeu na gruta lateral e José recusou modestamente suas ofertas. Santa Ana estava prestes a visitar Maria. Eu a vi muito preocupada nestes últimos dias revendo seus rebanhos e fazendo a separação da parte dos pobres e da parte do Templo. Da mesma forma, a Sagrada Família distribuiu tudo o que recebeu em presentes. A festa da dedicação continuava ainda de manhã e à noite e devem ter acrescentado outra festa no dia 13, pois pude ver que em Jerusalém fazia mudanças nas cerimônias. Vi também um sacerdote junto a José, com um rolo, orando ao lado de uma pequena mesa coberta com uma pasta vermelha e branca. Pareceu-me que o sacerdote vinha ver se José celebrava a festa ou para anunciar outra festa.
Nos últimos dias, a gruta esteve muito calma porque não tinha visitantes.
A festa da dedicação terminou no sábado, e José parou de acender as lâmpadas. No domingo, 16 e segunda-feira, 17, muitos dos arredores foram à gruta da manjedoura, e aqueles mendigos descarados se mostraram na entrada. Todos voltavam das festas da Dedicação. No dia 17 chegaram dois mensageiros da parte de Ana, com alimentos e diversos objetos, e Maria, que era mais generosa do que eu, logo distribuiu tudo o que tinha. Vi José fazendo vários arranjos na gruta da manjedoura, nas grutas laterais e no túmulo de Maraha. Segundo a visão que Maria tinha tido, esperavam em breve Ana e os Reis Magos.

LVIII A jornada dos Três Reis Magos

Vi a caravana dos Reis chegar hoje, à noite, a uma pequena cidade com casas espalhadas, algumas rodeadas por grandes cercas.
Pareceu-me que este era o primeiro lugar onde se entrava na Judéia. Embora essa fosse a direção de Belém, os Reis viraram para a direita, talvez porque não conseguiram encontrar outro caminho mais direto. Quando chegaram lá o canto deles era mais expressivo e animado; Eles estavam mais felizes porque a estrela tinha um brilho extraordinário: era como a claridade da lua cheia, e as sombras eram vistas com muita clareza. Apesar de tudo, os habitantes pareciam não notá-la. Por outro lado, eles eram bons e prestativos. Alguns viajantes haviam desmontado e os habitantes ajudavam a dar água aos animais. Pensei nos tempos de Abraão, quando todos os homens eram prestativos e benevolentes. Muitas pessoas acompanharam a procissão dos Três Reis Magos carregando palmeiras e galhos de árvores quando passaram pela cidade. A estrela nem sempre tinha o mesmo brilho: às vezes diminuía um pouco; Parecia que dava mais clareza à medida que os lugares que atravessavam eram melhores. Quando os Reis viram a estrela brilhar mais, ficaram muito felizes pensando que seria ali onde encontrariam o Messias.
Nesta manhã passaram por uma cidade sombria e envolta em trevas, sem parar ali, e pouco depois atravessaram um riacho que deságuava no Mar Morto. Algumas das pessoas que os acompanhavam permaneceram nesses locais. Fiquei sabendo que uma dessas cidades serviu de refúgio para alguém em batalha, antes de Salomão subir ao trono.
Atravessando a torrente, encontraram um bom caminho.
Nesta noite voltei a ver o acompanhamento dos Reis, que aumentou para cerca de duzentas pessoas porque a sua generosidade fez com que muitos se juntassem à procissão. Agora eles se aproximavam do Oriente para uma cidade perto da qual Jesus passou, sem entrar, no dia 31 de julho do segundo ano de sua pregação. O nome daquela cidade me pareceu Manatea, Metanea, Medana ou Midiã23. Ali haviam judeus e pagãos; Eles geralmente eram ruins. Apesar do longo percurso que a atravessava, os Reis não quiseram entrar e passaram em frente pelo lado oriental para chegar a um local murado onde existiam barracões e estábulos. Neste local armavam as suas tendas, alimentaram e deram água aos seus animais e também comeram a sua própria comida. Os Reis pararam lá na quinta-feira, dia 20, e na sexta-feira, dia 21, e ficaram muito tristes ao ver que ninguém ali sabia nada sobre o rei recém-nascido. Ouvi-os contar aos habitantes as razões pelas quais tinham vindo, a duração da viagem e as diversas circunstâncias do caminho. Lembro-me de algumas coisas que eles disseram.
O Rei recém-nascido já havia sido anunciado a eles muito antes. Pareceu-me que foi pouco depois de Jó, antes de Abraão ir para o Egito, já que cerca de trezentos homens da Média, do país de Jó (com outros de lugares diferentes) haviam viajado para o Egito, chegando à região de Heliópolis. Não me lembro por que eles foram tão longe; mas foi uma expedição militar e pareceu-me que vieram em auxílio de outros. A expedição deles foi digna de reprovação, porque entendi que tinham ido contra algo sagrado, não me lembro se contra homens bons ou contra algum mistério religioso relacionado com a realização da Promessa divina. Nos arredores de Heliópolis, vários líderes tiveram uma revelação com o aparecimento de um anjo que não os permitiu prosseguir. Este anjo anunciou-lhes que de uma Virgem nasceria um Salvador, que deveria ser honrado por seus descendentes. Já não sei como tudo isso aconteceu; mas eles retornaram ao seu país e começaram a observar as estrelas. Eu os vi no Egito organizando festas alegres, erguendo ali arcos triunfais e altares, que decoraram com flores, e depois retornaram para suas terras. Eram pessoas da Média, que tinham o culto às estrelas. Eles eram altos, quase gigantes, com uma linda pele marrom amarelada. Eles seguiram como nômades com seus rebanhos e dominaram todos os lugares devido à sua força superior. Não me lembro do nome de nenhum profeta importante que estivesse entre eles. Eles estavam cientes de muitas previsões e observaram certos sinais transmitidos pelos animais. Se cruzassem o seu caminho e se deixassem matar, sem fugir, era um sinal para eles e se afastavam desses caminhos. Os medos, ao retornarem da terra do Egito, segundo os Reis, foram os primeiros a falar da profecia e desde então começaram a observar as estrelas. Estas observações caíram em desuso durante algum tempo; mas foram renovadas por um discípulo de Balaão e mil anos depois as três profetisas, filhas dos antepassados dos três Reis, as colocaram novamente em prática. Cinquenta anos depois, ou seja, na época a que chegaram, apareceu a estrela que agora seguiam para adorar o novo Rei recém-nascido. Os Reis relataram estas coisas aos seus ouvintes com grande simplicidade e sinceridade, ficando muito tristes ao ver que não pareciam querer acreditar fé ao que durante dois mil anos tinha sido o objeto da esperança e dos desejos dos seus antepassados.
Ao anoitecer a estrela estava um pouco escurecida por alguns vapores, mas à noite parecia muito brilhante entre as nuvens em movimento e parecia mais próxima da terra. Levantaram-se então rapidamente, acordaram os habitantes do país e mostraram-lhes a esplêndida estrela. Aquelas pessoas olhavam para o céu com estranheza, espanto e algum choque; mas muitos irritaram-se até contra os Reis santos, e a maioria apenas tentou aproveitar-se da generosidade com que tratavam a todos. Eu também os ouvi dizer coisas sobre sua jornada até lá. Contaram a viagem em dias a pé, calculando cada dia em doze léguas. Montando seus dromedários, mais rápidos que os cavalos, viajavam trinta e seis léguas por dia, contando as noites e os períodos de descanso. Desta forma, o Rei que morava mais longe pôde percorrer, em dois dias, cinco vezes as doze léguas que os separavam do local onde se reuniram, e os que moravam mais próximos puderam percorrer três vezes doze léguas num dia e uma noite. . Do local onde se reuniram até ali completaram 672 léguas de viagem, e para isso, contando a partir do nascimento de Jesus Cristo, passaram mais ou menos vinte e cinco dias e noites, contando também os dois dias de descanso.
Na noite de sexta-feira, dia 21, tendo começado o sábado para os judeus que ali viviam, os Reis prepararam a sua partida. Os habitantes do local tinham ido à sinagoga de um local vizinho atravessando uma ponte a oeste. Vi que esses judeus olhavam com grande espanto para a estrela que guiava os Magos; mas isso não os tornou mais respeitosos. Aqueles homens desavergonhados eram muito importunos, aglomerando-se como enxames de vespas em torno dos Reis, revelando-se vis e mendigos, enquanto os Reis, cheios de paciência, lhes davam incessantemente pequenos pedaços amarelos, triangulares, muito finos e grãos de metal escuro. Acho que era por isso que esses Reis deviam ser muito ricos. Acompanhados pelos habitantes locais, contornaram as muralhas da cidade, onde vi alguns templos com ídolos; Mais tarde, atravessaram a torrente numa ponte e contornaram a aldeia judaica. Daqui eles fizeram uma viagem de vinte e quatro léguas para chegar a Jerusalém.

LIX Chegada de Santa Ana a Belém

Eu vi Santa Ana com Maria de Heli, uma empregada, um servo e dois jumentos passando a noite a uma curta distância de Betânia, a caminho de Belém. José tinha completado os arranjos tanto na gruta do Presépio como nas grutas laterais, para receber os Reis Magos, cuja chegada havia anunciado Maria, enquanto se achavam em Causur, e também para hospedar os vindos de Nazaré. José e Maria haviam se retirado para outra gruta com o menino, de modo que a do Presépio estava livre, não ficando nele mais que o jumento. Se bem me lembro José já havia pago o segundo dos impostos há algum tempo, e novas pessoas vindas de Belém para ver o menino tiveram a felicidade de tomá-lo em seus braços. Por outro lado, quando outras o queriam pegar, chorava e virava a cabeça. Vi a Virgem tranquila em seu novo quarto discretamente arranjado: a cama estava contra a parede e o Menino Jesus estava ao seu lado lado, em uma cesta longa, feita de crostas, acomodada em uma forquilha. Um septo feito de acácia separava o leito de Maria e o berço do Menino do resto da gruta.
Durante o dia, para não ficar sozinha, sentava-se na frente do septo com a criança ao seu lado. José descansava em outro lugar retirado da gruta. Vi-o levar comida a Maria, servida numa fonte, como também oferecer-lhe um cantarilho com água.
Nesta noite começava um dia de jejum: todos os alimentos deviam estar preparados para o dia seguinte; o fogo estava coberto e as aberturas veladas24, entretanto Santa Ana tinha chegado com a irmã mais velha de Maria e uma criada. Estas pessoas deviam passar a noite na gruta de Belém: por isso a Sagrada Família se retirou para a gruta lateral. Hoje vi Maria que colocava a criança nos braços de Santa Ana. Ela estava profundamente comovida. Tinha trazido consigo colchas, fraldas e vários alimentos, e dormia no mesmo lugar onde Isabel havia descansado. Maria lhe contou tudo o que tinha acontecido. Ana chorava na companhia de Maria. O relato foi alegrado pelas carícias do Menino Jesus.
Hoje vi a Virgem voltar à gruta da manjedoura e o pequeno Jesus deitado ali de novo. Quando José e Maria se encontram sozinhos perto do Menino, eu os vejo muitas vezes se colocando em adoração diante Dele. hoje eu vi Ana perto da manjedoura com Maria em uma atitude reverente, contemplando o Menino Jesus com sentimento de grande fervor. Não sei se as pessoas que vieram com Ana tinham passado a noite na gruta lateral ou tinham ido a outro lugar; acho que estavam em outro lugar. Ana trouxe vários objetos para a criança e a mãe. Maria já recebeu muitas coisas desde que se encontrou ali; mas tudo continuava parecendo muito pobre porque Maria distribuia o que não era absolutamente necessário. Ele disse a Ana que os Reis chegariam muito em breve e que sua chegada causaria grande impressão. Pareceu-me que durante a estadia dos Reis, Ana se retirarou a três léguas dali, para a casa de sua irmã, para voltar depois. Esta mesma noite, depois de terminado o Sábado, vi que Ana com seus acompanhantes se retiraram da companhia de Maria, indo a três léguas dali, a casa de sua irmã casada. Já não me recordo do nome da povoação, da tribo de Benjamim, que se compunha de algumas casas, numa planície e se encontrava a meia légua do último lugar do alojamento da Santa família em sua viagem a Belém.

LX Chegada dos Reis Magos a Jerusalém

A comitiva dos Reis partiu à noite de Metanéia e tomou um caminho muito percorrível, e embora os viajantes não entraram ou atravessaram nenhuma outra cidade, passaram pelas aldeias onde Jesus mais tarde ensinou, curou doentes e abençoou crianças no final do mês de junho do terceiro ano de sua pregação. Betabara era um daqueles lugares onde chegaram uma manhã cedo para passar o Jordão. Como era sábado, encontraram poucas pessoas no caminho. Esta manhã vi a caravana dos Reis que passava o Jordão às sete. Comumente cruzava-se o rio utilizando-se de um aparelho fabricado com vigas; mas para as grandes passagens, com cargas pesadas, fazia-se por uma espécie de ponte. Os boteiros que moravam perto da ponte faziam este trabalho mediante um pagamento; mas como era sábado e não podiam trabalhar, tiveram que ocupar-se os mesmos viajantes, cooperando alguns homens pagãos ajudantes dos boteiros judeus. A largura do Jordão não era grande neste lugar e também estava cheia de bancos de areia.
Sobre as vigas, por onde se cruzava de ordinário, foram colocadas algumas placas, fazendo passar os camelos por cima. Demorou muito tempo até que todos tivessem passado para a margem oposta do rio. Deixando Jericó para a direita, foram em direção a Belém; mas desviaram-se para a direita para ir a Jerusalém. Haviam cerca de cem homens com eles. Vi de longe uma cidade conhecida: era pequena e se achava perto de um riacho que corria de Oeste a leste a partir de Jerusalém, e me pareceu que tinham de passar por esta cidade. Por algum tempo o riacho corria à esquerda deles e conforme subiam ou desciam o caminho. Às vezes se via Jerusalém, outras vezes não se podia vê-la. Ao fim, desviaram-se em direção a Jerusalém e não passaram pela pequena cidade.
No Sábado, 22, após o término da festa, a caravana dos Reis chegou às portas de Jerusalém. Eu vi a cidade com suas altas torres erguidas para o céu. A estrela que os guiara quase desapareceu e só dava uma fraca luz atrás da cidade. À medida que entravam na Judéia e se aproximavam de Jerusalém, Os Reis iam perdendo a confiança, porque a estrela já não tinha o brilho de antes e eles ainda a viam com menos frequência nesta região. Tinham pensado encontrar em toda parte festejos e regozijo pelo nascimento do Salvador, por causa de quem tinham vindo de tão longe e não, eles viam em todos os lugares mais do que indiferença e desdém.
Isso os entristecia e os inquietava, e pensavam ter se equivocado em sua ideia de encontrar o Salvador.
A caravana parecia agora ser de duzentas pessoas e, ocupava mais ou menos o trajeto de um quarto de légua. Já a partir de Causur, um certo número de pessoas ilustres havia sido adicionada a ela e outras se juntaram a ela mais tarde. Os três Reis estavam sentados sobre três dromedários e outros três destes animais levavam a bagagem. Cada rei tinha quatro homens de sua tribo; A maior parte dos acompanhantes montavam sobre cavalgadas muito rápidas, de cabeças airosas. Não saberia dizer se eram jumentos ou cavalos de outra raça, mas se pareciam muito com nossos cavalos. Os animais que as pessoas mais ilustres usavam, tinham belos arreios e rédeas, adornados com correntes e estrelas de ouro. Alguns da comitiva dos Reis se separaram do cortejo e entraram na cidade, retornando com soldados e guardiões. A chegada de uma caravana tão numerosa numa época em que não se celebrava festa alguma, e não sendo por razões de comércio, e chegando pelo caminho que chegavam, era algo muito extraordinário. Todas as perguntas que lhes eram feitas respondiam falando da estrela que os havia guiado e do Menino Recém-nascido. Ninguém compreendia nada desta linguagem, e os reis ficaram muito perturbados, pensando que talvez tivessem se enganado, pois não encontravam um mesmo que soubesse algo relacionado com o menino Salvador do mundo, nascido ali, em suas terras. Todos olhavam com surpresa para os reis, sem compreender o porquê de sua vinda nem o que procuravam. Quando aqueles guardas da porta viram a generosidade com que os reis tratavam os mendigos que se aproximavam, e quando ouviram dizer que desejavam alojamento, que pagariam bem, e que entretanto desejavam falar ao rei Herodes, alguns entraram na cidade e sucedeu-se uma série de idas  e vindas de mensageiros e de explicações, enquanto os reis se entretinham com toda a sorte de gente que se aproximara deles. Alguns destes homens tinham ouvido falar de um menino nascido em Belém; mas não podiam sequer pensar que pudesse ter relação com a vinda dos Reis, sabendo que se tratava de pais pobres e sem importância. Outros zombavam da credulidade dos Reis. Conforme as mensagens trazidas pelos homens da cidade, compreenderam que Herodes nada sabia do Menino.
Como tampouco contavam encontrar-se com o rei Herodes, afligiram-se muito mais e inquietaram-se sumamente, não sabendo que atitude tomar em presença do rei, nem o que lhe iam dizer. Contudo, apesar de sua tristeza, não perderam o ânimo e puseram-se a rezar. Voltou o ânimo ao seu conturbado espírito e disseram uns aos outros: "aquele que nos trouxe até aqui com tanta celeridade, por meio da luz de a estrela, esse mesmo poderá guiar-nos de novo até as nossas casas".
Finalmente os mensageiros voltaram, e a caravana foi conduzida ao longo dos muros da cidade, fazendo-a entrar por uma porta situada não muito longe do Calvário. Eles os levaram para um grande pátio redondo cercado por estábulos, com acomodações não muito longe da praça do peixe, na entrada da qual encontraram alguns guardiões. Os animais foram levados para os estábulos e os homens se retiraram sob galpões, junto a uma fonte que havia no meio do grande pátio. Este pátio, por um dos lados, tocava com uma altura; pelos outros estava aberto, com árvores à frente. Depois chegaram alguns funcionários, talvez alfandegários, que de dois em dois inspecionaram as bagagens dos viajantes com suas lanternas. O Palácio de Herodes era mais alto, não muito longe deste edifício, e pude ver o caminho que levava até ele iluminado com lanternas e farois colocados em cabides. Herodes enviou um mensageiro encarregado de conduzir secretamente ao seu palácio ao rei Teokeno. Eram dez da noite. Teokeno foi recebido em uma sala no andar de baixo por um cortesão de Herodes, que o interrogou sobre o objetivo de sua viagem. Teokeno disse com simplicidade tudo o que se lhe perguntava e rogou ao homem que perguntasse ao rei Herodes onde nascera o Menino, rei dos Judeus, e onde se achava, pois tinham visto a sua estrela e tinham vindo atrás dela.
O cortesão levou seu relatório a Herodes, que ficou muito perturbado no início; mas dissimulando seu mal contamento, ele respondeu que desejava ter mais dados sobre esse acontecimento e que, entretanto, instava os reis a descansarem, acrescentando que no dia seguinte falaria com eles e lhes daria a conhecer tudo o que soubesse sobre o assunto. Teokeno voltou e não pôde dar a seus companheiros notícias consoladoras; por outro lado, nada lhes havia sido preparado para que pudessem repousar e mandaram refazer muitos fardos que haviam sido abertos. Durante aquela noite não puderam descansar e alguns deles andavam de um lado para o outro como procurando a estrela que os havia guiado. Dentro da cidade de Jerusalém havia grande quietude e silêncio; Mas em torno dos Reis havia agitação, e no pátio se tomavam e davam toda a classe de relatórios. Os reis pensavam que Herodes sabia tudo perfeitamente, mas que tentava esconder-lhes a verdade. Uma grande festa era celebrada naquela noite no Palácio de Herodes, na época da visita de Teokeno, porque ele via as salas iluminadas. Iam e vinham todos os tipos de homens e mulheres vestidos sem decência alguma. As perguntas de Teokeno sobre o rei recém-nascido perturbaram o ânimo de Herodes, o qual chamou imediatamente ao seu palácio os príncipes, os sacerdotes e os escribas da Lei. Eu os vi chegando ao palácio antes da meia-noite com pergaminhos escritos. Traziam suas vestes sacerdotais, usavam condecorações sobre o peito e cintos com letras bordadas. Havia cerca de vinte desses personagens em torno de Herodes, que perguntava onde deveria ser o local do nascimento do Messias. Vi-os como abrirem os seus rolos e mostrarem com o dedo passagens da Escritura: "deve nascer em Belém de Judá, porque assim está escrito no profeta Miquéias. E tu, Belém, não és a menor entre os príncipes de Judá, pois de ti há de nascer o chefe que governará o meu povo em Israel". Depois vi Herodes com alguns deles passeando pelo terraço do palácio, procurando inutilmente a estrela de que Teokeno havia falado. Ele estava muito inquieto. Os sacerdotes e escribas fizeram-lhe longos raciocínios dizendo que não devia fazer caso nem dar importância às palavras dos Reis Magos, acrescentando que essas pessoas são amigas do maravilhoso e sempre imaginam grandes fantasias com suas observações estelares. Diziam que, se alguma coisa tivesse acontecido, teria sido conhecida no Templo e na cidade santa, e que eles não poderiam ter ignorado.

LXI Os Reis Magos levados ao Palácio de Herodes

Nesta manhã muito cedo Herodes mandou levar ao palácio, em segredo, os Reis. Eles foram recebidos sob uma arcada e depois levados para uma sala, onde vi galhos verdes com flores em copos e refrigerantes para beber. Depois de algum tempo Herodes apareceu. Os Magos curvaram-se diante dele e passaram a interrogá-lo sobre o recém-nascido Rei dos judeus.
Herodes ocultou a sua grande perturbação e mostrou-se feliz com a notícia. Vi que estavam com ele alguns dos escribas. Herodes perguntou alguns detalhes sobre o que tinham visto, e o rei Mensor descreveu a última aparição que tinham tido antes de partir. Era, disse ele, uma Virgem e diante dela um menino, de cujo lado direito brotava um ramo luminoso; logo, sobre este havia aparecido uma torre com várias portas. A torre se transformou em uma cidade, sobre a qual se manifestou o menino com uma coroa, uma espada e um cetro, como se fosse Rei. Depois disto se viram eles mesmos, como também todos os reis do mundo, prostrados diante daquele menino em ato de adoração; pois possuía um Império diante do qual todos os outros impérios deviam submeter-se; e assim, desta forma, descreveram o que tinham visto.
Herodes falou de uma profecia que falava de algo semelhante sobre Belém de Efrata; disse-lhes que fossem secretamente para lá e, quando tivessem encontrado o menino, voltassem e dissessem-lhe o resultado, para que ele também pudesse ir adorá-lo. Os reis não tocaram nos alimentos que lhes haviam sido preparados e voltaram para o seu alojamento. Era muito cedo, quase ao amanhecer, pois vi ainda as lanternas acesas diante do Palácio de Herodes. Herodes conferenciou com eles em segredo para que não se tornasse público o acontecimento. Ao esclarecer tudo, prepararam a partida. As pessoas que os acompanhavam até Jerusalém já estavam dispersas pela cidade desde a véspera.
O espírito de Herodes estava naqueles dias cheio de descontentamento e irritação. Na época do nascimento de Jesus Cristo, ele estava em seu castelo, perto de Jericó,e havia ordenado um assassinato covarde. Havia colocado em postos altos do Templo pessoas que lhe referiam tudo o que ali se falava, para que denunciassem os que se opunham aos seus desígnios. Um homem justo e honrado, alto empregado no Templo, era o principal dos que considerava ele como seu adversário. Herodes, fingindo-se, convidou-o a ir vê-lo a Jericó e o fez atacar e assassinar no caminho, atribuindo esse crime a alguns assaltantes. Alguns dias depois disso, ele foi a Jerusalém para participar da festa da dedicação do Templo, que acontecia no dia 25 do mês de Casleu e lá ele se viu envolvido em um assunto muito desagradável. Querendo agradar-se com os judeus, mandara fazer uma estátua ou figura de cordeiro, ou melhor, de cabrito, porque tinha chifres, para que fosse colocada na porta que levava do pátio das mulheres ao das imolações. Fez isto por sua própria iniciativa, pensando que os judeus lhe agradeceriam; mas os sacerdotes se opuseram tenazmente a isso, ainda que ele ameaçasse fazê-los pagar uma multa por sua resistência. Eles responderam que pagariam, mas que não tolerariam essa imagem contrária às prescrições da Lei. Herodes ficou muito irritado e tentou escondê-la; mas, ao levá-la, um israelita muito zeloso tomou a imagem e a jogou no chão, quebrando-a em dois pedaços. Houve um grande tumulto e Herodes mandou prender o homem. Tudo isso o irritara muito e ele estava arrependido de ter ido à festa; seus cortesãos tentavam distraí-lo e diverti-lo.
Neste estado de ânimo o encontrou a notícia do nascimento de Cristo. Na Judéia, homens piedosos viviam há muito tempo, na esperança de que logo haveria de chegar o Messias e os acontecimentos ocorridos no nascimento da criança tinha sido divulgados por meio dos pastores. Contudo, muitas pessoas importantes ouviam estas coisas como fábulas e vãs palavras e o próprio Herodes tinha ouvido falar e enviado secretamente alguns homens a tomar relatórios do que foi dito.
Estes emissários estiveram, com efeito, três dias depois de haver nascido Jesus e depois de haver conversado com José, declararam, como homens orgulhosos, que tudo era coisa sem importância: que na gruta não havia mais que uma pobre família da qual não valia a pena que ninguém se ocupasse. O orgulho que os dominava os impedira de interrogar seriamente a José desde o início, tanto mais que tinham ordem de proceder no maior segredo, sem chamar a atenção. Quando de repente chegaram os Reis Magos com seu numeroso séquito, Herodes encheu-se de novas inquietações, já que estes homens vinham de longe e tudo isso era mais do que rumores sem importância. Como os reis falassem com tanta convicção do Rei recém-nascido, Herodes fingiu querer ir oferecer-lhe as suas homenagens, o que alegrou muito aos Reis, achando-o bem disposto. A cegueira do orgulho dos escribas não acabou de tranquilizá-lo e o interesse de conservar em segredo este assunto foi causa da conduta que observou. Não fez objeções ao que diziam os Reis, não fez perseguir imediatamente o menino para não se expor às críticas de um povo difícil de governar, e resolveu recolher por meio deles notícias mais exatas para tomar depois as medidas do caso.
Como os reis, advertidos por Deus, não voltaram a dar notícias, fez explicar que a fuga dos Reis era consequência da ilusão mentirosa que tinham sofrido e que não se tinham ousado comparecer novamente, porque estavam envergonhados do engano em que haviam caído e ao qual queriam arrastar os outros. Mandava dizer: "Que razões poderiam ter para sair clandestinamente depois de terem sido recebidos aqui de forma tão amistosa?…" Desta forma Herodes tratou de entorpecer este assunto, providenciando que em Belém ninguém se pusesse em relação com aquela família, de que tanto se havia falado, nem recolherem boatos e invenções que se propunham a extraviar os espíritos. Quinze dias depois, a Sagrada Família voltou a Nazaré, e logo parou de falar de coisas das quais a multidão não tinha mais que conhecimentos vagos, e as pessoas piedosas, por outro lado, cheias de esperança, guardavam um discreto silêncio.
Quando parecia que tudo ficava esquecido pensou então Herodes em livrar-se da criança e soube que a família havia deixado Nazaré, levando a criança. Fez-o procurar durante bastante tempo; mas, tendo perdido toda a esperança de encontrá-la, cresceu a sua inquietação e determinou executar a medida extrema da matança das crianças. Nesta ocasião, tomou todas as suas medidas e enviou tropas de antemão para os lugares onde se podia temer uma revolta. Acho que o massacre foi feito em sete lugares diferentes.

LXII Viagem dos Reis de Jerusalém a Belém

Vi a caravana dos Reis junto a uma porta situada ao Meio-dia.
Um grupo de homens os acompanharam até um riacho em frente à cidade, e depois voltaram. Mal tinham passado o riacho, pararam procurando com os olhos a estrela no firmamento. Tendo-a visto, eles explodiram em exclamações de alegria e continuaram sua marcha cantando suas melodias. A estrela não os levava em linha reta, mas se desviava um pouco para o Oeste. Passaram diante de uma pequena cidade, que reconheci muito bem; detiveram-se atrás dela, e oraram olhando para o meio-dia, num lugar ameno perto de uma aldeia. Neste lugar, diante deles, surgiu uma fonte de água, que os encheu de contentamento. Descendo de suas cavalgadas, cavaram para esta fonte um pilão, cercando-o de pedras, areia e grama.
Por várias horas eles pararam lá dando de beber e alimentanando seus animais. Eles também tomaram sua comida, pois em Jerusalém eles não puderam descansar ou comer por causa das preocupações da chegada. Eu vi mais tarde que Jesus Cristo parou várias vezes ao lado desta fonte na companhia de seus discípulos. A estrela, que brilhava à noite como um balão de fogo, agora parecia mais com a lua quando vista de dia; não era perfeitamente redonda, mas parecia cortada e muitas vezes estava escondida entre as nuvens. No caminho de Belém para Jerusalém havia muito movimento de caminhantes com bagagens e animais de carga. Eram pessoas que voltavam talvez de Belém depois de pagar os impostos, ou que iam a Jerusalém para o mercado ou para visitar o Templo. Isto acontecia no caminho principal; mas o caminho dos Reis estava solitário, e Deus os guiava por ali, sem dúvida, para que pudessem chegar de noite a Belém e não chamar muita atenção. Puseram-se a caminho quando o sol estava muito baixo; marchavam na ordem com que tinham vindo.
Mensor, o mais jovem, ia à frente; depois Sair, o cetrino, e por último, Teokeno, o branco, por ser mais velho.
Hoje, na hora do crepúsculo, vi a caravana dos Reis chegando a Belém, perto daquele edifício onde José e Maria haviam se inscrito e que tinha sido a casa mansão da família de Davi. Restavam apenas alguns restos das paredes do edifício que pertencera aos pais de José. Era uma casa grande cercada por outras menores, com um pátio fechado, diante do qual havia uma praça com árvores e uma fonte. Vi soldados romanos nesta praça, porque a casa havia se tornado um escritório de impostos. Quando a caravana chegou, um certo número de curiosos se aglomerou em torno dos viajantes. A estrela havia desaparecido novamente e isso inquietava os Reis. Alguns homens se aproximaram, fazendo-lhes perguntas. Eles desceram de suas cavalgadas e desde a casa vi que vinham empregados ao seu encontro, levando palmas nas mãos e oferecendo-lhes refrescos: era o costume de receber estrangeiros ilustres. Eu pensava para mim: "são muito mais amáveis do que foram para o pobre José; só porque estes distribuíam moedas de ouro". Disseram-lhes que o Vale dos pastores era apropriado para levantar as tendas, e eles ficaram por algum tempo indecisos. Não os ouvi perguntar nada do rei e do Menino Recém-nascido. Mesmo sabendo que Belém era o lugar designado pelas profecias, eles, recordando o que Herodes lhes tinha encomendado, temiam chamar a atenção com suas perguntas. Pouco depois viram brilhar no céu um meteoro, sobre Belém: era semelhante à Lua quando aparece. Montaram em suas cavalgadas, e costeando um fosso e muros em ruínas, deram a volta a Belém ao Meio-dia, e foram para o Oriente, em direção à gruta da manjedoura, que contornaram pelo lado da planície, onde os anjos haviam aparecido aos pastores.

LXIII A adoração dos Reis Magos

Apearam-se ao chegarem perto da gruta do túmulo de Maranha, no Vale, atrás da gruta do Presépio. Os criados desceram muitos pacotes, levantaram uma grande tenda e fizeram outros arranjos com a ajuda de alguns pastores que lhes apontaram os locais mais apropriados. O acampamento já estava parcialmente organizado quando os reis viram a estrela aparecer brilhante e muito clara sobre o Monte da manjedoura, dirigindo para a gruta seus raios em linha reta. A estrela estava muito crescida e derramava muita luz; por isso a olhavam com grande espanto.
Não se via casa alguma pela densa escuridão, e a colina aparecia na forma de uma muralha. De repente, viram dentro da luz a forma de uma criança resplandecente e sentiram extraordinária alegria. Todos procuraram manifestar o seu respeito e veneração. Os Três Reis foram para a colina, até a porta da gruta. Mensor a abriu, e viu seu interior cheio de luz celestial, e a Virgem, no fundo, sentada, tendo o menino tal como ele e seus companheiros tinham contemplado em suas visões. Então voltou para contar aos seus companheiros o que tinha visto.
Nisto, José saiu da gruta acompanhado de um pastor idoso e foi ao seu encontro. Os Três Reis disseram-lhe com simplicidade que tinham vindo para adorar o Rei dos judeus recém-nascido, cuja estrela tinham observado, e eles queriam oferecer seus presentes. José os recebeu com muito carinho. O pastor ancião os acompanhou até onde estavam os demais e os ajudou nos preparativos, juntamente com outros pastores ali presentes. Os Reis se prepararam para uma cerimônia solene. Vi-os revestir-se de mantos muito largos e brancos, com uma cauda que tocava o chão. Eles brilhavam com reflexos, como se fossem de seda natural; eles eram muito bonitos e flutuavam em torno de suas pessoas. Eram as vestes para as cerimônias religiosas. Na cintura levavam bolsas e caixas de ouro penduradas em correntes, e cobriam tudo com seus grandes mantos. Cada um dos Reis era seguido por quatro pessoas de sua família, além de alguns criados de Mensor que levavam uma pequena mesa, uma pasta com franjas e outros objetos.
Os Reis seguiram a José, e, chegando debaixo do beiral, diante da gruta, cobriram a mesa com a pasta, e cada um deles punha sobre ela as caixinhas de ouro e os recipientes que desprendiam de sua cintura. Assim ofereceram os presentes comuns aos três. Mensor e os outros tiraram as sandálias e José abriu a porta da gruta. Dois jovens do séquito de Mensor, que o precederam, estenderam um tapete sobre o chão da gruta, retirando-se depois para trás, seguindo-os outros dois com a mesinha onde estavam colocados os presentes. Quando esteve diante da Santíssima Virgem, o rei Mensor depositou estes presentes a seus pés, com todo o respeito, pondo um joelho em terra. Atrás de Mensor estavam os quatro de sua família, que se curvaram com toda humildade e respeito. Enquanto isso, Sair e Teokeno aguardavam atrás, perto da entrada da gruta. Adiantaram-se, por sua vez, cheios de alegria e de emoção, envoltos na grande luz que enchia a gruta, apesar de não haver ali outra luz senão aquele que é Luz do mundo. Maria estava deitada sobre o tapete, apoiada sobre um braço, à esquerda do Menino Jesus, que estava deitado dentro da gamela, coberta com uma tela e colocada sobre uma plataforma no local onde nasceu.
Quando os Reis entraram, a Virgem pôs o véu, tomou a criança em seus braços, cobrindo-o com um véu largo. O Rei Mensor ajoelhou-se e oferecendo os dons pronunciou ternas palavras, cruzou as mãos sobre o peito, e com a cabeça descoberta e inclinada, prestou homenagem ao menino. Entretanto Maria tinha descoberto um pouco a parte superior do menino, que olhava com semblante amável desde o centro do véu que o envolvia. Maria segurava sua cabecinha com um braço e o rodeava com o outro. O menino tinha as mãozinhas juntas sobre o peito e as estendia graciosamente ao seu redor. Oh, quão felizes se sentiam aqueles homens vindos do Oriente para adorar o Menino rei!
Vendo isto dizia a mim mesma: "seus corações são puros e sem mancha; estão cheios de ternura e de inocência como os corações das crianças inocentes e piedosas. Não se via neles nada de violento, apesar de estarem cheios do fogo do amor". Eu pensava: "estou morta; sou apenas um espírito; de outro modo não poderia ver estas coisas que já não existem, e que, no entanto, existem neste momento. Mas isto não existe no tempo, porque em Deus não há tempo: em Deus tudo é presente. Eu devo estar morta; não devo ser mais que um espírito". Enquanto pensava estas coisas, ouvi uma voz que me disse: "o que há de importante em tudo isto que pensas?... Contemple e louve a Deus, que é Eterno, e em quem tudo é eterno".
Vi que o rei Mensor tirava de uma bolsa, pendurada na cintura, um punhado de barras compactas do tamanho de um dedo, pesadas, afiadas nas pontas, que brilhavam como ouro. Era o seu presente. Colocou-o humildemente sobre os joelhos de Maria, ao lado do Menino Jesus. Maria tomou o presente com um agradecimento cheio de simplicidade e de graça, e cobriu-o com a ponta do seu manto. Mensor oferecia as pequenas barras de ouro virgem, porque era sincero e caridoso, buscando a verdade com ardor constante e inabalável. Depois retirou-se, recuando, com seus quatro companheiros; enquanto Sair, o rei cetrino, avançava com os seus e ajoelhava-se com profunda humildade, oferecendo seu presente com expressões muito comoventes. Era um recipiente de incenso, cheio de pequenos grãos resinosos, de cor verde, que pôs sobre a mesa, diante do Menino Jesus. Sair ofereceu incenso porque era um homem que respeitosamente se conformava com a vontade de Deus, de todo o coração e seguia essa vontade com amor. Ficou muito tempo ajoelhado, com grande fervor. Retirou-se e avançou Teokeno, o mais velho dos três, já de muita idade. Seus membros um tanto endurecidos não lhe permitiam ajoelhar-se: permaneceu de pé, profundamente inclinado, e pôs sobre a mesa um copo de ouro que tinha uma bela planta verde. Era um arbusto lindo, de caule reto, com pequenos galhos crespos coroados de lindas flores brancas: a planta da mirra. Ofereceu a mirra por ser o símbolo da mortificação e da vitória sobre as paixões, pois este excelente homem tinha sustentado luta constante contra a idolatria, a poligamia e os costumes estragados de seus compatriotas.
Cheio de emoção, esteve muito tempo com seus quatro acompanhantes diante do Menino Jesus. Eu tinha pena dos outros que estavam fora da gruta esperando a vez de ver o menino. As frases ditas pelos Reis e seus companheiros estavam cheias de simplicidade e fervor. No momento de se curvarem e oferecerem seus dons, diziam mais ou menos o seguinte: "vimos sua estrela; sabemos que é o Rei dos Reis; viemos adorá-lo, oferecer-lhe nossas homenagens e nossos presentes". Estavam como fora de si, e em suas simples e inocentes orações confiavam ao Menino Jesus suas próprias pessoas, suas famílias, o país, os bens e tudo o que tinha para eles algum valor sobre a terra. Ofereciam-lhe os seus corações, as suas almas, os seus pensamentos e todas as suas ações. Eles pediam inteligência clara, virtude, felicidade, paz e amor. Mostravam-se cheios de amor e derramavam lágrimas de alegria, que caíam sobre suas bochechas e suas barbas. Eles se sentiam totalmente felizes. Tinham chegado até aquela estrela, para a qual desde milhares de anos seus antepassados tinham dirigido seus olhares e suas ansias com um desejo constante. Havia neles toda a alegria da promessa realizada depois de tão longos séculos de espera.
Maria aceitou os presentes com atitude de humilde ação de Graças. A princípio não dizia nada: só expressava seu reconhecimento com um simples aceno de cabeça, sob o véu. O corpinho do Menino brilhava sob as dobras do manto de Maria. Depois a Virgem disse palavras humildes e cheias de graça a cada um dos Reis, e lançou o véu um pouco para trás.
Aqui recebi uma lição muito útil eu pensei: "Com que doce e gentil gratidão Maria recebeu cada presente! Ela, que não tinha necessidade de nada, que tinha Jesus, recebeu os dádivas com humildade. Eu também receberei com gratidão todos os presentes que me fizerem no futuro". Quanta bondade há em Maria e em José! Não guardavam quase nada para eles, distribuíam tudo entre os pobres.

LXIV A adoração dos servos dos Reis

Terminada a adoração do menino, os Reis voltaram para suas tendas com seus companheiros. Os criados e servos se dispuseram a entrar na gruta. Tinham descarregado os animais, levantado as tendas, ordenado tudo; esperavam agora pacientemente diante da porta com muita humildade. Eram mais de trinta; Havia algumas crianças que usavam apenas uns panos na cintura e um manto. Os servos entravam cinco a cinco na companhia de um personagem principal, a quem serviam; ajoelhavam-se diante do menino e o adoravam em silêncio, no final entraram todas as crianças, que adoraram o Menino Jesus com sua alegria inocente. Os criados não ficaram muito tempo na gruta, porque os reis voltaram a fazer outra entrada mais solene. Tinham-se revestido de mantos longos e flutuantes, carregando nas mãos incensários. Com grande respeito incensaram o menino, a mãe, a José e a toda a gruta da manjedoura. Depois de se curvarem profundamente, retiraram-se. Essa era a forma de adoração que as pessoas daquele país tinham.
Durante todo este tempo Maria e José estavam cheios de doce alegria.
Nunca os havia visto assim: derramavam lágrimas de contentamento, pois os consolava imensamente ao verem as honras que os reis rendiam ao Menino Jesus, a quem eles tinham tão pobremente alojado, e cuja suprema dignidade conheciam em seus corações. Alegravam-se de que a Divina Providência, não obstante a cegueira dos homens, havia disposto e preparado para o Menino da Promessa o que eles não podiam dar-lhe, enviando de longínquas terras aos que lhe rendiam a adoração devida à sua dignidade, cumprida pelos poderosos da terra com tanta Santa munificência. Adoravam o Menino Jesus junto com os santos Reis e se alegravam com as homenagens oferecidas ao Menino Deus.
As tendas dos visitantes estavam erguidas no vale, situado atrás da gruta da manjedoura até a gruta de Maraha. Os animais estavam amarrados a estacas enfileiradas, separadas por meio de cordas. Perto da tenda maior, ao lado da Colina da manjedoura, havia um espaço coberto com esteiras. Ali haviam deixado alguma das bagagens, porque a maior parte foi guardada na gruta do túmulo de Maranha. As estrelas brilhavam quando todos terminaram de passar para a gruta da adoração. Os reis reuniram-se em círculo junto ao terebinto que se erguia sobre o túmulo de emaranhado, e ali, na presença das estrelas, entoaram alguns de seus cânticos solenes.
É impossível dizer a impressão que causavam estes cantos tão bonitos no silêncio do Vale, naquela noite! Durante tantos séculos os antepassados desses Reis tinha olhado para as estrelas, rezado, cantado, e agora os anseios de tantos corações tinha tido o seu cumprimento. Cantavam cheios de exaltação e de santa alegria.
Enquanto isso, José, com a ajuda de dois anciãos pastores, prepararam uma refeição frugal na tenda dos Reis. Eles levaram pães, frutas, favos de mel, algumas ervas e copos de bálsamo; eles colocaram tudo em uma mesa baixa coberta com uma toalha de mesa. José tinha procurado todas estas coisas desde a manhã, para receber os reis, cuja vinda já esperava, porque a tinha anunciado de antemão a Virgem Santíssima. Quando os reis voltaram para a sua tenda, vi que José os recebia muito cordialmente e lhes rogava que, sendo eles os hóspedes, se dignassem aceitar a simples comida que lhes oferecia. Ela foi colocado ao lado deles e eles deram início à refeição. José não tinha nenhuma timidez; mas estava tão contente que derramava lágrimas de pura alegria. Quando vi isto pensei em meu falecido pai, que era um pobre camponês, o qual, por ocasião de minha tomada de hábito, se viu na ocasião de sentar-se à mesa com muitas pessoas ilustres. Em sua simplicidade e humildade havia sentido a princípio muito temor; logo ficou tão contente que chorou de alegria: sem pretender, ocupou o primeiro lugar lugar na festa.
Depois daquela pequena refeição, José retirou-se. Algumas pessoas mais importantes foram para uma pousada em Belém, e os outros deitaram-se sobre os seus leitos, dispostos em círculo sob a tenda grande, e ali descansaram das suas fadigas. José, voltando à gruta, pôs todos os presentes à direita da manjedoura, num canto, onde havia levantado um septo que ocultava o que havia atrás. A criada de Ana, que havia ficado depois da partida de sua dona, manteve-se escondida na gruta lateral durante todo o tempo da cerimônia, e não voltou a aparecer até que todos tivessem partido. Era uma mulher inteligente, de espírito muito descansado. Eu não vi nem a Sagrada Família nem esta mulher olhar com satisfação mundana para os presentes dos Reis: tudo foi aceito com reconhecimento humilde, e quase imediatamente repartido caritativamente entre os necessitados.
Esta noite houve bastante agitação por ocasião da chegada da caravana à casa onde o imposto era pago. Houve mais tarde muitas idas e vindas à cidade, porque os pastores, que tinham seguido o cortejo, regressavam aos seus lugares. Também vi que enquanto os Reis, cheios de júbilo, adoravam o Menino e ofereciam seus presentes na gruta da manjedoura, alguns judeus rondavam os arredores, espiando de certa distância, murmurando e conferenciando em voz baixa. Mais tarde, voltei a vê-los indo e voltando em Belém e dando relatórios. Chorei por estes desgraçados. Sofro vendo a maldade dessas pessoas que então, como também agora, se põem a observar e a murmurar, quando Deus se aproxima dos homens, e depois propalam mentiras, fruto de malícia e perversidade. Oh, como me pareciam aqueles homens dignos de compaixão! Tinham a salvação entre eles e a rejeitavam, enquanto estes Reis, guiados por sua fé sincera na promessa, tinham vindo de tão longe para buscar a salvação.
Em Jerusalém vi hoje Herodes na companhia de alguns escribas lendo pergaminhos e falando sobre o que os reis tinham contado. Depois, tudo entrou de novo em calma como se houvesse interesse em fazer silêncio em torno deste assunto.

LXV Nova visita dos Reis Magos

Hoje, de amanhã, vi os Reis Magos e outras pessoas de seu séquito que visitavam sucessivamente a Sagrada Família. Vi-os também durante o dia junto a seus acampamentos e bestas de carga, ocupados em diversas distribuições. Como estavam cheios de alegria e se sentiam felizes, distribuíam muitos presentes. Compreendi que era costume então fazê-los por ocasião de acontecimentos felizes. Os pastores que ajudaram. os reis receberam presentes valiosos, assim como muitos pobres. Vi que puseram xales e panos sobre os ombros de algumas velhinhas que tinham chegado ao lugar. Algumas pessoas da comitiva dos Reis desejavam ficar no Vale dos pastores para viver com eles.
Eles fizeram seu desejo conhecido aos Reis, os quais não só lhes deram permissão, mas os encheram de presentes, dando-lhes colchas, vestes, ouro em grão, e deixando-lhes os jumentos em que vieram montados. Quando vi que os reis distribuíam tantos pedaços de pão, eu me perguntava de onde poderiam tê-lo tirado, e lembrei-me de que os tinha visto, nos lugares onde faziam acampamento, preparar, com o fornecimento de farinha que traziam, pãezinhos chatos como biscoitos, em moldes e amontoá-los dentro de caixas de couro muito leves, que carregavam sobre seus animais. Chegaram muitas pessoas de Belém que, sob vários pretextos, cercavam os Reis para obter presentes.
À noite, os reis voltaram para se despedir. Apareceu primeiro Mensor. Maria colocou o menino nos braços, que o rei recebeu chorando de alegria. Então os outros dois reis se aproximaram, derramando lágrimas. Trouxeram muitos presentes à Sagrada Família: peças de tecidos diversos, entre os quais alguns pareciam de seda não tingida, e outros de cor vermelha ou com várias flores. Eles deixaram colchas muito bonitas. Deixaram seus grandes e largos mantos de cor amarelo pálido, tão leves que ao menor vento eram agitados: pareciam feitos de lã extremamente fina. Traziam várias taças, umas dentro das outras; caixas cheias de grãos, e num cesto, cacos onde havia belos buquês de uma planta verde, com lindas flores brancas - eram plantas de mirra. Os cacos estavam colocados uns sobre os outros dentro do cesto. Deixaram a José gaiolas cheias de pássaros, que haviam trazido em quantidade sobre seus dromedários, para seu alimento durante a viagem. No momento em que se despediram de Maria e do Menino, derramaram abundantes lágrimas. Maria estava de pé ao lado deles no momento da despedida. Levava nos braços o menino envolto em seu véu, e deu alguns passos para acompanhar os Reis até a porta da gruta. Parou em silêncio, e para deixar uma lembrança àqueles homens tão bons tirou o grande véu que tinha sobre a cabeça, que era de tecido amarelo e com o qual envolvia Jesus, e o pôs nas mãos de Mensor. Os reis receberam o presente curvando-se profundamente. Uma alegria cheia de respeito os embargou quando viram Maria sem véu, tendo o menino nos braços. Quão doces lágrimas derramaram ao deixar a gruta! O véu foi para eles desde então a relíquia mais preciosa que possuíram.
A Santíssima Virgem recebia os dons, mas não parecia dar-lhes importância alguma, ainda que em sua humildade encantadora demonstrasse um profundo obrigado à pessoa que fazia o presente. Em todas estas homenagens não vi em Maria nenhum ato ou sentimento de complacência para consigo mesma. Só por amor ao Menino Jesus e por compaixão a São José se deixou levar da natural esperança de que doravante o Menino Jesus e José encontrariam em Belém mais simpatia do que antes e eles não seriam mais tratados com tanto desprezo como o foram em sua chegada. A tristeza e a inquietação de José a afligiram em extremo. Quando os reis voltaram para se despedir, a lâmpada já estava acesa na gruta. Estava tudo escuro lá fora. Os reis foram logo com os seus companheiros e reuniram-se debaixo do terebinto, sobre o túmulo de emaranhado, para celebrar ali, como na véspera, algumas cerimônias de seu culto. Debaixo da árvore tinham acendido uma lâmpada, e ao aparecer as estrelas começaram a rezar suas preces e a entoar melodiosos cânticos, produzindo um efeito muito agradável em que coro vozes das crianças. Depois dirigiram-se à tenda onde José havia preparado uma modesta refeição. Terminada esta, alguns voltaram para a pousada de Belém e outros descansaram debaixo das suas tendas.

LXVI O anjo avisa aos reis os desígnios de Herodes

À meia-noite tive uma visão. Vi os reis descansando sob sua tenda em colchas estendidas no chão, e ao lado deles vi um jovem resplandecente: um anjo os acordava dizendo-lhes que deviam partir imediatamente, sem passar por Jerusalém, mas através do deserto, costeando as margens do Mar Morto. Os reis se levantaram de seus leitos e toda a comitiva ficou em pé em pouco tempo. Um deles foi ao presépio para acordar José, e correu a Belém para avisar os que ali se hospedavam; mas os encontrou pelo caminho, eles tiveram a mesma aparição. Dobraram a tenda, carregaram os animais com a bagagem, e tudo foi enfardado e preparado com espantosa rapidez. Enquanto os reis se despediam de São José, diante da gruta do Presépio, uma parte do séquito já partia em grupos separados para assumir a liderança na direção do Meio-dia, para cobrir o Mar Morto através do deserto de Engaddi. Muito instaram os reis à Sagrada Família que partissem com eles, dizendo que um grande perigo os ameaçava, e rogaram a Maria que ao menos se escondesse com o pequeno Jesus para que não sofressem perseguições por causa de si mesmos. Choravam como crianças: abraçando José, diziam palavras muito comoventes. Montando em suas cavalgadas, levemente carregadas, eles se afastaram pelo deserto, eu vi o anjo ao lado deles indicando o caminho, e logo desapareceram da vista. Seguiram separados uns dos outros, como um quarto de légua; logo em direção ao Oriente, por espaço de uma légua, e finalmente seguiram para Meio-dia. Vi que passaram por uma região que Jesus atravessou mais tarde ao voltar do Egito no terceiro ano de sua pregação.
O aviso do anjo aos Reis tinha chegado a tempo, pois as autoridades de Belém receberam a determinação de prendê-los naquele dia mesmo, sob o pretexto de que perturbavam o ordem pública, de encerrá-los nas profundas masmorras que existiam debaixo da sinagoga e depois acusá-los perante o rei Herodes. Não sei se agiam assim por ordem secreta de Herodes ou se o faziam por excesso de zelo deles mesmos. Quando se descobriu naquela manhã a fuga dos Reis, do vale tranquilo e solitário onde tinham acampado, os viajantes já se encontravam perto do deserto de Engaddi. No vale restavam apenas os rastros das pegadas dos animais e algumas estacas que haviam servido para erguer as tendas. A aparição dos Reis causou grande impressão em Belém e muitos se arrependeram de não terem hospedado José. Outros falavam dos Reis como de aventureiros que se deixavam levar por imaginações estranhas.
Havia aqueles que acreditavam, em vez disso, encontrar neles alguma relação com os relatos dos pastores sobre a aparição dos Anjos. Todas essas coisas determinaram as autoridades de Belém, talvez por instigação de Herodes, a agir. Eu vi todos os habitantes da cidade reunidos por uma convocação no centro de uma praça da cidade, onde havia um poço cercado por árvores diante de uma casa grande, à qual se subia por degraus. Precisamente desses degraus foi lida uma espécie de proclamação, onde se declamava contra as coisas supersticiosas e se proibia ir à morada das pessoas que propalavam rumores semelhantes. Quando a multidão se retirou, vi José ir para aquela casa, onde tinha sido chamado, e vi que foi interrogado por uns anciãos judeus. Eu o vi voltar para a manjedoura e voltar para o Tribunal de anciãos. Na segunda vez, ele carregava um pouco do ouro que os reis lhe haviam dado, e o entregou a esses homens, que o deixaram em paz. Por isso me pareceu que todo este interrogatório não teve outro objetivo senão arrancar-lhe um punhado de ouro.
As autoridades puseram um tronco de árvore atravessado para obstruir o caminho que levava aos arredores da manjedoura. Este caminho não saía da cidade, mas começava na praça onde a Virgem havia parado sob a grande árvore, salvando uma muralha. Deixaram uma sentinela numa cabana junto à árvore e puseram uns fios sobre o caminho, que faziam tocar uma campainha que ficava naquela cabana, que lhes permitia detectar quem tentasse passar. À tarde, vi um grupo de dezesseis soldados de Herodes conversando com José. Tinham sido enviados para lá por causa dos Três Reis como se fossem perturbadores da tranquilidade pública. Não acharam nada além de silêncio e paz em toda parte, e na gruta não viram nada além de uma pobre família. Como por outro lado tinham ordem de não fazer nada que chamasse a atenção, voltaram como tinham vindo, informando do que tinham podido ver. José já havia levado os presentes dos Reis e outras coisas que haviam deixado antes de sua partida, guardando-os na gruta de Maranha e em outras cavernas escondidas na colina do Presépio. As cavernas existiam desde os tempos do patriarca Jacó. Naquela época em que havia apenas algumas cabanas na que é hoje a Praça de Belém, Jacó erguera sua tenda sobre a colina do Manjedoura.

LXVII Visita de Zacarias

A Sagrada Família é transferida para o túmulo de Mahara
Nesta noite vi Zacarias de Hebrom que ia pela primeira vez: a visita à Sagrada Família.
Maria estava na gruta, e Zacarias, chorando lágrimas de alegria, tomou em seus braços o menino, e repetiu, mudando algumas frases, o cântico de louvor que ele havia dito no momento da circuncisão de João Batista.
Mais tarde Zacarias voltou para casa, e Ana ficou ao lado da Santa Família com sua filha mais velha. Maria de Heli que era mais alta que sua mãe e parecia mais velha que ela.
Reinava grande alegria entre os parentes da Sagrada Família, e Ana sentiu-se muito feliz. Maria colocava frequentemente a Criança nos braços dela e deixava-a aos seus cuidados. Com nenhuma outra pessoa eu a vi fazer isso. Uma coisa me comoveu muito: os cabelos do Menino Jesus, loiros e formando laços, tinham em sua extremidade belos raios de luz. Acho que lhe enrolavam o cabelo, pois vi que lhe esfregavam a cabecinha ao lavá-lo, colocando-lhe um pequeno casaco sobre o corpo. Vi na Sagrada Família uma piedosa e terna veneração no trato com a Criança; mas tudo o faziam simples e naturalmente, como acontece entre os santos e eleitos de Deus. O menino mostrava um carinho e uma ternura tal com sua mãe como nunca vi em outras crianças de tenra idade.
Maria contou a sua mãe Ana tudo o que aconteceu com a visita dos Reis, alegrando-se muito Ana de ver como tinham sido chamados desde tão longe esses homens para conhecer o Menino da Promessa. Ela observou os presentes dos reis, escondidos em uma escavação aberta na parede, e ajudou na distribuição de uma grande parte deles e a colocar em ordem os outros. Tudo estava tranquilo nos arredores de Belém, porque os caminhos que levavam à gruta e que não passavam pela porta da cidade estavam obstruídos pelas autoridades, e José não ia mais a Belém fazer suas compras porque os pastores lhe traziam tudo o que precisava. A Parente a cuja casa ia Ana e que estava na tribo de Benjamim, chamava-se Mará, filha de Rhod, irmã de Santa Isabel. Ele era pobre e teve vários filhos, que mais tarde foram discípulos de Jesus. Um deles foi Natanael", o noivo das bodas de Caná. Esta Mará estava presente em Éfeso nos momentos da morte de Maria.
Ana estava naquele momento sozinha com Maria na gruta lateral trabalhando juntas tecendo uma colcha comum. A gruta da manjedoura estava completamente vazia. O jumento de José estava escondido atrás de sarças. Hoje voltaram alguns agentes de Herodes e pediram em Belém notícias acerca de um menino recém-nascido. Encheram especialmente de perguntas uma mulher judia que pouco tempo antes havia dado à luz um menino. Não foram à gruta porque antes não tinham encontrado ali nada além de uma pobre família: estavam longe de pensar que poderia tratar-se da Criança dessa família. Dois homens de idade, dos pastores que haviam adorado o Menino Jesus, relataram a José a história dessas investigações. A Sagrada Família e Ana se refugiaram na gruta do túmulo de Maraha. Na gruta do Presépio não restava nada que pudesse dar a entender que tivesse sido habitada: parecia um lugar abandonado. Vi-os durante a noite caminhando pelo vale com uma luz velada: Ana levava o menino e Maria e José caminhavam ao seu lado. Os pastores os guiavam carregando as colchas e tudo o que as mulheres e a criança precisavam.
Tive uma visão, que não sei se teve também a Sagrada Família. Vi uma glória formada por sete rostos de anjos colocados um sobre o outro ao redor do Menino Jesus. Apareceram outras faces e outras formas luminosas, junto a Ana e a José, que pareciam levá-los pelo braço. Entrando no vestíbulo, eles fecharam a porta e, chegando à gruta do túmulo, fizeram os preparativos para o descanso.
Vi dois pastores que avisavam Maria da chegada de pessoas enviadas pelas autoridades para tomar relatórios sobre seu filho. Maria sentiu grande inquietação. De repente, vi José entrar, pegar o menino nos braços e envolvê-lo em um manto para levá-lo. Não me lembro mais onde foi com ele então vi Maria, sozinha, durante todo um meio dia, na gruta, cheia de inquietação materna, sem a criança em seu presença. Quando chegou a hora em que ela foi chamada para amamentar a criança, ela fez o que as mães cuidadosas que sofreram algum tumulto violento fazem ou teve um choque de terror.
Antes de amamentar a criança, espremeu de seu seio o leite que poderia ter sido alterado, em uma pequena cavidade da pedra branca da gruta. Maria falou desta preocupação com um dos pastores, homem piedoso e sério que tinha ido buscá-la para levá-la junto ao menino. Este homem, profundamente convencido da santidade da mãe do Redentor, tirou cuidadosamente aquele leite da cavidade da pedra, e cheio de fé sincera e simples, levou-a à sua mulher, que tinha um filho de peito que não podia acalmar nem calar. Aquela boa mulher tomou esse alimento com confiança e respeito, e sua fé se viu recompensada, pois desde então se encontrou com leite bom e abundante para o seu filho. Depois disso, a pedra branca da gruta recebeu uma virtude semelhante: vi que até hoje também infiéis e maometanos usam dela como um remédio neste e em outros casos
análogos". Desde então aquela terra misturada com água e comprimida 17%
em pequenos moldes é distribuída a toda a cristandade como objeto de devoção e a esta espécie de relíquias chamam de "leite da Virgem Santíssima".

LXVIII Preparação para a partida da Sagrada Família

Nestes últimos dias e hoje mesmo vi José fazendo preparativos para a próxima partida da Sagrada Família. A cada dia diminuía os móveis e utensílios. Aos pastores dava as divisórias móveis, os arbustos e outros objetos com os quais tornara a gruta mais habitável. À tarde, muitas pessoas que iam a Belém para a festa do sábado, passavam pela gruta da manjedoura, mas acharam-na abandonada e continuaram seu caminho. Ana devia voltar a Nazaré depois do sábado. Eu vi que eles estavam arrumando, embrulhando pacotes e carregando sobre dois jumentos os objetos recebidos dos Reis, especialmente os tapetes, colchas e várias peças do gênero. Esta noite celebraram a festa de sábado na gruta de Maraha continuando-a durante o dia 29, enquanto nos arredores reinava grande calma. Terminada a festa de sábado, preparam-se a partida de Ana.
Esta noite vi pela segunda vez que Maria saía da gruta de Maraha e levava o menino a gruta do presépio no meio das trevas da noite. Colocou-o sobre um tapete no lugar onde nascera e rezou de joelhos ao lado do Menino. Toda a gruta estava cheia de luz celestial, como no dia do nascimento. Acho que Maria deve ter visto toda essa luz. No Domingo, 30, pela manhã, Ana se despedia com ternura da Sagrada Família e dos três pastores, e se encaminhava com seu povo para Nazaré. Levavam sobre seus animais de carga tudo o que restava ainda dos presentes dos Reis e admirei-me muito de que levassem um atadinho que me pertencia a mim. Tive a impressão de que estava dentro de sua bagagem e não conseguia entender como Ana levasse algo que era meu. Ana levou muitos presentes dos Três Reis, especialmente certos tecidos. Uma parte deles serviu na Igreja primitiva e algumas dessas coisas chegaram até nós. Entre minhas relíquias há um pequeno pedaço de colcha que cobria a mesinha onde os presentes dos Reis foram colocados, e outro era de um de seus mantos. Eu mesmo devo ter um pedaço de gênero que vem dos Reis Magos. Possuíam vários mantos: um grosso e de tecido espesso para o mau tempo; outro de cor amarela, e um terceiro, vermelho, de uma bela lã muito fina. Nas grandes cerimônias usavam mantos de seda não tingidos: as bordas eram bordadas de ouro e a longa cauda era levada pelos homens do comitiva. Creio que havia perto de mim um pedaço daqueles mantos, e por esta razão pude ver junto aos Reis, antes e nesta noite, de novo, algumas cenas relativas à produção e ao tecido da seda. Numa região do Oriente, entre o País de Teokeno e o de Sair, havia árvores cobertas de bichos-da-seda.
Ao redor de cada árvore haviam cavado um pequeno fosso, para que esses vermes não pudessem sair de lá, e vi que colocavam frequentemente algumas folhas debaixo daquelas árvores. Nos ramos estavam suspensas caixinhas, de onde tiravam objetos arredondados mais longos que um dedo. Pensei que se tratasse de ovos de pássaros de alguma espécie rara; mas logo entendi que eram casulos fiados por estes vermes ao ver como as pessoas os desenrolavam e puxavam fios muito finos. Eles seguravam uma grande quantidade deles contra o peito e giravam com um belo fio que enrolavam em algo que tinham na mão. Eles teciam entre as árvores e seu tear era muito simples. A peça do gênero era da largura do lençol que tenho na cama.

LXIX Apresentação de Jesus no Templo

No dia em que a Virgem devia apresentar seu primogênito no Templo e resgatá-lo segundo o prescrevia a lei, fizeram-se os preparativos para que a Sagrada Família pudesse ir ao Templo e de lá voltar a Nazaré. Já no domingo, 30, os pastores haviam levado o que Ana havia deixado. A gruta do Presépio, a lateral e a de Maraha estavam completamente vazias e limpas. José as tinha deixado nas condições em que as encontrou. Vi Maria e José com o menino visitando pela última vez a gruta e se despedindo do lugar. Estenderam a pasta dos Reis no lugar onde Jesus havia nascido, puseram ali o menino e rezaram. De lá, eles passaram para o local da circuncisão e também lá pararam orando. Ao amanhecer vi a Virgem sentar-se sobre o jumento que os pastores deixaram selado diante da gruta. José segurava o menino enquanto Maria se acomodava, e depois o deu a ela. A Virgem estava sentada de modo que seus pés, um pouco levantados, repousavam sobre uma tábua. Levava o menino contra o peito, envolto em seu grande manto, enquanto o contemplava cheia de felicidade. Sobre o jumento havia apenas duas colchas e dois pequenos fardos, entre os quais estava Maria. Os pastores se despediram com muita emoção acompanhando-os um trecho. Não fizeram o mesmo caminho por onde tinham vindo, mas cruzaram entre a gruta do Presépio e a do túmulo de Belém pelo Oriente, de modo que ninguém os percebeu Hoje os vi seguir o caminho com lentidão, percorrendo a distância bastante curta de Belém para Jerusalém. Eles gastaram muito tempo porque paravam com frequência. Ao meio-dia, vi-os erguerem-se sobre alguns assentos ao redor de um poço coberto, enquanto duas mulheres se aproximavam de Maria e traziam dois cantarinhos com água misturada com bálsamo e pãezinhos. A oferta que Maria ofereceria no templo estava em um cesto pendurado de um lado do jumento. Este cesto tinha três compartimentos: dois deles, cobertos, continham frutas; o terceiro era uma gaiola aberta com dois pombos. Ao amanhecer, vi-os entrando na pequena casa de dois esposos idosos, que os recebeu com todo afeto: estavam a um quarto de légua de Jerusalém. Eram essênios, parentes de Juana Chusa. O marido ocupava-se, em trabalhos do jardim, podando cercas, e tinha a seu cargo a parte do caminho. Eles passaram o dia inteiro na casa daqueles idosos. Maria ficou quase o dia inteiro sozinha com o menino em um quarto; ela o tinha ao lado dela em um tapete. Maria estava sempre em, oração e parecia se preparar para a cerimônia que aconteceria muito em breve. Naquela ocasião, tive uma advertência interior sobre a maneira de me preparar para a comunhão. Vi vários anjos que adoravam o Menino Jesus aparecerem na sala. Eu não poderia dizer se Maria os viu, embora eu ache que sim, porque ela estava muito animada; além disso, os donos da casa emprestaram todos os tipos de atenção a Maria pressentindo algo extraordinário no Menino Jesus. Às sete da tarde, vi o ancião Simeão. Era um homem magro, de muita idade e barba curta. Este sacerdote tinha mulher e três filhos, dos quais o mais jovem contaria vinte anos. Vivia junto ao templo, e vi que se dirigia por um corredor estreito e escuro para uma cela abobadada, aberta nas grossas paredes. Não vi mais que uma abertura pela qual se olhava para dentro. O velho estava ajoelhado em sua oração como em êxtase. Apareceu-lhe um anjo e disse-lhe que prestasse atenção ao primeiro menino que apresentasse na manhã seguinte no templo, pois esse menino era o suspirado Messias que ele tanto desejara contemplar. Avisou-o que morreria depois de ver o Messias. O acontecimento foi admirável. A cela estava inundada de luz e o velho Simeão cheio de contentamento. Ao voltar para casa, contou a sua mulher o que lhe tinha acontecido, e quando esta foi descansar, vi o ancião de novo em oração. Quando vi os piedosos israelitas de então rezando e os sacerdotes, nunca os via fazer as contorções ridículas que fazem hoje os judeus; em vez disso, eu os via dar-se às vezes à disciplina. Vi que a profetisa Ana teve também uma visão enquanto rezava em sua cela do templo, referente à apresentação do Menino Jesus. Nesta manhã, antes de amanhecer, vi a Sagrada Família na companhia dos donos da casa, que deixavam o albergue para dirigir-se ao templo de Jerusalém com o cesto onde estavam as ofertas que devia apresentar. Entraram primeiro num pátio perto do templo, rodeado de muros, e enquanto José e o dono da casa colocavam o jumento debaixo de um barracão, a Virgem foi recebida muito fraternalmente por uma velha que a levou mais longe para um corredor coberto. Eles usavam uma lanterna, pois ainda não havia clareado. Desde a entrada, naquela passagem, o ancião Simeão saiu ao encontro de Maria. Disse algumas palavras de alegria, tomou o menino em seus braços, o apertou contra o seu coração e dirigiu-se por outro caminho apressadamente ao templo. Ele tinha um desejo tão vivo de ver o menino, pelo que o anjo tinha dito, que queria esperar a chegada das mulheres para ver mais depressa o que tanto tempo tinha suspirado. Simeão usava longas vestes, como costumavam os sacerdotes quando não estavam em função. Vi-o com frequência no templo e sempre na qualidade de sacerdote, mas sem ocupar um cargo muito elevado na hierarquia. Ele se destacava por sua piedade, simplicidade e sabedoria.

LXX Apresentação de Maria no Templo

A Virgem foi levada pela mulher que lhe servia de guia até o vestíbulo do templo, onde se fazia a purificação. Foi recebida ali por Ana e Noemi, sua antiga mestra, que habitavam naquela parte do templo. Simeão foi novamente ao encontro de Maria e conduziu-a ao lugar onde se fazia o resgate dos filhos primogênitos. Ana, a quem José entregou o cesto com as ofertas, seguiu-a com Noemi. José foi para outra porta, onde os homens deveriam entrar. O cesto continha frutas na parte de cima e pombos na de baixo. Já se sabia no templo que várias mulheres tinham que se apresentar com seus'; primogênitos e tudo estava preparado para a cerimônia, que foi realizada em um lugar tão amplo quanto a catedral de Dilmen. Havia uma série de lâmpadas acesas; contra as paredes, que formavam como uma pirâmide de luzes. A chama saía pela extremidade de uma cana curva terminada em uma picareta de ouro, que brilhava tanto quanto a chama e que carregava presa por uma mola um pequeno amortecedor. Quando este era levantado por trás, apagava-se a chama sem emitir fumaça nem cheiro, e para acendê-lo bastava abaixá-lo. Diante de uma espécie de altar, em uma de cujas extremidades havia algo parecido com chifres, vários sacerdotes tinham levado um baú quadrangular, algo alongado, que formava o suporte de uma mesa bastante ampla sobre a qual havia uma grande placa. Nesta mesa colocaram uma colcha vermelha e outra branca, transparente, que pendia até o chão ao redor da mesa. Nas quatro extremidades da mesa havia Lâmpadas acesas de vários braços e no centro duas fontes ovais e duas cestas em torno de uma berço longo. Todos esses objetos foram retirados dos compartimentos do baú. Daí também tiraram roupas sacerdotais, depositando-as sobre o altar fixo. A mesa para receber as ofertas estava cercada por uma grade. Em ambos os lados desta sala do templo havia fileiras de assentos, umas mais altas que outras, onde se encontravam vários sacerdotes orando. Simeão aproximou-se de Maria, que tinha o menino envolto em um pano azul celeste; e conduziu-a pela grade até a mesa das ofertas, onde Maria colocou a Criança no berço. A partir desse momento vi o templo cheio de luz de um brilho indescritível. Vi que Deus estava ali, e em cima do Menino Jesus, vi os céus abertos até o trono da Santíssima Trindade.
Simeão voltou a levar Maria ao lugar onde se encontravam as mulheres atrás da grade. Maria tinha vestido azul celeste e véu branco, e estava envolta em um largo manto amarelado. Simeão aproximou-se então do altar fixo, onde se encontravam as vestes sacerdotais e vestiu-se com outros três sacerdotes para a cerimônia. Nos braços, eles usavam algo como uma pequena rodela e sobre a cabeça uma espécie de mitra. Um destes sacerdotes se colocou atrás da mesa das ofertas, o outro à frente e os restantes se achavam aos lados recitando orações na frente da criança. A profetisa Ana aproximou-se então de Maria, apresentou-lhe o cesto das ofertas e levou-a até à grade, diante da mesa do sacrifício. Ela ficou ali de pé, E Simeão, que estava junto à mesa, abriu a grade, aproximou Maria da mesa e colocou ali as suas ofertas. Em uma das fontes ovais colocaram as frutas e na outra  moedas, enquanto os pombos permaneceram no cesto. Enquanto Simeão estava com Maria diante do altar das ofertas, o sacerdote, atrás do altar, tomou o Menino Jesus, levantou-o no ar apresentou-o para diversos lados do templo e orou por muito tempo. Depois entregou o menino ao ancião Simeão, o qual o pôs nos braços de Maria, lendo certas orações num rolo colocado ao seu lado sobre um púlpito Simeão voltou a conduzir Maria diante da balaustrada, de onde foi levada por Ana, que a esperava, ao lugar onde estavam comumente as mulheres. Havia ali cerca de vinte delas, que havia concorrido para apresentar seus primogênitos. José e os outros homens estavam mais longe, no lugar designado. Os sacerdotes que estavam diante do altar começaram um serviço com incensários e orações, e os que estavam sentados tomaram parte fazendo gestos, embora não exagerados, como fazem os judeus de hoje.
Terminada esta cerimônia, Simeão aproximou-se de Maria, recebeu o menino em suas braços e, cheio de entusiasmo, falou dele durante muito tempo em termos sumamente expressivos. Ele agradeceu a Deus por ter cumprido Sua promessa e, entre outras coisas, disse: "Agora, Senhor, você pode deixar seu servo morrer em paz, de acordo com sua promessa, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste à face de todos os povos como luz que iluminará as nações e glória do teu povo Israel". José tinha-se aproximado depois da apresentação, e escutou, como Maria, com grande respeito " as inspiradas palavras de Simeão, o qual, abençoando a ambos, disse a Maria: "Eis que este está posto para queda e para revolta de muitos em Israel, e em sinal de contradição. Uma espada traspassará a tua alma, para que sejam manifestados os pensamentos de muitos corações". Ao terminar o seu discurso Simeão, a profetisa Ana sentiu-se inspirada e falou durante muito tempo do Menino Jesus, dando à sua mãe o nome de Bem-aventurada. Vi que todos os presentes escutaram isto com devoção, sem que resultasse desordem alguma. Pareceu-me que os sacerdotes também ouviram estas coisas. Parecia que aquela maneira de rezar, em alta voz, não fosse coisa insólita; que aconteciam com frequência estas coisas e que era natural que assim acontecessem no templo. Todos os presentes manifestavam grandes mostras de respeito à criança e à sua mãe. Maria brilhava como uma rosa do Paraíso.
Aparentemente, a Sagrada Família tinha apresentado das ofertas a mais pobre, mas José deu ao ancião Simeão e à profetisa Ana, secretamente, muitas pequenas moedas amarelas triangulares, com a intenção de favorecer especialmente as virgens pobres que se educavam no templo e que não tinham meios para custear a manutenção. Vi logo que a virgem era levada com seu menino por Ana e Noemi ao átrio de onde a tinham trazido, e ali se despediram. José já estava lá com os donos da casa onde estavam hospedados. Como tinham trazido o jumento, Maria montou nele, com o menino nos braços, e saindo do templo dirigiram-se a Nazaré, atravessando Jerusalém. Eu não pude ver a cerimônia de apresentação das outras crianças no neste dia; mas tive a impressão de que todos eles receberam graças e que muitos foram daqueles meninos inocentes degolados por ordem de Herodes. Toda a cerimônia da apresentação deve ter terminado por volta das nove da manhã, pois a essa hora vi que partia a Sagrada Família de Jerusalém.
Chegaram naquele dia até Bete-Horom e passaram a noite na casa que fora o último refúgio de Maria, quando foi levada ao templo treze anos antes. Pareceu-me que a casa era habitada por um professor da escola.
Algumas pessoas, enviadas por Ana, estavam esperando para acompanhá-los. Voltando a Nazaré, seguiram um caminho mais direto do que tinham tomado para ir a Belém, porque então evitavam as aldeias e só entravam em casas isoladas que encontravam. O burrinho, que lhes indicara o caminho quando foram a Belém, tinha ficado na casa de um parente de José, porque este pensava voltar a Belém e construir ali uma casa no Vale dos pastores. Tinha tratado disso com eles e dizia-lhes que voltava a Nazaré só para que Maria pudesse passar algum tempo na casa de sua mãe a recuperar-se dos incômodos sofridos no mau alojamento de Belém. Tinha deixado por isso muitas coisas em poder dos pastores, pela intenção que tinha de voltar. José carregava algumas moedas muito raras que recebera dos Reis Magos: numa espécie de bolso interior da sua roupa, tinha certas quantidades de folhas de metal amarelo, muito finas, brilhantes e dobradas umas sobre as outras, de forma quadrada, com as pontas arredondadas que tinham algo gravado nelas. Em vez disso, vi que as moedas recebidas por Judas em pagamento de sua traição eram na forma de língua.
Nestes dias pude ver novamente os reis reunidos além de um rio onde pararam o dia inteiro consagrado à celebração de uma de suas festas. Havia ali um casarão grande, rodeado de casas menores. A princípio viajaram muito rapidamente, mas desde que pararam naquele lugar sua marcha era mais lenta. Eu via um jovem resplandecente que ia à frente do cortejo e que às vezes falava com eles.

LXXI Morte de Simeão

O velho Simeão tinha três filhos, o mais velho com cerca de quarenta anos e o mais novo com cerca de vinte anos, e os três estavam empregados no templo.
Mais tarde tornaram-se amigos fiéis, ainda que secretos, de Jesus e de seus discípulos e depois o foram também eles, não me lembro se antes da morte de Cristo ou depois de sua ascensão ao céu. Foi um deles que na última ceia preparou o Cordeiro Pascal para Jesus e os apóstolos. Nos primeiros tempos da perseguição, depois da Ascensão, fizeram grandes serviços aos amigos de Jesus. Não me lembro agora se todos esses homens eram filhos ou netos de Simeão. Simeão era parente de Serafia (mais tarde Verônica) e também de Zacarias, por meio do pai de Verônica. Este ancião, depois de ter profetizado na apresentação de Jesus no templo, ao voltar para sua casa adoeceu quase imediatamente, e apesar de sua doença, manifestava alegria nas conversas com sua esposa e seus filhos. Esta noite vi que era hoje que devia morrer, e só me lembro do seguinte. Do seu leito de morte, Simeão dirigiu palavras comoventes a sua mulher e a seus filhos, falando-lhes da salvação que havia chegado para Israel, de o que o anjo havia anunciado, tudo isso em termos entusiasmados, eloquentes e jubilosos. Depois disso, vi-o morrer pacificamente. A família chorou em silêncio, e ao redor dele vi muitos sacerdotes e judeus orando. Seu corpo foi levado para outra sala. Lá o colocaram sobre uma tábua furada e o lavaram sob uma colcha com esponjas, de modo que não o viam nu. A água corria pelos orifícios da prancha até uma fonte de cobre abaixo. Depois puseram sobre o corpo grandes folhas verdes, ao redor belos buquês de ervas e amortalharam-no numa tela grande, envolvendo-o logo com um tecido em forma de tira longa, como uma criança faria. Seu corpo estava tão rígido e inflexível que parecia amarrado à prancha. Na mesma noite, Ele foi enterrado. Ele foi transportado por seis homens, carregando luzes. O corpo estava colocado sobre uma tábua com a forma do corpo e uma borda um pouco levantada nos quatro lados. Assim embrulhado e descoberto, colocaram o corpo sobre a tábua. Vi que os que o levavam e os que acompanhavam iam mais depressa do que costuma fazer-se nos nossos dias. Eles o sepultaram no túmulo de uma colina não distante do templo. A abóbada tinha em sua parte externa a forma de um monte, onde havia sido colocada, do lado de fora, uma porta oblíqua, com trabalho de alvenaria na parte interior, feita de um modo particular que me lembrou o tipo de obra que fazia São Bento quando edificou seu primeiro mosteiro. As paredes eram adornadas com flores e estrelas com pedras de cores diferentes, assim como a cela da Virgem no templo. A pequena abóbada onde colocaram Simeão tinha apenas espaço para circular ao redor do cadáver. Tinham outros costumes nos enterros, tais como deixar moedas, pedrinhas e creio que também alimentos, embora já não me lembro bem destas coisas.

LXXII Visão da purificação de Maria

A festa da Candelária ou purificação foi-me mostrada num grande quadro que agora me é difícil explicar. Vi esta festa numa igreja diáfana suspensa sobre a terra, que representava a Igreja Católica em geral, e que vi o quando devia contemplar não uma igreja em particular, mas a Igreja como tal. Ela estava cheia de anjos, que cercavam a Santíssima Trindade. Assim como eu devia ver a Segunda pessoa da Trindade no Menino Jesus apresentado e resgatado no templo, apesar de estar presente na Trindade Santíssima, assim me parecia que o Menino Jesus se achava junto a mim e me consolava em minhas dores enquanto eu via a augusta Trindade.
Estava, pois, perto de mim O Verbo encarnado, e parecia que o Menino Jesus estava unido à Santíssima Trindade mediante uma via luminosa. Não deixava de estar lá, mesmo estando ao meu lado, e não deixava de estar ao meu lado, mesmo estando na Trindade. No momento em que senti fortemente a presença do Menino Jesus ao meu lado, vi a figura da Santíssima Trindade de outra forma que quando ela era-me apresentada apenas como imagem da divindade.
Nisto apareceu um altar no meio da igreja: não era um altar determinado de uma de nossas igrejas, mas um altar em geral e simbólico. Sobre ele havia uma pequena árvore com grandes folhas penduradas, como tinha visto que era a árvore da ciência do bem e do mal no Paraíso depois vi a Virgem Santíssima com o Menino Jesus nos braços como se emergisse da terra, diante do altar, enquanto a árvore que estava sobre, se curvou diante dela e secou imediatamente. Depois vi que um anjo de vestes sacerdotais, com um aro luminoso na cabeça, se aproximava de Maria. Ela lhe deu o Menino e o anjo o pôs sobre o altar, e no mesmo momento vi o menino no quadro da Santíssima Trindade, a qual contemplei desta vez em sua forma comum. Vi que o anjo dava a Maria um pequeno globo, sobre o qual havia uma figura como de um menino enfaixado e Maria, depois de tê-lo recebido, ficou suspensa no ar sobre o altar. De todos os lados saíam braços carregando tochas que se dirigiam para ela, e Maria as apresentava ao menino, sobre o globo, no qual entraram de imediato. As tochas formaram, acima do menino e de Maria, um resplendor de luz que iluminava todo o quadro. Maria estendia um amplo manto sobre toda a terra. Então tudo mudou e se transformou em outra cena, que parecia a realização de uma festa.
Eu acredito que a morte da árvore da ciência do bem e do mal no momento do aparecimento de Maria e a absorção da criança oferecida sobre o altar dentro do quadro da Santíssima Trindade, deviam ser imagens da reconciliação dos homens com Deus. Por isso mesmo vi que as luzes dispersas apresentadas à mãe de Deus e remetidas por ela ao Menino Jesus se convertiam em uma só luz Jesus, que é a Luz do mundo que ilumina todo homem e o mundo inteiro, representado por aquele globo como por um globo imperial. As luzes apresentadas indicavam a Bênção das candelas, que é celebrada na festa da Candelária.

LXXIII A Sagrada Família chega à casa de Santa Ana

Esta noite vi que a Sagrada Família tinha chegado à casa de Ana, a meia légua de Nazaré, para o Vale de Zebulom. Aconteceu ali uma festinha familiar, como aquela celebrada quando Maria partiu para o templo. Estava presente Maria de Heli, a filha mais velha de Ana. Tiraram a carga do jumento porque pensavam ficar algum tempo. Todos receberam o Menino Jesus com alegria, com uma alegria tranquila, interior: não havia nada de apaixonado em todas estas pessoas. Estiveram presentes alguns sacerdotes de idade e houve uma festinha com uma refeição. As mulheres comiam separadas dos homens.
Em outra ocasião, vejo novamente a Sagrada Família na casa de Ana. Estavam presentes algumas mulheres, entre elas Maria Heli, filha mais velha de Ana, com sua filha Maria de Cléofas; vi, além disso, outra mulher do país de Santa Isabel, e aquela serva que estivera com Maria em Belém. Esta serva, depois de perder o marido, que a havia tratado mal, não quis voltar a casar-se e foi para Juta, a casa de Isabel, onde Maria a conheceu quando foi visitar sua prima. De lá, a viúva foi para a casa de Ana.
Hoje eu vi José atarefado, carregando muitos pacotes na casa de Ana, e depois ir com a criada de Ana para Nazaré, seguido por dois ou três burros carregados.
Nos casos desesperados invoco Santa Ana, mãe de Maria, e hoje, estando em visão em sua casa, vi no jardim muitas peras, ameixas e outras frutas pendentes das árvores, apesar de não ser estação de frutas, e as árvores estivessem sem folhas. Peguei algumas antes de sair de casa e levei as peras para pessoas doentes, que foram curadas imediatamente. Dei também frutas a outras pessoas conhecidas e desconhecidas, que sentiram grande alívio em suas tristezas e doenças. Creio que estas frutas indicaram favores obtidos por intercessão de Santa Ana, e que significaram para mim novos sofrimentos de expiação. Por experiência, sei que isso aconteceu ao tomar frutos dos jardins dos santos: paguei o favor que recebi com novas dores em favor das almas.
Na Palestina vi agora com frequência brumas e chuvas; às vezes um pouco de neve que se derrete imediatamente. Vi também árvores sem folhas, mas com algumas frutas. Vi várias colheitas no ano e uma que correspondia à nossa estação da primavera.
No inverno vi as pessoas completamente cobertas, com mantos sobre a cabeça.
Hoje, à tarde, Vi Maria com o menino, acompanhada de sua mãe, que iam à casa de José em Nazaré. A estrada era agradável. Havia uma meia légua de distância, entre colinas, jardins e hortas. Ana enviou alimentos a José e Maria para sua casa em Nazaré. Quão comovente era tudo o que vi na Sagrada Família! Maria era como uma mãe e ao mesmo tempo como a serva do Menino Jesus e a serva de José e José era para Maria como o amigo mais devoto e o servo mais humilde. Quanto  me comoveu ver Maria mover e dar voltas ao Menino Jesus como a uma criança que não podia se cuidar de si mesma!
O Menino Jesus podia ter um ano idade. Eu o vi brincando em torno de um balsameiro, em um momento em que seus pais pararam durante a viagem; às vezes eles o faziam andar um pouco. Vi a Virgem tricotando vestidinhos com agulha ou crochê. Tinha a meada de lã presa ao quadril direito e nas mãos dois pauzinhos de osso, se não me engano, com alguns ganchos na extremidade. Um deles podia medir meia vara de comprimento, o outro era mais curto. A Virgem trabalhava de pé ou sentada, junto ao menino, que estava deitado em uma pequena cesta. Eu vi José trabalhar trançando objetos diferentes e fazendo divisórias e tábuas para os quartos com longas tiras de casca amarelas, castanhas e verdes. Ele tinha uma provisão de objetos semelhantes sobrepostos em um galpão adjacente à casa. Inspirava-me compaixão pensando que logo teria que deixar tudo e fugir para o Egito. Santa Ana vinha com frequência, quase todos os dias, de sua casa que ficava a apenas meia légua.

LXXIV Agitação de Herodes em Jerusalém

Eu vi o que acontecia em Jerusalém, e como Herodes mandou chamar muita gente como quando recrutavam soldados em nossa terra. Os soldados receberam ternos e armas em um amplo pátio onde se reuniram. No braço eles tinham um crescente (uma rodela). Eles tinham venablos e sabres curtos e largos, como lâminas, e sobre a cabeça capacetes; muitos deles cingiam as pernas com fitas. Tudo isso tinha relação com a matança das crianças inocentes, porque Herodes andava sumamente agitado. Hoje eu o vi novamente em grande agitação, como quando os reis Magos vieram perguntar a ele sobre o recém-nascido Rei dos judeus. Estava consultando velhos escribas e doutores, que carregavam longos rolos de pergaminho fixos sobre dois pedaços de madeira, e estavam lendo ali alguma coisa. Vi que os soldados vestidos e equipados na véspera foram enviados para várias direções, para os arredores de Jerusalém e Belém. Creio que era para ocuparem aqueles lugares onde mais tarde as mães deviam ir com seus filhos a Jerusalém, sem suspeitar que deveriam ser degoladas ali as crianças. Herodes queria impedir que sua crueldade fosse causa de algum levante. Hoje vi os soldados chegarem a três lugares diferentes quando saíram de Jerusalém: foram a Hebrom, a Belém e a um terceiro lugar que está entre os dois em direção ao Mar Morto, cujo nome não me lembro. Os habitantes desses lugares, não sabendo a causa da chegada dos soldados, ficaram inquietos e assustados. Como Herodes era astuto, suas más ideias não se transpunham e procurava Jesus secretamente. Os soldados estacionados nesses lugares permaneceram lá por algum tempo com o propósito de não deixar escapar o menino recém-nascido em Belém. Herodes matou todas as criaturas com menos de dois anos de idade.

LXXV A Sagrada Família em Nazaré

Hoje vi Ana indo com sua empregada indo de sua casa para Nazaré. A empregada carregava um pacote pendurado ao seu lado, uma cesta sobre a cabeça e outra na mão. Estas cestas eram redondas e uma delas a céu aberto, porque dentro tinham pássaros. Levavam comida para Maria, que não tinha a cozinha instalada, porque recebia tudo da casa de Ana.
Hoje à tarde voltei a ver Ana e a sua filha mais velha, Maria de Heli, que tinha junto a si um menino muito robusto de quatro a cinco anos: já era neto, filho de sua filha Maria de Cléofas. José estava ausente, na casa de Ana.
Eu pensei comigo mesmo: as mulheres são sempre do mesmo jeito. Via-as sentadas juntas, conversando familiarmente, brincando com o Menino Jesus, com beijos e carícias e colocando-o nos braços do menino de Maria Cleofas: tudo acontecia como acontece em nossos dias em iguais casos. Maria de Heli vivia numa aldeia a cerca de três léguas de Nazaré, para o Oriente, e sua casa era também arranjada quase como a de Ana, com um pátio cercado por paredes e um poço de bomba, do qual saía um jato de água quando se colocava o pé sobre um determinado local, caindo a água sobre uma fonte de pedra.
Seu marido se chamava Cléofas e sua filha, casada com Alfeu, morava no outro extremo da aldeia. À noite, vi as mulheres em oração. Estavam diante de uma pequena mesa encostada à parede e coberta com um tapete vermelho e branco. Maria estava na frente de Ana e sua irmã perto dela. Às vezes cruzavam as mãos sobre o peito, juntavam-nas e depois estendiam-nas E Maria lia num rolo à sua frente. Suas orações me lembravam a salmodia de um coro conventual, pelo tom e pelo ritmo com que procediam.

LXXVI O anjo aparece a José e manda-o fugir para o Egito

Vi-os partir de Nazaré. Ontem José tinha voltado cedo de Nazaré e Ana e sua filha estavam ainda em Nazaré com Maria, já tinham ido descansar quando o anjo apareceu a José. Maria e o menino descansavam à direita do lar; Ana à esquerda; Maria de Heli entre o quarto de sua mãe e o de José. Essas várias salas eram separadas por divisórias de galhos de árvores trançados e cobertas no alto com acácia da mesma classe. O leito de Maria era separado dos outros por meio de uma divisória. O Menino Jesus dormia aos pés de Maria sobre tapetes no chão. Ao levantar-se, podia facilmente levá-lo nos braços.
Vi José descansando em seu quarto, deitado de lado, com a cabeça sobre o braço, quando um jovem brilhante aproximou-se de sua cama e falou com ele. José se levantou; mas, como estava sobrecarregado de sono, voltou a cair. O anjo tomou-o pela mão e levantou-o até que José voltou completamente a si e se levantou. O anjo desapareceu. José acendeu sua própria lâmpada em outra que estava pendurada diante da lareira no meio da casa; então bateu na entrada onde Maria estava e  perguntou se ela poderia recebê-lo.
Vi-o entrar e falar com Maria, que não abriu a cortina à sua frente. Então José entrou em um quarteirão onde tinha o asno e passou para uma sala onde havia diversos objetos e arranjou tudo para a pronta partida.
Quando José deixou Maria, esta levantou-se e vestiu-se para a viagem. Foi ver a sua santa mãe e deu-lhe conta da ordem do Anjo de partir. Ana levantou-se, assim como Maria de Heli com seu neto. O Menino Jesus foi deixado ainda descansando. Para aquelas santas pessoas a vontade de Deus era a primeira. Estavam muito preocupados e aflitos, mas não se deixaram levar pela tristeza e dispuseram o necessário para a viagem. Maria não tomou quase nada do que tinham trazido de Belém. Fizeram um embrulho de tamanho regular com as coisas que José havia disposto e acrescentaram algumas colchas. Tudo isso foi feito com calma e muito rapidamente, como quando alguém acorda para fugir secretamente. Maria pegou o menino e sua pressa foi tanta que não a vi trocar fraldas.
O momento de partir havia chegado e não era possível dizer quanta era a aflição de Ana e de sua filha mais velha: apertavam contra seu peito o Menino Jesus, chorando, e o menino beijou Jesus também. Ana beijou Maria várias vezes, chorando, como se não a visse mais, enquanto Maria de Heli se deitou no chão derramando abundantes lágrimas. Ainda não era meia-noite quando deixaram a casa, e Ana e Maria Heli acompanharam os viajantes por um trecho de caminho. José marchava atrás com o jumento e, embora fossem em direção à casa de Ana, deixaram-na de lado para a direita. Maria carregava o Menino Jesus preso com uma faixa que repousava sobre seus ombros. Ela tinha um longo manto que a envolvia toda com o menino e um grande véu quadrado que cobria apenas a parte de trás da cabeça e caía em ambos lados do rosto.
Tinham avançado um pouco na caminhada quando José os alcançou com o jumento, carregado com um odre cheio de água e um cesto cheio de objetos, como pãezinhos, pássaros vivos e um cantarinho. A bagagem pobre dos viajantes, junto com algumas colchas, foi empacotada em torno do assento, posto transversalmente com uma tala para descanse os pés. Outra vez voltaram a beijar-se, chorando, e Ana abençoou Maria, que montou sobre o jumento, que conduzia José, e prosseguiram o seu caminho.
De manhã cedo vi Maria de Heli, que ia com o seu rapazinho à casa de Ana; Depois enviou o seu sogro com um servo a Nazaré, e voltou à sua própria casa. Ana estava empacotando e arrumando tudo o que havia ficado na casa de José. De manhã, vieram dois homens da casa de Ana: um deles não tinha mais que uma pele de carneiro, com toscas sandálias presas por correias em torno das pernas; o outro usava roupas longas.
Ajudaram a pôr ordem na casa de José, empacotando as coisas que deviam levar a casa aa Ana.
Enquanto isso, vi a Sagrada Família, na noite de sua partida, descansar em vários lugares e pela manhã em um galpão. À tarde, não podendo ir mais longe, entraram num lugar chamado Nazara, numa casa separada das demais, porque foram tratados com certo desprezo pelos donos destas.
Não eram judeus: na sua religião havia algo de paganismo, porque iam adorar o monte Garizim, perto de Samaria, por um caminho montanhoso e abrupto. Eles eram forçados a tarefas pesadas e trabalhavam como escravos no templo e em outras obras públicas. Essas pessoas receberam a Sagrada Família com muita gentileza. Eles ficaram lá no dia seguinte. Ao voltar do Egito, a Sagrada Família visitou esse bom povo, e também mais tarde, quando Jesus tinha doze anos, e foram ao templo, e quando voltou a Nazaré toda essa família se fez batizar por São João e se uniu aos discípulos de Jesus.
A aldeia de Nazara não estava longe de outra cidade colocada sobre uma altura, cujo nome não me lembro, pois ouvi nomear várias cidades nos arredores, como Legio, Massoloth, e entre elas estava Nazara, se bem me lembro.

LXXVII Descanso sob o terebinto de Abraão

Ontem, sábado, depois da festa, A Sagrada Família deixou Nazara durante a noite. Vi-a todo o domingo e na noite seguinte, escondendo-se perto daquela grande árvore sob a qual tinham estado quando foram a Belém e onde Maria tinha sofrido tanto com o frio. Esta árvore era o terebinto de Abraão, perto do bosque de Moré, não muito distante de Siquém, de Yhenate, de Silch e de Anima. As intenções de Herodes eram conhecidas naquele país e por isso não se sentiam seguros. Perto desta árvore foi onde Jacó enterrou os ídolos roubados a Labão, e junto a este terebinto Josué reuniu o povo e esteve levantado o tabernáculo onde se encontrava a Arca da Aliança e exigiu ao povo renúncia dos ídolos. Ali foi saudado como rei pelos siquemitas, Abimeleque, filho de Gideão. Esta manhã vi a Sagrada Família descansando, muito cedo, ao lado de uma fonte, debaixo de arbustos de bálsamo, numa região fértil. O Menino Jesus estava com os pés nus sobre os joelhos de Maria. Os arbustos estavam cobertos de bagas vermelhas: em alguns ramos havia incisões, das quais saía o líquido que era coletado em pequenos recipientes. Fiquei maravilhado por eles não serem roubados. José encheu o seu cantarinho com o licor que jorrava e comeram o que tinham trazido, pão e bagas recolhidas nos arbustos vizinhos, enquanto o jumento pastava e bebia junto a eles. Para a esquerda, Via-se, a distância, a altura onde Jerusalém estava assentada. Era um quadro comovente vê-la deste lugar.

LXXVIII Santa Isabel foge para o deserto com o menino João

Zacarias e Isabel conheciam o perigo que ameaçava as crianças, porque creio que a Sagrada  Família enviou-lhes uma mensagem de confiança. Eu vi Isabel levando o menino João para um lugar muito afastado do deserto, a cerca de duas léguas de Hebron. Zacarias os acompanhou até um lugar onde atravessaram um riacho, passando sobre uma viga estendida. Ali se separou deles e foi para Nazaré pelo caminho que Maria havia tomado quando foi visitar sua prima Isabel. Acho que ia pedir mais informações a Santa Ana. Ali, em Nazaré, vários amigos da Sagrada Família ficaram muito tristes com a partida. Vi que João, no deserto, não carregava sobre o corpo senão uma pele de cordeiro, e aos dezoito meses já podia correr e saltar. Tinha na mão um pequeno bastão branco, com o qual brincava como as crianças brincavam. O deserto não era uma imensa extensão arenosa e estéril, mas uma solidão com muitas rochas, ravinas e grutas, onde cresciam arbustos diversos com bagas e frutos silvestres. Isabel levou o menino João para uma gruta onde Maria Madalena mais tarde viveu após a morte do Salvador. Não sei quanto tempo Isabel esteve escondida ali com o menino: provavelmente ficou o tempo todo até que não pudesse mais temer a perseguição de Herodes. Ela voltou com seu filho para Juta, mas fugiu novamente quando Herodes convocou as mães que tinham filhos menores de dois anos, o que ocorreu um ano mais tarde. Não posso contar os dias, mas contarei as cenas da fuga conforme me lembro de tê-las visto.

LXXIX A Sagrada Família pára em uma gruta e vê o menino João

Quando a Sagrada Família passou alguma parte do Monte das Oliveiras, a vi fugindo para Belém, em direção a Hebrom. A umas duas léguas da floresta de Mambré vi-os refugiar-se numa gruta ampla, aberta num desfiladeiro agreste, sobre o qual se encontrava um lugar semelhante ao nome de Efraim, pareceu-me que era a sexta vez que paravam no caminho. Eles chegaram cheios de fadiga e tristeza. Maria estava muito aflita e chorava. Sofriam todo tipo de privações, pois tinham que tomar os caminhos afastados e evitar os povoados e as pousadas públicas. Eles descansaram durante todo o dia. Alguns fatos milagrosos ocorreram ali para aliviar sua miséria. Uma fonte brotou na gruta, pela oração de Maria, e uma cabra selvagem aproximou-se deles e deixou-se ordenhar. Finalmente apareceu-lhes um anjo, que os consolou e animou. Nesta gruta, um profeta orou com frequência e Samuel parou algumas vezes. Davi guardava na vizinhança os rebanhos de seu pai, e ali mesmo, enquanto orava, recebeu de um anjo a ordem e a missão de combater contra Golias27.
Depois de deixar a gruta, caminharam sete léguas para o Meio-dia, deixando à sua esquerda o Mar Morto, e cerca de duas léguas além de Hebron entraram no deserto onde o pequeno João estava na época, passando a um tiro de flecha da gruta onde estavam refugiados. Eu os vi avançando no meio de um deserto de areia, muito lânguidos e cansados. O recipiente de água e o cantarilho de bálsamo estavam vazios; Maria estava com sede e triste, e o menino também estava com sede. Eles pararam fora do caminho em uma vala onde havia arbustos e um pouco de grama seca. Maria desceu do jumento, sentou-se no chão e colocou o menino diante de si. Estava triste e rezava. Enquanto Maria, como Agar no deserto, pedia um pouco de água para o menino, meus olhos viram uma cena comovente. A gruta onde Isabel tinha escondido o menino João, estava a uma curta distância, no meio de umas rochas altas. Eu podia ver o menino João vagando entre ervas daninhas e pedras. Pareceu-me cheio de inquietação e como se esperasse algo; não pude ver sua mãe.
A visão daquele menino correndo com passagem segura por aquele lugar deserto produzia uma viva impressão. Do mesmo modo que estremecera no seio de sua mãe, como querendo ir ao encontro de seu Senhor, desta vez se achava agoniado pela proximidade do seu Redentor, que estava sedento. Tinha sobre os ombros uma pele de cordeiro, presa pela cintura, e na mão um bastonete, em cuja ponta alta flutuava uma bandeira de casca. Sentia que Jesus passava e que tinha sede. Ajoelhou-se e clamou a Deus com os braços estendidos. Então ele se levantou rapidamente correu impulsionado pelo Espírito para o lado da Rocha, e bateu no chão com sua vara, imediatamente jorrando água abundante. João correu para o lugar onde a água caía, e ali parou, e viu ao longe a Sagrada Família que passava. Maria levantou o menino nos braços e, apontando para o lugar, disse: "Olhe para João no deserto". Vi João estremecer de alegria junto à água que caía; fez um sinal com sua bandeira, e logo fugiu para sua solidão. O riacho, depois de algum tempo, chegou até o caminho que os viajantes seguiam. Eu os vi passando e parando ao lado de alguns arbustos em um lugar confortável onde havia um pouco de grama, embora seca. Maria desceu com o menino da cavalgada e sentou-se no gramado. Todos estavam cheios de alegria. José cavou uma pequena cova, que logo se encheu de água, e quando estava limpa todos beberam. Maria banhou o menino e depois lavaram as mãos, o rosto e os pés; José trouxe o jumento e deu-lhe de beber, e finalmente encheu de água o seu recipiente. Eles estavam cheios de alegria e gratidão. A grama seca esverdeou com a água; o sol mostrou-se brilhante, e todos se encontraram reanimados, embora silenciosos. Eles pararam lá por duas ou três horas.
A uma curta distância de uma cidade sobre a fronteira do deserto, a duas léguas mais ou menos do Mar Morto, foi onde a Sagrada Família parou pela última vez nos domínios de Herodes. O nome da cidade era assim como Anam, Anem ou Anim". Pediram entrada em uma casa isolada, que era pousada para pessoas que atravessavam o deserto. Contra uma altura havia algumas cabanas e galpões, e nos arredores muitos frutos silvestres. Pareceu-me que os habitantes eram cameleiros, porque vi vários camelos pastando cercados por cercas. Eram pessoas de costumes selvagens, dedicadas, pareceu-me, à pilhagem; contudo, receberam bem a Sagrada Família e deram-lhe hospitalidade. Na cidade vizinha habitavam pessoas de costumes desordenados, que haviam fugido depois de uma guerra. Entre as pessoas da pousada estava um jovem de cerca de vinte anos, chamado Ruben.
Em uma noite estrelada vi hoje a Sagrada Família atravessando um terreno arenoso, coberto de vegetação rasteira. Pareceu-me viajar com eles pelo deserto. O local era perigoso pela quantidade de serpentes escondidas no mato e enroladas entre a serapilheira. Aproximavam-se assobiando e levantando suas cabeças contra a Sagrada Família, que passava tranquila, rodeada de luz.
Eu vi outros animais nocivos, de pernas curtas, e uma espécie, com asas sem penas, como grandes barbatanas, e o corpo longo e enegrecido. Passavam rapidamente como se voassem; a cabeça parecia a dos peixes. (Talvez lagartos voadores). A Sagrada Família chegou a um caminho escavado, que era uma escavação profunda do terreno e quiseram descansar ali entre as amoreiras. Eu tinha medo delas, porque o lugar era horrível, e eu queria fazer deles um muro de sarças entrelaçadas; mas uma besta horrível apareceu para mim, parecia um urso e me senti cheia de ansiedade terrível. De repente apareceu um velho amigo meu, sacerdote, que havia morrido há pouco tempo, e se apresentava agora como um formoso jovem. Ele pegou a fera pela nuca e a afastou de lá.
Perguntei-lhe por que tinha vindo, pois certamente se encontrasse melhor onde estava, respondeu-me: "queria socorrer-te; não ficarei muito tempo". Ele também me disse que eu voltaria a vê-lo.

LXXX Na morada dos ladrões

A Santa Família avançou cerca de duas léguas para o leste pela estrada principal; o último lugar onde chegaram, entre a Judéia e o deserto, tinha o nome de Mará. Pensei no lugar onde Ana nasceu, mas não era este. Os habitantes eram bárbaros e inóspitos, e a Sagrada Família não recebeu ajuda alguma. Eles entraram mais tarde em um grande deserto arenoso, onde não havia caminho nem nada que indicasse a direção que deveriam tomar, e não sabiam o que fazer. Depois de terem andado um pouco, subiram por uma cadeia de montanhas sombrias. Estavam de novo tristes e puseram-se a rezar de joelhos, clamando ao Senhor que os ajudasse. Vários animais selvagens grandes se agruparam ao seu redor. Pareceu-me a princípio que eram perigosos, mas aqueles animais não eram maus; pelo contrário, olhavam para os viajantes amigavelmente, como quando olho para o velho cachorro do meu confessor quando ele vem em minha direção. Compreendi que aqueles animais foram mandados para lhes indicar o caminho. Olhavam para a montanha; corriam à frente; depois voltavam, como faz um cão quando quer guiar seu dono.
Vi a Sagrada Família segui-los e, atravessando essas montanhas, chegarem a uma região triste e acidentada. Tudo estava escuro e os viajantes caminharam ao longo de uma floresta, onde, fora do caminho em frente à floresta, havia uma cabana de aparência ruim. A uma curta distância dela, via-se pendurada uma lâmpada em uma árvore, que se distinguia de longe, destinada a atrair os caminhantes. O caminho era difícil, cortado em trechos por valas. Havia buracos ao redor da cabana e, ao longo do caminho, fios escondidos presos a sinos colocados na cabana. Os ladrões eram assim avisados da presença de viajantes, e saíam para despojá-los.
Esta cabana nem sempre estava no mesmo lugar: como seus habitantes a transferiam de um lugar para outro, de acordo com as necessidades. Quando a Sagrada Família chegou onde estava a lanterna, encontrou-se cercada pelo chefe dos ladrões e cinco de seus companheiros. No princípio tinham más intenções; mas vi que partia do Menino Jesus um raio luminoso que como uma flecha tocou o coração do chefe do bando, o qual ordenou ao seu povo que não fizessem mal algum aos viajantes. Maria viu este raio luminoso chegar ao coração do chefe, porque em sua volta contou o fato à profetisa Ana. O ladrão levou a Sagrada Família para a cabana, onde sua esposa e seus dois filhos estavam. Já era noite. O homem contou à mulher a impressão extraordinária que lhe produziu a visão do menino e a mulher recebeu a Sagrada Família com timidez, embora com boa vontade. Os viajantes sentaram-se no chão, em um canto da casa e comeram um pouco do que estavam carregando. Os donos da casa mostraram-se a princípio tímidos e reservados, coisa não habitual neles; mas pouco a pouco foram se aproximando. Outros homens abrigaram o jumento de José debaixo de um galpão. Essas pessoas animaram-se pouco a pouco e foram colocando-se em torno da Sagrada Família e conversavam. A mulher ofereceu a Maria pãezinhos com mel e frutas e trouxe água para beber. O fogo estava aceso em uma escavação feita em um canto da casa.
A mulher arranjou um lugar separado para Maria e encheu, a seu pedido, uma gamela cheia de água para banhar a criança, lavando também suas fraldas que pôs a secar junto ao fogo. Maria banhou o Menino Jesus debaixo de um lençol.
O ladrão ficou tão comovido que disse à sua mulher: "este Menino judeu não é um menino comum: é um menino santo. Peça à mãe que nos deixe banhar nosso filho leproso na água onde ela lavou seu filho. Talvez isso o cure de sua doença". Quando a mulher se aproximou, a Virgem lhe disse, antes que ela falasse, que devia banhar seu menino leproso naquela água, e a mulher trouxe um menino de três anos mais ou menos em seus braços. Ele era muito comido pela lepra e seu rosto era uma crosta. A água onde Jesus havia sido banhado aparecia mais clara do que antes e ao ser colocado o menino dentro da água as crostas se desprenderam e o menino se encontrou perfeitamente curado. A mãe estava fora de si de contentamento, e queria beijar Maria e o Menino Jesus; Mas Maria não se deixou tocar por ela nem tocar no menino. Maria disse-lhe que cavasse uma pequena cisterna, jogasse a água dentro, e que a virtude curativa da água passaria para a cisterna. Conversou um pouco com ela, que prometeu deixar aquele lugar na primeira oportunidade que lhe fosse apresentada. Os pais sentiram grande alegria pela cura do Filho, e havendo ido outros durante a noite, eles lhes mostravam o menino, contando-lhes o que aconteceu. Os recém-chegados, entre os quais havia alguns jovens, cercaram a Sagrada Família, olhando para ela com grande espanto. Estranhei mais esta atitude dos bandidos ao mostrarem-se tão respeitosos com a Sagrada Família, porque os tinha visto naquela mesma noite assaltar a vários viajantes atraídos pela luz e levá-los para uma grande caverna que estava mais abaixo, na floresta. Esta caverna, com a entrada escondida por ervas daninhas, parecia servir-lhes de depósito, porque vi ali várias crianças roubadas de sete a oito anos e uma velha que cuidava de tudo o que tinha armazenado. Lá dentro vi vestidos, pastas, carne, camelos, carneiros, animais grandes e presas de toda espécie.
Durante a noite vi Maria descansando um pouco, a maior parte do tempo sentada em sua cama. Eles saíram de manhã cedo, abastecidos com alimentos que lhes haviam sido dados pelos bandidos. Essas pessoas os acompanharam por um trecho, os guiaram por várias valas e se despediram deles com grande emoção. O chefe disse aos viajantes de modo muito expressivo:"lembrem-se de nós onde quer que forem". Ao ouvir estas palavras, vi de repente a cena da crucificação e ouvi o bom ladrão dizendo a Jesus: "Senhor, lembra-te de mim quando tiveres chegou ao teu reino". Reconheci no bom ladrão o menino curado da lepra. A mulher do bandido deixou, depois de algum tempo, a vida ruim e foi morar em um lugar onde a Sagrada Família havia descansado. Lá havia brotado uma fonte e crescido um jardim de arbustos de bálsamo. Várias famílias boas foram mais tarde habitar naquele lugar.

LXXXI A primeira cidade egípcia. A fonte milagrosa

Vi a Sagrada Família entrar num lugar desolado: tinham-se extraviado e vi que se aproximavam répteis de diversas classes, entre eles alguns lagartos com asas de morcegos, que iam rastejando e muitas serpentes. Não lhes fizeram mal algum, antes parecia que queriam indicar-lhes o caminho. Algum tempo depois, não sabendo mais qual direção tomar, vi que lhes foi mostrado o caminho por meio de um gracioso milagre.
Em ambos os lados do caminho brotou a rosa chamada de Jericó com ramos de folhas encaracoladas que tinham florzinhas no centro. Avançaram com alegria no meio delas, vendo que se erguiam as flores em toda a extensão que alcançava a vista. Este prodígio continuou por todo o deserto. À Virgem foi revelado que mais tarde viriam pessoas do país para recolher estas flores, para vendê-las a viajantes estrangeiros e comprar pão com o produto da venda. Na verdade, eu vi isso acontecer mais tarde. O nome do lugar era Gaz ou Gose.
Vi-os chegar a um lugar chamado, se bem me lembro, Lep ou Lap, onde havia água, fossos, canais e diques. Para atravessar o riacho, fizeram-no em jangadas de madeira, nas quais havia banheiras onde metiam os jumentos. Os que os passaram nas jangadas foram dois homens de aspecto feio, cor-de-rosa, com narizes muito chatos e lábios grossos, que andavam meio nus.
Mais tarde chegaram a umas casas afastadas da população, mas ao ver os habitantes tão arrogantes e antissociais, não pararam nem falaram com eles. Eles haviam chegado à primeira população pagã egípcia, tendo viajado por dez dias no território da Judéia e outros dez no deserto.
Vi a Sagrada Família em um país plano, em território egípcio. Grandes prados apareciam onde os rebanhos pastavam. Vi árvores às quais tinham sido presos alguns ídolos semelhantes a crianças enfaixadas. As tiras que os seguravam estavam cobertas de figuras e caracteres. Alguns homens grossos, de pequena estatura, vestidos à maneira dos fiandeiros que vi no país dos Três Reis, prestavam homenagens a esses ídolos. A Sagrada Família refugiou-se num curral, do qual saíram os animais para lhes dar lugar. Naquele momento não tinham água nem alimento e ninguém lhes deu coisa alguma. Maria mal podia alimentar s]eu Filho. Eles suportaram todos os sofrimentos humanos naqueles dias. Quando finalmente chegaram alguns pastores para dar de beber aos seus animais num poço fechado, deram a José um pouco de água para satisfazer o seu pedido. Mais tarde vi a Sagrada Família, desprovida de todo socorro humano, atravessando uma floresta, à saída da qual havia uma datileira muito alta com grande número de tâmaras em sua extremidade superior pendentes de um cacho. Maria aproximou-se da árvore, tomou em seus braços o Menino Jesus e, levantando-o, fez uma oração. A árvore inclinou sua copa como se ajoelhando diante deles, e puderam assim colher seu abundantes frutos. A árvore ficou na mesma posição. Toda espécie de gente do lugar seguia logo a Sagrada Família, enquanto Maria distribuía tâmaras a muitas crianças nuas que corriam atrás dela. Cerca de um quarto de légua chegaram perto de um sicômoro de grandes dimensões e se meteram dentro do buraco da árvore que estava em grande parte vazio, escondendo-se da vista das pessoas que os seguiam, de tal modo que passaram de largo pelo lugar sem vê-los e assim puderam passar a noite escondidos.
Eu os vi no dia seguinte seguir através de um areal. Sem água e cansados pararam ao lado de um monte da estrada. Maria rezou com fervor e vi então brotar uma nascente, de água abundante que regava a terra seca do areal. José abriu-lhe um canal para armazenar a água num buraco que fez e pararam para descansar. Maria lavou e refrescou o Menino, e José encheu o seu odre de água e deu de beber ao jumento. Vi que se aproximavam para se refrescar uns animais muito feios, como grandes lagartos, e também tartarugas. Não fizeram mal algum à Sagrada Família, mas, pelo contrário, olhavam para ela com expressão de carinho amigável. Vi que a água brotada, depois de percorrer um longo caminho, voltava a ser resumida na terra a uma curta distância da primeira fonte. A terra regada por esta água foi fecunda, de modo que logo se cobriu de abundante vegetação e cresceu ali da árvore do bálsamo em abundância. Ao voltar do Egito, puderam tirar bálsamo dessas mesmas árvores. Mais tarde, este lugar ficou conhecido como "o monte do bálsamo". Várias pessoas se estabeleceram lá, entre elas a mãe do menino leproso curado na cabana dos ladrões. Voltei depois para ver este lugar. Uma bela cerca de árvores de bálsamo rodeava todo o monte, onde haviam plantado outras frutas. Abriram um poço largo e profundo do qual tiravam água por meio de uma roda-gigante puxada por bois e que, misturada com a fonte de Maria,  era por eles usada para regar jardins e hortas.
Sem essa mistura, entendi que a água do poço teria sido ruim e prejudicial. Notei também que os bois que puxavam a roda-gigante deixavam de trabalhar de sábado ao meio-dia até segunda-feira de manhã.

LXXXII O ídolo de Heliópolis

Depois de terem descansado e tomado comida, dirigiram-se para uma grande cidade, bem construída, embora naquela época meio ruinosa; era Heliópolis, também chamada On. Este era o lugar onde, no tempo dos filhos de Jacó, habitava o sacerdote egípcio Putifar, em cuja casa vivia a jovem Asenet, a filha que tinha tido Diná depois que foi roubada pelos siquemitas, e que se casou mais tarde com José, vice-rei do Egito. Vi que ali vivia, quando morreu Jesus na cruz, Dionísio, o Areopagita. A cidade havia sido devastada pela guerra; e todos os tipos de pessoas foram se estabelecendo em seus edifícios ruinosos. Eles passaram por uma ponte muito larga e muito longa, através de um rio com vários braços. Chegaram a uma praça situada em frente à porta da cidade, delimitada por uma espécie de passeio.
Havia ali sobre uma coluna tronchada, mais larga em sua base do que na altura, um ídolo grande com cabeça de boi que tinha em seus braços algo como uma criança enfaixada. Ao redor do ídolo havia mesas de pedras sobre as quais colocavam suas ofertas as pessoas que vinham de todas as partes da cidade.
Perto de ali havia uma árvore corpulenta sob a qual a Sagrada Família parou para descansar. Fazia alguns momentos que estavam ali descansando quando a terra tremeu; o ídolo cambaleou sobre sua base e caiu em terra. Este fato foi causa de grande tumulto: as pessoas começaram a dar gritos e socorreram vários homens que trabalhavam no canal. Um bom homem, que havia acompanhado a Sagrada Família pelo caminho, foi socorrido também e conduzido rapidamente à cidade; creio que era um dos trabalhadores do canal.
Estavam fora da praça quando o povo, atribuindo a eles a queda de seu ídolo, se enfureceu contra eles e os ameaçava e injuriava. Enquanto isso acontecia, a terra tremeu novamente, a árvore caiu, cortando suas raízes, e o chão onde a árvore e o ídolo estavam tornou-se um lodaçal de água negra e lamacenta, onde o ídolo afundou até os chifres, que se projetavam. Também se afundaram no pântano alguns perversos daquela multidão furiosa. A Sagrada Família continuou tranquila sua viagem, indo para a cidade. Foram alojar-se num edifício sólido junto ao templo grande de um ídolo onde encontraram lugares desocupados.

LXXXIII A Sagrada Família em Heliópolis

Uma vez que atravessei o mar e fui para o Egito, vi a Sagrada Família ainda habitando na grande cidade em ruínas. Esta cidade se estendia ao longo de um grande rio de vários braços e era vista de longe devido à sua posição elevada. Existiam algumas partes abobadadas, sob as quais o rio corria.
Para passar pelos braços do rio, eles usavam vigas colocadas sobre a água.
Vi lá, com grande admiração minha, restos de grandes edifícios, torres em ruínas e templos em bom estado. Havia colunas que pareciam torres, às quais se podia subir pela parte externa; outras muito altas terminadas em ponta e cobertas com imagens estranhas e figuras semelhantes a cães enrolados com cabeça humana. A Sagrada Família habitava as salas de um grande edifício, sustentado de um lado por grossas colunas de baixa altura, algumas de canto reto e outras redondas. Sob as colunas habitavam muitas pessoas. Na parte alta, acima do edifício, havia uma estrada pela qual se podia transitar, e em frente um grande templo de ídolos com dois pátios. Diante de um espaço fechado por um lado e aberto por outro, sob uma fileira de grossos pilares, José fez uma construção leve de madeira, dividida em várias partes por meio de divisórias, onde habitava a Sagrada Família. Notei, pela primeira vez, que atrás daquelas divisórias havia um altarzinho diante do qual oravam: era uma pequena mesa coberta por um pano vermelho e outro branco transparente. Em cima pendia uma lâmpada. Mais tarde, vi José, já bem instalado lá e que muitas vezes saía para trabalhar. Ele fazia bengalas com esferas redondas nas pontas, cestos e banquinhos de três pés e levantava divisórias leves com galhos entrelaçados e tecidos. As pessoas do país as untavam com um banho especial e as utilizavam para dividir as casas em compartimentos, contra as paredes e ainda dentro das paredes, que eram de grande espessura. Com tábuas finas e longas faziam torretas leves de seis e oito lados terminadas em ponta com ornamento redondo por remate. Uma parte ficava aberta de modo que uma pessoa podia refugiar-se dentro como numa guarita: tinham degraus por fora para poder subir até a ponta da torre. Diante dos templos dos ídolos e sobre os telhados vi estas torrinhas, que pareciam refúgios para guardiães como defesa contra os ardores do sol.
Vi a Virgem Santíssima ocupada em trançar tapetes e em outros trabalhos para os quais se servia de um bastão com esfera: parecia-me que fiava ou fazia outro trabalho semelhante. Vi muitas vezes gente que ia visitá-la e ver o Menino Jesus que estava ao seu lado, no chão, numa vala. Vi o berço frequentemente colocado sobre um suporte parecido com o dos serradores. Vi o menino graciosamente deitado e uma vez o vi sentado enquanto Maria tecia ao seu lado tendo junto a si uma cestinha com utensílios, Havia outras três mulheres lá. Os homens que se tinham refugiado na cidade ruinosa vestiam-se como aqueles que fiavam algodão que vi quando fui ao encontro dos Reis Magos; mas estes usavam umas vestes curtas ao redor do corpo. Vi muito poucos judeus, rondando com cautela, como se não tivessem autorização para habitar a cidade. Ao norte de Heliópolis, entre a cidade e o Rio Nilo, que se dividia em vários braços, ficava o país de Gessen. Ali havia um lugar, entre dois canais, onde viviam muitos judeus que haviam degenerado na prática da religião. Como muitos conheciam a Sagrada Família, Maria fazia para eles todo tipo de trabalhos femininos com que ganhava o sustento. Estes judeus de Gessen tinham um templo que comparavam com o de Salomão, mas que era muito diferente. Vi outras vezes a Sagrada Família morando em Heliópolis, perto do templo dos ídolos de que já falei. José havia construído, não muito longe dali, um oratório para os judeus, porque antes de José chegar não tinham lugar para exercer seu culto religioso.
O oratório terminava em uma cúpula leve, que podia ser aberta ao ar livre.
No centro havia uma mesa onde colocavam rolos escritos. O sacerdote ou escriba da lei era um ancião; os homens se colocavam de um lado e as mulheres do outro, quando se reuniam para rezar. Vi a Virgem Santíssima na primeira vez que foi com o menino ao oratório: ela estava sentada no chão, apoiada em um braço. O Menino Jesus, vestido de celeste, estava diante dela, com as mãozinhas juntas sobre o peito. José parado atrás dela, coisa que fazia sempre, apesar dos outros se sentarem.
Foi-me mostrado o Menino Jesus quando já era grande e recebia a visita de outras crianças. Já podia falar e correr. Estava quase sempre ao lado de José e o acompanhava quando saía. Tinha um veste semelhante a uma túnica feita de uma só peça. Como habitavam junto a um templo de ídolos, alguns deles caíram em pedaços. Havia aqueles que se lembravam da queda daquele grande ídolo que estava diante da porta quando eles chegaram e atribuíam o fato à cólera dos deuses contra eles. Por causa disso, eles tiveram que sofrer muitos aborrecimentos e perseguições.

LXXXIV A matança dos inocentes

Um anjo apareceu a Maria e fez com que ela soubesse da matança das crianças inocentes pelo rei Herodes. Maria e José se afligiram muito e o Menino Jesus, que tinha então um ano e meio, chorou o dia todo. Como não voltaram os Reis Magos a Jerusalém, e estando Herodes ocupado em alguns assuntos de família, os seus temores se acalmaram um pouco; mas quando a Sagrada Família voltou a Nazaré e ouviu as coisas que tinham acontecido no templo e as predições de Simeão e Ana, na cerimônia de apresentação no templo, aumentaram seus temores e angústias. Mandou soldados que, sob vários pretextos, deviam guardar os lugares ao redor de Jerusalém, a Gilgal, a Belém até Hebrom, e ordenou fazer um recenseamento das crianças. Os soldados ocuparam esses lugares durante nove meses, enquanto Herodes estava em Roma. Depois de sua volta, ocorreu a degolação dos inocentes. João tinha então dois anos, e estivera escondido na casa de seus pais antes que Herodes desse a ordem para que as mães se apresentassem com seus filhos de dois anos ou menos perante as autoridades locais. Isabel, avisada por um anjo, voltou a fugir para o deserto com o menino João. Jesus tinha então um ano e meio.
O massacre ocorreu em sete locais diferentes. As mães haviam sido enganadas, prometendo-lhes prêmios por sua fecundidade; por isso elas se apresentavam às autoridades vestindo suas crianças com as melhores roupas. Os homens eram anteriormente afastados das mães. As crianças, separadas de suas mães, foram cortadas em pátios fechados e depois amontoadas e enterradas em fossos.
Hoje, ao meio-dia, vi as mães com seus filhos de dois anos ou menos ir para Jerusalém, de Hebrom, Belém e outro lugar onde Herodes tinha ordenado a seus soldados e funcionários. Dirigiam-se para a cidade em grupos diversos: algumas levavam duas crianças montadas em jumentos. Quando chegavam, eram levadas para um grande edifício, sendo despedidos os homens que as tinham acompanhado. As mães entravam alegremente, acreditando que iriam receber presentes e gratificações em prêmio à sua fecundidade. O edifício estava um pouco isolado e bastante perto do que foi mais tarde o palácio de Pilatos.
Como se encontrava rodeado de muros, não se podia saber de fora o que se passava dentro. Parecia um tribunal, pois vi alguns pilares no pátio e blocos de pedra com correntes suspensas. Também vi árvores a que se curvavam e amarravam e em seguida, os soldados rapidamente, despedaçavam os desgraçados a elas amarrados. Todo o edifício era sombrio, de construção maciça. O pátio era quase tão grande quanto o cemitério ao lado da Igreja Paroquial de Dúlmen. Abria-se uma porta entre duas paredes e chegava-se ao pátio, rodeado de construções por três lados. Os edifícios à direita e à esquerda eram de um andar e o do centro parecia uma antiga sinagoga abandonada. Várias portas davam para o pátio interno. As mães eram levadas através do pátio para edifícios laterais, e ali trancadas. Parecia uma espécie de hospital ou pousada. Quando se viram trancadas, ficaram com medo e começaram a chorar e a lamentar-se. Passaram a noite lá dentro.
Hoje, depois do Meio-dia, vi o quadro horrível da matança das crianças.
O grande edifício posterior que fechava o pátio tinha dois andares. O inferior era uma sala grande, desprovida, semelhante a uma prisão, ou a um corpo de guarda, e no andar superior havia janelas que davam para o pátio. Ali vi algumas pessoas reunidas num tribunal; diante delas estavam rolos sobre uma mesa. Creio que Herodes estaria presente, pois vi um homem com manto vermelho adornado de pele branca, com pequenas caudas negras. Ele estava cercado pelos outros e olhava pela janela da sala que dava para o pátio. As mães eram chamadas uma a uma para serem levadas dos edifícios laterais até a grande sala inferior do corpo que estava atrás. Ao entrar, os soldados tiravam as crianças delas, levando-os para o pátio, onde cerca de vinte homens as matavam através de suas gargantas e corações com espadas e lanças. Havia ainda crianças enfaixadas, que eram amamentadas por suas mães, e outras que já usavam vestidinhos. Não se ocuparam de despi-los, mas como vinham os tomavam pelo bracinho ou pela perna e os jogavam no montão. O espetáculo foi o mais horrível que você possa imaginar. Enquanto isso, as mães eram amontoadas na sala grande, e quando viram o que faziam com seus filhos, lançavam gritos de partir o coração, arrancando os cabelos e deitando-se nos braços umas das outras. Por fim, elas se encontraram tão apertadas que mal podiam se mover. Pareceu-me que a matança durou até a noite. As crianças foram jogadas mais tarde em uma vala comum, aberta no mesmo pátio. Foi-me dito o número deles, mas já não me lembro. Eu acho que havia setecentos, mais um número onde havia sete ou dez e sete. Quando vi este quadro horrível, não sabia onde isso estava acontecendo, e parecia-me que era aqui, onde eu estava. Na noite seguinte, vi as mães presas com ligaduras e levadas pelos soldados para suas casas. O local da matança em Jerusalém foi o antigo pátio das execuções, a uma curta distância do tribunal de Pilatos; mas na época deste ele sofreu várias mudanças. Quando Jesus morreu, vi que se abriu a cova onde estavam as crianças inocentes e que suas almas saíram dali aparecendo em diversos lugares.

LXXXV Santa Isabel foge novamente com o menino João

Santa Isabel, avisada por um anjo antes do massacre dos inocentes, refugiou-se novamente com o pequeno João no deserto. Vi que ele procurava há muito tempo uma caverna que lhe parecesse segura e escondida: quando a encontrou ficou ali com a criança cerca de quarenta dias. Mais tarde ela voltou para casa, e um essênio do Monte Horebe foi ao deserto levar comida ao menino e ajudá-la em suas necessidades. Este homem, cujo nome esqueci, era parente da profetisa Ana. No início ele ia todas as semanas e depois quinzenalmente, enquanto João precisava de ajuda. Logo chegou o momento em que o menino gostava mais de estar no deserto do que entre os homens. Ele foi destinado por Deus a crescer ali com toda a inocência, sem contato com os homens e seus males. João, como Jesus, não foi à escola e foi ensinado pelo Espírito Santo. Muitas vezes vi uma luz ao lado dele ou figuras luminosas como as dos anjos. O deserto não era árido nem desolado, porque abundantes ervas e arbustos brotavam entre as rochas com frutas e bagas de vários tipos. Vi ali morangos silvestres que a criança colhia para comer. Tinha uma familiaridade extraordinária com os animais, especialmente com os pássaros que voavam e pousavam nos seus ombros; e enquanto ele falava com eles, parecia que eles o entendiam e serviam como seus mensageiros. Às vezes ia ao longo dos riachos: os peixes lhe eram familiares, pois vinham quando ele os chamava e o seguiam quando ele caminhava à beira da água. Vi que ele estava se afastando dos lugares habitados por causa do perigo que o ameaçava. Os animais o amavam tanto que o serviram em muitas coisas. Eles o levaram para seus abrigos ou ninhos, para quando os homens se aproximassem, ele pudesse fugir para os esconderijos sem perigo.
Alimentava-se de frutas silvestres e raízes; Não era difícil para ele encontrá-los, pois os próprios animais o levavam até onde estavam e os mostravam. Ele sempre carregava sua pele de carneiro e sua varinha e foi cada vez mais fundo no deserto. Às vezes ele se aproximava de sua cidade e duas vezes vi seus pais que ansiavam por sua presença. Devem ter tido revelações, porque quando Isabel ou Zacarias queriam ver João, ele vinha ao seu encontro de longe.

LXXXVI A Sagrada Família dirige-se a Matarea

 

Eles ficaram dez a oito meses em Heliópolis, e tendo Jesus já cerca de dois anos, deixaram a cidade por falta de trabalho e pelas perseguições de que eram objeto. Ao meio-dia, dirigiram-se para Mênfis.
Enquanto passavam por uma pequena cidade, não muito longe de Heliópolis, descansaram no vestíbulo do templo de um ídolo; Este caiu por terra e partiu-se em pedaços. O ídolo tinha cabeça de boi, com três chifres; em seu corpo havia várias aberturas onde colocavam e queimavam as ofertas. A queda do ídolo produziu um grande tumulto entre os sacerdotes pagãos, que detiveram a Sagrada Família com ameaças e injúrias. Um deles, no entanto, disse que talvez fosse melhor confiar-se ao Deus dessas pessoas, lembrando-lhes das desgraças que haviam sofrido seus ancestrais que perseguiram a raça à qual esses estrangeiros pertenciam, e os lembrou da morte dos primogênitos de cada família na noite antes da saída do Egito. Depois disso, eles deixaram a Sagrada Família ir embora sem machucá-la. Eles caminharam até a cidade de Tróia, na margem oriental do Nilo, em frente a Mênfis. Havia muita lama naquela vila. Pensaram ficar; mas não os receberam em lugar nenhum e até lhes recusaram a água para beber e as poucas tâmaras que pediam.
A cidade de Mênfis se via na outra margem. O rio era muito largo naquele ponto, havia algumas ilhas e uma parte da cidade se estendia para o outro lado.
Eu vi o lugar onde foi descoberto Moisés, sendo criança, entre juncos e canaviais. Nos tempos do Faraó havia um grande palácio com jardins e uma alta torre à qual subia muitas vezes a filha do Faraó. Mênfis formava como que três cidades em ambos os lados do rio. A cidade de Babilônia, na margem oriental do Nilo, um pouco mais adiante, quase fazia parte do conjunto de edificação de Mênfis. Na época do Faraó, toda aquela região do Nilo, entre Heliópolis, Babilônia e Mênfis, estava cheia de altos diques de pedra, de canais e de edifícios, uns frente os outros, de modo que o conjunto constituía como uma só cidade. Na época da Sagrada Família havia grandes separações e lugares desocupados. A Sagrada Família dirigiu-se para o norte descendo o rio em direção à Babilônia. Esta cidade estava despovoada e parecia mal construída e cheia de lama. Eles costearam a cidade, passando entre o Nilo e a cidade, e dirigiram seus passos na direção oposta à que levavam. Eles percorreram cerca de duas léguas ao longo da Margem do Nilo. À beira da estrada erguiam-se edifícios em ruínas. Atravessaram um canal e um pequeno braço de rio e chegaram a um lugar cujo nome primitivo não me lembro, que mais tarde se chamou Matarea. Estava perto de Heliópolis, situado sobre uma língua de terra, de modo que a água o rodeava de ambos os lados; bastante despovoado, com casas muito isoladas e mal traçadas, feitas de madeira de tamareiras com lodo do rio ressecado, cobertas de juncos. José encontrou algum trabalho lá. Com ramos entrelaçados construiu casas mais sólidas, abrindo acima galerias para poder passear por elas.
Eles se estabeleceram em um lugar solitário, sob uma abóbada escura, não muito longe da porta pela qual haviam entrado. José construiu uma casinha leve em frente a esta abóbada. Também ali caiu um ídolo, que estava num pequeno templo, e depois todos os ídolos foram desmoronando um após o outro. Um sacerdote tranquilizou o povo enfurecido, lembrando-os das pragas do Egito. Mais tarde, quando ali se reuniu uma pequena comunidade de judeus e de pagãos convertidos, os sacerdotes deixaram-lhes o pequeno templo, cujo Ídolo havia caído quando a Sagrada Família chegou. José transformou-o numa sinagoga, tornando-se ele próprio o pai da pequena comunidade; ensinava-os a cantar os salmos regularmente já haviam esquecido em grande parte o culto de seus antepassados. Havia alguns judeus tão pobres que viviam em buracos abertos no chão. Em vez disso, na aldeia judaica, entre On e o Nilo, viviam muitos israelitas que tinham um templo de propriedade; mas haviam caído no culto idolátrico, porque possuíam um bezerro de ouro, uma figura com cabeça de boi e em torno de pequenos animais parecidos com martas, sob dosséis. Eram animais que os defendiam contra os crocodilos.
Eles tinham uma imitação da Arca da Aliança, dentro da qual eles mantinham coisas abomináveis. Praticavam cultos detestáveis com toda espécie de impurezas que exerciam numa passagem escura subterrânea, pensando assim invocar e atrair a vinda do Messias. Eram impenitentes e não queriam se corrigir de seus vícios. Mais tarde, vários deles foram para onde José estava, com sua pequena comunidade, a duas léguas de distância. Não podiam ir diretamente por causa dos canais e contenções, precisando contornar por Heliópolis. Os judeus da terra de Gessen já haviam conhecido a Sagrada Família quando ela estava em On, e Maria fazia para eles todo tipo de trabalho de tecidos e bordados. Maria nunca quis fazer coisas de puro luxo ou inúteis, mas apenas objetos de uso habitual e as roupas que se colocavam nas cerimônias do culto e quando rezavam. Vi que a várias mulheres que tinham ido encomendar-lhe roupas e adornos de vaidade e de moda, Maria recusava fazer-lhes esses trabalhos, embora tivesse muita necessidade de recebê-los. Algumas dessas mulheres a insultavam.
Desde o início, a estadia da Sagrada Família em Matarea foi cheia de dificuldades; não havia ali nem água potável, nem lenha para o fogo. Os habitantes queimavam ervas secas e juncos. A Sagrada Família não comia na maioria das vezes, senão alimentos frios. Mais tarde, José encontrou trabalho consertando as cabanas do país. As pessoas o tratavam como um pobre escravo, pagando-lhe o trabalho com o que lhes convinha; às vezes um salário, outras vezes nada. Os homens eram muito inábeis para construir casas. Não havia madeiras e, embora seja verdade que vi lugares com árvores, as pessoas não tinham ferramentas para trabalhar. A maioria usava facas de pedra ou de osso, e escavava a terra para extrair a turfa. José levava consigo os instrumentos mais indispensáveis, e assim pôde instalar-se com regular comodidade.
Ele dividiu seu quarto em vários apartamentos, com divisórias de acácia; fabricou uma lareira, várias mesinhas e banquinhos, já que as pessoas do lugar comiam sentadas no chão. Eles viveram neste lugar por vários anos, e eu pude ver cenas das várias épocas da vida de Jesus. Vi o lugar onde dormia. Na parede da abóbada onde Maria repousava, José abriu uma cavidade onde foi colocada a cama do Menino Jesus. Maria dormia ao seu lado e eu podia ver Maria muitas vezes, durante a noite, rezando de joelhos diante do leito de Jesus. José se acomodava em outro lugar. Vi também um oratório que José havia feito sob o mesmo teto, num corredor isolado. José e Maria tinham seus lugares determinados e havia um lugarzinho para o menino, onde rezava de pé, sentado ou de joelhos. Maria tinha um altarzinho, diante do qual orava: consistia numa mesa coberta de pano vermelho e branco que se tirava de um compartimento aberto no muro e depois podia ser fechado. No buraco da parede havia uma espécie de Medalhão. Ali vi a extremidade da vara de José florescida, pela qual fora designado esposo de Maria no templo de Jerusalém. Vi raminhos dentro de vasos em forma de cálices. Além disso, vi outro medalhão, sem poder dizer o que fosse.

LXXXVII Santa Isabel volta pela terceira vez ao deserto com o menino João

 

Enquanto a Sagrada Família estava no Egito, O pequeno João havia voltado secretamente para sua casa em Juta, porque vi que ele foi levado de volta ao deserto quando tinha quatro ou cinco anos de idade. Zacarias não estava presente quando saíram de casa; creio que tinha partido para não testemunhar a despedida, porque amava muito a seu filhinho; mas antes de sair, tinha-lhe dado a sua bênção, como sempre abençoava Isabel e João antes que saíssem de caminho. O pequeno João usava como vestido uma pele de carneiro, que, saindo do ombro esquerdo, caía sobre o peito e os lados e voltava a unir-se sobre o lado direito. Ele não usava mais do que essa pele. Seus cabelos eram castanhos e mais escuros que os de Jesus. Ele carregava o pequeno bastão branco que havia tomado ao sair de casa. Assim o vi enquanto sua mãe o levava pela mão. Isabel era uma mulher de idade, alta, de movimentos ágeis, cabeça pequena e rosto agradável. O menino João corria com frequência, antecipando-se à mãe. Tinha toda a inocência própria da sua idade, mas não a ingenuidade. A princípio dirigiram-se para o Norte, tendo à sua direita um pequeno riacho; depois os vi atravessar a correnteza sobre uma pequena jangada de madeira, porque não havia ponte. Isabel era uma mulher determinada e dirigia a jangada com um galho de árvore. Além do riacho seguiram caminho para o Oriente, entrando num desfiladeiro de rochas, nu e árido em sua parte alta, o fundo cheio de frutos silvestres e morangos, que a criança colhia e comia. Depois de fazer um trecho naquele desfiladeiro, Santa Isabel despediu-se do menino, abençoou-o, apertou-o contra o seu coração, beijou-o em ambas bochechas e na testa, e voltou, virando-se várias vezes, chorando, para olhar para ele. O menino não sentia nenhuma inquietação: caminhava com passos seguros pelo desfiladeiro.
Como durante estas visões me sentia muito doente, o Senhor me consolou fazendo-me assistir a tudo o que acontecia como se eu fosse uma criança. Parecia-me ter a mesma idade que João, e por isso me afligia vendo que se afastava tanto de sua mãe. Pensei que não conseguiria encontrar a casa paterna; mas uma voz me tranquilizou, dizendo: "não te inquietes; a criança sabe muito bem o que faz". Pareceu-me entrar no deserto com a criança, como companheira de brincadeiras infantis. Assim pude ver várias vezes o que lhe acontecia. O menino me contou vários episódios de sua vida no deserto: como se mortificava e violentava seus sentidos em toda forma e se tornava cada vez mais clarividente, e como era instruído em tudo o que precisava saber. Nada do que me contava me surpreendia, porque eu mesma, quando pequena cuidava das vacas, tinha vivido no deserto com o menino João. Quando desejava vê-lo, chamava-o dos matagais: "menino São João, vem buscar-me com a tua bengala e a pele sobre os teus ombros". E João vinha com seu bastonete e sua pele de cordeiro; e brincávamos como crianças; e ele me ensinava todo tipo de coisas úteis,
Não me surpreendia que sabia tantas coisas dos animais e das plantas do campo. Eu também, quando andava pelo campo, pelos bosques e pelos prados, quando criança, estudava, como num livro, em cada folha ou em cada flor, ao recolher as espigas e arrancar a relva, e estas plantas, como os animais que via passar, eram para mim motivos de ensino e de reflexão.
As formas das folhas, suas cores e o arranjo das plantas me sugeriam pensamentos profundos. As pessoas a quem eu as comunicava me ouviam com espanto, mas riam de mim na maioria dos casos. Foi por isso que mais tarde calei-me sobre estas coisas, porque pensava, e penso ainda, que a todos os homens acontece o mesmo, e que em nenhum lugar aprende melhor do que neste livro da natureza escrito pelo próprio Deus. Quando em minhas contemplações posteriores segui o menino João pelo deserto, vi seus gestos, suas atitudes e suas ações; vi-o brincando com os animais e as flores e entretendo-se com as plantas. Os pássaros, especialmente, estavam familiarizados com ele: eles pousavam na cabeça ou nos ombros quando ele caminhava ou orava. Às vezes colocava o seu bastonete atravessado sobre os ramos das árvores e pássaros de toda variedade acudiam ao seu chamado e pousavam sobre o seu bastão um após o outro. Ele falava com eles e os olhava com familiaridade, tratava-os como se estivesse ensinando. Outras vezes eu o vi seguir os animais até suas cavernas e alimentá-los lá, observando-os com toda a atenção.

LXXXVIII Morte de Zacarias e Isabel

Uma vez que Zacarias foi ao templo para levar vítimas para o sacrifício, Isabel aproveitou sua ausência e foi visitar seu filho no deserto.
João teria cerca de seis anos então. Zacarias nunca tinha ido ver o menino: de modo que se Herodes lhe perguntasse pelo menino podia, sem mentir, responder que o ignorava. Mas para satisfazer o grande carinho de seus pais e pelo desejo de vê-los, visitou várias vezes o menino secretamente, à noite, a casa de seus pais, permanecendo lá por algum tempo. Sem dúvida, seu Anjo da Guarda o guiava para evitar os perigos que o ameaçavam.
Eu sempre o vi guiado e protegido por espíritos celestiais e muitas vezes vi figuras luminosas que o rodeavam.
João estava predestinado a viver assim na solidão, afastado dos homens e privado da ajuda humana comum para ser melhor guiado pelo Espírito de Deus. A Providência divina dispôs as coisas de tal maneira que mesmo pelas circunstâncias exteriores tivesse que retirar-se para o deserto. Também se achava impulsionado por um instinto irresistível, pois desde a infância o via sempre pensativo e solitário. Quando o Menino Jesus foi levado para o Egito, João, seu precursor, estava escondido no deserto por advertência divina, pois também ele estava em perigo. Muito se falava dele desde os primeiros dias de sua vida: seu nascimento maravilhoso era conhecido e muitas pessoas afirmavam tê-lo visto cercado de brilho.
Por esta causa Herodes queria apoderar-se dele para matá-lo. Repetidas vezes Herodes perguntara a Zacarias onde se escondia o menino, sem ousar então prendê-lo. Mas agora, indo Zacarias ao templo, foi assaltado e maltratado pelos soldados encarregados de vigiá-lo, diante da porta de Jerusalém, chamada de Belém, num lugar do caminho baixo de onde não se via a cidade. Levaram-no para uma prisão, no flanco da montanha de Sião, onde pude ver mais tarde os discípulos de Jesus quando iam ao templo. O velho foi torturado para revelar o lugar onde seu filho estava escondido e como não conseguiram o que queriam, acabaram por matá-lo por ordem de Herodes. Seus amigos, mais tarde, o enterraram não muito longe do templo.
Este Zacarias não era aquele, morto entre o templo e o altar, que vi sair dos muros do templo perto do oratório do ancião Simeão, quando os falecidos apareceram após a morte de Jesus. O túmulo deste Zacarias, que estava dentro do muro, desabou junto com outros escondidos no templo. Este Zacarias foi morto entre o templo e o altar por ocasião de uma luta acerca da linhagem do Messias e dos direitos que pretendiam ter certas famílias no templo e os lugares que ocupavam nele. Vi, por exemplo, que nem todas as famílias tinham o direito de fazer educar seus filhos no templo. Lembro-me de ter visto um menino de família real confiado à educação da profetisa Ana. Na luta morreu apenas Zacarias, filho de Baraquias. Vi, mais tarde, que seus ossos foram encontrados, mas já não me lembro dos detalhes do fato.
Santa Isabel voltou do deserto para a cidade de Juta para esperar a chegada do marido, acompanhada em uma parte do caminho pelo menino João. Isabel beijou-o na testa e abençoou-o, e o menino voltou para o deserto. A mãe ao entrar em sua casa conheceu a triste notícia da morte de seu marido. Sua dor era muito grande e parecia inconsolável. Retornou ao deserto, ficando ali com o menino, até sua morte, que aconteceu pouco tempo antes que a Sagrada Família voltasse do Egito. Aquele essênio que cuidava do menino João, sepultou Isabel nas areias do deserto. Depois disso, João entrou mais no deserto: abandonando o desfiladeiro de rochas, foi para um lugar mais limpo e estabeleceu-se ao lado de um pequeno lago. Na praia havia muita areia branca. Eu o vi avançar bastante para o interior, enquanto os peixes nadavam ao redor dele sem medo. Ali viveu muito tempo, porque o vi fazer uma cabana ou gazebo no meio dos arbustos, para passar a noite: era pequena e baixa de modo ele mal podia deitar-se nela para dormir. Ali, como em outras partes, via formas luminosas que tratavam com ele sem temor e inocente piedade: parecia que o instruíam e o faziam notar coisas diferentes. Vi também que tinha uma vareta atravessada no seu bastonete, de modo que formava uma cruz. Havia uma tira de casca amarrada ao cabo do bastonete, como uma bandeirola que flutuava ao vento enquanto brincava com ela. A casa de Isabel em Juta foi ocupada por uma filha da irmã de Isabel Era uma casa muito bem cuidada, em perfeita ordem e limpeza. Sendo já grande, João voltou outra vez em segredo a ela, retornando imediatamente ao deserto até o momento de sua aparição entre os homens.

LXXXIX Vida da Sagrada Família em Matarea

Em Matarea, os habitantes não tinham outra água além da turva do Nilo.
Maria, com suas orações, encontrou uma fonte. Quando se estabeleceram tiveram muito que sofrer, porque não tinham para comer mais do que algumas frutas e bebiam a água ruim do Nilo. Como havia muito tempo não tinham água boa, José pensava ir com as suas ferramentas e o seu jumento ao deserto, até à nascente do jardim dos balsameiros; mas, estando Maria em oração, apareceu-lhe um anjo, que lhe indicou que atrás da casa encontraria uma fonte de água. Dirigiu-se para o outro lado do muro, onde estava seu quarto, e viu um espaço livre, mais abaixo, no meio de escombros onde se erguia uma árvore muito velha e muito grossa. Ela carregava na mão uma bengala com uma vara na ponta, semelhante à usada pelas pessoas que viajam nesses lugares. Cheia de alegria Maria chamou José, que depois de cavar descobriu que havia ali anteriormente uma fonte revestida de alvenaria, agora coberta pelos escombros. José limpou e restaurou aquilo. Encontrou perto da fonte, do lado onde Maria tinha vindo, ema pedra de grande tamanho que parecia um altar e creio que na realidade o havia sido em outra época; mas não me lembro de mais detalhes sobre isso. Nessa fonte Maria fazia beber o menino, banhava-o, lavava suas roupas; e assim ficou para uso exclusivo da Sagrada Família, sendo desconhecida para os outros, até que o Menino Jesus, já crescido, pôde ele mesmo ir buscar água e ajudar Maria.
Uma vez eu o vi com várias crianças ao lado da fonte para dar-lhes para beber na cavidade de uma folha grande. Estas crianças contaram aos seus pais sobre a água, e deste modo acudiram outros a usar da fonte, embora fosse para uso quase exclusivo da comunidade judaica do local. Certa vez que Maria rezava ajoelhada no meio do caminho de sua casa, vi o Menino Jesus que ia à fonte com um recipiente para buscar água. Era a primeira vez que fazia isto.
Maria emocionou-se profundamente quando o viu, e, sempre de joelhos, rogou-lhe que não o fizesse mais pelo perigo dele cair na água. O menino respondeu que teria muito cuidado, porque seu desejo era tirar água sempre que ela precisasse.
O Menino Jesus ajudava seus pais em tudo o que podia, sendo muito atencioso e cuidadoso com todas as coisas. Quando José trabalhava perto da casa e se esquecia de alguma ferramenta, eu via o Menino levá-la, prestando muita atenção no que fazia. A alegria que dava a seus pais compensava estes dos muitos sacrifícios que faziam no Egito. Mais de uma vez vi o menino dirigir-se à aldeia dos judeus, a uma milha de Mataréa, para trazer o pão que Maria recebia em troca dos trabalhos que fazia. Os animais nocivos, abundantes naquele país, não lhe faziam mal e mostravam-se familiares com ele: certa vez o vi brincando com umas serpentes. A primeira vez que o vi ir a essa aldeia sozinho, teria de cinco a sete anos e usava um trajezinho castanho com flores amarelas, que lhe tinha feito Maria. Vi-o ajoelhar-se no caminho para rezar, quando apareceram dois anjos que lhe anunciaram a morte de Herodes. Jesus não disse nada disso a seus pais, não sei se por humildade, ou por indicação dos Anjos, ou porque ainda não era o momento de sair do Egito. Outra vez o vi indo à aldeia com outras crianças judias e ao voltar para casa chorava pela degradação em que via submersos esses israelitas de Egito.

XC Origem da fonte de Matarea. História de Jó

A fonte de Matarea não teve origem pela oração de Maria: ela só a fez brotar de novo. A fonte já existia, revestida de alvenaria, embora escondida sob os escombros. Vi que Jó tinha estado no Egito antes de Abraão e que tinha vivido neste lugar, onde achou a fonte e ofereceu sacrifícios sobre a grande pedra que ainda estava lá. Nessa ocasião soube que Jó era o caçula de treze irmãos e que seu pai era um grande chefe de tribo quando foi erguida a torre de Babel. De um irmão deste homem descendeu a família de Abraão. Os descendentes de ambos os irmãos se casavam com frequência. A primeira mulher de Jó foi da raça de Falegue. Quando, depois de várias aventuras, Jó foi habitar no terceiro lugar, casou-se sucessivamente com três mulheres da raça de Falegue. De uma delas teve um filho, este uma filha, a qual, casando-se dentro da mesma família, deu à luz a que foi mãe do patriarca Abraão. Jó era bisavô da mãe de Abraão.
O pai de Jó chamava-se Joctã; era filho de Heber e habitava ao norte do Mar Cáspio, ao lado de uma cadeia de montanhas que em uma das encostas era bastante quente, enquanto na outra, coberta de neve, era muito fria. Eu vi muitos elefantes neste país. A região onde Jó esteve no início era pantanosa e não teria sido favorável aos elefantes. Esse país ficava ao norte de uma cadeia de montanhas, entre dois mares. Um desses dois mares, o do ocidente, tinha sido uma alta montanha, como já havia visto, onde habitavam os gigantes e homens possuídos por maus espíritos antes do dilúvio39.
Havia ali uma região estéril e pantanosa, naquele tempo habitada, creio eu, por um povo de olhos pequenos, nariz largo e maçãs do rosto salientes. Quando Jó voltou a este lugar, teve sua primeira tribulação e primeira provação. Depois dela emigrou para próximo do Meio-dia, no Cáucaso, estabelecendo-se nesta região. Dali fez uma viagem ao Egito, dominado então por alguns reis estrangeiros que vinham de povos pastoris de seu país. Um desses reis era da mesma região de Jó, enquanto o outro vinha do lugar mais distante onde habitavam os Reis Magos. Estes reis pastores só possuíam uma parte do Egito, e mais tarde foram desalojados por um faraó egípcio. Vi muitos desses pastores reunidos diante de uma cidade onde se haviam estabelecido. O rei dos pastores compatriota de Jó queria para seu filho uma mulher da raça vizinha do Cáucaso, de onde ele veio. Jó, com numeroso séquito, levou ao Egito aquela noiva real, que também era sua parenta. No cortejo levava trinta camelos e grande quantidade de servidores com muitos presentes. Era então Jó um homem jovem, alto, de tez morena amarelada, muito agradável e de cabelos bastante avermelhados. Os habitantes do Egito também eram morenos, mas de cor desagradável.
O Egito não era então muito habitado: só se viam, de vez em quando, grandes aglomerações de pessoas. Também não se viam aqueles grandes edifícios que começaram a ser construídos na época dos israelitas no Egito. O rei prestou muitas homenagens a Jó e, desejando que ele se estabelecesse ali com toda a sua tribo, não queria deixá-lo partir. Deu-lhe por quarto a cidade onde agora vivia a Sagrada Família, que então era muito diferente. Lá viveu Jó cinco anos. Era o mesmo lugar onde estava agora a Sagrada Família e lhe fora mostrada a fonte da água e a pedra onde oferecia seus sacrifícios.
Embora Jó fosse gentio, era justo e conhecia o verdadeiro Deus, adorando-o como seu criador, enquanto contemplava os astros, a natureza e a luz.
Gostava de falar de Deus e de suas obras da natureza, e não adorava imagens de animais monstruosos como faziam os povos gentios. Ele imaginava uma representação do verdadeiro Deus. Era uma figura humana pequena, com raios em torno da cabeça, e me pareceu que com asas.
Ele tinha as mãos juntas no peito e carregava um balão sobre o qual se via um navio navegando sobre as ondas. Talvez o lembrasse do dilúvio.
Quando oferecia sacrifícios a Deus, o patriarca Jó queimava diante de sua imagem diversos tipos de sementes. Vi que mais tarde foram introduzidas no Egito umas figuras pequenas, sentadas como num púlpito coroado por dossel.
Quando Jó chegou ao Egito ele encontrou um culto detestável: vindo das superstições que presidiam a construção da torre de Babel. Possuíam um ídolo com cabeça de boi muito larga que terminava em ponta e como que levantada no ar, a boca aberta e os chifres inclinados para baixo. No interior do ídolo acendia-se fogo e colocavam-se crianças vivas entre os seus braços ardentes, e vi que tiravam algo das aberturas daquele corpo. O povo do condado era muito cruel e a região estava cheia de animais terríveis. Vi animais negros que pareciam lançar chamas de fogo e voavam em grandes bandos envenenando tudo, pois se pousassem numa árvore esta secava imediatamente. Vi animais que tinham as patas traseiras muito longas e as dianteiras muito curtas, como toupeiras, que saltavam de um telhado para outro. Havia uns animais horríveis que andavam entre as pedras e nos buracos e se ligavam aos homens e os sufocavam. No Nilo vi um animal grande, com dentes horríveis e grandes patas negras: tinha algo do porco e era da espessura de um cavalo. Vi outros animais horríveis; mas o povo era ainda mais abominável, e Jó, a quem tinha visto livrar a sua terra de origem das más bestas, por meio de orações, sentia aversão por viver entre aqueles homens e muitas vezes manifestava suas queixas aos que o rodeavam. Preferia viver entre os maus animais do que entre tais homens. Vi-o muitas vezes olhar para o Oriente, com olhos cheios de ânsia, para a sua pátria, Ao Meio-dia do país mais distante ainda que habitavam os reis mágicos. Teve visões proféticas da chegada dos israelitas ao Egito, e também, em geral, da salvação do gênero humano e das grandes provações pelas quais o homem deveria passar. Ele não pôde ser persuadido a permanecer no Egito e, cinco anos depois, deixou o país com toda a sua comitiva.
As provas de Jó aconteceram por intervalos. Primeiro gozou de tranquilidade por nove anos, depois por sete e depois por doze anos. As palavras do livro de Jó: "e ainda falando o mensageiro", equivalem a dizer: falava-se ainda no povo da desgraça que lhe havia aconteceu, quando sobrevinha outra calamidade para afligi-lo. Os três testes foram realizados em três países diferentes. O último, que foi seguido de sua prosperidade final, alcançou-o quando vivia em um país plano, a leste de Jericó. Aquele país produzia incenso e mirra, e tinha uma mina de ouro e se trabalhavam os metais. Em outra ocasião tive novas visões a respeito de Jó. Lembro-me do seguinte. Tinha Jó dois confidentes, que eram como intendentes, administradores e secretários seus, e se chamavam Hai e Uis ou Ois. Estes recolheram de sua boca toda sua história com as conversas que teve com Deus, a qual foi transmitida por seus descendentes, de um a outro, até os dias de Abraão e seus filhos, e se serviam dela para instruir seus filhos com a narração. Por meio dos filhos de Israel chegou a história ao Egito, e Moisés fez uma síntese dela, para consolo dos israelitas oprimidos pelos egípcios e depois durante a estadia no deserto. No começo era uma história muito mais longa e com maiores coisas que os judeus não teriam compreendido. Mais tarde Salomão a arranjou, fazendo um livro de piedosa leitura: de modo que o livro está cheio da sabedoria de Jó, de Moisés e de Salomão. É difícil encontrar aí agora a verdadeira história de Jó, pois variaram os nomes dos povos, introduzindo-se outros mais próximos da terra de Canaã. Ele foi considerado idumeu porque o país onde ele habitou no final de sua história, foi habitado muito tempo antes de sua morte pelos descendentes de Esaú ou Edom. Creio que Jó ainda vivia quando Abraão nasceu.

XCI Abraão e Sara no Egito. A fonte abandonada

Quando Abraão foi para o Egito, instalou ali o seu acampamento, e eu o vi instruindo o povo. Residiu ali vários anos com Sara, sua mulher, e muitos filhos e filhas, cujas mães haviam ficado na Caldéia. Também Ló viveu naquele país com sua família, embora já não possa precisar o lugar de sua residência. O patriarca Abraão foi ao Egito uma vez, por ordem de Deus, por causa da fome que se passava na terra de Canaã30, e voltou pela segunda vez para recuperar o tesouro da família que uma sobrinha da mãe de Sara havia transferido para o Egito. Aquela mulher era da tribo de pastores da raça de Jó, que reinara sobre uma parte do Egito. Tendo chegado como empregada doméstica, ela se casou com um egípcio. Deles veio uma tribo cujo nome eu esqueci. Uma de suas filhas foi Agar, mãe de Ismael, que por isso era da mesma raça que Sara. Aquela mulher tinha roubado um tesouro familiar, à semelhança de Raquel, que roubou os ídolos de Labão; tinha-o vendido no Egito por uma grande soma de dinheiro, indo assim parar nas mãos do Faraó e dos sacerdotes egípcios.
O tesouro era uma espécie de árvore genealógica dos filhos de Noé, em particular dos descendentes de Sem até o tempo de Abraão, feito com peças triangulares de ouro presas umas às outras formando uma balança com os braços. As placas triangulares estavam enfileiradas; outras indicavam os ramos laterais. Sobre essas placas estavam os nomes dos membros da família e toda a sua série: partindo do centro de uma tampa, reuniam-se no prato da balança quando se fazia descer a tampa por cima. A balança inteira podia deste modo ser guardada em uma caixa. As placas principais eram amarelas e grandes, enquanto as dos intervalos eram mais finas e brancas, como a prata. Ouvi dizer quanto pesava tudo isso em siclos, representando uma soma respeitável, embora os sacerdotes do Egito tivessem relacionado vários cálculos com esta árvore genealógica, eles estavam muito longe da verdade. Por meio de seus astrólogos e de suas pitonisas souberam algo da chegada de Abraão ao Egito: souberam que era de origem nobre, como sua mulher, e que deles deveriam sair uma descendência muito escolhida. Em suas adivinhações queriam descobrir as linhagens nobres para se unirem a elas por meio de casamentos. Satanás introduzia assim a libertinagem e a crueldade para degradar as linhagens mais nobres que ainda subsistiam. Abraão temia que os egípcios o matassem por causa da beleza de Sara; por isso a fazia passar por irmã, e isto não era mentira, pois na verdade, era sua irmã sanguínea por ser filha de seu pai Tharé, de outra mãe. O Faraó mandou levar Sara à sua residência para a tomar por mulher. Isso os afligiu muito e rogaram a Deus que os socorresse, e Deus castigou o rei. Todas as suas esposas e a maioria das mulheres da cidade adoeceram. O Faraó, assustado, investigou a causa e descobriu que Sara era mulher de Abraão.
Ele a devolveu e implorou que ela deixasse o Egito o mais rápido possível, reconhecendo que os deuses a protegiam. Os egípcios eram um povo muito singular, por um lado eram muito orgulhosos e acreditavam ser os maiores e mais sábios do mundo, e por outro, incrivelmente servis e covardes, cedendo logo quando acreditavam encontrar uma força superior à sua. Isto provinha de que não tinham certeza de sua ciência e de que não conheciam as coisas senão por meio de adivinhações obscuras e equivocadas, que lhes anunciavam todo tipo de acontecimentos contraditórios e complexos. Quando o acontecimento não respondia aos seus cálculos, assustavam-se imediatamente, por serem muito supersticiosos e inclinados a verem o maravilhoso.
Abraão dirigiu-se ao Faraó muito humildemente, pedindo-lhe trigo, como ao Pai dos povos, e ganhou-lhe a vontade, de modo que lhe deu muitos presentes. Quando ele devolveu Sara e implorou que ela deixasse o país, Abraão respondeu que não poderia sair sem antes recuperar um tesouro que lhe pertencia, e falou-lhe da árvore genealógica roubada e levada para o Egito. O rei reuniu os sacerdotes, e estes consentiram em devolvê-lo, desde que lhes fosse permitido tirar uma cópia, coisa que Abraão concedeu sem dificuldade.
Feito isso, o patriarca voltou ao País de Canaã.
Vi então várias coisas referentes à fonte de Matareia até nossa época.
Em tempos da Sagrada Família os leprosos usavam da água por parecer que tinha uma virtude particular, e que aumentou mais tarde quando se levantou uma pequena capela acima do quarto de Maria, com uma entrada ao lado do altar-mor para descer a uma caverna onde a Sagrada Família viveu por algum tempo. Vi então a fonte rodeada de quartos, e que a água era empregada como remédio contra a lepra: banhavam-se nela para curar as doenças de pele, isso acontecia quando os maometanos eram donos do país: os turcos sempre tinham uma lâmpada acesa na Igreja, sobre o quarto de Maria, temendo que algum infortúnio lhes acontecesse se abandonassem o cuidado da lâmpada. Na época moderna vi a fonte em pleno abandono e solidão, a grande distância dos lugares habitados. A cidade havia desaparecido do local primitivo e nas proximidades cresciam plantas com frutos silvestres.

XCII O anjo avisa a Sagrada Família para deixar o Egito

Vi que a Sagrada Família abandonava sua residência no Egito.
Embora Herodes estivesse morto há muito tempo, não puderam voltar antes porque subsistia o perigo. A permanência no Egito se tornara insuportável para José porque seus habitantes praticavam a mais horrível idolatria. Sacrificavam as crianças deformadas, e quando sacrificavam as melhores acreditavam fazer uma obra mais meritória. Seu culto estava cheio de impurezas, e os próprios judeus se contagiavam, pois tinham um templo que diziam ser como o de Salomão, embora fosse uma vaidade ridícula. Possuíam uma imitação da Arca da Aliança e nela conservavam figuras obscenas, e dedicavam-se às práticas abomináveis do culto idolátrico. Não cantavam mais os Salmos, até que José estabeleceu uma ordem perfeita nesta comunidade de Mataréia.
O sacerdote egípcio que falou em favor da Sagrada Família na cidade vizinha de Heliópolis, onde os ídolos caíram, havia se estabelecido lá com várias pessoas, reunindo-se à comunidade judaica. Via São José ocupado em sua carpintaria, e quando chegava a hora de deixar o trabalho, estava triste, pois não lhe davam o salário e não tinha nada que levar para sua casa, onde ele sofreu grandes privações.
Aflito com essas preocupações, José ajoelhou-se no campo e expôs a Deus sua necessidade implorando-lhe para vir em seu auxílio. Vi que durante a noite apareceu-lhe um anjo em sonhos e disse-lhe que os que buscavam a morte do menino já não existiam; que se levantasse e prepare-se o necessário para voltar à pátria pelos caminhos mais frequentados. Encorajou-o assegurando-lhe a sua proteção para que nada temesse. José fez conhecer esta ordem a Maria e ao Menino Jesus. Eles, obedecendo em seguida, fizeram os preparativos com a mesma rapidez com que o fizeram quando deveriam partir para o Egito. Quando conheceram no dia seguinte seu desígnio de partir, muitas pessoas se entristeceram por sua saída, e foram despedir-se com presentes contidos em pequenos vasos de casca. Via-se que suas aflições eram sinceras. Entre eles estavam alguns judeus, embora a maioria fosse pagã convertida. A maior parte dos judeus que habitavam ali havia caído de tal modo na idolatria que era quase impossível reconhecê-los como israelitas.
Alguns alegravam-se com a partida da Sagrada Família, porque os consideravam magos que tinham porpProtetores espíritos maléficos muito poderosos. Entre as pessoas boas vi algumas mães com seus filhos, que haviam sido companheiros de brincadeira do Menino Jesus. Havia uma mulher distinta que levava um pequenino a quem chamava "o filho de Maria".
Por muito tempo desejara ter filhos, e pelas orações de Maria tinha conseguido ter aquela criança a quem chamou Deodato. Ela se chamava Mira.
Vi que dava moedas ao Menino Jesus; eram pequenos pedaços triangulares amarelos, brancos e pardos. O Menino Jesus, ao recebê-los, olhava para sua mãe.
Quando José tinha carregado o jumento com as coisas necessárias, puseram-se a caminho acompanhados por aqueles amigos. O jumento era o mesmo que Maria havia montado ao ir a Belém. Tinham tido também uma burrinha na fuga para o Egito, mas José em seus apuros teve que vendê-la.

XCIII O retorno do Egito

Seguiram o caminho que passa por Heliópolis, desviando-se um pouco para o Meio-dia em direção à fonte que havia brotado através da oração de Maria. Aquele lugar estava agora coberto de vegetação densa, e o riacho corria em torno de um jardim quadrado, cercado por balsameiros. Este local tinha uma entrada e era tão grande quanto o picadeiro do duque de Diillmen. Havia muitos frutíferos de poucos anos, tamareiras, sicômoros e outros mais, e os balsameiras eram quase tão grandes quanto as videiras de tamanho médio. José havia feito pequenos vasos com a casca das árvores, elegantes, bem polidos e untados com peixe. Muitas vezes fazia recipientes para vários usos. Arrancou folhas parecidas com as do trevo dos ramos avermelhados dos balsameiros e pendurou neles os pequenos vasos de casca para armazenar o bálsamo que os arbustos destilavam. Ao chegar a este lugar, os acompanhantes se despediram de forma terna e a Sagrada Família permaneceu ali várias horas. Vi Maria lavando e secando roupas.
Descansaram, encheram seus recipientes e continuaram a viagem pelos caminhos mais frequentados.
Eu os vi várias vezes nesta estrada, onde eles não correram nenhum perigo. O Menino Jesus, Maria e José usavam, para se protegerem do sol, a casca de uma planta muito grande sobre a cabeça, presa sob o queixo com um pano. Jesus usava veste castanho e calçado de casca, fabricado por José, que lhe cobria metade dos pés. Maria usava sandálias. Com frequência os vi inquietarem-se porque o menino mal podia andar muito tempo pela areia ardente, e tinham que parar para tirar-lhe a areia de seus sapatinhos; outras vezes o faziam subir sobre o burro para que não se cansasse muito. Vi-os atravessando várias cidades ou passando perto de outras, cujo nome não me lembro, exceto Ramsés. Atravessaram um riacho que haviam atravessado ao ir: este riacho ia do Mar Vermelho ao Nilo. José não queria voltar para Nazaré, mas sim estabelecer-se em Belém sua pátria; mas estava inquieto porque soube que na Judéia reinava Arquelau, também cruel e mau. Vi que, ao chegarem a Gaza, permaneceram cerca de três meses. Havia muitos pagãos em Gaza.
Finalmente, um anjo ordenou a José que voltasse para Nazaré, o que eles fizeram imediatamente. Santa Ana ainda vivia e sabia onde habitava a Sagrada Família, como também sabiam alguns parentes, o retorno do Egito ocorreu no mês Setembro. A idade de Jesus era então de oito anos menos três semanas.

XCIV A Sagrada Família em Nazaré

Na casa de Nazaré havia três divisões. A maior e mais arranjada era para Maria, aonde iam José e Jesus para a oração em comum.
Quando rezavam, faziam-no de pé com as mãos cruzadas sobre o peito, e oravam em voz alta. Eu os vi muitas vezes rezando sob a luz de uma lâmpada com várias mechas. Na parede havia um candelabro onde brilhava uma luz.
Fora desses casos, cada um estava em seu próprio compartimento. José trabalhava em sua oficina: eu o via fazendo ripas, esculpindo paus e escovando madeiras, ou carregando suspensórios. Jesus o ajudava nesses trabalhos. Maria estava de ordinário ocupada em costurar e tecer com pauzinhos, sentada, com as pernas cruzadas, e tendo ao seu alcance um cesto com os utensílios de trabalho. Cada um dormia em lugar separado. A cama consistia em cobertores, que pela manhã eram enrolados.
Via Jesus fazendo todo tipo de trabalho para seus pais, em casa e na rua, ajudando a todos os que se encontrassem necessitados, com benevolência e graça. Quando não ajudava José, entregava-se à oração e à meditação. Era um modelo para todas as crianças de Nazaré, que o amavam bem e se guardavam muito de desagradá-lo. Os pais costumavam dizer quando suas crianças se comportavam mal:"O que o filho de José dirá quando souber do seu comportamento"... “Quereis dar-lhe um desgosto?". Às vezes levavam seus filhos, diante de Jesus, para repreendê-los, pedindo-lhes que lhes dissesse para não fazerem isto ou aquilo. Jesus recebia estas queixas com simplicidade infantil, e cheio de benevolência lhes dizia o que deviam fazer. Às vezes rezava com eles, pedindo a Deus força para se corrigir, persuadia-os a que se melhorassem e pedissem perdão a seus pais, reconhecendo suas faltas.
A cerca de uma hora de distância de Nazaré, em direção a Séforis, havia uma aldeia chamada Ofna, onde viviam no tempo de Jesus Cristo os pais de João e de Tiago, o maior. Estas crianças encontravam-se com frequência com Jesus até que seus pais se mudaram para Betsaida e eles se entregaram ao ofício de pescadores. Em Nazaré vivia uma família, parente de Joaquim, essênia, com quatro filhos: Cléofas, Tiago, Judas e Jafé, alguns maiores e outros menores que Jesus. Estes também eram companheiros de infância de Jesus, e seus pais costumavam se reunir com a Sagrada Família quando marchavam para as festas do templo de Jerusalém. Estes quatro irmãos foram mais tarde discípulos de João Batista, e após a morte do Precursor passaram a ser discípulos de Jesus Cristo. Quando André e Saturnino atravessaram o Jordão, permaneceram o dia todo com Jesus e mais tarde foram, como discípulos de João, às bodas de Caná. Cléofas era o mesmo que, em companhia de Lucas, teve a aparição de Jesus em Emaús. Ele era casado e morava em Emaús. Sua esposa foi posteriormente adicionada às santas mulheres da Comunidade Cristã.
Quando Jesus tinha oito anos, foi pela primeira vez com seus pais a Jerusalém e desde então ia ano após ano às festividades do templo. Jesus tinha despertado curiosidade desde sua primeira aparição no templo, entre seus amigos e entre os escribas e fariseus do templo. Falava-se, entre os parentes e amigos de Jerusalém, do menino tão prudente e piedoso, filho de José, chamando-o admirável, como aqui, entre nós, fala-se nas anuais peregrinações ou nos encontros de pessoas conhecidas, desta ou daquela criança piedosa ou modesta de alguma família de camponeses. Assim tinha Jesus, quando aos doze anos ficou no templo, vários amigos e conhecidos em Jerusalém, e não se admiraram seus pais de não vê-lo ao sair de Jerusalém, porque desde a primeira até esta quinta vez que ia ao templo sempre costumava juntar-se com as crianças de outras famílias que viajavam a caminho de Nazaré. Desta vez, Jesus se separou de seus companheiros ao chegar ao Horto das Oliveiras e eles pensaram que o fazia para se juntar a seus pais, que vinham atrás. Jesus dirigiu-se à parte da cidade que olha para Belém e foi para aquela pousada onde a Sagrada Família parou quando se dirigia ao templo para apresentação. Seus pais acreditavam que ele estaria com os que iam para Nazaré, e estes pensaram que ele se afastava deles para se juntar a seus pais. Mas quando chegaram a Gofna e perceberam que Jesus não estava com os viajantes, o susto de Maria e de José foi muito grande.
Imediatamente voltaram a Jerusalém, perguntando no caminho aos parentes e amigos pelo menino; mas não puderam encontrá-lo em lugar algum, pois não se deteve onde normalmente costumava fazê-lo quando ia ao templo.
Jesus passou a noite na estalagem perto da porta betlemítica, onde eram conhecidos ele e seus pais. Juntou-se a outros jovens e foi para duas escolas que haviam na cidade. O primeiro dia foi para uma escola e o segundo para a outra. No terceiro dia, ele estava de manhã em uma escola do templo e à tarde no próprio templo, onde seus pais finalmente o encontraram. Estas escolas eram de diversas classes e não só para conhecer a lei e a religião: ensinavam-se diversas ciências, e a última delas estava situada junto ao templo, e era a da qual saíam os levitas e os sacerdotes. Com suas perguntas e respostas, o Menino Jesus surpreendeu tanto os professores e rabinos dessas escolas e os estreitou tanto, que estes se propuseram a por sua vez, humilhar a criança com os rabinos mais sábios em diferentes ramos do saber humano. Para este fim, os sacerdotes e os escribas tinham-se confabulado, que a princípio se tinham comprazido com a sabedoria do Menino Jesus, mas depois eles ficaram mortificados e queriam se vingar. Isto aconteceu na sala pública, situada no vestíbulo do templo, diante do Santo dos Santos, no âmbito circular, de onde Jesus mais tarde ensinou ao povo. Vi o Menino Jesus sentado numa grande cadeira, que não preenchia, e ao redor dele havia uma multidão de judeus e anciãos com vestes sacerdotais. Escutavam atentamente, e parecia que estavam todos furiosos contra ele e por momentos acreditei que iam maltratá-lo. Na parte superior da cátedra havia cabeças pardas como se fossem cães e nos pontos superiores brilhavam e reluziam. Tais figuras e cabeças viam-se em várias longas mesas de cozinha que havia na parte lateral deste recinto do templo e que estavam cheias de oferendas. Todo o espaço era tão grande e amplo e tão lotado que não parecia estar em um templo. Como Jesus teria aduzido nas outras escolas toda espécie de exemplos da natureza, das artes e das ciências em suas respostas e explicações, haviam-se reunido ali mestres em todas essas diversas disciplinas. Quando eles começaram a perguntar-lhe e a disputar em particular com Jesus sobre estas matérias, ele disse que este assunto não se discutia  no templo; mas ele também queria satisfazê-los nisso por ser tal a vontade de seu pai. Como eles não compreendiam que falava de Seu Pai celestial, pensaram que José lhe havia dito para fazer alarde de toda a sua ciência diante dos sacerdotes. Jesus começou a responder e a ensinar sobre medicina descrevendo o corpo humano e dizendo coisas que não conheciam nem os mais compreendidos na matéria.
Falou também de astronomia, arquitetura, agricultura, geometria e matemática. Em seguida, passou para a jurisprudência. Deste modo, tudo o que lhe submetiam, aplicava-o tão belamente à Lei, às promessas, às profecias, ao templo e aos mistérios do culto e do sacrifício, que uns estavam admirados sobremaneira, enquanto outros estavam envergonhados e desgostosos.
Foi assim, até que todos os que o questionavam se incomodaram muito, especialmente ao ouvir coisas que nunca haviam sabido ou entendido ou que interpretavam de maneira muito diferente.
Fazia algumas horas que Jesus estava ensinando quando José e Maria entraram no templo e perguntaram sobre seu filho aos levitas que os conheciam.
Estes disseram que estava no átrio com os escribas e sacerdotes, e não sendo este lugar acessível para eles, enviaram um levita em busca de Jesus.
Mas este fez-lhes dizer que primeiro queria terminar o seu trabalho. A circunstância de não comparecer afligiu muito Maria: era a primeira vez que lhes dava a entender que havia para Ele outros mandatos fora dos de seus pais terrestres. Ele continuou a ensinar ainda não menos de uma hora, e quando todos se viram refutados, confusos e surrados em suas perguntas capciosas, ele deixou a sala de aula e chegou ao vestíbulo de Israel e das mulheres. José, tímido, calava-se, cheio de admiração. Maria se aproximou dele, dizendo: "Filho, por que você fez isso conosco?... Eis que teu pai e eu te procuramos com tanta dor". Jesus estava ainda muito sério, e disse: "Por Por que me procurais? Não sabeis que eu devo estar nas coisas do meu Pai?…" Isso eles não entenderam e  voltaram com ele imediatamente. Os que tinham ouvido tais palavras ficaram maravilhados e ficaram olhando para Ele. Eu estava cheia de temor: parecia-me que iam bater-lhe, porque estavam cheios de rancor contra o Menino. Admirei-me que deixassem partir tranquilamente a Sagrada Família, porque lhe abriram largo caminho no meio da multidão amontoada no lugar. A doutrina de Jesus despertou fortemente a atenção dos escribas: alguns anotaram seus ditos como algo notável e faziam-se todo tipo de comentários e murmurações sobre o assunto. Mas tudo o que acontecia no templo, guardaram-no entre si, deturpando as coisas e qualificando o menino de intruso e atrevido, a quem tinham corrigido: que sem dúvida tinha muito talento, mas que eram coisas que tinham que ser pensadas melhor.
Via a Sagrada Família sair novamente de Jerusalém e reunir-se com duas mulheres e algumas crianças que eu não conhecia, mas que pareciam ser de Nazaré.
Foram por diversos lugares ao redor de Jerusalém, por vários caminhos, pelo Monte das Oliveiras, parando aqui e ali, nos belos e verdes lugares de recreio, e orando com as mãos cruzadas sobre o peito. Vi-os atravessar uma grande ponte sobre um riacho. A caminhada e a oração do pequeno grupo lembravam-me vivamente de uma peregrinação.

XCV Festa na Casa Da Ana

Quando Jesus voltou a Nazaré, vi na casa de Ana uma grande festa, à qual assistiram todos os jovens e meninas de parentes e amigos. Não sei se seria uma festa pela descoberta do Menino Jesus ou outra solenidade acostumada ao retorno da Páscoa ou à comemoração do décimo segundo aniversário dos filhos que costumava ser comemorado. Jesus estava ali como o principal festejado. Sobre as mesas estavam dispostas belas enramadas, e sobre elas penduravam guirlandas de folhas de videira e espigas, e as crianças levavam uvas e pãezinhos. Estavam presentes trinta e três crianças, todas futuras discípulos de Jesus, o que guardava referência com os anos de vida de Jesus. Ensinou Jesus e contou a essas crianças, durante a festa, uma parábola muito maravilhosa e pouco compreendida de umas bodas onde o vinho se converteria em sangue e o pão em carne, e que esta ficaria com os convidados até o fim do mundo para consolo, fortaleza e vínculo de união. Disse também a um jovem chamado Natanael, seu parente: "nas tuas bodas estarei presente". A partir deste décimo segundo ano de sua vida, Jesus foi sempre como o mestre de seus companheiros de infância. Muitas vezes ele esteve sentado com eles referindo-lhes algo e passeando ao ar livre. Mais tarde, ele começou a ajudar José em seu ofício. Era o Salvador de figura delgada e delicada, de rosto comprido, oval e brilhante, de cor saudável, embora pálido. O cabelo, muito liso e loiro aceso, caía-lhe partido na testa alta e serena sobre os ombros. Vestia longa túnica cinza-acastanhada, que chegava até os pés; as mangas eram um pouco abertas perto das mãos.

XCVI Morte de São José

Quando Jesus se aproximava dos trinta anos, José ia-se enfraquecendo cada vez mais, e via Jesus e Maria muitas vezes com ele. Maria sentava-se muitas vezes no chão, diante de seu leito, ou em uma plataforma redonda baixa, de três pés, da qual se servia em algumas ocasiões como uma mesa. Vi-os comer poucas vezes: quando traziam uma refeição a José no seu leito era esta de três fatias brancas como de dois dedos de comprimento, quadradas, colocadas em um prato ou pequenas frutas em um copo. Davam-lhe de beber numa espécie de ânfora. Quando José morreu, Maria estava sentada à cabeceira da cama e o tinha nos braços, enquanto Jesus estava junto ao seu peito. Vi o aposento cheio de resplendor e de anjos. José, cruzando as mãos no peito, foi envolto em telas brancas, colocado em uma gaveta estreita e depositado na bela caverna sepulcral que um bom homem lhe tinha dado. Fora de Jesus e Maria, poucas pessoas acompanharam o caixão, que vi, em vez disso, entre resplendores e anjos.
José morreu antes de Jesus, pois não poderia ter sofrido a crucificação do Senhor: era muito fraco e amoroso. Padecimentos grandes já haviam sido para ele as perseguições que entre os vinte e trinta anos teve que suportar o Salvador, por toda sorte de maquinações da parte dos judeus, os quais não podiam sofrer: diziam que o Filho do carpinteiro queria saber tudo melhor e estavam cheios de inveja, porque contestava muitas vezes a doutrina dos fariseus e tinha sempre em torno de si numerosos jovens que o seguiam. Maria sofreu infinitamente com essas perseguições.
A mim sempre me pareceram maiores estas penas do que os martírios efetivos. Indescritível era o amor com que Jesus suportou em sua juventude as perseguições e os ardis dos judeus. Como ia com seus seguidores à festa de Jerusalém, e costumava passear com eles, os fariseus de Nazaré o chamavam vagabundo. Muitos desses seguidores de Cristo não perseveravam e o abandonavam.
Após a morte de José, Jesus e Maria se mudaram para uma pequena cidade de poucas casas entre Cafarnaum e Betsaida, onde um homem chamado Levi, de Cafarnaum, que amava a Sagrada Família, deu a Jesus uma casinha para habitar, situada em lugar isolado e rodeada por um lago de água. Moravam ali alguns servos de Levi para cuidar dos afazeres domésticos; a comida era trazida da casa de Levi. A esta pequena aldeia retirou-se também o pai do apóstolo Pedro quando entregou a este o seu negócio de pesca em Betsaida. Jesus tinha então alguns adeptos de Nazaré, mas se afastavam facilmente Dele. Jesus já ia com eles ao redor do lago e a Jerusalém às festas do templo. A família de Lázaro, de Betânia, já era conhecida da Sagrada Família. Levi havia lhe dado aquela casa para que Jesus pudesse refugiar-se ali com seus discípulos sem ser molestado. Havia então em torno do lago de Cafarnaum uma região muito fértil, com belos vales, e via que ali colhiam várias colheitas por ano: a aparência era bela pela vegetação, pelas flores e pelos frutos. Por isso muitos judeus nobres tinham ali suas casas de recreio, seus castelos e seus jardins; também Herodes tinha uma residência. Os judeus do tempo do Senhor não eram como os judeus de outros tempos; estes, por causa do comércio com os pagãos, eram muito pervertidos. As mulheres não eram vistas em público nem nos campos, a não ser as muito pobres que recolhiam as espigas de trigo. Elas eram vistas, ao contrário, em peregrinações a Jerusalém, e em outros lugares de oração. O comércio e a agricultura eram feitos principalmente por meio de escravos e servos. Eu vi todas as cidades da Galiléia, e onde agora vejo apenas duas ou três pequenas cidades, então uma centena estava cheia de pessoas em movimento. Maria Cléofas, que com seu terceiro marido, pai de Simeão de Jerusalém, vivia até agora na casa de Ana, perto de Nazaré, ao deixar Maria e José sua casa de Nazaré, mudou-se para aquela casa com seu filho Simeão, enquanto seus criados e parentes ficavam na de Ana. Quando Jesus se dirigiu de Cafarnaum, através de Nazaré, para Hebrom, foi acompanhado por Maria até Nazaré, onde ficou esperando seu retorno. Maria costumava acompanhar seu filho com muito carinho nessas curtas viagens. Foram ali José Barsabas, filho de Maria Cléofas, e seu segundo marido Sabas, e outros três filhos de seu primeiro marido Alfeu: